ANTICRISTO - Monge Adso


Monge Adso. Existem, talvez, centenas de profecias sobre o Anticristo. Um dos estudos antigos mais interessantes sobre o Anticristo é uma carta ou um tratado escrito entre 949 e 954 na França, encomendado a ele pela rainha Gerberga. O estudo é um apanhado das principais profecias coletadas até a época:


“Grande rainha, que sempre vos aplicais com pio zelo ao estudo das Santas Escrituras e amais dialogar sobre vosso Redentor. Vós desejais também ser instruída a respeito do Anticristo e saber até onde chega sua iniqüidade e como será cruel a perseguição que este suscitará contra a Igreja. Desejais, estar informada também, sobre seu nascimento e seu poder. Transcreverei aqui as coisas que, desde agora, parecem certas a respeito do Anticristo”.

Em primeiro lugar, devo explicar porque ele será chamado de Anticristo: acontece que em todas as coisas será o oposto do Cristo, e em todas as ocasiões fará exatamente o contrário do que Cristo fez. O Cristo era humilde, ele será orgulhoso; o Cristo ergueu os humildes e chamou os pecadores ao arrependimento; ele desprezará os humildes e enaltecerá os pecadores, exaltará os ímpios e não deixará de propagar o vício. Abolirá a lei evangélica; restaurará no mundo o culto aos demônios; buscará sua própria glória e exigirá ser chamado de deus Todo-Poderoso.

O que eu digo, não invento nem tiro de mim mesmo. Estas são coisas escritas que encontrei em livros lidos e relidos com atenção. Como dizem nossos autores, o Anticristo sairá do povo judeu da tribo de Dan, seguindo a antiga profecia: “Eis que Dan se tornou cobra no caminho e serpente na trilha: mordeu o pé do cavalo na esperança de fazer o cavaleiro perder os estribos’ (Gênesis 49-17).

Será, portanto, parecido com a serpente na tocaia no caminho e oculta na margem da trilha, para golpear os que tomam o caminho da justiça (Salmo XXII.3) e para envenená-los com sua malícia.

Nascerá como os outros de um pai e uma mãe, mas não de uma virgem, como falsamente dito por alguns supostos iluminados. E também não de um bispo e de uma religiosa, como outros dizem, mas de uma mulher perdida e impura e de um bandido abominável. Será completamente concebido no pecado, engendrado no pecado e parido no pecado.



(...) Nosso Senhor e redentor escolheu Belém como a cidade eleita onde lhe convinha vir ao mundo assumindo sua natureza humana. Da mesma forma, o diabo escolheu de antemão o lugar onde viria o homem da perdição nascer, o Anticristo, e escolheu a cidade que foi a origem de todos os vícios e a instigadora de todos os crimes: estou falando da Babilônia.

O Anticristo estará sempre cercado de magos, feiticeiros, bruxos e adivinhos. Estes serão seus mentores e mestres e todos estarão guiados pelo demônio. Eles o iniciarão nas ciências nefastas e na prática de todas as impiedades. Os espíritos maléficos serão seus chefes, seus associados, seus companheiros de armas e prazeres e nunca se afastarão dele.

Ao atingir a idade varonil, irá a Jerusalém, onde deixará perecer, nos mais atrozes suplícios, aqueles cristãos que não conseguir converter à sua doutrina e levantará seu trono no templo santo. De fato, reedificará o templo sagrado que Salomão erigiu, outrora, dedicando-o ao Senhor; restaurará o seu antigo esplendor e nele residirá depois de se declarar falsamente o filho único de Deus Altíssimo.

Primeiro atrairá os reis e os príncipes da Terra e através destes, os outros homens. Ele gostará de visitar os lugares já visitados por Nosso Senhor Jesus Cristo e destruirá completamente a todos aqueles que ainda contam a glória do Salvador.

Em seguida, enviará a todo o mundo mensagens e missionários. Através de seus representantes ou através de sua própria pessoa, seu poderio se estenderá de um mar a outro, do Oriente ao Ocidente, do Setentrião ao Meio-dia.

Ele fará muitos prodígios e milagres nunca vistos até então. A seu mando, o fogo descerá do céu; as árvores crescerão de repente e de repente se encherão de flores e frutos; o mar se tornará furioso e será logo acalmado; os objetos serão aparentemente transformados; as águas subirão em direção às nascentes, contrariando as leis da natureza; o ar será violentamente agitado pelos ventos e pelas tempestades.

Ele efetuará outras maravilhas que deixarão os homens estupefatos. Assim, ressuscitará publicamente os mortos e será tamanho seu prestígio que ‘até os próprios escolhidos, se possível, seriam desencaminhados’. (Mat. XXIV-24). Mas tudo isso será mentira e uma afronta à verdade. Será através das artes mágicas e de fantasmagorias que ele se imporá à credulidade dos homens, como Simão o Mago, que substituiu a sua própria pessoa por um cordeiro e assim enganou o homem que pretendia golpeá-lo até a morte.

Entretanto, as testemunhas destes estranhos prodígios, até os perfeitos e predestinados, se interrogarão inquietos, querendo saber se ele não é, por acaso, o Cristo triunfante, cuja vinda foi anunciada pelas profecias, para o fim dos tempos. Mas, se sua fé vacilar, eles serão preservados da queda final, pois estes prodígios serão apenas artifícios diabólicos e apenas os pecadores calejados e os malvados os aceitarão como autênticos.

O Anticristo provocará no mundo inteiro uma terrível perseguição contra os cristãos e contra os justos. Utilizará três tipos de armas contra os fiéis: o terror, os presentes e os milagres. Acumulará de ouro e de prata os que acreditarão nele – porque em seu tempo, todos os tesouros ocultos nas profundezas da terra e nos abismos dos mares serão descobertos.

Aos homens que não puder corromper com os presentes, ele tentará domar pelo terror, os que resistirem ao terror, ele tentará seduzir com o espetáculo de seus prodígios; e os que saírem vitoriosos dessa prova suprema, ele matará, na presença do povo, em meio a terríveis suplícios.

Depois de falar do Anticristo, só resta falar de seu fim. Quando este filho do demônio tiver atormentado o mundo durante três anos e meio*, submetendo o povo de Deus aos mais refinados suplícios e outorgando, assim, a coroa do martírio aos fiéis que se mantiveram perseverantes na fé, chegará finalmente, para ele o dia do juízo de Deus, como escreveu o santo apóstolo Paulo. “‘O Senhor destruirá com um sopro de Sua boca e o aniquilará com o esplendor de sua aparição’ (2ª Carta aos Tessalonicenses, II-8).