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Gustavo
Antônio Solímeo - Luiz Sérgio Solímeo
Editora
- Artpress

“Sede sóbrios e vigiai,
porque o demônio,
vosso adversário, anda como um leão que ruge, buscando a quem devorar.
Resistí-lhe fortes na fé”.
(Primeira Epístola de São Pedro 5,
8)
Índice
INTRODUÇÃO
Os anjos, os demônios
e o homem.
I. OS PRÍNCIPES
DOS EXÉRCITOS DO SENHOR
Capítulo
O admirável
mundo angélico
Capítulo 2
A natureza angélica
Capítulo 3
Ministérios dos
anjos
Capítulo 4
Os Anjos da
Guarda
Capítulo 5
Os Três
Gloriosos Arcanjos
Capítulo 6
Devoção aos
Santos Anjos
II - SATANÁS E
OS ANJOS REBELDES
Capítulo 1
O problema do
mal
Capítulo 2
A queda dos
anjos maus
Capítulo 3
Psicologia do
demônio
Capítulo 4
O poder dos demônios
III - AÇÃO
ORDINÁRIA E EXTRAORDINÁRIA DO DEMÔNIO 85
Capítulo 1
A tentação
Capítulo 2
A infestação
Capítulo 3
A possessão
Capítulo 4
Possessão diabólica:
o diagnóstico
IV. A LUTA
CONTRA O PODER DAS TREVAS
Capítulo 1
Remédios
gerais, preventivos e liberativos
Capítulo 2
Exorcismo:
aspectos históricos
Capítulo 3
Exorcismo: o que
é ?
Capítulo 4
Exorcismo:
legislação
Capítulo 5
‘Somos todos
exorcistas”
V. SATANISMO
MAGIA — FEITIÇARIA
Capítulo 1
Da superstição
à adoração ao demônio
Capítulo
2
Magia negra ou
feitiçaria: aspectos históricos
Capítulo
3
Magia —
Espiritismo — Macumba
Capítulo 4
Sabás e Missas
negras
Capítulo 5
O Satanismo
moderno
Capítulo 6
O Rock Satânico
VI. CASOS DE
INFESTAÇÃO E POSSESSÃO —CENAS DE EXORCISI CULTO IDOLÁTRICO AO DEMÔNIO
Capítulo 1
A moça
infestada e o menino possesso
Capítulo 2
Madalena: da
frustração ao pacto com o demônio
Capítulo 3
Anneliese:
possessão oblativa
Capítulo 4
O Diabo no
Convento
Capítulo 5
Sacrifícios
humanos em honra do demônio
CONCLUSÃO
A Rainha dos
Anjos, terror dos demônios
INTRODUÇÃO
OS ANJOS,OS DEMÔNIOS E O HOMEM
“(Jacó) teve um sonho: Uma escada
se
erguia da terra e chegava
até o céu, e anjos de Deus subiam e
desciam
por ela".
(Gen 28, 12)
CONSIDERANDO ÀS VEZES a beleza de um
panorama marítimo, a elegância das ondas que vêm suavemente espraiar-se
na areia límpida em um turbilhão de espuma; gaivotas e outros pássaros
marinhos que planam docemente, sem esforço aparente, ao sabor das brisas;
o brilho da luminosidade que reverbera nas águas e parece confundir-se
com elas na linha do horizonte; diante de tudo isso sentimos a tranqüila
majestade de Deus, sua imensa sabedoria, amor infinito por nós homens,
dando-nos, sem nenhum mérito nosso, tais maravilhas.
Mas, se para além dos sentidos
naturais, considerássemos o mesmo panorama também com os olhos da Fé,
perceberíamos que a maravilha é ainda maior, e a sabedoria e a bondade
divinas ainda mais perfeitas; sua solicitude em relação a nós, homens,
ainda mais excelente e carinhosa.
É que, ao lado de toda aquela perfeição
material, guardando-a e dirigindo-a, saberíamos que estão criaturas
espirituais, incomparavelmente mais perfeitas do que nós e que têm como
uma de suas missões ajudar-nos a melhor conhecer e amar o Criador,
aconselhar-nos em nossas dúvidas, proteger-nos em todos os perigos,
socorrer-nos em todas as dificuldades: os
anjos.
Os
Santos Anjos
Coroando a criação, acima dos seres
inanimados, do mundo vegetal e animal, do homem que é o Rei dessa obra,
Deus colocou os espíritos angélicos, dotados de inteligência
(incomparavelmente mais perfeita que a nossa), porém não sujeitos às
limitações do corpo, como nós.
Explica São Tomás que Deus criou todas
as coisas para tornarem manifesta a sua bondade e, de algum modo,
participarem dessa bondade. Ora essa participação e manifestação não
seriam perfeitíssimas senão no caso em que houvesse, além das
criaturas, meramente materiais, outras compostas de matéria e espírito
(os homens) e, por fim, outras puramente espirituais, que pudessem as
similar de modo mais pleno as perfeições divinas.
A verdade maravilhosa da existência dos
anjos - seres intermediários entre Deus e os homens — é ilustrada poéticamente
na Escrituras pelo sonho de Jacó, Patriarca do Povo eleito: “(Jacó)
teve um sonho: Uma escada se
erguia da terra e chegava até o céu e anjos de Deus subiam e desciam por
ela” (Gen 28, 12).
Do ápice da escala da criação, os
puros espíritos descem até a
criaturas inferiores, governando o mundo material, amparando protegendo o
homem; e sobem até Deus para
oferecer-Lhe a glória da criação, bem como a oração e as boas obras
dos justos.
Essa realidade angélica foi pressentida
pelos povos antigos, em meio às brumas do paganismo e das superstições,
sob a forma de gênios benfazejos das fontes, dos bosques, dos mares, os
quais garantiriam a harmonia do Universo, e eram propícios aos homens.
Mas foi a revelação divina que
apresentou aos homens a verdadeira figura dos espíritos angélicos,
desembaraçada de toda
forma de superstição. As Sagradas
Escrituras e a Tradição forneceram os elementos fundamentais, que os
grandes teólogos
Doutores da Igreja —
em especial São Tomás
de Aquino — sistematizaram, dando-nos uma doutrina sólida e coerente
sobre o mundo angélico.
É essa doutrina que procuramos
sintetizar no presente trabalho, seguindo o Doutor Angélico bem como
autores mais recentes que trataram do tema.
Estamos certos de que o conhecimento
desta doutrina será proveitoso para todos os fiéis. Conhecendo melhor os
anjos, teremos mais intimidade com eles e seremos assim levados a recorrer
mais amiúde à sua proteção e ao seu amparo, nesta nossa jornada
terrestre rumo ao Paraíso. Sobretudo na luta tremenda que devemos travar
contra o Adversário, o Caluniador,
que anda ao redor de nós, no um leão feroz, querendo nos devorar (1 Ped
5, 8-9): Satanás!
Satanás
e os anjos rebeldes
Da maravilhosa realidade dos santos
anjos, descemos assim para tenebrosa realidade dos espíritos infernais,
os demônios.
Mais ainda do que em relação aos
anjos, os povos pagãos da Antiguidade (como também os primitivos de
hoje) tiveram a percepção dos demônios. A tal ponto, que mentalidades
racionalistas do século passado e deste quiseram ver na concepção bíblica
de anjos e demônios uma mera influência babilônica e grega. Essa
apreciação é completamente falsa pois a concepção bíblica e cristã
sobre os anjos está inteiramente imune dos absurdos supersticiosos dos
pagãos.
Em relação aos demônios, os povos
antigos (babilônios, caldeus ou gregos) manifestaram uma grande confusão,
por não terem conseguido resolver o problema da origem do mal. Em suas
concepções, o bem e o mal se mesclam e se confundem de tal maneira que
tanto os deuses como os gênios perversos mostram-se ambíguos,
representando e praticando, uns e outros, tanto o bem como o mal.
Entre os gregos, o vocábulo daimon designava os deuses e outros seres com forças divinas,
sobretudo os maléficos, dos quais os homens deveriam guardar-se por meio
da magia, da feitiçaria e do esconjuro.
A concepção revelada pela Sagrada
Escritura e pela Tradição é bem outra: os demônios não são
divindades, mas simples criaturas, dotadas de uma perfeição natural muitíssimo
acima da do homem, porém infinitamente abaixo da perfeição de Deus, seu
criador, acima da do homem, porém infinitamente abaixo da perfeição de
Deus, seu criador.
Se eles são perversos, não é por
terem uma natureza essencialmente má,
e sim por prevaricação; feitos bons por Deus, os anjos maus ou demônios
se revoltaram e não quiseram submeter-se Criador, servi-Lo e adorá-Lo
como sua condição de criatura o exigia.
Uma vez revoltados, os anjos rebeldes
fixaram-se no mal, e passaram a tentar o homem, procurando arrastá-lo à
perdição eterna. Essa
atividade demoníaca — a tentação —
os teólogos qualificam de ordinária,
por ser a mais freqüente e também a menos espetacular de suas atuações
sobre o homem. Além dessa atividade, ele pode — com a permissão de
Deus — perturbar o homem de um modo mais intenso mais sensível,
provocando-lhe visões, fazendo-o ouvir ruídos e sentir dores; ou, então,
atuando sobre as criaturas inferiores — as planta animais, os elementos
atmosféricos — para desse modo atingir o homem. É a infestação pessoal ou local,
atividade menos freqüente mais visível, chamada por isso extraordinária. Em certos casos extremos, podem os demônios chegar
a possuir o corpo do homem para
atormentá-lo. Temos aqui a possessão,
a mais rara manifestação extraordinária
do Maligno.
Deus não nos deixou à mercê dos espíritos
depravados. Além da proteção especial de nosso Anjo da Guarda e demais
espíritos celestes, entregou à Igreja os meios preventivos
e liberativos para enfrentar a ação
do demônio: orações, sacramentos, sacramentais (bênçãos, medalhas,
escapulários). O mais efetivo desses meios sobrenaturais, para os casos
de infestação e possessão são os exorcismos,
pelos quais se dão ordens ao
demônio, em virtude do nome Jesus,
para abandonar o corpo da pessoa ou o lugar que ele
infesta ou possui.
Devido à sua importância, nos
deteremos um pouco mais no estudo dos exorcismos,
considerando os seus fundamentos teológicos, o modo de praticá-los, bem
como a legislação da Igreja a respeito.
Da atuação espontânea do demônio,
passamos àquela que ele desenvolve a convite do homem, seja pela invocação
direta e explicita, seja pela indireta e implícita. Com relação à
magia, à feitiçaria e outras formas
de superstição, deixamos de lado os aspectos históricos polêmicos (que
alongariam por demais o presente estudo e fugiriam ao objetivo dele),
limitando-nos a considerar sua possibilidade teológica, afirmada, aliás
pelo Magistério da Igreja e pela unanimidade dos teólogos e moralistas.
Dedicamos
algumas páginas à revivescência
do satanismo nos dias de hoje, salientando o papel do Rock’
n’Roll, sobretudo do Heavy
Metal (Rock Pesado) na sua difusão. A título de ilustração da
doutrina aqui desenvolvida, apresentamos alguns casos de infestação
possessão diabólica, uns decorrentes de intervenção espontânea do espírito
das trevas, outros conseqüência de malefícios
ou no de pacto explícito com o demônio; acrescentamos por fim o relato
de uma série de sacrifícios humanos
aqui no Brasil em honra de entidades de macumba
e candomblé (as quais
entidades não são coisa senão demônios), que revelam, de modo
alarmante, o quanto nosso país está envolvido por essa onda de satanismo
moderno, conseqüência de sua apostasia da Fé católica.
Esperamos que este estudo contribua para
reavivar a devoção santos anjos, nossos fiéis amigos, conselheiros e
protetores; e ao mesmo tempo, sirva de alerta aos católicos para o perigo
das das espíritas ou de macumba, e outras formas de superstição( como o
uso de amuletos, adivinhações,
etc.), as quais podem conduzir, muitas vezes sem que se queira, à
comunicação pelo menos implícita com
os espíritos infernais.
***
Digne-se a Virgem Santíssima — que
esmaga para sempre a cabeça da serpente infernal (cf. Gen 3, 15) —
proteger e abençoar este modesto esforço. Invocamos também o patrocínio
do glorioso Patriarca São José e a proteção do invencível Arcanjo São
Miguel — que derrotou Satã no “praelium
magnum in caelo” (Apoc
12, 7-l0) — e dos santos anjos que atenderam ao seu brado de guerra: “Quis
ut Deus?” — “Quem é como Deus?”
I - OS PRÍNCIPES DOS EXÉRCITOS
DO SENHOR
AS NOÇÕES que correm entre os fiéis,
mesmo dentre os mais fervorosos, a respeito dos santos anjos são muito
vagas e superficiais. Meras reminiscências e imagens da infância, na
maioria dos casos, não muito diferentes de entidades fictícias e de
algum modo mitológicas, como as fadas e os duendes.
A iconografia corrente, infelizmente, não
ajuda a dar a conhecer a verdadeira fisionomia dos anjos,
apresentando-nos seres alados, com vestes e aspecto feminimo; ou, então, anjinhos
bochechudos, com cara infantil e tola, brincando despreocupadamente sobre
nuvens que mais parecem flocos de algodão doce...
Esses anjos não existem, nem é deles
que tratamos aqui.
A partir dos dados da Sagrada Escritura
e da Tradição, dos escritos dos Santos Padres, do ensinamento do Magistério
eclesiástico, da lição dos Doutores e teólogos, queremos apresentar a
verdadeira natureza dos santos anjos: seres puramente espirituais, dotados
de uma inteligência agudíssima e de uma possante vontade livre
dominando abaixo de Deus sobre todas as demais criaturas, racionais e
irracionais, bem como as forças da natureza, os elementos da atmosfera e
subjugando para sempre os espíritos infernais.
Eis os santos anjos, príncipes dos exércitos
do Senhor, mas também nossos amigos e protetores.
O admirável mundo angélico
"E ouvi a voz de muitos anjos
em volta do trono...
e era o número deles
milhares de milhares".
( Ap 5,11)
ALÉM DO MUNDO VISÍVEL e material, criou Deus também o mundo invisível e espiritual, o admirável
mundo angélico.
A existência dos anjos foi negada na Antiguidade, entre judeus, pela seita dos
saduceus (cf. At 23, 8). Mais tarde, por certas seitas protestantes, como os anabatistas. Em nossos dias ela
tem por adversários os ateus, materialistas e positivistas, que não crêem
senão naquilo que seus olhos vêem e seus sentidos apalpam. Os racionalistas, para encontrar uma excusa aparentemente
racional à sua incredulidade, alegam que os anjos foram inventados pelos
judeus no tempo do cativeiro da Babilônia, por imitação das entidades
ali cultuadas; ou, então, consideram os anjos como simples modo poético e simbólico de referir-se às virtudes divinas e
aos vícios humanos...
Contra todos esses, falam os dados da razão, a crença comum dos povos e a revelação divina.
Os anjos existem
Pela simples razão, independentemente da revelação, o homem pode chegar de algum modo ao conhecimento da existência dos
anjos. Com efeito, a existência de seres puramente espirituais não repugna à razão. E um exame da criação, à mera luz do intelécto pode levar-nos à conclusão de que a existência de criaturas
puramente espirituais convém à harmonia do Universo, pois assim estariam representados os três gêneros possíveis de seres: os
puramente espirituais, acima do homem; outros, puramente materiais, abaixo
do homem; por fim, seres compostos, dotados de matéria e espírito
— os homens.
E a crença comum dos povos, constante em todos os lugares e em todas as épocas, sempre afirmou a existência desses seres de
natureza superior aos homens e inferior à divindade.
Uma coisa, porém, é a mera possibilidade da existência de seres puramente espirituais, e outra é a sua realidade objetiva. A
existência dos anjos (e dos demônios, anjos decaídos) seria para nós um
problema insolúvel, não houvesse a tal respeito especial revelação
divina por meio da Escritura e da Tradição,* que nos garantem a
certeza da existência dos anjos.
*
Tradiçâo,
em sentido amplo, é o conjunto de idéias, sentimentos e costumes, como
também de fatos que, numa sociedade, se transmitem de maneira viva de geração geração.
Em sentido estrito teológico, chama-se Tradição o conjunto de verdades reveladas que os ástolos receberam de Cristo ou do Espírito santo, e transmitiram, independentemente Sagradas Escrituras, à Igreja, que as conserva e transmite sem alteração.
Essa revelação foi feita a nossos primeiros pais, e se conservou
na Humanidade, por via de transmissão oral pelos Patriarcas. Com o tempo (e também por obra do demônio, sem dúvida), essa
revelação primitiva foi-se corrompendo, restando dela meros vestígios no paganismo antigo e no atual. Nas brumas desse
paganismo encontramos seres incorpóreos, ora malfazejos ora benignos, quase sempre cultuados como divindades ou
quase-divindades.
Para preservar o povo judeu da contaminação por essa deformação politeísta pagã, os Autores sagrados, durante largo período,
evitaram mencionar nominalmente o espírito das trevas. E, pela mesma razão, não se encontram muitos
pormenores no Antigo Testamento sobre a natureza dos anjos e dos demônios, embora sejam
mencionados a cada passo. A revelação definitiva só se verifica Nosso Senhor Jesus Cristo. Porém, a Bíblia não traz toda a
revelação sobre o mundo angélico, sendo necessário recorrer à Tradição,
Esta, como se sabe, encontra-se recolhida nos documentos dos Santos Padres* e escritores eclesiásticos dos primeiros tempos,
assim como nos documentos do Magistério - Papas e Concílio - na Liturgia e nos monumentos da Antiguidade cristã (catacumbas cemitérios, etc.).
*Chamam-se Santos Padres ou Padres da Igreja certos escritores eclesiásticos
antigos, que se distinguiram pela doutrina ortodoxa e santidade de vida e são reconhecido Igreja como testemunhas da tradição divina.
A existência dos anjos é uma verdade de fé,* provada pela Escritura
e pela Tradição. A Sagrada Escritura refere-se inúmeras vezes a seres racionais, inferiores a Deus e superiores aos homens;
logo, segundo ela, esses seres, que nós denominamos anjos, existem.
* Verdade
de fé é aquela que se encontra na Revelação e é proposta pela Igreja
aos fiéis como verdade que se deve crer. A negação pertinaz de uma verdade de fé constitui
a heresia.
Essa verdade foi definida solenemente como dogma pelo concílio IV de Latrão (1215): “Deus.., desde o princípio do tempo criou do nada duas espécies de seres — os espirituais e os
corporais, isto é, os anjos e o mundo”. De forma igual se expressa o I Concílio do Vaticano (1870).
Os nove coros angélicos
Existem diferenças entre os anjos, mas não consta na Revelação qual sua origem nem seu modo preciso. É questão de
livre discussão se os anjos são todos da mesma espécie, ou se existem
tantas espécies quantos são os coros, ou se cada indivíduo constitui uma espécie por si (opinião de São Tomás).
De acordo com uma tradição que remonta ao Pseudo-Dionísio Areopagita,* os teólogos costumam agrupá-los em nove
ordens ou coros angèlicos, distribuídos em três hierarquias (
os nomes são tomados da Sagrada Escritura):*
*Renomado escritor eclesiástico dos primeiros séculos, cuja identidade não se
estabeleceu ainda ao certo, durante muito tempo confundido com o sábio convertido
por São Paulo no Areópago de Atenas (cf. At 17, 34). Uma de suas obras mais célebres
é De coelesti hierarquia — Sobre a hierarquia celeste, na qual estabelece a ordem dos
Anjos, deteminada pelo seu grau de assimilação a Deus, de união com Deus, do
dom de luz divina que recebem e transmitem aos Anjos inferiores.
* Por
exemplo: Serafins ( Is 6,2); Querubins ( Gen 3,24; Ex 25,
18; 3 Reis 6,23; Sl 17, 11; Ez 10,3; Dan 3,55); Arcanjos ( 1 Tes
4,15; Jud 9); Anjos, Potestades, Virtudes ( 1 Ped 3,22); Principados,
Dominações ( Ef 1,20-21); Tronos (Col 1,16).
Primeira
hierarquia - Serafins, Querubins, Tronos;
Segunda
hierarquia - Dominações, Potestades, Virtudes;
Terceira
hierarquia - Principados, Arcanjos e Anjos.
Os
anjos dos três primeiros coros ou primeira hierarquia - Serafins,
Querubins e Tronos contemplam e glorificam continuamente a Deus: " Vi
o Senhor sentado sobre um alto e elevado trono... Os Serafins estavam por
cima do trono ... E clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo,
Santo, é o Senhor Deus dos exércitos" (Is 6, 1-3 ). " O Senhor
reina ... está sentado sobre querubins" (Sl 98,1); os três coros
seguintes - Dominações, Virtudes e Potestades - ocupam-se do
governo do mundo; finalmente, os três últimos - Principados, Arcanjos
e Anjos - executam as órdens de Deus: "Bendizei ao
Senhor, vós todos os seus anjos, fortes e poderosos, que executais as
suas ordens e obedeceis as suas palavras" (Sl 102, 20). Todos
eles podem entretanto ser chamados genericamente anjos, estando à
disposição de Deus para executar suas vontades. Embora o
Evangelho, na Anunciação a Maria, se refira ao anjo Gabriel
( Lc 1,26), isto não quer dizer que ele pertença à última das
hierarquias angélicas, pois a sublimidade dessa embaixada leva a supor
que se trate de um dos primeiros espíritos que assistem diante de Deus. Os
três arcanjos - como são conhecidos comumente São Miguel,
São Gabriel e São Rafael - pertencem, provavelmente, à mais alta
hierarquia angélica. Falaremos deles mais adiante. Embora
não conheçamos, o número exato dos anjos, sabemos, pelas Escrituras e
pela Tradição, que são muitíssimos,. É o que lemos no livro do
Apocalipse: "E ouvi a voz de muitos anjos em volta do trono ... e
era o número deles milhares e milhares" (Apoc 5, 11). E no livro de Daniel:
“Eram milhares de milhares de milhares (os anjos) que o serviam, e mil milhões os que assistiam
diante dele” (Dan 7, 10).
Muitos teólogos deduzem que o número dos anjos é superior ao dos homens que existiram desde o princípio do mundo e
existirão até o fim dos tempos. A razão disso é dada por São Tomás
ao dizer que, tendo Deus procurado principalmente a perfeição do
universo ao criar os seres, quanto mais estes forem perfeitos, Deus os terá criado com maior prodigalidade. Ora, os anjos são mais
perfeitos que os homens, logo foram criados em maior número.
A natureza angélica
“Então o anjo do Senhor tornou-o pelo
alto da cabeça e, tendo-o pelos cabelos, levou-o com a impetuosidade do
seu espírito até Babilônia, sobre a cova" (Dan 14, 32-35)
É TAL O ESPLENDOR de um anjo, que as pessoas às quais eles aparecem muitas vezes se prostram por terra por temor e
reverência para adorá-los, pensando que se trata do próprio Deus —
conforme relato das Escrituras e da vida dos santos. E assim que São
João conta no Apocalipse: “Prostrei-me aos pés do anjo para o
adorar; porém ele disse-me: Vê, não faças tal; porque eu sou servo de Deus como tu .... Adora a Deus” (Apoc 22,9).
É
essa natureza maravilhosa que vamos estudar agora.
Seres racionais e livres
Os anjos são seres intelectuais ou racionais, inferiores a Deus e mais
perfeitos que os homens. Eles são puros espíritos, não estando ligados a um corpo como nós; são dotados de
uma inteligência luminosa e de vontade livre e possante.
Tendo sido criados por Deus do nada, como tudo o mais, os pelo próprio fato de serem puramente espirituais, são
imortais, pois não têm nenhuma ligação com a matéria corruptível,
como os homens.
Ao contrário da natureza do homem, que é composta (isto é,
formada de dois elementos distintos, o corpo e a alma) os anjos têm
natureza simples, puramente espiritual. Embora a alma humana seja
igualmente espiritual, ela foi criada por Deus para viver em união substancial com o corpo; quando se dá a morte e a alma se
separa do corpo, ela permanece em um estado de violência, enquanto
não se dá a ressurreição dos corpos.
Já os anjos não têm necessidade de um corpo como o homem. Desse modo, é um ser muito mais perfeito, sendo inferior,
quanto à natureza, apenas ao próprio Deus. Não se pode pois, ao pensar
nos anjos, concebê-los à maneira de uma alma humana separada de
seu corpo. Esta última não é capaz daquilo que o anjo pode fazer sua simples natureza.
Tal como o homem, os anjos existem realmente enquanto pessoas; ou seja, eles são substâncias individuais, dotadas de
inteligência e livre arbítrio*. Em outros termos, eles têm uma existência real, distinta da de outros seres, sendo capazes de conhecer,
de amar, de servir, de escolher entre uma coisa e outra. Eles não são portanto, seres imaginários, fictícios, concebidos pelo homem como mero modo poético de exprimir-se, ou como
personificações das virtudes e dos vícios humanos ou das forças da natureza,nem tampouco
emanações do poder de Deus.
* É clássica a definição de
pessoa dada por Boécio: “Rationalis naturae individua
substantia “— " Substância individual de natureza racional”.
Os anjos foram elevados à ordem sobrenatural, isto é chamados a participar da vida da graça, cujo fim é a
visão beatífica de Deus. Esta elevação é gratuita, mas discute-se em que momento
se deu (para São Tomás, foi no momento mesmo de sua criação); é de
fé que os anjos deveram sofrer uma prova, porém não se sabe qual teria sido. Depois da prova cessou para eles o tempo de merecer;
é também de fé que os anjos bons gozaram e gozam para sempre visão beatífica e que os maus foram condenados a uma pena eterna.
Conhecimento e comunicação angélica
É questão de livre discussão tudo quanto se refere ao conhecimento angélico, à comunicação de uns com os
outros, bem como o que se refere ao seu ato de vontade; é certo que sua
capacidade de conhecer — embora incomparavelmente superior à do homem — é limitada: eles não conhecem naturalmente os
mistérios divinos, nem o futuro livre ou contingente;*
também é certo que têm pleno livre arbítrio.
*Os
anjos (e também os dem6nios, que são anjos pervertidos), pela sua própria natureza,
não têm capacidade de conhecer o futuro que depende de um ato livre de Deus ou do
homem; porém, dada sua inteligência agudíssíma e seu conhecimento da
natureza e de suas leis, eles podem prever qual o desenrolar dos acontecimentos, postas cenas causas.
Também podem, em razão de sua profunda penetração psicológica e do conhecimento
da alma humana, fazer conjeturas mais ou menos prováveis de como os homens
reagirão diante de determinada circunstância, e assim prever o que decorrerá daí.
Para dar uma idéia da perfeição do conhecimento angélico, parece
oportuno transcrever a explicação do Cardeal Lepicier, grande
especialista na matéria.
Comparando o modo de conhecimento humano com o angélico, ressalta o Cardeal que Deus infundiu no intelecto dos anjos,
logo que os criou, representações de todas as coisas naturais. Estas
imagens “são não somente representativas de princípios gerais que
regulam cada ciência particular, mas encerram também, distintamente, todos os pormenores virtualmente contidos nesses
princípios, de maneira que uma e a mesma imagem informa a mente angélica
das particularidades de cada ciência. Não poderá pois haver confusão na mente angélica, quando ela passa da observação de um para a observação de outro...
"Um anjo, com um simples olhar à imagem que representa — digamos — o reino animal, conhece não só as várias espécies de
animais existentes, mas também cada indivíduo que exista ou tenha
existido dentro de cada espécie, assim como as suas propriedades
particulares e os seus meios de ação. E o mesmo sucede com o
conhecimento de qualquer objeto, seja ele qual for, que se encontre no
reino da natureza, seja orgânico ou inorgânico, material ou espiritual
visível ou invisível.
Chama-se futuro livre ou contingente aquele que depende, seja da vontade divina, seja
da humana. Distingue-se do futuro necessário, o qual não depende do livre arbítrio,
mas decorre de causas que, uma vez postas, levam necessariamente a um determinado
efeito. Assim, à noite sucede o dia; a semente, lançada à terra, germinará dentro de
determinado tempo, se se verificarem todas as condições necessárias a isso,
independentemente da vontade divina (que já está manifestada no ato da criação da espécie) ou da
natureza humana.
“Por aqui se pode ver que a ciência humana é muito excedida
pela ciência da mente angélica, tanto em extensão com precisão”.* *
Cardeal A. LEPICIER, O Mundo Invisível pp. 42-43.
São Tomás explica do seguinte modo a comunicação dos anjos entre si: como nós homens, os anjos têm o
verbo interior ou verbo mental, com o qual falamos a nós mesmos ou formulamos os
conceitos interiormente. Mas, enquanto nós só podemos comunicar esse pensamento a outros por meio da palavra oral, ou de
outro meio externo, pois entre nós e os demais existe a barreira do nosso
corpo, que vela o pensamento, os anjos não têm essa barreira corpórea; assim, basta a eles, por um ato de vontade, se dirigirem
a outros anjos, para que seu pensamento — ou seja, esse verbo
interior ou verbo mental — se manifeste a eles.
Como os anjos são diferentes entre si, e uns são mais perfeitos que outros, os mais perfeitos iluminam os menos perfeitos cor
comunicando-lhes aquilo que eles vêem mais em Deus.
Do mesmo modo, eles podem iluminar os homens, comunicando-lhes bons pensamentos, embora de forma diferente daquela
pela qual um anjo se comunica com outro. Como a mente humana necessita do concurso da fantasia para entender as coisas, os anjos
comunicam as verdades ao homem por meio de imagens sensíveis
Quanto à vontade humana, só Deus ou o próprio
homem são capazes de movê-la eficazmente; o anjo, ou outro homem. só podem movê-la por meio da persuasão.
Poder dos anjos sobre a matéria
É um tanto misterioso a nós o modo como os anjos, seres espirituais, possam mover a matéria.
No entanto tal poder está formalmente revelado, como se pode ver, por exemplo, no livro de Daniel. O profeta fora jogado na
cova dos leões para que perecesse; por ação divina, os animais não fizeram mal:
“O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou a boca dos leões e estes não me fizeram mal algum”
(Dan 6, 21). No entanto, para alimentá-lo, Deus quis servir-se do profeta Habacuc,
conduzido até a cova por um anjo.
Narra a Escritura: “Estava então o Profeta Habacuc na Judéia, e tinha cozido um caldo, e esfarelado uns pães dentro duma
vasilha, e ia levá-los ao campo aos ceifeiros que lá estavam. E o anjo
do Senhor disse a Habacuc: Leva a Babilônia essa refeição que tens, para a dares a Daniel que está na cova dos leões. E
Habacuc respondeu: Senhor eu nunca vi a Babilônia e não sei onde é a
cova. Então o anjo do Senhor tomou-o pelo alto da cabeça e, tendo-o
pelos cabelos, levou-o com a impetuosidade do seu espírito até Babilônia, sobre a cova”
(Dan 14, 32-35).
O próprio Salvador deixou-se carregar pelo demônio até o alto monte para ser tentado (cf. Mt 4, 5-8).
Em São Mateus, sobre a Ressurreição de Nosso Senhor, está escrito: “Um anjo do Senhor desceu do céu, e, aproximando-se,
revolveu a pedra, e estava sentado sobre ela” (Mt 28, 2).*
*Cf.
Suma Teológica, 1,qq. 52, 107,110-112.
Embora a questão, como dissemos, seja algo misteriosa, procuraremos sintetizar aqui a doutrina de São Tomás de Aquino
a respeito.
Antes de tudo, convém lembrar o que ensina o santo Doutor a respeito do modo como os anjos encontram-se em um lugar:
enquanto os seres corpóreos manifestam sua presença num lugar circunscrevendo-o pelo
contato físico de seu corpo com o lugar ocupado, as criaturas incorpóreas
delimitam o lugar por meio de um contato operativo. Quer dizer: elas
estão no lugar onde agem.
Quanto ao modo como os anjos movem a matéria, é a seguinte explicação tomista:
O ser superior pode mover os inferiores porque tem em si, de um modo mais eminente, as virtualidades desses seres inferiores.
Assim, o corpo humano é movido por algo superior a ele, a alma, que é espiritual, a qual, através da vontade, que também é imaterial,
move os membros corpóreos a seu bel-prazer; logo, não repugna
à razão que uma substância espiritual possa mover a matéria.
Entretanto, no caso da alma humana, ela só pode mover diretamente aquele corpo com o qual está substancialmente unida; as
demais coisas, ela só pode mover por meio desse corpo;* ora, como
os anjos são seres espirituais, não estando substancialmente unidos a nenhum corpo material, sua força de ação sobre a matéria não
está delimitada por nenhum corpo determinado; dai se segue que eles podem mover livremente qualquer matéria.
* Por exemplo, para mover uma caneta sobre o papel no escrever, nós precisamos segurá-la com a mão e através desta imprimir o impulso que fará a caneta deslizar no papel
e traçar as letras que desejamos; eu não posso mover diretamente a caneta, por um
simples ato de vontade: pelo ato de vontade eu agarro a caneta e movo minha mão segundo meus intentos.
Esse movimento se produz pelo contato operativo do anjo a matéria, impulsionando um primeiro
movimento local; por meio desse primeiro movimento local o anjo pode produzir outros
movimentos na matéria utilizando-se dos próprios recursos dela, com o ferreiro se utiliza do fogo para dobrar o ferro.
O Cardeal Lepicier observa que, como os anjos possuem conhecimento das leis
físicas e químicas que ultrapassa tudo quanto a Ciência possa ter descoberto ou venha a descobrir, e, além
do mais, têm um poder imenso sobre a matéria, podemos dizer que dificilmente se encontrarão no Universo fenômenos que os anjos
não possam produzir, de um modo ou de outro. Esses fenômenos são por vezes tão surpreendentes, que chegam a parecer verdadeiros milagres. Porém, não são milagres, pois embora ultrapassem
de longe a capacidade dos homens, não estão acima do poder angélico. Ele exemplifica:
“Um rápido exame dos fenômenos que ocorrem no mundo físico bastará para nos dar uma idéia dos maravilhosos efeitos a
que os seres angélicos podem dar causa. Em primeiro lugar, assim como, devido às forças da natureza, massas enormes se podem
deslocar, ou, sob a ação de agentes físicos, os elementos da matérias dissolvem ou trabalham em conjunto, como quando
provocam as tempestades, furacões e procelas — assim também um anjo, sem a
cooperação de quaisquer agentes intermediários, transfere de um lugar para outro os corpos mais pesados, levanta-os e conserva-os
suspensos durante determinado tempo, agita as mais pesadas substâncias e provoca colisões entre elas. Pode o mesmo anjo revolver
cidades e vilas, provocar terremotos e encapelar as ondas do mar,
originrar tempestades e furacões, parar a corrente dos rios e, se assim o
entender, dividir as águas do mar.
"Além de tudo isso, pode também um anjo, usando das próprias
forças, produzir os mais surpreendentes efeitos óticos, não só obrigando
substâncias desconhecidas para nós espargir jorros de luz, mas também projetanto sombras que se assemelham a representações
fantasmagóricas. Pode ainda, sem a ajuda de qualquer instrumento, pôr em
movimento os elementos da matéria, fazer ouvir a música mais harmoniosa ou produzir os mais estranhos ruídos, tais como pancadas
repetidas ou explosões súbitas. São ainda os anjos capazes de aglomerar
nuvens, provocar relâmpagos e trovões, arrancar árvores gigantescas,
arrasar edifícios, rasgar tecidos e quebrar as rochas mais duras. É-lhes
também possível fazer com que um lápis escreva, por assim dizer automáticamente, certas frases com um sentido inteligível, assim
como dar aos objetos formas diferentes das que são peculiares à sua
natureza. Podem, até certo ponto, suspender as funções da vida, parar
a respiração dum corpo, acelerar a circulação do sangue e fazer com sementes lançadas à terra cresçam dentro de pouco tempo, até
atingirem a altura duma árvore, com folhas, botões e até com frutos.
"A um anjo é possível fazer todas estas coisas no mais breve
espaço de tempo por causa do seu poder sobre os elementos da matéria, e
sem a menor dificuldade, imitando perfeitamente as obras da natureza e dando em tudo a impressão de que se trata de efeitos s a causas naturais” .*
*Cardeal A. LEPICIER,
O Mundo Invisível. pp. 74-75.
Poder dos anjos sobre o homem
O anjo pode produzir efeitos corpóreos maravilhosos. Ele pode, através do movimento que imprime à matéria, produzir
mudanças nos corpos, mas de tal forma que apenas se sirva da natrureza, desdobrando as potencialidades dela.
Assim ele pode, nos homens, favorecer ou impedir a nutrição ou provocar doenças. Mas ele não pode fazer qualquer coisa que
esteja completamente acima da natureza, como por exemplo ressuscitar pessoas mortas.
O anjo tem ainda o poder de favorecer ou impedir os
movimentos da sensualidade, a delectação, a dor, a ira, a memória e afetar de vários modos os sentidos externos e internos, isto é, os
cinco sentidos, a memória e a imaginação.
Do mesmo, modo o anjo pode aguçar a força da inteligência e, de um modo
indireto, mover quer o intelecto — excitando imagens na fantasia ou propondo questões — quer a vontade, solicitando-a para que escolha algo.
O anjo pode formar para si um corpo com o qual
aparece aos homens como, por exemplo, o arcanjo São Rafael fez com Tobias.
Santo Agostinho diz que os anjos aparecem aos homens com um corpo que eles não somente podem ver, mas também tocar,
como é provado pela Escritura (Gen 18, 2ss; Lc 1, 26ss; At 12, 7ss; o
livro de Tobias).
O anjo move o corpo que assume, como nós poderíamos mover um boneco, dando a impressão de que ele está vivo, fazendo-os imitar os movimentos do homem. Quando São Rafael
parecia comer na companhia de Tobias, ele apenas fazia o corpo do qual estava se servindo mover-se como faz um homem nessa
circunstância, mas sem consumir o alimento.
Os espíritos angélicos não podem fazer milagres propriamente ditos, mas sim coisas
maravilhosas, que ultrapassam o póder humano, não porém o angélico. Por exemplo, graças ao
seu poder e conhecimento extraordinário, podem curar doenças, restituir a vista a cegos (Tob 11, 15); fazer prodígios como
elevar uma pessoa e carregá-la pelos ares (Dan 14, 15), fazer falar serpente (Gen. 3, Iss), etc.
Ministérios dos anjos
"Anjos do Senhor, bendizei ao Senhor...
Exércitos do Senhor,
bendizei ao Senhor". (Dan 3, 58-61)
OS MINISTÉRIOS dos anjos são: em relação a Deus, adorá-lo, louvá-Lo, servi-Lo, executando todos os Seus
decretos em relação aos demais anjos, quer aos homens, como também a toda a natureza material, animada e inanimada; em
relação aos demais anjos, os de natureza superior iluminam os inferiores. dando-lhes a conhecer aquilo que vêm em Deus; em
relação aos homens, eles são ministros de Deus para encaminhá-los à pátria celeste, protegendo-os, corrigindo-os, instruindo-os,
animando-os; em relação ao mundo material, eles são agentes de Deus para o governo do Universo.
Ministros da liturgia celeste
O principal ministério dos anjos consiste em adorar, louvar e servir a
Deus: “Anjos do Senhor, bendizei ao Senhor ... Exércitos do Senhor, bendizei ao Senhor; louvai-O e exaltai-O por todos os
séculos” (Dan 3, 58-61). “Bendizei ao Senhor, vós todos os seus
anjos, fortes e poderosos, que executais as suas ordens e obedeceis
as suas palavras” (Si 102, 20). “Os Serafins estavam por cima do
trono ... E clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos”
(Is 6,2-3).
Os santos anjos desempenham assim a liturgia celeste:
"E vi os sete anjos que estavam de pé diante de Deus ... E veio
outro anjo, e parou diante do altar, tendo um turíbulo de ouro; e foram-lhe dados muitos
perfumes, a fim de que oferecesse as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que está diante do
trono de Deus. E o aroma dos perfumes das orações dos santos
subiu da mão do anjo até à presença de Deus” (Apoc 8,2-4).
Esses puros espíritos são, pois, ministros do altar e ministros do trono de Deus: eles cantam os louvores de Deus na
presença do Altíssimo, e apresentam-Lhe as nossas preces e as nossas boas obras; ao mesmo tempo, descem até nós e nos
trazem as graças e bênçãos divinas, verdade belamente expressa na
visão da escada de Jacó: “(Jacó) teve um sonho: Uma escada se erguia da terra e chegava até o céu, e anjos de Deus subiam
desciam por ela” (Gen 28, 12).
Essa verdade, em termos práticos, significa que eles são intercessores poderosíssimos diante de Deus. A eficácia da
intercessão angélica é testemunhada, entre muitas outras passagens da Escritura, por esta do livro do Profeta Zacarias:
“E o anjo do senhor replicou e disse: Senhor dos exércitos, até quando diferirás
tu o compadecer-te de Jerusalém e das cidades de Judá, contra as quais te iraste? Este é
já o ano septuagésimo. ... Isto diz o Senhor dos exércitos: Eu sinto um grande zelo por Jerusalém e por
Sião... Portanto isto diz o Senhor: Voltarei para Jerusalém com entranhas de misericórdia”
(Zac 1,12-16).
Isto nos deve mover a recorrer sempre com fervor e cada mais a eles.
Guerreiros dos exércitos do Senhor
As Sagradas Escrituras nos apresentam os anjos numa guerreira, como a milícia dos exércitos do Senhor.
Assim, o profeta Miquéias exclama: “Eu vi o Senhor sentado sobre seu trono, e todo o exército do céu ao redor dele, à
direita e à esquerda” (3 Reis 22, 19). E o livro de Josué, ao narrar
a luta dos judeus para conquistar a Palestina, após saírem do Egito, diz:
"Ora, estando Josué nos arredores da cidade de Jericó, levantou os
olhos e viu diante de si um homem em pé, que tinha uma espada desembainhada. Foi ter com ele e disse-lhe: Tu és dos nossos,
ou dos inimigos? E ele respondeu: Não; mas sou o príncipe do to do
Senhor” (Jos 5, 13-14).*
* No
Antigo Testamento os anjos são designados das mais diversas formas:
"príncipes"; "filhos de Deus"; "santos";
"anjos santos"; "sentidos vigilantes";
"espíritos"; "homem".
O próprio Deus, a quem servem esses anjos guerreiros, é apresentado como o
Deus dos exércitos. O profeta Oséias, descrevendo a fidelidade de Jacó, registra:
“E o Senhor Deus dos exércitos, este Senhor ficou sempre na sua memória” (Os 12, 4-5). Amós
profetiza a prevaricação de Israel em nome do Senhor Deus dos exércitos:
"Ouvi isto, e declarai-o à casa de Jacó, diz o Senhor dos exércitos”. E adiante:
“Pois sabe, casa de Israel, diz o Senhor Deus dos exércitos, que eu vou suscitar contra vós uma
nação vos oprimirá” (Am 3, 13; 6, 15). Na visão do profeta
Isaías: "Os serafins .. clamavam um para o outro e diziam: Santo,
Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos” (Is 6, 2-3). A mesma
expressão é utilizada nos Salmos de Davi: “Quem é esse Rei da
Glória ? O Senhor dos exércitos; esse é o Rei da glória “. “O
Senhor dos exércitos está conosco; o Deus de Jacó é a nossa
cidadela" ( Sl 23,10; 45, 8).
O Senhor Deus dos exércitos, após a desobediência de nossos
primeiros pais, “pôs diante do paraíso de delícias Querubins brandindo
uma espada de fogo, para guardar o caminho da árvore da vida" (Gen 3,24).
As hostes celestes combateram no Céu uma “grande batalha"
(Apoc 12, 7), derrotando e expulsando Satanás e os anjos rebeldes.
E
na noite sublime do Natal, esses guerreiros celestes apareceram aos
pastores: “E subitamente apareceu com o anjo uma multidão da milícia
celeste louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade”
(Lc 2, 8-14).
Deus confia à milícia celeste a defesa daqueles que O amam.
Segundo os intérpretes, um anjo exterminador matou em meio à noite todos os primogênitos do Egito (Ex 12, 29); e ao serem os
judeus perseguidos pelo exército do Faraó, o anjo do Senhor, que ia diante deles, se interpôs entre os egípcios e o povo escolhido
(Ex 14, 19). Quando Senaquerib ameaçava o povo eleito, Deus enviou um de seus terríveis guerreiros angélicos:
"Naquela mesma noite saiu o anjo de Iavé e exterminou no acampamento assírio
cento e oitenta e cinco mil homens” (4 Reis 19, 35).
Às vezes os combatentes celestes se juntam aos combatentes terrestres para dar-lhes a vitória, como se deu numa batalha
decisiva de Judas Macabeu:
“Mas, no mais forte do combate, apareceram do céu aos inimigos cinco homens em cavalos adornados de freios de
ouro, que serviam de guia aos judeus. Dois deles, tendo no meio de si Macabeu, cobrindo-o com suas armas, guardavam-no para que
andasse sem risco da sua pessoa; e lançavam dardos e raios contra
os inimigos, que iam caindo feridos de cegueira, e cheios de turbação.
Foram pois mortos vinte mil e quinhentos homens, e seiscentos cavalos” (2 Mac 10, 28-32).
O Senhor Deus dos exércitos envia igualmente seus guerreiros para livrar seus amigos das mãos dos ímpios:
“Deitaram (os judeus) as mãos sobre os Apóstolos e meteram-nos na cadeia pública. Mas um anjo do Senhor, abrindo
de noite as portas do cárcere, e, tirando-os para fora, disse: Ide, e , apresentando-vos no templo, pregai ao povo toda as
palavras desta vida” (At 5, 18-20).
“Herodes ... mandou também prender Pedro ... E eis que sobreveio um anjo do Senhor, e resplandeceu de luz no
aposento; e, tocando no lado de Pedro, o despertou, dizendo: Levanta-te depressa. E caíram as cadeias das suas mãos. E o anjo
disse-lhe: Toma a tua cinta, e calça as tuas sandálias. E ele fez assim.
E o anjo disse-lhe: Põe sobre ti a tua capa e segue-me. E ele, saindo, seguia-o, e não sabia que era realidade o que por intervenção do anjo, mas julgava ter uma visão. E,
depois de passarem a primeira e a segunda guarda, chegaram à porta
de ferro que dá para a cidade, a qual se lhes abriu por si mesma. E
saindo, passaram uma rua e, imediatamente, o anjo afastou-se dele: Então Pedro, voltando a si, disse: Agora sei verdadeiramente
que o Senhor mandou o seu anjo, e me livrou da mão de Herodes e
de tudo o que esperava o povo dos judeus” (At 12, 1-11).
O
próprio Salvador, para deixar claro aos Apóstolos que Ele sofria a Paixão por espontânea vontade, disse a São Pedro, que O
queria defender por meio da espada: “Julgaste por ventura que eu não
posso rogar a meu Pai, e que ele não me porá imediatamente aqui de doze legiões de anjos?” (Mt 26, 53).
Executores das vinganças de Deus
Esses guerreiros executam igualmente as vinganças de Deus:
Diante dos pecados dos sodomitas, Deus enviou seus anjos:
"Quanto aos homens que estavam à porta (da casa de Lot e queriam
abusar dos jovens que lá estavam), eles (os anjos) os feriram com cegueira, do menor ao maior, de modo que não
conseguiram achar a entrada “. “Os anjos disseram a Lot ... nós vamos
destruir este lugar pois é grande o clamor que se ergueu contra eles diante do Senhor. E o Senhor nos enviou para exterminá-los
(Gen 19, 10-13).
"Quando os mensageiros do rei Senaquerib blasfemaram contra ti,
teu anjo interveio e feriu cento e oitenta e cinco mil dos seus
homens". (1 Mac 7,41).
Herodes Agripa, que perseguira
São Pedro e matara São Tiago, foi "ferido pelo anjo do Senhor e comido de vermes”
(At 12, 23).
No fim do mundo:
"O Filho do homem enviará os seus anjos, e tirarão do seu reino
todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade. E lançá-los-ão na
fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes” ( Mt13, 41-42).
"Quando aparecer o Senhor Jesus (descendo) do céu com os anjos do seu poder, em uma chama de fogo, para tomar vingança
daqueles que não conheceram a Deus e que não obedecem ao Evangelho
de Nosso Senhor Jesus Cristo; os quais serão punidos com a perdição eterna longe da face do Senhor e da glória do seu
poder" (2 Tess 1, 7-9).
Mensageiros celestes
O próprio nome de anjos indica já sua função: enviados
ou mensageiros de Deus. Com efeito, o original hebraico do Antigo Testamento se refere a esses puros espíritos como mal´âk
yahweh, isto é, emissários de Deus. A versão grega utilizou a expressão
angelos, a qual foi por sua vez traduzida em latim por angelus,
palavra que serviu de base para as línguas ocidentais.
O Novo Testamento nos mostra a ação desses emissários de
Deus, comunicando aos homens as mais importantes mensagens divinas.
Assim, o arcanjo São Gabriel anuncia a Zacarias o nascimento do Precursor, São João Batista:
“Eu sou Gabriel, que assisto diante do trono de Deus e fui enviado para
falar-te e comunicar-te esta boa nova” (Lc 1,19).
O mesmo anjo anuncia à Santíssima Virgem o mistério da Encarnação: “Foi enviado o anjo Gabriel da parte de Deus
a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré, a uma virgem desposaca com um varão de nome José, da casa de David; e o nome da Virgem
era Maria” (Lc 1,26-27).
Um anjo aparece a São José em sonhos dando-lhe a conhecer também esse mistério:
“Eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos dizendo: José, filho de David, não temas receber
Maria como tua esposa, porque o que nela foi concebido é (obra) Espírito
Santo” (Mt 1,20).
A alegria do nascimento do Salvador foi anunciada pela aos pastores: “Ora naquela mesma região havia uns pastores
que velavam e faziam de noite a guarda ao seu rebanho. E eis que apareceu junto deles um anjo do Senhor, e a claridade de Deus
os cercou,, e tiveram grande temor. Porém o anjo disse-lhes: Não temais;
porque eis que vos anuncio uma grande alegria, que terá todo o povo. Nasceu-vos na cidade de David o Salvador, que é Cristo
Senhor. E eis o sinal: Encontrareis um menino envolto em panos deitado numa manjedoura. E subitamente apareceu com
o anjo uma multidão da milícia celeste louvando a Deus e dizendo:
Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,8-14).
Um
anjo aconselha à Sagrada Família fugir para o Egito por causa da perseguição de Herodes:
“Eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e lhe disse: Levanta-te, torna o menino e
sua mãe e foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise; porque
Herodes vai procurara menino para o matar” (Mt 2, 13).
Depois da morte de Herodes, o anjo torna a aparecer a São José: "Morto
Herodes, eis que o anjo do Senhor apareceu em sonho a José no Egito, dizendo: Levanta-te, toma o menino e sua
mãe, e vai para a terra de Israel, porque morreram os que procuravam
tirar a vida ao menino” (Mt 2, 19-20).
Consoladores e confortadores
Em diversos episódios, a Sagrada Escritura nos mostra os anjos no seu ministério de consoladores e confortadores dos homens
em dificuldades.
O profeta Elias, sendo perseguido pela ímpia rainha Jezabel (a qual introduzido em Israel o culto idolátrico de Baal), fugiu
para o deserto; ali, prostrado de desânimo e fadiga, adormeceu. “E um anjo do Senhor o tocou, e lhe disse: Levanta-te e
come". Elias abriu os olhos e viu junto de sua cabeça um pão e um
vaso de água; comeu e bebeu e tornou a adormecer. “E voltou segunda
vez o anjo do Senhor, e o tocou e lhe disse: Levanta-te e come, porque te resta um longo caminho “. O Profeta levantou-se, e bebeu e, revigorado, caminhou durante quarenta dias e
quarenta noites até o Monte Horeb, onde Deus iria manifestar-se a ele(3
Reis 19, 1-8).
Em sua vida terrena o próprio Salvador foi servido e confortado anjos.
Assim se deu após o prolongado jejum no deserto e a tentação do demônio:
“Então o demônio deixou-o; e eis que os anjos se aproximam e o serviam” (Mt 4, 11).
Na terrível agonia do Horto das Oliveiras, depois de Jesus exclamar: “Pai, se é do teu agrado, afasta de mim
este cálice “, o Padre enviou um anjo para confortá-Lo: “Então apareceu-lhe
um anjo do céu que o confortava” (Lc 22, 42-43).
Na Ressurreição “um anjo do Senhor desceu do céu e,
aproximando-se, revolveu a pedra, e estava sentado sobre ela; e o seu aspecto era como um relâmpago e as suas vestes brancas como
a neve”. E o mesmo anjo consolou as Santas Mulheres que haviam ido ao Sepulcro: “Não temais, porque sei que procurais a
Jesus que foi crucificado; ele já não está aqui, porque ressuscitou
como tinha dito” (Mt 28, 2-8).
Agentes de Deus para o governo do Universo
É por meio dos santos anjos que Deus exerce o governo do Universo.
Os Padres e Doutores da Igreja reconhecem nos anjos um grande poder, não só sobre as plantas e animais, mas até sobre o
próprio homem. A Sagrada Escritura fala-nos também do anjo que tem poder sobre o fogo (Apoc 14, 18), e daquele que manda nas
águas (Apoc 16, 5).
Santo Agostinho diz que cada espécie distinta, nos diferentes reinos da natureza, é governada pelo poder angélico.
Segundo São Tomás, Deus mesmo estabeleceu, até os mínimos detalhes, seu plano de governo do mundo. Mas ele confia a execução desse plano, em graus variados, primeiro aos anjos, depois
aos homens, segundo suas funções diversas, e por fim às outras criaturas.
Os anjos são os agentes da execução de Deus em todos domínios. Como Deus governa tudo, os anjos O ajudam e obedecem em tudo. Ele exerce seus desígnios no Cosmos pelo
ministério dos anjos. “E claro que as galáxias do céu, assim como as feras
das florestas e os pássaros que cantam para nós, e o trigo de nossos campos, os minerais e os gases, os prótons e os nêutrons sofrem
a ação dos anjos” comenta Mons. Cristiani. (Mgr L. CRISTIANI, Les Anges, ces inconus, p.
651.)
São Tomás é categórico a esse respeito: “Todas as corporais são governadas pelos anjos. E este é não somente o
ensinamento dos Doutores da Igreja, mas também de todos os filósofos"
( Suma contra Gentiles, lib. III, c. 1. )
E
o Cardeal Daniélou explica: “Trata-se pois de uma doutrina estabelecida
pela tradição e pela razão. E nós, de nossa parte, pensamos que o governo inteligente e forte do qual dá testemunho a
ordem do cosmos pode bem ter por ministros os espíritos celestes, em que
pese o racionalismo de alguns de nossos contemporâneos”. ( Apud Mgr L.
CRISTIANI, art. cit., p.651.)
Guias e protetores dos homens
Os anjos, apesar de sua excelsitude, por desígnio de Deus, são nossos amigos e companheiros. Eles nos protegem nas
necessidades, nos guiam nos perigos, nos sugerem continuamente bons propósitos,
atos de amor e submissão a Deus.
Pela sua importância, a doutrina sobre os Anjos da Guarda merece maior desenvolvimento.
É o que faremos em capítulo à parte.
Se o próprio Deus se serve continuamente dos anjos, não devemos nós
também recorrer sempre aos príncipes dos exércitos do Senhor,
aos mensageiros de Deus, invocando-os em todas as nossas
necessidades?
Os Anjos da Guarda
“Eis que eu enviarei o meu anjo,
que vá adiante de ti, e te guarde pelo caminho, e te introduza
no lugar que preparei". (Ex 23, 20-23)
DEUS, no seu amor infinito pelos homens, entregou cada um de nós à guarda e cuidado especial de um anjo, que
nos acompanha desde o nascimento até a morte: o Anjo da Guarda.
Essa doutrina foi sempre ensinada pela Igreja ( Cf. Catecismo Romano, Parte IV, cap. IX,
n. 4. ) e se baseia em testemunhos da Sagrada Escritura e da Tradição — Santos Padres,
Magistério Eclesiástico, Liturgia.
As Escrituras e os Santos Padres
O Antigo Testamento faz contínuas referências a esses anjos que nos servem de protetores. Mais do que nos ensinar explicitamente
tal verdade, parece dá-la por suposta em suas narrações.
Jacó ao abençoar seus netos, filhos de José, diz: “Que o anjo que me livrou de todo o mal, abençõe estes meninos”
(Gen 48, 16)
Nas palavras seguintes de Deus a Moisés encontramos os múltiplos ofícios que incumbem ao Anjo da Guarda, de proteção
e de conselho: “Eis que eu enviarei o meu anjo, que vá adiante de ti,
e te guarde pelo caminho, e te introduza no lugar que preparei. Respeita-o, e ouve a sua voz, e vê que não o desprezes; porque ele
não te perdoará se pecares, e o meu nome está nele. Se ouvirdes a sua voz, e fizerdes tudo o que te digo, eu serei inimigo dos teus
inimigos, e afligirei os que te afligem. E o meu anjo caminhará
adiante de ti" (Ex 23,20-23).
Por meio do profeta Baruc, Deus comunica a Israel: “Porque o meu anjo está convosco, e eu mesmo terei cuidado das vossas
almas" (Bar 6,6)
O Salmo 90 exprime, com muita poesia, a solicitude de Deus para conosco, por meio do Anjo da Guarda:
“O mal não virá sobre ti, e o flagelo não se aproximará da tua tenda. Porque mandou
(Deus) os seus anjos em teu favor, que te guardem em todos os teus
caminhos. Eles te levarão nas suas mãos, para que o teu pé não tropece
em alguma pedra” (SI 90, 10-12).
E outro Salmo proclama: “O anjo do Senhor assenta os seus acampamentos em volta dos que o temem, e os liberta” (SI 33, 8).
Lançado na cova dos leões, por intriga de invejosos, Daniel foi
socorrido por um anjo: “O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou as
bocas dos leões e estes não me fizeram mal algum” (Dan 6, 21).
Fala-se, no Livro dos Reis, de um exército de carros que cercavam o profeta Eliseu (4 Reis 6, 14-17). São Tomás vê aí
uma imagem do poder dos Anjos Custódios e a preponderância dos anjos
bons sobre os maus.
São inúmeras as passagens do Antigo Testamento que fazem referência à doutrina sobre os Anjos da Guarda. Em
nenhuma porém, a solicitude dos anjos para com os homens fica tão patente como no livro de
Tobias.* E por isso que ele é muito citado sempre que se trata da matéria.
*Este
livro da Sagrada Escritura é todo ele rico de ensinamentos sobre esta doutrina,
de maneira que não basta transcrever aqui uma ou outra passagem dele; assim, convida-mos
o leitor a lê-lo diretamente na Bíblia.
Esse ensinamento se torna mais preciso no Novo Testamento, onde a existência do Anjo da Guarda é confirmada pelo próprio
Salvador. Aos seus discípulos, advertindo-os contra os escândalos em relação
às crianças, diz: “Vêdes que não desprezeis a um só destes
pequeninos, pois eu vos declaro que os seus anjos vêem continuamente a
face de meu Pai que está nos céus” (Mt 18, 10). Essas palavras
deixam claro que mesmo as crianças pequenas têm seus Anjos Custódios, como também que estes anjos mantém a visão beatífica
de Deus ao descer à terra para atender e proteger a seus custodiados.
Também São Paulo se refere ao papel protetor dos anjos em relação aos homens:
“Não são eles todos espíritos a serviço de Deus mandados para exercer o ministério a favor dos que devem
obter a salvação?” (Heb 1, 14).
Os Santos Padres ensinam desde cedo essa doutrina.
São Basílio (329-379), entre os gregos, afirma: “Que cada qual tenha um anjo para o dirigir, como pedagogo e pastor, é o
ensinamento de Moisés” ( Apud Card.
J. DANIELOU, Les Anges et leur mission, p. 93. )
E, entre os latinos, São Jerônimo (342-420) assim comenta passagem de São Mateus (18, 10), acima citada, sobre os
anjos das crianças: “Isto mostra a grande dignidade das almas, pois cada
uma tem, desde o nascimento, um anjo encarregado de sua guarda" (Comm. in Evang. 5.
Matth., lib. III, ad cap. XVIII, 10 Apud Card. P. GA5PARRI Catechisme Catholique
pour Adultes, p. 346. )
A crença na existência e atuação dos Anjos da Guarda está tão firmemente estabelecida na tradição da Igreja, que desde tempos imemoriais foi instituída uma festa especial em louvor deles
(2 de outubro).
O ensinamento dos teólogos
A partir dos dados da Sagrada Escritura e da Tradição, teólogos foram explicitando ao longo dos séculos uma doutrina
sólida e coerente sobre os Anjos da Guarda.
O príncipe dos teólogos, São Tomás de Aquino, na sua célebre Suma Teológica,
(Suma Teológico, 1,q. 113.) expõe largamente essa doutrina.
O santo Doutor justifica a existência dos Anjos da Guarda pelo princípio de que Deus governa as coisas inferiores e variáveis
por meio das superiores e invariáveis. O homem não só é inferior ao
anjo, mais ainda está sujeito a instabilidades e variações por causa
fraquesa de seu conhecimento, das paixões, etc. Assim, ele é governado e amparado pelos anjos, que servem como instrumentos
da providência especial de Deus para com os homens.
A função principal do Anjo da Guarda é iluminar-nos em relação a
verdade, à boa doutrina; mas sua custódia tem também muitos efeitos, tais como reprimir os demônios e impedir que
nos sejam causados outros danos espirituais ou corporais.
Cada homem tem um anjo especialmente encarregado de guardá-lo, distinto
do das coletividades humanas de que façam parte. Estas têm anjos especiais para custodiá-las; enquanto os anjos
dos indivíduos pertencem ao último coro angélico, o das coletividades
ou instituições podem fazer parte dos coros e hierarquias superiores.
Como
há vários títulos pelos quais um homem necessita ser especialmente protegido (ou seja, considerado enquanto particular
ou como ocupando um cargo ou função na Igreja a ou na sociedade), um
mesmo homem pode ter vários anjos para custodiá-lo.
A Virgem Santíssima, Rainha dos Anjos, teve também não um, mas os Anjos da Guarda. Enquanto homem, Jesus teve Anjos
da Guarda; não evidentemente para protegê-Lo, pois o inferior não
guarda o superior, mas para servi-Lo.
Mesmo os infiéis têm Anjos da Guarda e até o Anti-Cristo o terá.
O
Anjo da Guarda nunca abandonará o homem, mesmo após a morte, se ele for para o Paraíso, pois a custódia angélica é parte da
providência especial de Deus para com o homem, o qual jamais estará
totalmente privado da providência divina.
Embora estejam normalmente no Céu, contemplando a Deus, os Anjos da Guarda conhecem tudo o que se passa na terra com
seus protegidos; podem, então, quase imediatamente, passar de um lugar ao
outro para protegê-los ou influenciá-los beneficamente.
Santo Agostinho pergunta: “Como podem os anjos estar longe, quando nos foram dados por Deus para ajudar-nos?” E responde:
“Eles não se apartam de nós, embora aquele que é assaltado
pelas tentações pense que estão longe”. (Apud A. J. MacINTYRE, Os anjos, urna realidade admirável
p. 321. )
Os Anjos Custódios nunca estão em oposição ou divergência real entre si. O relato bíblico da luta entre o anjo da Pérsia e
o anjo Protetor dos Judeus (cf. Dan 10, 13-21) em que o primeiro queria reter os hebreus na Babilônia e o segundo desejava conduzi-los
de volta à sua pátria encontra a seguinte explicação: às vezes Deus não revela aos anjos os méritos ou os deméritos das diversas
nações ou indivíduos que eles custodiam. Enquanto não conhecem com certeza a vontade divina, os Anjos da Guarda procuram,
santamente, proteger de todas as formas os que estão sob a sua proteção, mesmo contrariando os desejos de outros Anjos Custódios.
Mas logo que a vontade de Deus fica clara para eles, todos se submetem pressurosos, pois o que desejam sempre é fazer a vontade divina.
Do mesmo modo que os homens, também as instituições, os povos e os países contam com um anjo especialmente encarregado de velar por eles.
Essa doutrina tem base nas palavras da Sagrada Escritura, onde
é dito que um anjo conduzia o povo judeu pelo deserto (Ex 23,20),
e também na passagem já referida sobre a luta entre o anjo dos Judeus e o anjo dos Persas (Dan 10, 13-21).
É também o que ensina São Basílio: “Entre os anjos, uns são prepostos às nações; os outros são companheiros dos fiéis”.
( Apud Card. J. DANIELOU, Les Anges
et leur Mission, p. 93. )
São Miguel Arcanjo era o protetor de Israel enquanto povo eleito (Dan 10, 13-21); atualmente ele é o protetor do novo povo
de eleição, a Igreja. As aparições de Nossa Senhora em Fátima. foram precedidas pela do Anjo de Portugal.
Efeitos da custódia dos anjos
Os efeitos da custódia dos anjos são, uns corporais, outros espirituais, ordenados, uns e outros,
à salvação eterna do homem.
Os
efeitos são corporais, na medida em que impedem ou livram dos perigos ou males do corpo, ou auxiliam os homens nas
questões materiais, conforme consta no livro de Tobias (cap. 5 e seguintes). E
são espirituais, sempre que os anjos nos defendem contra os
demônios (Tob 8, 3); rezam por nós e oferecem nossas preces a Deus, tornando-as mais eficazes pelas sua intercessão (Apoc 8, 3; 12); nos sugerem bons pensamentos, incitando-nos assim a
fazer o bem (At 8, 26; 10, 3ss),* por meio de estímulos da
imaginação ou do apetite sensitivo; do mesmo modo, quando nos infligem
penas medicinais para nos corrigir (2 Reis 24, 16); ou ainda, na hora da morte, fortalecem-nos contra o demônio; os anjos
conduzem diretamente para o Céu as almas daqueles que morrem sem precisar
passar pelo Purgatório, e levam para o Paraíso as almas que já passaram pela purgação necessária; eles também visitam as
almas do Purgatório para as consolar e fortalecer, esclarecendo-as glória do céu, etc. *Há
vários exemplos disso na Sagrada Escritura:
Os Atos dos Apóstolos relatam a aparição de um anjo ao Centurião Cornélio, homem
religi oso e temente a Deus, para instruí-lo sobre como proceder para conhecer a
verdadeira religião: "Este (Cornélio) viu claramente numa visão. quase à noa, que um anjo
de Deus se apresentava diante dele, e lhe dizia: Cornélio ... as tuas ora ções e as tuas
esmolas subiram como memorial à presença de Deus. E agora envia homens a Jope a
cham ar um certo Simão que tem por sobrenome Pedro ... ele te dirá o que deves fazer"
(At 10, 1-6). E nos mesmos Atos se lê como um anjo inspira São Filipe Diácono a
desviar-se de seu caminho, para fazê-lo encontrar-se com o ministro da Rainha
Candace, da Et iópia, e batizá-lo, depois de instruí-lo na doutrina cristã (At 8,
26)
A custódia dos anjos nos livra de inúmeros perigos tanto para a alma como para o corpo. Entretanto, ela não nos livra de todas as
cruzes e sofrimentos desta vida, que Deus nos manda para nossa provação e purificação; nem daquelas tentações que Deus permite
para que mostremos nossa fidelidade. Porém eles sempre nos ajudam a tudo suportar com paciência e vencer com perseverança.
Às vezes parece que os anjos não nos estão atendendo; é preciso então
rezar com mais insistência até que esse socorro se perceba. Mas pode ocorrer de não sermos ouvidos, não porque faltem aos
anjos poder ou desejo de nos ajudar, mas é que aquilo que estamos pedindo não é o melhor para a nossa eterna salvação, que é
o que antes de tudo eles procuram.
Nossos deveres em relação aos Santos Anjos Custódio
São Bernardo resume assim nossos deveres em relação aos nossos Anjos da Guarda:
a. Respeito pela sua presença. Devemos evitar tudo o que pode contristar um espírito assim puro e santo. Sobretudo,
evitar o pecado.
“Como te atreverias — interpela o santo Doutor — a fazer na presença dos anjos aquilo que não farias estando eu diante de
ti?"
b. Confiança na sua proteção. Sendo tão poderoso e estando continuamente diante de Deus, e ao mesmo tempo
conhecendo as nossas necessidades, como não confiar na sua proteção? A
melhor maneira de provar essa confiança é recorrer a ele pela oração
nos momentos difíceis, especialmente nas tentações.
c. Amor e reconhecimento por sua proteção. Devemos amá-lo como a um benfeitor, um amigo e um
irmão, e ser agradecidos pela sua proteção diligentíssima.
“Sejamos, pois, devotos” — escreve o mesmo São Bernardo. “Sejamos agradecidos a guardiões tão dignos de apreço,
correspondamos a seu amor, honremos-lhe quanto possamos e quanto
devemos!” ( Apud Jesus VALBUENA O.P., Tratado del Gobierno del Mundo —
Introducciones, p. 930. )
A oração por excelência para invocar e honrar o Anjo da Guarda da é o Santo anjo do Senhor:
“Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, guarda, governa
e ilumina".
Os Três Gloriosos Arcanjos
"Eis que veio em meu socorro Miguel,
um dos primeiros príncipes".
(Dan 10, 13)
“Eu sou Gabriel, que assisto
diante (do trono) de Deus".
(Lc 1, 19,)
“Eu sou o anjo Rafael, um dos sete
que assistimos diante do Senhor”.
(Tob 12, 15)
A Igreja e o povo fiel veneram de modo especial os três gloriosos Arcanjos
— São Miguel, São Gabriel e São RafaeL
Embora eles sejam comumente chamados de Arcanjos, segundo teólogos e comentaristas das Escrituras, eles certamente
pertencem ao primeiro dos coros angélicos, o dos Serafins.
São Miguel: “Quem é como Deus?”
Em hebraico: mîkâ’êl, que significa: “Quem (é) como Deus?”
As Escrituras se referem nominalmente ao Arcanjo São Miguel em quatro passagens: duas delas na profecia de Daniel (cap. 10, 13
e 21; e ap. 12, 1); uma na Epístola de São Judas Tadeu (cap. único,
vers. 9 ) e finalmente no Apocalipse (cap. 12, 7-12).
No livro de Daniel o Santo Arcanjo aparece como “príncipe e
protetor de Israel”, que se opõe ao “príncipe” ou celestial protetor
dos persas.* Segundo São Jerônimo e outros comentadores, o anjo
protetor da Pérsia teria desejado que ficassem ali alguns judeus para
mais dilatarem o conhecimento de Deus; porém São Miguel teria desejado e pedido a Deus que todos os judeus voltassem logo
para a Palestina, a fim de que o templo do Senhor fosse reconstruído mais depressa. Essa luta espiritual entre os dois anjos
teria durado vinte e um dias.
* Nas escrituras os anjos são chamados com freqüêncía
príncipes.
São Judas, na sua Epístola, alude a uma disputa de São Miguel com o demônio sobre o corpo de Moisés: o glorioso
Arcanjo, por disposição de Deus, queria que o sepulcro de Moisés permanecesse oculto; o demônio, porém, procurava tomá-lo conhecido,
com o fim de dar aos judeus ocasião de caírem em idolatria, por
influência dos povos pagãos circunvizinhos.
No Apocalipse, São João apresenta São Miguel capitaneando os anjos bons em uma grande batalha no céu contra os
anjo rebeldes chefiados por Satanás, ali chamado dragão:
“E houve no céu unia grande batalha: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o dragão, e o dragão e seus anjos
pelejavam contra ele; porém, estes não prevaleceram, e o seu lugar não se
achou mais no céu. E foi precipitado aquele grande dragão, aquela antiga
serpente, que se chama demônio e Satanás, que seduz todo o mundo; e foi precipitado na terra, e foram precipitados com seus anjos”
(Apoc 12, 7-12).
A Igreja não definiu nada de particular sobre São Miguel, mas tem permitido que as crenças nascidas da tradição cristã a respeito do glorioso Arcanjo tenham livre curso na piedade dos fiéis
e na elaboração dos teólogos.
A primeira crença é a de que São Miguel era, no Antigo Testamento, o defensor do povo
escolhido — Israel; e hoje o é do novo povo escolhido — a Igreja. Tal piedosa crença está em consonância com o que é dito no livro de Daniel:
“Eis que veio em meu socorro Miguel, um dos primeiros príncipes. ... Miguel. que é o
vosso príncipe” — isto é, dos judeus (10, 13 e 21). “Se levantará o
grande príncipe Miguel, que é o protetor dos filhos do teu povo” — de Israel (12, 1). Essa crença é muito antiga, sendo já
confirmada pelo Pastor de Hermas, célebre livro cristão do século II,
no qual se lê: “O grande e digno Miguel é aquele que tem poder sobre
este povo” (os cristãos). Ademais, tal crença é partilhada pelos
teólogos e pela própria Igreja, que a manifesta de muitas maneiras.
A
segunda crença geral é a de que São Miguel tem o poder de admitir ou não as almas no Paraíso. No
Oficio Romano deste Santo no antigo Breviário, São Miguel era chamado de
“Praepositus paradisi” — “Guarda do paraíso”, ao qual o próprio Deus
se dirige nos seguintes termos: “Constitui te Principem super omnes
animais suscipiendas” — “Eu te constituí chefe sobre todas as
almas a serem admitidas”. E na Missa pelos defuntos rezava-se: "
Signifer Sanctus Michael representet eas in lucem sanctam” —
"O ' Porta-estandarte São Miguel, conduzi-as à luz santa”.
A terceira crença, ou melhor, opinião, é a de que São Miguel ocupa o primeiro lugar na hierarquia angélica. Sobre este
ponto há divergência entre os teólogos, mas tal opinião tem a seu
favor vários Padres da Igreja gregos e parece ser corroborada pela
liturgia latina, que se referia ao glorioso Arcanjo como "Princeps
militiae coelestis quem honorificant coelorum cives” —
"Príncipe da milicia celeste, a quem honram os habitantes do
Céu"; e pela liturgia grega que o chama “Archistrátegos “, isto é,
"Generalíssimo."
O grande comentador das Sagradas Escrituras, Pe. Cornélio a Lapide,
jesuíta do século XVI, escreve:
"Muitos julgam que Miguel, tanto pela dignidade de natureza, como de graça e de glória é absolutamente o primeiro e o
Príncipe de todos os anjos. E isso se prova, primeiro, pelo Apocalipse (12, 7), onde se diz que Miguel lutou contra Lúcifer e
seus anjos, resistindo à sua soberba com o brado cheio de humildade: 'Quem
(é) como Deus?’ Portanto, assim como Lúcifer é o chefe dos demônios, Miguel o é dos anjos, sendo o primeiro entre
os serafins. Segundo, porque a Igreja o chama de Príncipe da Milícia
Celeste, que está posto à entrada do Paraíso. E é em seu nome que
se celebra a festa de todos os anjos. Terceiro, porque Miguel é hoje ao
cultuado como o protetor da Igreja como outrora o foi da Sinagoga. Finalmente, em quarto lugar, prova-se que São Miguel é o
Príncipe de todos os anjos, e por isso o primeiro entre os Serafins,
porque diz São Basílio na Homilia De Angelis: ‘A ti, ó Miguel,
general dos espíritos celestes, que por honra e dignidade estais posto à
frente de todos os outros espíritos celestiais, a ti suplico...'
". ( Cornélio A LAPIDE, Commentaria in Scripturam Sacram, t. 13, pp. 112-114
)
O mesmo dizem inúmeros outros autores, entre os quais São Roberto
Bellarmino.
Na Idade Média, São Miguel era padroeiro especial das Ordens de
Cavalaria, que defendiam a Cristandade contra o perigo metano.
São Gabriel: “Força de Deus”
Em hebraico: gabrî’êl, que quer dizer: “Homem de Deus"
ou “Deus se mostrou forte” ou, ainda, “Força de Deus".
O próprio Arcanjo disse a Zacarias: “Eu sou Gabriel que assisto diante (do trono) de Deus” (Lc 1, 29). Isto leva a
crer que se trata de um dos primeiros espíritos angélicos. O já citado
Cornélio a Lápide argumenta do seguinte modo, para comprovar esta opinião:
1. Se os Serafins alguma vez são enviados por Deus em missão junto aos homens, um deles devia ser enviado à Mãe do Redentor para anunciar o insigne mistério da Encarnação do Verbo.
Não somente pela excelsitude de tal mistério, mas porque a Santíssima Virgem supera a todos os coros de anjos em dignidade e graça.
2. Ora, São Paulo, na Epístola aos Hebreus (1, 14), afirma que Deus pode enviar como mensageiro um anjo de qualquer
hierarquia: “Porventura não são todos esses espíritos uns ministros
( de Deus) enviados para exercer o seu ministério a favor daqueles que hão de receber a herança da salvação?”
3. Logo, deve-se crer que São Gabriel pertence à mais alta categoria angélica, isto é, ao coro dos Serafins.
( Cornélio A LAPIDE, Commentaria in Scripturam Sacram, t. 13, pp. 142-143
)
São Gabriel, o Anjo da Encarnação, é considerado igualmente como o
Anjo da Consolação e da Misericórdia; mas, de com o significado de seu próprio nome, representa o
poder de Deus. É por isso que as Escrituras, ao referir-se a ele, utilizam
expressões como poder, força, grande, poderoso (cf. Dan 8-10). A
tradição judáica atribuía a esse glorioso Arcanjo a destruição de Sodoma
( cf. Gen 19, 1-29), bem como o ter marcado com um Tau a fronte
dos eleitos (Ez 9, 4); e apresentava-o como o Anjo do Julgamento
Final.
A
tradição cristã vê nele o anjo que apareceu aos pastores para anunciar
o nascimento do Salvador (Lc 2, 8-14), e a São José, em sonhos, para explicar a concepção virginal de Maria
Santíssima (Mt 1,20). Teria sido ele também quem confortara Jesus em sua agonia
no Horto (cf. Hino de Laudes do dia 24 de março).
São Rafael: “Medicina de Deus”
Em hebráico: refâ’êl, cujo sentido — é igual a: “Deus curou”
ou "Medicina de Deus”.
Ele próprio revelou sua elevada hierarquia, depois de ajudar o jovem Tobias, que cria estar em presença de um simples homem:
"Eu sou o anjo Rafael, um dos sete (espíritos principais) que
assistimos diante do Senhor” (Tob 12, 15).
Cornélio a Lapide também considera o Arcanjo São Rafael Serafim. ( Cornélio A
LAPIDE, Commentaria in, Scripturam Sacram, t. 4, p. 282.)
Este insigne Arcanjo é protetor especial contra o demônio, padroeiro e guia dos viajantes, sanador dos enfermos.
Todos esses ofícios estão amplamente ilustrados no livro de Tobias: ele protege na viagem o jovem Tobias (caps. 5 a 10);
restitui a vista ao velho Tobias, mediante a aplicação do fel de um peixe
(cap. 11, 13-15); livra o jovem Tobias e Sara das insídias do demônio,
mediante a fumaça das vísceras do mesmo peixe, e encadeia o demônio no deserto do Egito (cap. 8, 2-3); apresenta as boas obras
e as orações do velho Tobias a Deus (cap. 12, 12).
Devoção aos Santos Anjos |