"O assassinato de João Paulo I"                  

 

Em nome de Deus

David Yallop

"O assassinato de João Paulo I"

Prefácio

Este livro, o produto de quase três anos de pesquisas intensivas, não existiria sem a ajuda ativa e a cooperação de muitas pessoas e organizações. Muitas delas só concordaram em ajudar sob a condição rigorosa de que não seriam publicamente identificadas. Como aconteceu em outros livros que escrevi anteriormente, em circunstâncias similares, respeito os seus desejos. Neste momento, há uma necessidade ainda maior de proteger suas identidades. Como ficará patente ao leitor, o assassinato é uma seqüela freqüente dos eventos aqui relatados.

Uma parcela considerável desses assassinatos permanece oficialmente sem solução. Ninguém deve duvidar de que os indivíduos responsáveis por essas mortes possuem a capacidade de assassinar novamente. Revelar os nomes dos homens e mulheres que me proporcionaram uma ajuda crucial e que agora correm um grande risco seria um ato de irresponsabilidade criminosa. Tenho com eles uma dívida particular. Os motivos para divulgarem uma ampla gama de informações foram muitos e variados, mas ouvi repetidamente o comentário: "A verdade deve ser revelada. Se você está disposto a contá-la, então que assim seja." Sinto- me profundamente grato a todos e também às seguintes pessoas, que classifico com o maior respeito como a ponta do iceberg: Professor Amedeo Alexandre, Professor Leonardo Ancona William Aronwald, Linda Attwell, Josephine Ayres, Dr. Alan Bailey, Dr. Shamus Banim, Dr. Derek Barowcliff, Pia Basso, Padre Albe BeIli, Cardeal Giovanni Beneili, Marco Borsa, Vittore Branca, David Buckley, Padre Roberto Busa, Dr. Renato Buzzonetti, Roberto Calvi, Emilio Cavaterra, Cardeal Mario Ciappi, Irmão Clemente, Joseph Coffey, Annaloa Copps, Rupert Cornwall, Monsenhor Ausilio Da Rif, Dr. Giuseppe Da Ros, Maurizio De Luca, Danielli Doglio, Monsenhor Mafeo Ducoli, Padre François Evain, Cardeal Pericle Felici, Padre Mario Ferrarese, Professor Luigi Fontana, Mario di Francesco, Dr. Cano Frizziero, Professor Piero Fucci, Padre Giovanni Gennari, Monsenhor Mario Ghizzo, Padre Carlo Gonzalez, Padre Andrew Greeley, Diane Haíl, Dr. John Henry, Padre Thomas Hunt, William Jackson, John J. Kenney, Peter Lemos, Dr. David Levison, Padre Diego Lorenzi, Edoardo Luciani, William Lynch, Ann McDiarmid, Padre John Magee, Sandro Magister, Alexander Manson, Professor Vincenzo Masini, Padre Francis Murphy, Anna Nogara, Monsenhor Giulio Nicolini, Padre Gerry O’Collins, Padre Romeo Panciroli, Padre Gianni Pastro, Lena Petni, Nina Petri, Professor Pier Luigi Prati, Professor Giovanni Rama, Roberto Rosone, Professor Fausto Rovelli. Professor Vincenzo Ruili, Ann Ellen Rutherford, Monsenhor Tiziano Scalzotto, Monsenhor Mario Senigaglia, Arnaldo Signoracci, Ernesto Signoracci, Padre Bartolomeo Sorges, Lorana Sullivan, Padre Frances- co Taifarel, Irmã Vincenza, Professor Thomas Whitehead, Phillip Willan.

Também agradeço às seguintes organizações: Residência Agostiniana, Roma, Banco San Marco, Banco da Inglaterra, Banco para Pagamentos Internacionais, Basiléia, Banco da Itália, Biblioteca Católica Central, Catholic Truth Society, Departamento de Polícia da Cidade de Londres, Departamento de Comércio, Biblioteca de Estatística e Mercado, o English College, Roma, Bureau Federal de Investigações a Universidade Gregoriana, Roma, New Cross Hospital Poisons Unit, Opus Dei, a Sociedade Farmacêutica da Grã-Bretanha, Tribunal do Distrito de Nova York, Tribunal de Luxemburgo, Departamento de Estado Norte-Americano, Imprensa Oficial do Vaticano, e Rádio do Vaticano.

Entre aqueles a quem não posso agradecer publicamente estão os residentes na Cidade do Vaticano, que me procuraram e me iniciaram na investigação dos acontecimentos envolvendo a morte do Papa João Paulo I, Albino Luciani. O fato de que homens e mulheres que vivem no coração da Igreja Católica não podem falar abertamente e ser identificados é um comentário eloqüente sobre a situação no Vaticano. Não tenho a menor dúvida de que este livro será atacado por alguns e rejeitado por outros. Será encarado por muitos como uma agressão à fé católica em particular e ao cristianismo em geral. Mas não é nada disso. Até certo ponto, é uma acusação a homens especificamente indicados, que nasceram católicos, mas nunca foram cristãos. Como tal, este livro não ataca "A Fé" dos milhões de devotos da Igreja, pois, o que eles consideram sagrado é muito importante para deixarem nas mãos de homens que conspiraram para arrastar a mensagem de Cristo para a lama — uma conspiração que alcançou um tenebroso sucesso. Como já expliquei antes, tenho uma dificuldade insuperável quando confrontado com a tarefa de revelar fontes específicas para fatos e detalhes específicos. Não posso revelar quem exatamente me disse o quê, uma vez que as fontes de informações devem permanecer secretas. Mas posso garantir ao leitor que todas as informações, fatos e detalhes foram conferidos pelo menos duas vezes, não importando qual fosse a fonte. Se houver qualquer erro a responsabilidade é toda minha. Tenho certeza de que haverá comentários porque relato conversas de homens que morreram antes de minhas investigações começarem. Como eu poderia saber, por exemplo, o que se passou entre Albino Luciani e o Cardeal Villot no dia em que discutiram a questão do controle da natalidade? Não existe no Vaticano uma audiência particular que permaneça absolutamente particular. Os dois homens simples- mente conversaram depois com outros a respeito. Essas fontes secundárias, às vezes com opiniões pessoais profundamente divergentes sobre a questão discutida pelo Papa e seu Secretário de Estado, proporcionaram a base para as palavras atribuídas. Nenhum dos diálogos neste livro é fruto da imaginação, assim como os eventos aqui transcritos.

                                                      Abril de 1984 DAVID A. YALLOP


 

Prólogo

O líder espiritual de quase um quinto da população mundial manipula um imenso poder. Mas qualquer observador desinformado de Albino Luciani, no início de seu pontificado como Papa João Paulo 1, acharia difícil acreditar que aquele homem realmente encarnava tanto poder. A timidez e humildade emanando daquele pequeno e quieto italiano de 65 anos levaram muitos a concluir que o seu papado não seria particularmente notável. Os bem-informados, no entanto, sabiam que não era bem assim: Albino Luciani iniciara uma revolução.

A 28 de setembro de 1978 ele era Papa há 33 dias. Em pouco mais de um mês, lançara-se por diversos cursos de ação que, se prosseguidos, teriam um efeito direto e dinâmico sobre todos nós. A maioria aplaudiria suas decisões, uns poucos ficariam assustados. O homem que fora rapidamente chamado de "O Papa Sorriso" tencionava remover os sorrisos de diversos rostos no dia seguinte.

Naquela noite, Albino sentou para comer na sala de jantar no terceiro andar do Palácio Apostólico, na Cidade do Vaticano. Tinha a companhia de seus dois secretários, Padre Diego Lorenzi, que trabalhara como ele em Veneza por mais de dois anos, quando Luciani, como cardeal, ali fora Patriarca, e Padre John Magee, que assumira o posto recentemente, depois da eleição papal. Enquanto as freiras que trabalhavam nos aposentos papais pairavam ansiosamente pelas proximidades, Albino Luciani comeu uma refeição frugal, de sopa, vitela, vagens frescas e um pouco de salada. Bebia ocasionalmente um gole de água e pensava nos acontecimentos do dia e nas decisões que tomara. Não queria a posição. Não procurara nem solicitara votos para ser o novo Papa. Agora, como Chefe de Estado, tinha de assumir as terríveis responsabilidades.

Enquanto as Irmãs Vincenza, Assunta, Clorinda e Gabrietta serviam silenciosamente os três homens, que assistiam ao noticiário pela televisão sobre os acontecimentos que preocupavam a Itália naquela noite, outros homens, em outros lugares, preocupavam-se profundamente com as atividades de Albino Luciani.

As luzes ainda se achavam acesas um andar abaixo dos aposentos papais, no Banco do Vaticano. Seu diretor, o Bispo Paul Marcinkus, estava absorvido por problemas mais prementes que o seu Jantar. Nascido em Chicago, Marcinkus aprendera tudo sobre a sobrevivência nas ruas de Cicero, em Illinois. Durante a sua meteórica ascensão à posição de "Banqueiro de Deus", sobrevivera a muitos momentos de crise. Confrontava-se agora com a crise mais séria que já lhe surgira. Nos últimos 33 dias, seus colegas no banco haviam notado uma mudança intensa no homem que controlava os milhões do Vaticano. O extrovertido americano de 1,90m de altura, 100 quilos de peso, tornara-se soturno e introspectivo. Estava visivelmente emagrecendo e seu rosto adquirira uma palidez extrema. Sob muitos aspectos, a Cidade do Vaticano é uma aldeia... e é muito difícil se guardar segredos numa aldeia. Marcinkus tomara conhecimento dos rumores de que o novo Papa iniciara discretamente uma investigação pessoal do Banco do Vaticano e especificamente dos métodos usados pelo bispo americano em sua condução. Por muitas vezes, desde o advento do novo Papa, Marcinkus lamentara o negócio em 1972 com o Banca Cattolica del Veneto.

O Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Jean Villot, era outro que ainda se achava em seu gabinete de trabalho naquela noite de setembro. Estudava a lista de nomeações, renúncias a serem pedidas e transferências, que o Papa lhe entregara uma hora antes. Villot aconselhara, argumentara e protestara, mas tudo em vão. Luciani se mostrara intransigente.

Era uma reformulação dramática, por quaisquer padrões. Lançaria a Igreja por novos rumos, que Villot e os outros na lista, prestes a ser substituídos, consideravam altamente perigosos. Quando aquelas mudanças fossem anunciadas, haveria a respeito milhões de palavras escritas e pronunciadas nos meios de comunicação do mundo inteiro, analisando, dissecando, profetizando, explicando. A verdadeira explicação, no entanto, não seria discutida, jamais seria oferecida ao conhecimento público. Havia um denominador comum, um fato que ligava todos os homens que estavam em vias de ser substituídos, Villot sabia disso. E o que era mais importante, o Papa também sabia. Fora um dos fatores que o levaram a agir, a necessidade de despojar aqueles homens de poder concreto e colocá-los em posições relativamente inofensivas. Era a Maçonaria.

Mas não era a Maçonaria convencional que preocupava o Papa, embora a filiação a essa sociedade fosse considerada pela Igreja motivo para excomunhão automática. Sua preocupação maior era com a loja maçônica ilegal que se expandiria além das fronteiras da Itália em sua busca de dinheiro e poder, denominando-se P2. O fato de ter penetrado no Vaticano e estabelecido vínculos com padres, bispos e até mesmo cardeais fez da P2 um anátema para Albino Luciani.

Villot já começara a ficar profundamente preocupado com aquele novo papado antes mesmo daquela última bomba. Era um dos poucos que tinha conhecimento do diálogo ocorrendo entre o Papa e o Departamento de Estado, em Washington. Sabia que, a 23 de outubro, o Vaticano receberia uma delegação do Congresso americano. No dia seguinte, essa delegação teria uma audiência particular com o Papa. O assunto seria o controle da natalidade.

Villot estudara cuidadosamente o dossiê do Vaticano sobre Albino Luciani. Também lera o memorando secreto que Luciani, então Bispo de Vittorio Veneto, enviara a Paulo VI, antes da encíclica Humanae Vitae, que proibira aos católicos todas as formas artificiais de controle da natalidade. Suas próprias discussões com Luciani não deixavam margem a qualquer dúvida sobre a posição do novo Papa na questão. Villot também não tinha qualquer dúvida sobre o que Luciani tencionava fazer. Haveria uma mudança de posição que alguns classificariam de traição a Paulo VI, enquanto muitos aclamariam como a maior contribuição da Igreja ao século XX.

Em Buenos Aires , outro banqueiro estava pensando em João Paulo I naquele final de setembro. Nas semanas anteriores, discutira os assuntos propostos pelo novo Papa com seus protetores, Licio Gelli e Umberto Ortolani, dois homens que podiam incluir, entre suas muitas atividades, o completo controle sobre Roberto Calvi, Presidente do Banco Ambrosiano. Calvi já estava sobrecarregado de problemas, antes mesmo da eleição papal que colocou Albino Luciani no trono de São Pedro. O Banco da Itália investigava secretamente o banco de Calvi em Milão desde abril. Era uma investigação impelida por uma misteriosa campanha contra Calvi, que começara ao final de 1977. Os cartazes forneciam informações sobre algumas das atividades criminosas de Calvi e sugeriam outras tantas.

Calvi conhecia exatamente o progresso da investigação do Banco da Itália. Sua amizade Intima com Licio Gelli lhe garantia um relato diário. Estava igualmente a par da investigação papal no Banco do Vaticano. Como Marcinkus, sabia que era apenas uma questão de tempo antes que as duas investigações independentes compreendessem que sondar um daqueles impérios financeiros era sondar a ambos. Estava fazendo tudo, na extensão do seu poder considerável, para frustrar a investigação do Banco da Itália e proteger o seu império financeiro, do qual se achava no processo de roubar mais de um bilhão de dólares.

Uma análise cuidadosa da situação de Roberto Calvi em setembro de 1978 deixa absolutamente claro que, se o Papa Paulo VI fosse sucedido por um homem honesto, o banqueiro sofreria a ruína total, o colapso de seu império financeiro e certamente a prisão. E não havia a menor dúvida de que Albino Luciani era um homem assim.

Em Nova York , o banqueiro siciliano Michele Sindona também acompanhava ansiosamente as atividades do Papa João Paulo 1. Havia mais de três anos que Sindona lutava contra as tentativas do governo italiano de extraditá-lo. Queriam que ele fosse levado a Milão para enfrentar a acusação de desvio fraudulento de 225 milhões de dólares. Em maio daquele ano, parecia que Sindona finalmente perdera a longa batalha. Um juiz federal americano decidira que o pedido de extradição deveria ser atendido.

Sindona permanecera em liberdade, sob uma fiança de três milhões de dólares, enquanto seus advogados se preparavam para uma última cartada. Exigiram que o governo dos Estados Unidos provasse que havia motivos concretos para justificar a extradição. Sindona assegurava que as acusações levantadas contra ele pelo governo italiano eram obra de comunistas e outros políticos de extrema esquerda. Seus advogados também afirmavam que o promotor de Milão escondera provas da inocência de Sindona e que seu cliente quase que certamente seria assassinado ou recambiado à Itália. A audiência estava marcada para novembro.

Naquele verão, em Nova York , havia outras pessoas igualmente ativas por conta de Michele Sindona. Um membro da Máfia, Luigi Ronsisvaíle, um assassino profissional, ameaçava de morte a testemunha Nicola Biase, que anteriormente prestara depoimento contra Sindona no processo de extradição. A Máfia também expedira um contrato contra a vida de John Kenney, assistente de promotor federal, que atuava no processo. O preço que se oferecia pela morte do promotor era de 100 mil dólares.

Se o Papa João Paulo I continuasse a investigar os negócios do Banco do Vaticano, então não adiantariam todos os contratos da Máfia para evitar que Sindona fosse extraditado de volta à Itália. A teia de corrupção no Banco do Vaticano, que incluía a legalização do dinheiro da Máfia por seu intermédio, ia muito além de Calvi, estendendo-se até Michele Sindona.

Em Chicago, outro Príncipe da Igreja Católica preocupava-se e irritava-se com os acontecimentos na Cidade do Vaticano. Era o Cardeal John Cody, chefe da arquidiocese mais rica do mundo. Cody reinava sobre dois e meio milhões de católicos e quase três mil sacerdotes, sobre 450 paróquias e uma receita anual que ele se recusava a revelar em sua totalidade a quem quer que fosse. Estava na verdade acima dos 250 milhões de dólares. O sigilo fiscal era um dos problemas que atormentavam Cody. Ele já dominava Chicago há 13 anos em 1978.

Durante esse período, os pedidos para sua substituição haviam alcançado proporções extraordinárias. Padres, freiras, trabalhadores leigos e pessoas de muitas profissões seculares solicitaram a Roma, aos milhares, o afastamento de um homem que consideravam um déspota.

O Papa Paulo se angustiara por anos com a perspectiva de remoção de Cody. Pelo menos em uma ocasião reuniu coragem suficiente e tomou a decisão, só para revogar a ordem no último momento. A personalidade complexa e torturada de Paulo era apenas parte do motivo para a vacilação. Paulo sabia que havia outras alegações contra Cody, secretas, com provas substanciais, que indicavam a necessidade urgente de substituir o Cardeal de Chicago.
Ao final de setembro, Cody recebeu um telefonema de Roma. A aldeia que era a Cidade do Vaticano deixara transpirar outra informação — e o Cardeal Cody sempre pagara muito bem por informações importantes, ao longo dos anos. O interlocutor avisou-o de que, onde o Papa Paulo se angustiara na indecisão, seu sucessor João Paulo agira. O Papa decidira que o Cardeal Cody seria substituído.

Mais de três desses homens pelo menos se ocultavam na sombra de outro, Licio GeIli. Chamavam-no "11 Burattinaio" — o titereiro. Os títeres eram muitos e se espalhavam por vários países. Controlava a P2 e, através dela, a Itália. Em Buenos Aires , a cidade onde discutira com Calvi o novo Papa, o titereiro organizou a triunfante volta do General Perón ao poder — um fato que Perón subseqúentemente reconheceu ao ajoelhar-se aos pés de Gelli. Se Marcinkus, Sindona ou Calvi estavam ameaçados pelos vários cursos de ação planejados por Albino Luciani, era de interesse para Licio Gelli que tais ameaças fossem removidas.

É mais do que evidente que, a 28 de setembro de 1978, todos esses homens, Cody, Marcinkus, Villot, Calvi, Sindona e Gelli tinham muito a temer se o papado de João Paulo 1 continuasse. E igualmente evidente que todos eles teriam muito a ganhar, por diversas maneiras, se o Papa João Paulo 1 morresse subitamente.

Foi o que aconteceu, em algum momento entre o final da noite de 28 de setembro de 1978 e o início da madrugada de 29 de setembro de 1978, 33 dias depois de sua eleição, Albino Luciani morreu.

Hora da morte: desconhecida. Causa da morte: desconhecida.

Estou convencido de que os fatos totais e as circunstâncias completas descritas nas páginas subsequentes contêm a chave para a verdade sobre a morte de Albino Luciani. Estou igualmente convencido de que um desses seis homens já iniciara, no começo da noite de 28 de setembro de 1978, um curso de ação para resolver os problemas apresentados pelo pontificado de Albino Luciani. Um desses homens se encontrava por trás de uma conspiração que aplicou a Solução Italiana.

Albino Luciani fora eleito Papa a 26 de agosto de 1978. Pouco depois do Conclave, o cardeal inglês, Basil Hume disse: — A decisão foi inesperada. Mas depois que aconteceu, parecia total e inteiramente certa. O sentimento de que ele era justamente o que desejávamos foi tão generalizado que compreendemos que ele era, inegavelmente, o candidato de Deus.

Trinta e três dias depois o candidato de Deus morreu.

O que se segue é o resultado de três anos de investigações contínuas e intensivas sobre essa morte.

 


Os Trinta e Três Dias

Quando Albino Luciani abriu as janelas dos aposentos papais, 24 horas depois de sua eleição, o gesto simbolizou todo o seu Pontificado. Ar fresco e os raios do sol penetraram por uma Igreja Católica que se tomara cada vez mais escura e sombria durante os últimos anos de Paulo VI.

Luciani, que se descrevera com franqueza durante os seus dias em Veneza, “Sou apenas um homem pobre, acostumado às coisas pequenas e ao silêncio”, descobria-se agora obrigado a se confrontar com a, grandeza do Vaticano e as intrigas da Cúria. O filho de um pedreiro era agora o Chefe Supremo de uma religião cujo fundador tora o filho de um carpinteiro.

Muitos dos especialistas em Vaticano, que nem sequer levaram em consideração a possibilidade da eleição de Luciani, aclamaram-no como “O Papa Desconhecido”. Ele era bastante conhecido por 99 cardeais para que lhe confiassem o futuro da Igreja, a um homem sem qualquer treinamento diplomático ou experiência curial. O número considerável de cardeais da Cúria fora rejeitado. Em suma, toda a Cúria fora rejeitada, em favor de um homem quieto e humilde, que prontamente anunciou que preferia ser chamado de Pastor ao invés de Pontífice. As aspirações de Luciani logo se tomaram claras: uma revolução total. Estava determinado a levar a Igreja de volta a suas origens, de volta à simplicidade, honestidade, ideais e aspirações de Jesus Cristo. Outros antes dele tiveram o mesmo sonho, apenas para que a realidade do mundo, conforme impingida por seus conselheiros, acabasse prevalecendo. Como poderia aquele homem pequeno e modesto realizar sequer os primórdios da transformação material e espiritual que seria necessária?

Ao elegerem Albino Luciani, os cardeais fizeram diversas declarações profundas sobre o que queriam e o que não queriam. Claramente, não queriam um Papa reacionário, que poderia deixar sua marca no mundo com exemplos desconcertantes de intelectualismo incompreensível. Pareceria que haviam buscado causar um impacto no mundo ao elegerem um homem cuja bondade, sabedoria e humildade exemplar seriam manifestas a todos. No caso, foi justamente o que conseguiram. Um pastor empenhado nos cuidados pastorais.

Seu novo nome foi considerado muito comprido pelos romanos que prontamente passaram a tratá-lo de forma mais intima como “Gianpaolo”, uma corruptela que o Papa aceitou alegremente e adotou para assinar cartas, apenas para tê-las devolvidas pelo Secretário de Estado Villot, a fim de serem corrigidas para o titulo formal. Uma dessas cartas, escrita pessoalmente por Luciani, foi para agradecer aos agostinianos pela hospitalidade antes do Conclave. Esse ato simples era típico do homem. Dois dias depois de eleito Papa, tomando-se o líder espiritual de mais de 800 milhões de católicos, Luciani encontrava tempo para agradecer a seus antigos anfitriões.

Outra carta, escrita no mesmo dia, era mais sombria. Escrevendo a um padre italiano, cujo trabalho admirava, Luciani revelou estar consciente do fardo que agora lhe pertencia exclusivamente. “Não sei como pude aceitar. Já estava arrependido no dia seguinte, mas a esta altura era tarde demais.” Um dos seus primeiros atos, ao entrar nos aposentos papais, fora telefonar para sua terra natal no norte. Falou com um atônito Monsenhor Ducoli, um antigo amigo e colega de trabalho, agora Bispo de Beiluno. Disse ao bispo que sentia “saudade da minha gente”. Depois, falou com o irmão Edoardo, “Veja só o que me aconteceu”. Foram atos particulares; outros, de natureza mais pública, despertariam a imaginação do mundo.

Para começar, havia o seu sorriso. Somente com essa expressão facial de alegria, ele comoveu milhões de pessoas. Era impossível não simpatizar com o homem e experimentar uma sensação agradável. Paulo VI, com sua angústia, afastara milhões de pessoas. Albino Luciani inverteu dramaticamente a tendência. Recuperou o interesse do mundo pelo Pontificado. E quando o mundo escutou o que havia por trás daquele sorriso, o interesse aumentou. O sorriso nao pode ser encontrado em qualquer livro que alega tornar o leitor um cristão melhor, mas eficazmente projetava a alegria que aquele homem descobrira no cristianismo. O que Luciani demonstrou, numa extensão jamais conhecida antes em qualquer Papa , foi a capacidade de se comunicar, quer pessoalmente ou pelo rádio, imprensa e televisão. Era um trunfo jamais sonhado para a Igreja Católica.

Luciani era uma lição objetiva de como vencer a batalha pelo coração, mente e alma da humanidade. Pela primeira vez na memória viva, um Papa falava a seu povo numa maneira e estilo que todos podiam compreender. O suspiro de alívio dos fiéis foi quase audível. Os murmúrios de satisfação continuaram por todo o veranico de 1978. Luciani começou a levar a Igreja pela longa caminhada de volta ao Evangelho.

O público rapidamente converteu esse homem carismático num tremendo sucesso. Os observadores do Vaticano simplesmente não sabiam como analisá-lo. Ofereceram opiniões imediatas e doutas sobre a escolha do nome papal, falando em “continuidade simbólica”. Luciani involuntariamente demoliu tudo isso no primeiro domingo, ao dizer “João me fez um bispo, Paulo me fez um cardeal”. Não havia muita continuidade simbólica ai. Os especialistas escreveram artigos especulativos sobre o que o novo Papa poderia fazer ou deixar de fazer nas mais variadas questões. Uma parcela considerável dessas especulações se tomara supérflua por um comentário do Papa João Paulo, em seu primeiro discurso:

— Desejo dedicar ao Concilio Vaticano Segundo meu total ministério, como padre, como mestre, como pastor...

Não havia mais necessidade de especular; bastava consultar as diversas conclusões do Concilio.

No domingo, 10 de setembro, perante uma Praça de São Pedro apinhada, Luciani falou em Deus e disse:

— Ele é nosso Pai; mais do que isso, é nossa Mãe.

Os especialistas italianos do Vaticano, em particular, ficaram frenéticos. Num pais notório por seu machismo, sugerir que Deus era uma mulher foi julgado por alguns como a confirmação do fim do mundo. Houve muitos debates ansiosos sobre esse quarto membro da Trindade até que Luciani, gentilmente, informou que citara Isaías. A Mãe Igreja, dominada pelos homens, relaxou.

Antes, a 6 de setembro, durante uma Audiência Geral, membros do círculo papal, agitando-se em tomo do Santo Padre de uma maneira que lembrava moscas irritantes ao redor de um cavalo, exibiram publicamente o seu embaraço, enquanto Luciani mantinha 15 mil pessoas completamente fascinadas. Entrando quase a correr no Salão Nervi, inteiramente lotado, ele falou sobre a alma. Não havia nada de extraordinário nisso. Excepcionais foram apenas a maneira e o estilo.

Um homem foi comprar um carro novo na revendedora. O vendedor deu-lhe alguns conselhos: “É um carro excelente, mas deve tratá-lo corretamente. Ponha a melhor gasolina no tanque, o melhor óleo no motor.” Ao que o cliente respondeu: “E impossível. Não suporto o cheiro de gasolina e óleo. Encherei o tanque com champanha, que me agrada muito mais, farei a lubrificação com geléia.” O vendedor deu de ombros. “Faça como quiser, mas depois não venha se queixar se terminar numa vala com o carro. O Senhor fez uma coisa similar conosco: deu-nos este corpo, animado por uma alma inteligente, uma boa vontade. Disse que esta máquina é boa, mas deve ser bem tratada.

Enquanto a elite do Vaticano estremecia por tal profanidade, Albino Luciani sabia perfeitamente que suas palavras eram transmitidas ao mundo inteiro. Espalhe bastante sementes, algumas germinarão. Ele fora presenteado com o mais poderoso púlpito da terra. O uso que fez dessa dádiva foi profundamente comovente. Muitos na Igreja falam ad nauseam das “Boas novas do Evangelho”, enquanto dão a impressão de que comunicam aos ouvintes desastres absolutos. Quando Luciani falava em boas novas, era evidente por toda a sua atitude que se tratava mesmo de boas novas.

Em diversas ocasiões, Luciani tirou um menino do coro para partilhar o microfone com ele, ajudando-o não apenas com a audiência dentro do Salão Nervi. mas também com a audiência mas vasta lá fora. Outros líderes mundiais eram propensos a pegar crianças no colo e beijá-las. Mas ali estava um homem que falava com as crianças e, o que era ainda mais extraordinário, escutava e respondia ao que tinham a dizer.

Ele citava Mark Twain, Jules Verne e o poeta italiano Trissula. Falava de Pinóquio. Já tendo comparado a alma a um carro, fez então uma analogia entre a oração e o sabonete.

A oração bem usada seria um sabonete maravilhoso, capaz de transformar todos nós em santos. Não somos todos santos porque não temos usado esse sabonete o suficiente.

A Cúria estremecia, particularmente determinados bispos e cardeais. O público escutava.

Poucos dias depois da eleição, ele enfrentou mais de mil representantes da imprensa internacional. Censurou-os de maneira gentil por se concentrarem excessivamente nos aspectos triviais do Conclave e não no seu verdadeiro significado, mas reconheceu que o problema deles não era novo e recordou o conselho que um editor italiano dera a um de seus repórteres:

Lembre-se de que o público não quer saber o que Napoleão III disse a Guilherme da Prússia. Quer saber se ele usava calça bege ou vermelha e se fumava um charuto.

Luciani obviamente sentia-se à vontade com os repórteres. Comentara mais de uma vez, ao longo de sua vida, que teria sido jornalista se não fosse um padre. Seus dois livros e numerosos artigos indicam um talento que poderia se comparar ao de muitos correspondentes presentes. Recordando o comentário do falecido Cardeal Mercier, de que o Apóstolo Paulo seria um jornalista se estivesse vivo hoje, o novo Papa demonstrou uma profunda compreensão da importância dos diversos meios de comunicação na ampliação do possível papel moderno do Apóstolo:

— Não apenas um jomalista. Possivelmente chefe da Reuters. Não apenas chefe da Reuters, acho que ele pediria tempo no ar na televisão italiana e na NBC.

Os correspondentes adoraram. A Cúria não achou muito engraçado. Todos os comentários acima referidos foram omitidos da transcrição oficial do discurso. O que permanece para a posteridade é um discurso insípido preparado de antemão, escrito por autoridades do Vaticano, do qual o Papa se afastou muitas vezes, um testemunho mudo e inacurado do espírito e personalidade de Albino Luciani. Essa censura do Vaticano ao Papa tornou-se um fato constante durante o mês de setembro de 1978.

Ilustrissimi, a coletânea de suas cartas aos famosos, era encontrada em forma de livro na Itália desde 1976. Fora um grande sucesso. Agora, com seu autor se tornando o líder de 800 milhões de católicos, o potencial comercial não passou despercebido ao mundo editorial. Executivos começaram a aparecer nos escritórios de Il Messaggero, em Pádua. O mensário católico estava sentado na proverbial mina de ouro, menos os royalties do autor. Para o autor, a verdadeira recompensa era saber que as idéias e comentários das cartas seriam lidos por uma audiência mundial. O fato de que só seriam lidos porque ele se tornara Papa não tinha a menor importância para Luciani. Mais sementes eram espalhadas. Mais germinariam.

Um dos melhores resultados da eleição do novo Papa, que se tornou patente nos dias subsequentes ao Conclave, foi que os intérpretes, observadores, especialistas e analistas do Vaticano se tornaram redundantes. Só era necessário uma reprodução literal. Havendo isso, as intenções do novo Papa eram bastante claras.

A 28 de agosto, foi anunciado o início de sua revolução papal. Assumiu a forma de uma declaração do Vaticano de que não haveria coroação, pois o novo Papa se recusava a ser coroado. Não haveria a sedia gestato ria, a cadeira em que se carregava o Papa, não haveria tiara cravejada de esmeraldas, rubis, safiras e diamantes. Não haveria penas de avestruz, não haveria a cerimônia de seis horas. Em suma, foi abolido o ritual com que a Igreja demonstrava que ainda ansiava pelo poder temporal. Albino Luciani fora obrigado a se empenhar numa longa e tediosa discussão com os tradicionalistas do Vaticano antes que sua vontade prevalecesse. Luciani, que jamais usou o real “nós”, a primeira pessoa do plural monárquica, decidira que o Pontificado real, com suas ostentações de grandeza temporal, seria substituído por uma Igreja que mais se assemelhasse aos conceitos de seu fundador. A coroação” converteu-se numa missa simples. O absurdo de transportar o Pontífice a balançar numa cadeira, como um califa das Mil e Uma Noites, foi suplantado por um Pastor supremo, subindo calmamente os degraus do altar. Com esse gesto, Luciani aboliu mil anos de história e fez a Igreja voltar mais um pouco no caminho para Jesus Cristo.

A tiara de pedras preciosas foi substituida pelo pálio, uma estola branca de lã sobre os ombros do Papa. O monarca dera passagem ao pastor. A era da Igreja pobre começara oficialmente.

Entre os 12 chefes de Estado e outros representantes de dezenas de países à cerimônia, havia homens a quem o Papa preferia evitar. Em particular, pedira à sua Secretaria de Estado que não convidasse os lideres da Argentina, Chile e Paraguai para a sua missa inaugural. Mas o departamento do Cardeal Villot já expedira os convites, sem antes consultar Albino Luciani. Presumiram que haveria a coroação tradicional, e a lista de convidados refletia essa suposição.

Consequentemente, participaram da missa na Praça de São Pedro o General Videla, da Argentina, o ministro do exterior chileno e o filho do presidente do Paraguai, representantes de países em que os direitos humanos não eram considerados prioridades urgentes. Manifestantes italianos protestaram contra a presença deles e houve quase 300 prisões. Posteriormente, Albino Luciani seria criticado pela presença desses homens na missa. Os críticos não sabiam que toda a culpa deveria ser atribuida ao Cardeal Villot. Quando os comentários de censura apareceram, Luciani não estava em condições de responder e Villot se manteve em silêncio.

Na audiência particular que se seguiu à missa, Luciani, o filho de um socialista que abominava todos os aspectos do fascismo, não deixou qualquer dúvida ao General Videla de que herdara as opiniões do pai. Falou especialmente de sua preocupação com “Los Desaparecidos”, os milhares de pessoas que sumiram misteriosamente do território argentino. Ao final da audiência de 15 minutos, o general já desejava ter atendido às pressões de última hora de emissários do Vaticano para que nao fosse a Roma.

A audiência com o Vice-Presidente Mondale, dos Estados Unidos, foi um encontro mais agradável. Mondale entregou ao novo Papa um livro contendo a primeira página de mais de 50 jornais americanos, noticiando a eleição de Luciani. Um presente mais deferente foi uma primeira edição do livro Vida no Mississippi, de Mark Twain. Era evidente que alguém no Departamento de Estado americano trabalhara bem.

Assim começou o Pontificado de João Paulo I, com objetivos e aspirações definidos. Antes da missa inaugural, ele falara ao Corpo Diplomático credenciado no Vaticano. Sua própria equipe diplomática empalideceu visivelmente quando ele comentou, em nome de toda a Igreja Católica:

Não temos bens temporais para trocar, não temos interesses econômicos a discutir. Nossas possibilidades de intervenção são especificas e limitadas, de um caráter especial. Não interferem com os assuntos puramente temporais, técnicos e políticos, que são problemas de seus governos. Assim, nossas missões diplomáticas junto às suas mais altas autoridades civis, longe de serem uma sobrevivência do passado, constituem um testemunho do nosso profundo respeito pelo poder temporal legitimo e do nosso intenso interesse pelas causas humanas que esse poder temporal deve promover.

“Não temos bens temporais para trocar...” Era uma sentença de morte pública ao Vaticano S.A. Tudo o que restava indefinido era o número de dias e meses em que continuaria a funcionar. Os homens dos mercados financeiros internacionais, em Milão, Londres, Tóquio e Nova York, analisaram com o maior interesse as palavras de Luciani. Se ele realmente falava a sério, então haveria muitas mudanças. Tais mudanças não se limitariam ao movimento de pessoas deixando o Banco do Vaticano e a APSA, mas inevitavelmente incluiria uma drástica redução das atividades do Vaticano S.A. Os homens dos mercados financeiros internacionais poderiam ganhar bilhões se adivinhassem corretamente o rumo por que enveredaria essa nova filosofia do Vaticano. Albino Luciani queria uma Igreja pobre para os pobres. O que ele planejava fazer com os que haviam criado uma Igreja rica? O que planejava fazer com a riqueza?

A humildade de Luciani foi responsável pelo nascimento de diversas concepções errôneas. Muitos observadores concluíram que esse homem obviamente santo era simples e sem qualquer complexidade, carecendo dos talentos culturais de seu antecessor, Paulo VI. A realidade era que Luciani possuía uma cultura muito mais rica e uma sofisticação muito maior do que Paulo. Seus talentos eram tão excepcionais que esse homem extraordinário podia parecer completamente plebeu. Tinha a simplicidade que só é adquirida por uns poucos, a simplicidade que deriva de uma profunda sabedoria.

Uma das peculiaridades de nossa época é que a humildade e gentileza são inevitavelmente encaradas como indicações de alguma espécie de fraqueza. Pois muitas vezes indicam justamente o oposto, uma grande força.

Quando o novo Papa comentou que andara folheando o Anuário do Vaticano para descobrir quem fazia o que, muitos na Cúria sorriram e concluíram que ele seria facilmente manobrável, um homem que não teriam a menor dificuldade para controlar. Havia outros que sabiam que não era bem assim.

Homens que conheciam Albino Luciani há muitos anos observavam e esperavam. Conheciam o aço no fundo, a força para tomar decisões difíceis ou impopulares. Muitos me falaram desses atributos ocultos. Monsenhor Tiziano Scalzotto, Padre Mario Senigaglia, Monsenhor Da Rif, Padre Bartolomeo Sorge e Padre Busa são apenas cinco dos muitos que me falaram sobre a força interior do Papa João Paulo I. O Padre Busa comentou:

Sua mente era tão forte, tão dura e tão contundente quanto um diamante. Era lá que estava o seu poder real. Compreendia e possuía a capacidade de chegar ao ceme de um problema. Não podia ser sufocado. Enquanto todos aplaudiam o Papa risonho, eu esperava que ele tirare fuori le unghie, revelasse as suas garras. Era uni homem de tremendo poder.

Sem um grupo pessoal, pois nenhuma Máfia veneziana substituiu a turma de Milão nos aposentos papais, Albino Luciani precisaria de toda a sua força interior se queria evitar se tomar o prisioneiro da Cúria do Vaticano.

Nos primeiros dias depois do Conclave, a máquina governamental do Vaticano não se manteve ociosa. No domingo, 27 de agosto, após seu discurso do meio-dia à multidão, Luciani almoçou com o Cardeal Jean Villot. Como Secretário de Estado do Papa Paulo desde abril de 1969, Villot criara reputação de serena competência. Durante o Conclave, Villot, como camerlengo, funcionou virtualmente como substituto do Papa, ajudado pelos comitês de cardeais. Luciani pediu a Villot que continuasse como Secretário de Estado por “mais um pouco, até que eu encontre meu caminho”. Villot, aos 73 anos de idade, esperava o momento de aposentar-se. Luciani designara Villot para seu Secretário de Estado e confirmara todos os chefes curiais em seu cargos anteriores. Mas a Cúria sabia perfeitamente que era apenas uma medida temporária. Sempre o homem prudente das montanhas, o novo Papa queria ganhar mais algum tempo. “Deliberação. Decisão. Execução.” Se a Cúria queria saber como agiria o novo Papa, bastava ler sua carta a São Bernardo. Muitos o fizeram. E também efetuaram uma pesquisa mais profunda sobre o Papa João Paulo I. O que descobriram causou consternação em diversos setores do Vaticano e um profundo prazer de expectativa em outros.

A morte do Papa Paulo VI fizera aflorar muitas hostilidades que existiam na aldeia do Vaticano. A Cúria Romana, o corpo administrativo central da Igreja, vinha se empenhando numa guerra interna há vários anos; somente a habilidade de Paulo evitara que a maioria das batalhas chegasse ao conhecimento público. Agora, depois da rejeição no Conclave, a guerra curial alcançou os aposentos papaís. Albino Luciani queixou-se amargamente da situação a alguns amigos que foram visitá-lo:

— Quero aprender depressa o ofício de Papa, mas quase ninguém explica problemas e situações de uma maneira meticulosa e imparcial. Passo a maior parte do tempo a escutar comentários desfavoráveis sobre tudo e sobre todos.

A outro amigo do norte ele disse:

— Já notei que há duas coisas que parecem estar em escassez no Vaticano: honestidade e uma boa xícara de café.

Havia tantas facções curiais quanto garotos no coro da Capela Sistina. Havia a Cúria do Papa Paulo VI, totalmente empenhada em garantir não apenas que a memória do falecido Papa fosse constante e continuamente homenageada, mas também a evitar que houvesse qualquer desvio de suas posições, opiniões e pronunciamentos.

Havia a Cúria que era favorável ao Cardeal Giovanni Benelli e a Cúria que desejava vê-lo no Inferno. O Papa Paulo VI elevara Benelli a Subsecretário de Estado, o segundo homem depois do Cardeal Villot. Ele se tornara rapidamente o homem forte do Papa, assegurando o cumprimento de sua política. Paulo o transferira para Florença e o promovera a fim de protegê-lo, durante os seus últimos anos. Agora, seu protetor estava morto, mas os punhais afiados permaneciam embainhados, Luciani era Papa por causa de homens como Benelli.

Havia facções curiais que favoreciam ou se opunham aos Cardeais Baggio, Felici e Bertoli. Havia facções que queriam mais poder central e controle, outras que queriam menos.

Durante toda a sua vida, Albino Luciani evitara as visitas ao Vaticano. Mantivera seus contatos com a Cúria Romana num nível mínimo. Em decorrência, antes de sua eleição tinha provavelmente menos inimigos na Cúria do que qualquer outro cardeal. Mas era uma situação que mudou rapidamente. Ali estava um Papa que considerava a “mera execução” como a função básica da Cúria. Ele acreditava numa maior divisão do poder com os bispos do mundo inteiro e planejava descentralizar a estrutura do Vaticano. Recusando-se a ser coroado, ele contrariara os tradicionalistas. Outra inovação que não poderia granjear para Luciani a estima dos membros da Cúria de mentalidade material foi a sua instrução para que o salário extra, que automaticamente se pagava por ocasião da eleição de um novo Papa, fosse reduzido à metade.

É claro que havia muitos entre os três mil membros da Cúria que lealmente serviriam e amariam o novo Papa; mas neste mundo as forças negativas muitas vezes predominam. Assim que o resultado da eleição foi conhecido, a Cúria ou determinados setores dela entraram em ação. Em poucas horas, uma edição especial do Osservatore Romano estava nas ruas, com uma biografia completa do novo Papa. A Rádio Vaticano já estava irradiando detalhes similares.

Como um exemplo da melhor maneira de influenciar o pensamento do mundo sobre um líder de Estado até então desconhecido, o tratamento que o Osservatore Romano dispensou a Albino Luciani é definitivo. Porque deliberadamente descreveu uma pessoa que só existia na mente reacionária e opressiva de quem escreveu os detalhes biográficos, essa edição em particular do Osservatore Romano é também um excelente exemplo do motivo pelo qual o jomal semi-oficial do Vaticano tem sido comparado desfavoravelmente ao Pravda. Aproveitando os “fatos oficiais”, muitos jornalistas pressionados por prazos improrrogáveis descreveram um homem que não existia. The Economist, para citar apenas um entre centenas de exemplos, disse o seguinte a respeito do novo Papa: “Ele não se sentiria muito à vontade em companhia do Dr. Hans Kung.” Uma pesquisa revelaria que Luciani e Hans Kung mantinham uma correspondência cordial e frequentemente enviavam livros um ao outro. Mais alguma pesquisa mostraria que Luciani muitas vezes citara Kung favoravelmente em seus sermões. Praticamente todos os jornais e revistas do mundo que publicaram perfis do novo Papa cometeram erros similares.

Ler a edição especial do Osservatore Romano é tomar conhecimento de um novo Papa que era ainda mais conservador do que Paulo VI. A distorção se estendia por diversas opiniões de Luciani, mas uma em particular é extremamente relevante quando se considera a vida e a morte de Albino Luciani: o controle da natalidade. O jornal do Vaticano descreveu um homem que era um intrépido e incondicional partidário da Humanae Vitae.

Ele efetuou um estudo meticuloso da questão da paternidade responsável, consultou especialistas médicos e teólogos. Alertou para a grande responsabilidade da Igreja ao se pronunciar sobre uma questão tão delicada e controvertida.

Isso era perfeitamente acurado e verdadeiro. O que vem depois é que era completamente incorreto.

Com a publicação da encíclica Humanae Vitae não podia mais haver margem para dúvidas. O bispo de Vittorio Veneto foi um dos primeiros a divulgá-la e a insistir, aos que estavam confusos com o documento, que seus ensinamentos eram incontestáveis .

Quando a Cúria entra em ação, é uma máquina formidável. Sua eficiência e rapidez deixariam atordoados outros serviços civis. Homens da Cúria Romana apareceram no Colégio Gregoriano e removeram de lá todos os estudos e documentos referentes ao período de estudo de Luciani. Outros membros da Cúria foram a Veneza, Vittorio Veneto, Belluno. Onde quer que Luciani estivera, a Cúria ia até lá. Todas as cópias do documento de Luciani sobre o controle da natalidade foram confiscadas e imediatamente guardadas nos Arquivos Secretos do Vaticano, juntamente com sua tese sobre Rosmini e diversos outros escritos. Pode-se dizer que o processo de beatificação de Albino Luciani começou no dia em que ele foi eleito Papa. Seria igualmente acurado dizer que o trabalho da Cúria para encobrir o verdadeiro Albino Luciani começou no mesmo dia.

O que determinados setores da Cúria compreenderam, com um profundo choque, foi que, ao elegerem Albino Luciani, os cardeais haviam lhes dado um homem que não deixaria a questão do controle da natalidade ser encerrada pela Humanae Vitae. Um estudo cuidadoso por membros da Cúria do que Luciani dissera, não apenas a seus paroquianos em público, mas também a seus amigos e colegas em particular, prontamente indicou que o novo Papa era favorável ao controle artificial da natalidade. O quadro impreciso falso que o Osservatore Romano pintara de um homem que aplicava rigorosamente os princípios da Humanae Vitae foi o tiro inicial num contra-ataque destinado a conter Albino Luciani dentro dos limites da encíclica de seu antecessor. Rapidamente seguido por outra rajada.

A agência noticiosa UPI descobriu que Luciani fora a favor de uma decisão do Vaticano que permitisse o controle artificial da natalidade. Os jornais italianos também divulgaram matérias sobre o documento de Luciani encaminhado ao Papa Paulo pelo Cardeal Urbani, de Veneza, com uma recomendação favorável à pílula anticoncepcional. A Cúria apressadamente localizou o Padre Henri de Riedmatten, que fora o secretário da Comissão Papal de Controle da Natalidade. Ele descreveu os relatórios em que Luciani se opusera a uma encíclica que condenasse o controle artificial da natalidade, alegando que isso não passaria de uma “fantasia” . Riedmatten também informou que Luciani nunca fora membro da comissão, o que era verdadeiro. Depois negou que Luciani houvesse algum dia escrito uma carta ou relatório sobre o assunto enviado ao Papa Paulo.

Essa negativa e a maneira como foi apresentada é um exemplo da duplicidade que predomina na Cúria. O documento de Luciani chegou a Roma por intermédio do Cardeal Urbani e, portanto, com a sua aprovação. Negar que existisse um documento assinado por Luciani era tecnicamente correto. Negar que Luciani, em nome dos outros bispos da região do Veneto, tivesse encaminhado tal documento ao Papa, por intermédio do Patriarca de Veneza, era uma mentira iníqua.

Ironicamente, nas três primeiras semanas de seu Pontificado, Albino Luciani já dera os primeiros passos significativos para inverter a posição da Igreja Católica na questão do controle artificial da natalidade. Enquanto essas providências eram tomadas, a imprensa internacional permanecia na ignorância, por cortesia do Osservatore Romano e da Rádio Vaticano, controlados por determinados membros da Cúria Romana, que já projetara uma imagem inteiramente falsa das opiniões de Albino Luciani.

Durante o seu Pontificado, Luciani citou diversos pronunciamentos e encíclicas do Papa Paulo VI. Mas, expressivamente, não houve qualquer referência à Humanae Vitae. Os defensores dessa encíclica foram alertados para as opiniões do novo Papa quando souberam, consternados, que o discurso de aceitação para o sucessor de Paulo, preparado pela Secretaria de Estado e contendo referências candentes à Humanae Vitae, fora alterado por Luciani, que suprimira a todas. A facçao anticontrole da natalidade dentro do Vaticano descobriu em seguida que, em maio de 1978, Albino Luciani fora convidado a comparecer e falar num congresso internacional realizado em Milão, a 21-22 de junho. O objetivo principal do congresso era celebrar o 10º aniversário da encíclica Humanae Vitae. Luciani respondera que não falaria no congresso e também não compareceria. Entre os que compareceram e falaram, em louvor da Humanae Vitae, estava o cardeal polonês Karol Wojtyla.

Agora, em setembro, enquanto a imprensa mundial fielmente repetia as mentiras do Osservatore Romano, Albino Luciani foi ouvido nos aposentos papais a dizer a seu Secretário de Estado, Cardeal Villot:

— Terei o maior prazer em falar com essa delegação dos Estados Unidos sobre a questão. Na minha opinião, não podemos deixar a situação como está.

A “questão” era a população mundial. A “situação” era a Humanae Vitae. A conversa continuou e Villot ouviu o Papa João Paulo I manifestar uma opinião que muitos outros, inclusive o secretário particular dele, Padre Diego Lorenzi, já tinham escutado várias vezes. O Padre Lorenzi é somente um dos muitos que foram capazes de reproduzir para mim ás palavras exatas de Lucíani:

Estou à par do período de ovulação de uma mulher, com seu âmbito de fertilidade de 24 à 36 horas. Mesmo que se admita uma vida de 48 horas para o espermatozóide, o tempo máximo de concepção possível é inferior a quatro dias. Num ciclo regular, isso significa quatro dias de fertilidade e 24 (lias de infertilidade. Como pode ser um pecado falar em 28 em vez de 24 dias?

O que provocara essa conversa realmente histórica fora um contato com o Vaticano da Embaixada Americana em Roma. Esta forá instruída pelo Departamento de Estado americano e procurada pelo congressista James Scheuer. O congressista presidia o Comitê Sobre População dá Câmara dos Representantes e era também vice-presidente do fundo da ONU para pesquisas sobre população. A história do documento de Luciani ao Papa Paulo VI sobre o controle da natalidade alertara Scheuer e seu comitê para a possibilidade de mudança na posição da Igreja. Scheuer achava que era improvável que seu grupo obtivesse uma audiência com Luciani logo depois da eleição, mas concluiu que valia a pena a tentativa de pressionar o Vaticano através do Departamento de Estado e da Embaixada Americana em Roma. Pois Scheuer ouviria boas notícias.

Villot. como muitos que cercavam Luciani, encontrava uma considerável dificuldade para se ajustar ao novo Pontificado. Nomeado por Paulo VI, ele desenvolvera ao longo dos anos um íntimo relacionamento de trabalho com o falecido Papa. Aprendera à admirar o estilo Montini. Agora, o Hãmlet cansado do mundo de 81 anos fora substituido por um otimista Henry VI, que aos 65 anos era relativamente um rapaz.

O relacionamento entre Luciani e seu Secretário de Estado era bastante desconfortável. O novo Papa achava Villot frio e distante, sempre comentando o que Paulo VI diria a respeito dessa questão ou como Paulo VI trataria aquele problema. Paulo VI estava morto, mas era evidente que Villot e uma parcela significativa da Cúria não haviam aceitado esse fato, e que o estilo Martini de resolver problemas morrera com ele.

O discurso que o novo Papa pronunciara, 24 horas depois do Conclave, fora de caráter geral. O verdadeiro programa começou à ser formulado somente durante os primeiros dias de setembro de 1978. Foi desencadeado com a inspiração dos primeiros 100 dias do Papa João XXIII.

João fora eleito Papa à 28 de outubro de 1958. Nos primeiros 100 dias, efetuara diversas nomeações cruciais, inclusive a do Cardeal Domenico Tardini para à Secretaria de Estado, um posto que se achava vago desde 1944. O mais importante foi à sua decisão de convocar o Concílio Vaticano Segundo. Essa decisão tornou-se pública a 25 de janeiro de 1959, 89 dias depois da eleição.

Agora que usava as sandálias do pescador, Albino Luciani estava determinado a seguir o exemplo de João de 100 dias revolucionários. No alto de sua lista de prioridades de reformas e mudanças estava a necessidade de alterar radicalmente o relacionamento do Vaticano com o capitalismo e o desejo de mitigar os sofrimentos que testemunhara pessoalmente e que derivavam diretamente da Humanae Vitae.

De acordo com o Cardeal Benelli, o Cardeal Felici e outras fontes do Vaticano, o austero Cardeal Villot ficou escutando contrariado, enquanto o novo Papa discorria sobre os problemas que a encíclica causara. Durante as entrevistas com ele, ficou claro que sua atitude com relação à este assunto concordava vivamente com Villot.

Poucos meses antes, Villot louvara a encíclica, no 10º aniversário de sua publicação. Numa carta ao Arcebispo John Quinn, de São Francisco, Villot reafirmara a oposição de Paulo à anticoncepção artificial. O Secretário de Estado ressaltara como Paulo considerava importante esse ensinamento e que estava “de acordo com a Lei de Deus”.

Houve muito mais, no mesmo espírito. Agora, menos de dois meses depois, era obrigado a escutar o sucessor de Paulo assumir uma posição inversa. O café esfriou, enquanto Luciani se levantava e andava de um lado para o outro no gabinete, falando sobre alguns efeitos que a Humanae Vitae produzira durante à última década.

A encíclica que fora projetada para reforçar à autoridade papal, negando que pudesse haver qualquer mudança no ensinamento tradicional sobre o controle da natalidade, tivera justamente o efeito oposto. As evidências eram irrefutáveis. Na Bélgica, Holanda, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos e muitos outros países não apenas houvera uma acentuada oposição à encíclica, mas também uma desobediência ostensiva. A máxima se tomara rapidamente à de que, se um padre não assumisse uma posição tolerante no confessionário, o pecador procuraria um padre mais liberal. Luciani citou exemplos dessa contradição que conhecia pessoalmente, na região do Veneto.

A teoria da Humanae Vitae podia parecer um ponto de vista moral ideal quando proclamada do interior do reduto exclusivamente masculino do Vaticano. A realidade que Luciani observara no norte da Itália e no exterior demonstrava claramente a desumanidade da encíclica. Naquela década, a população mundial aumentara em mais de três quartos de um bilhão de pessoas.

Quando Villot objetou que o Papa Paulo ressaltara as virtudes do método anticoncepcional natural, Luciani limitou-se à sorrir. Mas não era o sorriso cheio e radiante que o público conhecia, antes um meio sorriso triste.

— Eminência, o que nós, velhos celibatários, sabemos realmente sobre os desejos sexuais das pessoas casadas?

Essa conversa, a primeira de muitas que o Papa teve com seu Secretário de Estado sobre o assunto. ocorreu no gabinete dos aposentos papais na terça-feira, 19 de setembro. Eles discutiram o problema por quase 45 minutos. Quando à reunião terminou e Villot estava se retirando, Luciani acompanhou-o até a porta e acrescentou:

Eminência, conversamos sobre o controle da natalidade durante cerca de 45 minutos. Se as informações forem corretas, se as estatísticas forem precisas, então no período de nossa conversa mais de mil crianças com menos de cinco anos de idade morreram de desnutrição. Durante os próximos 45 minutos, enquanto nós dois aguardamos com expectativa a nossa próxima refeição, outras mil crianças morrerão de desnutrição. Amanhã, a esta hora, 30 mil crianças que se encontram vivas neste momento estarão mortas de desnutrição. Deus nem sempre provê.

O Secretário de Estado do Vaticano aparentemente não foi capaz de encontrar uma resposta adequada.

Todos os detalhes da possível audiência com uma delegação dos Estados Unidos sobre população mundial foram mantidos em sigilo, tanto pelo Vaticano como pelo Departamento de Estado americano. Tal reunião, ocorrendo tão cedo no Pontificado de Luciani, seria corretamente encarada como extremamente significativa, se transpirasse para o conhecimento público.

Um significado ainda maior seria atribuído ao encontro pela opinião pública mundial se fosse divulgado por que o Papa João Paulo I não compareceria à Conferência de Puebla, no México. Era à seqúência de uma conferência muito importante que se realizara em Medellin, na Colômbia. em 1968.

Em Medellin, os cardeais e bispos da América Latina injetaram uma vida nova na Igreja Católica no continente sul-americano. A declaração contida no ““Manifesto de Medellín” incluia à afirmativa de que o esforço básico de sua Igreja no futuro seria procurar se relacionar com os pobres, os abandonados e negligenciados. Era uma mudança revolucionária numa Igreja que anteriormente sempre se relacionara com os ricos e os poderosos. A ““Teologia da Libertação”, que emergiu de Medellín, alertava as diversas juntas militares e regimes ditatoriais da América do Sul para o fato de que à Igreja tencionava trabalhar para acabar com a exploração financeira e à injustiça social. Fora, na verdade, um chamado às armas. Inevitavelmente, a resistência a essa filosofia liberal veio não apenas dos diversos regimes, mas também dos elementos reacionários dentro da Igreja. A conferência de Puebla, uma década depois, prometia ser crucial. A Igreja continuaria a seguir pela mesma trilha ou haveria um recuo para a antiga posição odiosa? O fato de o novo Papa recusar o convite para comparecer à conferência ressalta à importância que atribuia à seu encontro com o comitê de Scheuer. Ele certamente conhecia as implicações da reunião em Puebla.

No Conclave, menos de uma hora depois de ser eleito Papa, Luciani fora procurado pelos Cardeais Baggio e Lorscheider, dois homens-chave na projetada conferência no México. Puebla fora adiada por causa da morte do Papa Paulo VI. Os cardeais queriam saber se o novo Papa estava disposto a aprovar uma nova data para a conferência no México.

Luciani discutiu os problemas que seriam tratados em Puebla, em profundidade, menos de uma hora depois de sua eleição. Concordou que à conferência deveria ser realizada e foi definida a data, de 12 a 28 de outubro. Durante a conversa com Baggio e Lorscheider, ele surpreendeu os dois cardeais com seu conhecimento e percepção das questões que seriam examinadas em Puebla. Em relação à seu comparecimento, recusou-se à assumir um compromisso firme logo no início do Pontificado. Quando Villot informou-o que o comitê de Scheuer gostaria de ter uma audiência a 24 de outubro’. Luciani disse à Baggio e Lorscheider que não poderia ir a Puebla. E mandou que Villot confirmasse o encontro com à delegação americana. Fora a confirmação final para Luciani de que seu lugar era no Vaticano durante as semanas seguintes. Havia outros motivos válidos para a sua decisão de permanecer em Roma. O Papa João Paulo I concluíra, em meados de setembro, que a sua primeira prioridade deveria ser à de pôr a casa em ordem. O problema do Banco do Vaticano e sua filosofia operacional tornara-se de suprema importância para ele.

Luciani agiu com uma urgência que faltara perceptivelmente nos últimos anos do seu antecessor imediato. A vassoura nova não tinha a intenção de limpar todo o Vaticano nos primeiros 100 dias, mas ele estava ansioso para que, nesse período, à Igreja começasse a mudar de direção, particularmente em relação ao Vaticano S.A.

Ainda em sua primeira semana, o novo Papa deu uma indicação do rumo que seguiria. “Concordou” com o desejo do Cardeal Villot de ser substituído em um dos seus muitos cargos, a presidência do Conselho Pontifical, Cor Unum. O cargo foi para o Cardeal Bernard Gantin. Cor Unum é um dos principais funis por que passam os recursos coletados no mundo inteiro. a serem distribuídos às nações mais pobres.

Para Luciani, Cor Unum era um elemento vital em sua filosofia de que as finanças do Vaticano deveriam ser inspiradas pelo Evangelho. Villot foi gentilmente substituído, mas mesmo assim substituido, poí Gantin, um homem de grande espiritualidade e evidente honestidade.

A aldeia do Vaticano fervilhava com especulações. Alguns proclamavam que nunca haviam conhecido Sindona, Calvi ou qualquer outro da Máfia de Milão que infestara o Vaticano durante o período do Papa Paulo. Outros, em seus esforços individuais de sobrevivência, começaram a transmitir informações aos aposentos papais.

Poucos dias depois da designação de Gantin, o novo Papa encontrou em sua mesa uma cópia de uma circular do Controle de Câmbio Italiano. Não havia à menor dúvida de que a circular era uma resposta direta à carta aberta de Il Mondo ao Papa, descrevendo uma situação inadmissível para um homem que se comprometera com a pobreza pessoal e com uma Igreja pobre.

A circular, assinada pelo Ministro do Comércio Exterior Rinaldo Ossola, fora enviada à todos os bancos italianos. Lembrava que o IOR, o Banco do Vaticano, é ““para todos os efeitos uma instituição bancária não-residente”. . . em outras palavras, um banco estrangeiro. Assim, as relações entre o Banco do Vaticano e as instituições de crédito italianas eram governadas pelas mesmas regras que se aplicavam a todos os outros bancos estrangeiros.

O ministro estava particularmente preocupado com os abusos de câmbio, envolvendo à exportação ilegal de capitais da Itália. A circular era também uma inequívoca confissão ministerial de que tais abusos eram realidade. Os círculos financeiros italianos encararam-na como uma tentativa de reprimir pelo menos uma das muitas atividades escusas do Banco do Vaticano. No Vaticano, foi considerada uma confirmação adicional de que o dobre de finados para à presidência no banco do Bispo Paul Marcinkus soava cada vez mais alto.

Uma história que acreditei ser boato, mas que muitos no Vaticano e na imprensa italiana me garantiram ser verdadeira, começou a circular pelo Vaticano no início de setembro de 1978. Dizia respeito à venda do Banca Cattolica deI Veneto e à viagem de Albino Luciani ao Vaticano na tentativa de evitar à venda do banco à Roberto Calvi. Já narrei anteriormente o encontro de Luciani e Benelli. A versão que circulou introduziu elegantes variações em estilo italiano. Luciani se defrontara com Paulo VI que respondera:

— Mesmo você tem de fazer esse sacrifício pela Igreja. Nossas finanças ainda não se recuperaram dos prejuízos causados por Sindona. Mas leve seu problema à Monsenhor Marcinkus.

Pouco depois, Luciani estivera no escritório de Marcinkus e repetira a lista de pedidos da diocese com relação à venda do banco. Marcinkus o escutara e respondera:

— Eminência, não tem nada melhor para fazer hoje? Faça seu trabalho e farei o meu.

A esta altura Marcinkus lhe mostrara a porta de saída. Qualquer um que já tenha visto Marcinkus em ação saberá que faz jus ao seu apelido: “o Gorila”. Para os bispos, monsenhores, padres e freiras no Vaticano é certo que à confrontação realmente aconteceu.

Agora, inesperadamente, o pequeno e pacato homem de Belluno podia remover Marcinkus num piscar de olhos.

Membros da Cúria organizaram uma loteria. Ganharia quem adivinhasse o dia em que Marcinkus seria formalmente removido do banco. O Papa, que acreditava em prudência, ainda reunia as provas necessárias. Além da investigação sendo conduzida por conta do Papa pelo Cardeal Villot, o risonho João Paulo I, com a típica astúcia das montanhas, abriu outras linhas de inquérito. Começou a conversar com o Cardeal Felici sobre o Banco do Vaticano. E também telefonou para o Cardeal Benelli, em Florença.

Foi por intermédio de Giovanni Benelli que o Papa tomou conhecimento da investigação do Banco da Itália no Banco Ambrosiano. Era tfpico da maneira como funcionava a Igreja Católica. O cardeal em Florença disse ao Papa em Roma o que estava acontecendo em Milão.

O ex-segundo homem da Secretaria de Estado do Vaticano formara uma vasta rede de contatos por toda a Itália. Licio Geldi, da P2, ficaria devidamente impressionado com a extensão e a qualidade das informações a que o Cardeal Benelli tinha acesso. Incluía fontes muito bem situadas dentro do Banco da Itália. Foram essas fontes que informaram ao cardeal sobre a investigação no império de Roberto Calvi, um inquérito que se aproximava do climax em setembro de 1978. O que mais preocupou Benelli e posteriormente Albino Luciani era a parte da investigação que levantava as ligações de Calvi com o Vaticano. O contato no Banco da Itália estava convencido de que a investigação seria seguida por graves acusações criminais contra Roberto Calvi e possivelmente alguns de seus diretores. Parecia igualmente certo que o Banco do Vaticano estava bastante envolvido em diversas transações que violavam uma variedade de leis italianas. Os homens no Banco do Vaticano que estavam sendo mais investigados, como criminosos em potencial, eram Paul Marcinkus, Luigi Mennini e Pellegrino de Strobel.

Benelli aprendera, por quase uma década, que não se influenciava Luciani com a insistência vigorosa para que assumisse um determinado curso de ação. Ele me disse:

Com o Papa Luciani, apresentavam-se os fatos, fazia-se uma recomendação e depois se lhe dava tempo e espaço para considerar. Depois de absorver todas as informações disponíveis, ele decidia... e quando o Papa Luciani decidia, nada, mas absolutamente nada, podia demovê-lo ou contê-lo. Era um homem gentil, é verdade. E humilde. Mas quando se lançava a um determinado curso de ação, era inabalável como um rochedo. Bennelli não era o único a ter acesso aos pensamentos dos altos dirigentes do Banco da Itália. Membros da P2 estavam transmitindo exatamente as mesmas informações para Licio Gelli em Buenos Aires. E ele, por sua vez, mantinha plenamente informados os seus companheiros de viagem, Roberto Calvi e Umberto Ortolani. Outros membros da P2, infiltrados no poder judiciário em Milão, informaram a Gelli que, concluída a investigação sobre o Banco Ambrosiano, tudo seria encaminhado ao Juiz Emilio Alessandrini. Poucos dias depois que Gelli tomou conhecimento disso, um grupo terrorista de extrema esquerda, baseado em Milão, Prima Linea, recebeu um aviso de seu contato no sistema judiciário sobre o homem recomendado como sua próxima vítima em potencial. O líder terrorista pregou uma fotografia do alvo na parede de seu apartamento: Juiz Emilio Alessandrini. A P2 movia-se por muitos caminhos, inclusive o Vaticano

No início de setembro, Aibino Luciani descobriu que, por algum meio misterioso, fora acrescentado à lista de distribuição exclusiva de uma insólita agência de notícias chamada L’Osservatore Político (O.P.). Era dirigida pelo jornalista Mino Pecorelli e invariavelmente divulgava histórias escandalosas, que posteriormente eram confirmadas como altamente verdadeiras. Agora, juntamente com políticos, jornalistas e outras pessoas que tinham a necessidade de tomar conhecimento das coisas em primeira mão, o Papa leu uma reportagem sobre o que a O.P. classificou de A Grande Loja do Vaticano”. O artigo dava os nomes de 121 pessoas que supostamente pertenciam a lojas maçônicas. Diversos leigos estavam incluidos na lista, mas abrangia principalmente cardeais, bispos e prelados em altos postos. Os motivos de Pecorelli para divulgar a lista eram simples. Ele estava empenhado numa luta com seu antigo Grão-Mestre, Licio Geldi. Pecorelli era um membro da P2... um membro desencantado.

Estava convencido de que a publicação da lista dos maçons do Vaticano causaria um profundo embaraço ao Grão-Mestre da P2, especialmente porque muitos eram amigos íntimos de Gelli e Ortolani.

Se a informação era correta, então Luciani estava virtualmente cercado por maçons... e ser um maçom significava a excomunhão automática da Igreja Católica. Antes do Conclave, houvera rumores de que vários dos mais eminentes papabile eram maçons. Agora, a 12 de setembro, o novo Papa recebia a lista completa. Luciani tinha a opinião de que era inconcebível que um sacerdote se tornasse membro da maçonaria. Sabia que diversos católicos leigos de suas relações pertenciam a várias Lojas. Da mesma forma, tinha amigos que eram comunistas. Aprendera a conviver com essa situação, mas achava que os critérios eram diferentes quando se tratava de alguém do clero, A Igreja Católica decretara há muito tempo que se opunha implacavelmente à maçonaria. O novo Papa estava aberto a uma discussão da questão, mas uma lista de 121 homens que eram membros confirmados da maçonaria não chegava a constituir uma discussão.

O Secretário de Estado Cardeal Villot, nome maçônico Jeanni, registrado numa Loja de Zurique a 6 de agosto de 1966, com o número 041/3. Ministro do Exterior Monsenhor Agostino Casaroli. Cardeal Vigário de Roma Ugo Poletti. Cardeal Baggio. Bispo Paul Marcinkus e Monsenhor Donato de Bonis, do Banco do Vaticano. O aturdido Papa leu uma relação que parecia o “Quem é Quem” do Vaticano. Notando com alívio que nem Benelli nem o Cardeal Felici apareciam na lista, que incluia até mesmo o secretário particular do Papa Paulo, Monsenhor Pasquale Macchi, Albino Luciani prontamente telefonou para Felici e convidou-o para tomar um café.

Felici informou ao Papa que uma lista similar circulara discretamente pelo Vaticano, há mais de dois anos, em maio de 1976. O motivo para o seu reaparecimento era obviamente uma tentativa de influenciar o pensamento do novo Papa sobre nomeações, promoções e remoções.

— A lista é verdadeira? — perguntou Luciani.

Felici disse ao Papa que, em sua opinião, era uma hábil mistura. Alguns nomes na lista eram de fato maçons, outros não. E acrescentou:

— Essas listas parecem proceder da facção Lefebvre... não foram criadas por nosso irmão francês rebelde, mas certamente usadas por ele.

O Bispo Lefebvre fora um incômodo para o Vaticano e particularmente para o Papa Paulo VI durante alguns anos. Um tradicionalista que considerava o Concilio Vaticano Segundo como a suprema heresia, ignorara quase que totalmente as conclusões conciliares. Alcançara notoriedade internacional com sua insistência de que a missa fosse celebrada exclusivamente em latim. Suas posições de extrema direita, numa variedade de assuntos, resultaram numa condenação pública pelo Papa Paulo VI. Em relação ao Conclave que elegera o Papa João Paulo I, os partidários de Lefebvre haviam inicialmente declarado que se recusariam a reconhecer o novo Papa, por ter sido eleito num Conclave que excluira os cardeais com mais de 80 anos. Posteriormente, eles lamentaram a escolha como ‘‘sinistra’’.

Luciani refletiu sobre a situação por um momento, antes de perguntar:

— Quer dizer que listas como esta existem há mais de dois anos?

— Isso mesmo, Santidade.

— A imprensa tomou conhecimento delas?

Tomou, Santidade. A lista completa jamais chegou a ser publicada, mas saiu um nome aqui, outro ali.

— E qual foi a reação do Vaticano?

— A normal.., ou seja, nenhuma reação.

Luciani riu. Gostava de Pericle Felici. Curial até a raiz dos cabelos, tradicionalista em seu pensamento, mas um homem espirituoso e sofisticado, de cultura considerável.

— Eminência, na revisão da lei canônica, que ocupou tanto de seu tempo, o Santo Padre por acaso previu uma mudança na posição da Igreja em relação à maçonaria?

— Ao longo dos anos, houve muitos grupos de pressão. Determinadas partes interessadas exortavam a que se assumisse uma posição mais “moderna”. O Santo Padre ainda estava considerando esses argumentos quando morreu.

Felici continuou a deixar claro que entre os que defendiam fortemente um afrouxamento da lei que declarava que qualquer católico que se filiasse à maçonaria estava automaticamente excomungado estava o Cardeal Jean Villot.

Nos dias que se seguiram, o Papa passou a observar mais atentamente alguns de seus muitos visitantes. O problema era que os maçons pareciam extraordinariamente com o resto da humanidade. Enquanto Luciani considerava esse problema imprevisto, diversos membros da Cúria Romana, intensamente simpáticos à visão do mundo de extrema direita de Licio GeIli, vazavam informações para fora do Vaticano. Essas informações acabaram chegando a seu destino, Roberto Calvi.

As notícias do Vaticano eram sombnias. O banqueiro milanês estava convencido de que o Papa queria se vingar pela tomada do Banca Cattolica deI Veneto. Não podia conceber que a investigação de Luciani no Banco do Vaticano não fosse pessoalmente orientada e inspirada por seu desejo (de atacar Roberto Calvi . Lembrava muito bem a ira do clero de Veneza e os protestos de Luciani, sem falar no encerramento de muitas contas diocesanas e a transferência para um banco rival. Por alguns dias, Calvi chegou mesmo a considerar a possibilidade de subornar Luciani. Quem sabe se uma doação substancial ao Vaticano não resolveria o problema? Uma doação generosa para as obras de caridade? Mas tudo o que aprendera a respeito de Luciani dizia a Calvi que lidava com um tipo de homem que só encontrara raramente nos negócios, alguém que era totalmente incorruptível.

Enquanto os dias de setembro passavam, Calvi viajou pelo continente sul-americano, Uruguai, Peru, Argentina. Com ele estavam sempre Gelli ou Ortolani. Marcinkus caindo, um novo homem logo descobriria qual era a situação e a verdadeira natureza das relações entre o Banco do Vaticano e o Banco Ambrosiano. Mennini e De Strobel seriam afastados. O Banco da Itália seria informado e Roberto Calvi passaria o resto de sua vida na prisão.

Ele cobrira todas as eventualidades, considerara todos os perigos em potencial, bloqueara todas as brechas. Era perfeito o que criara: não um roubo, nem mesmo um grande roubo, mas sim um roubo contínuo numa escala até então jamais imaginada. Em setembro de 1978, Calvi já roubara mais de 400 milhões de dólares. Os conglomerados no exterior, os associados estrangeiros, as empresas de fachada... a maioria dos ladrões experimentaria um senso de triunfo por realizar um único assalto a banco. Calvi, no entanto, estava empenhado em roubar bancos às dúzias. Todos entravam em fila para serem roubados, disputando o privilégio de emprestar dinheiro ao Banco Ambrosiano.

Agora, no meio de seu sucesso irresistível, ele tinha de lidar com inspetores do Banco da Itália que não podiam ser corrompidos e a cada dia mais se aproximavam da conclusão de sua investigação. Gelli lhe assegurara que o problema podia e seria controlado. Mas como poderia até mesmo Gelli, com todo o seu imenso poder e influência, manipular um Papa?

Enquanto os dias passavam, Calvi foi ficando obcecado pelo problema. Como se pode impedir um homem honesto de destruí-lo? Se fosse um mortal comum, poderia ser pressionado, talvez ameaçado. Se isso não desse certo, haveria muitos que não hesitariam em silenciar uma ameaça... permanentemente. Mas não se tratava de um mortal comum. Era o Chefe de Estado da Cidade do Vaticano. Mais objetivamente, era o Papa. Como se podia ameaçar um Papa?

Se Albino Luciani, por algum milagre, morresse antes de substituir Marcinkus, então Calvi disporia do tempo de que precisava. Era verdade que seria apenas um mês. Mas muita coisa coisa pode acontecer em um mês. E muita coisa poderia acontecer no próximo Conclave. Deus não produziria outro Papa que quisesse reformar as finanças do Vaticano, não é mesmo? Como sempre, ele virou-se para Licio Gelli e confidenciou-lhe os seus piores receios. Depois de um longo telefonema internacional para Gelli, Roberto Calvi sentiu algum alivio. Gelli o tranqúilizara. O “problema” podia e seria resolvido.

Enquanto isso, a rotina cotidiana nos aposentos papais rapidamente se assentava em um novo padrão, em torno do novo ocupante. Mantendo, o hábito de uma vida inteira, Luciani se levantava muito cedo. Optara por dormir na cama usada por João X.XIII, ao invés de na cama de Paulo VI. O Padre Magee disse a Luciani que Paulo se recusara a dormir na cama de João “por causa de seu respeito pelo Papa João”. Ao que Luciani respondeu:

— Pois dormirei na cama de João por causa do meu amor por ele. Embora o despertador na mesinha-de-cabeceira estivesse preparado para tocar às 5:00, caso dormisse demais, o Papa era sempre despertado por uma batida na porta às 4:30. Informava-o que a Irmã Vincenza deixara um bule de café ali. Até mesmo esse ato simples ficara sujeito à interferência curial. Em Veneza, a freira se acostumara a bater na porta, gritar um “bom-dia” e levar o café até a cama para Luciani. Os ativos monsenhores do Vaticano acharam que esse ato simples violava algum protocolo imaginário. Protestaram junto ao aturdido Luciani, que acabou concordando que o café fosse deixado na porta do gabinete adjacente. O hábito de tomar um café logo depois de acordar derivava de uma operação de sinusite realizada muitos anos antes. A operação deixara Luciani com um gosto amargo na boca ao despertar. Quando viajava, se não havia café disponível, chupava uma bala.

Depois de tomar o café, Luciani fazia a barba e tomava um banho, Das 5:00 às 5:30, praticava seu inglês com a ajuda de um curso gravado em cassette. Deixava o quarto às 5:30 e ia para a pequena capela particular ali perto. Orava, meditava e dizia o seu breviário até as 7:00.

Recebia então a companhia de outros membros do círculo papal, particularmente seus secretários, Padre Lorenzi e Padre Magee. Lorenzi, também novo no Vaticano, perguntara ao Papa se Magee, um dos secretários do Papa Paulo, não poderia continuar no posto. Luciani, que se impressionara com a capacidade do Padre Magee de providenciar xícaras de café, durante os dois primeiros dias do seu Pontificado, prontamente concordara. Os três homens tinham a companhia das freiras da Congregação de Maria Bambina durante a missa, cujas funções eram limpar e cozinhar para o Papa. As freiras, Madre Superior Elena, Irmãs Margherita, Assunta, Gabriella e Clorinda logo receberam a ajuda de mais uma pessoa, a Irmã Vincenza, de Veneza, por sugestão do Padre Lorenzi. Vincenza trabalhara para Luciani desde os seus dias em Vittorio Veneto e conhecia seus jeitos, seus hábitos. Ela o acompanhara a Veneza e fora a. madre superiora da comunidade de quatro freiras que cuidava do Patriarca. Sofrera um ataque cardíaco em 1977 e fora hospitalizada. Os médicos disseram-lhe que nunca mais deveria trabalhar, limitando-se a ficar sentada e dar instruções às outras freiras. Vincenza ignorara as determinações médicas e continuara a supervisionar a cozinha da Irmã Celestina, a se movimentar constantemente em torno do Patriarca, lembrando-o de tomar seu remédio para a pressao baixa.

Para Albino Luciani, Vincenza e o Padre Lorenzi representavam seu único vinculo com as terras do norte da Itália, que agora só veria raramente e onde nunca mais tornaria a viver. E um pensamento profundo saber que, ao ser eleito Papa, um homem passa imediatamente a viver onde possivelmente morrerá e com toda certeza será enterrado. E como viver em seu próprio cemitério.

O café da manhã, de cafe latte, um pão e uma fruta, era servido logo depois da missa, ás 7:30. Como Vincenza diria às outras freiras, alimentar Luciani era um desafio considerável. Ele geralmente se mostrava indiferente ao que comia e seu apetite era como o de um canário. Como muitos que haviam conhecido a pobreza extrema, ele detestava o desperdício. O que sobrara de um jantar especial para convidados seria uma de suas refeições no dia seguinte.

Ao café da manhã, Luciani lia diversos jornais italianos. Determinara que o diário Il Gazzetino, de Veneza, fosse acrescentado à lista. Entre 8:00 e 10:00, o Papa trabalhava em seu gabinete, preparando-se para a primeira audiencia. Entre 10:00 e 12:30, com homens como Monsenhor Jacques Martin, Prefeito da Residência Pontifical, tentando fazer com que as pessoas entrassem e saíssem no horário, o Papa recebia e conversava com os visitantes, no segundo andar do Palácio Apostólico.

Martin e outros membros da Cúria não demoraram a descobrir que Luciani era um homem de vontade própria e firme. Apesar das objeções murmuradas, as conversas do Papa com os visitantes tinham o hábito de se prolongar além do horário, acarretando a maior confusão para a programação. Homens como Monsenhor Martin representam uma atitude predominante no Vaticano de que todos poderiam se desincumbir a contento de suas funções se não fosse pelo Papa.

Um almoço de minestrone ou macarrão, seguido por qualquer outra coisa que Vincenza tivesse preparado para segundo prato, era servido as 12:30. Mesmo isso dava margem a comentários. O Papa Paulo sempre almoçava às 13:30. O fato de uma coisa tão banal inspirar comentários excitados nó Vaticano é indicativo de quanto o lugar é uma aldeia. Os rumores se tornaram ainda mais intensos quando se espalhou a noticia de que o Papa aceitava a presença de mulheres à sua mesa de refeições. A sobrinha Pia e a cunhada provavelmente entraram para o livro de recordes do Vaticano. Luciani fazia uma pequena sesta entre 13:30 e 14:00. De pois, passeava um pouco pelo terraço ou pelos jardins do Vaticano. Ocasionalmente, era acompanhado pelo Cardeal Villot; com mais freqúência, Luciani lia. Além do breviário, encontrava prazer em autores tão diversos como Mark Twain e Sir Walter Scott. Ele voltava a seu gabinete pouco depois das 16:00, estudava o conteúdo de um envelope recheado que era entregue por Monsenhor Martin, relacionando os visitantes do dia seguinte e um breve sumário a respeito de cada um.

As 16:30, enquanto tomava uma xícara de chá de camomila, o Papa recebia em seu gabinete, o “Tardella”, os diversos cardeais arcebispos e secretários de congregações que constituíam o seu ministério. Eram reuniões importantes, pois garantiam o funcionamento seguro das engrenagens da Igreja Católica.

A refeição da noite era às 19:45. Às 20:00, enquanto ainda comia Luciani assistia à televisão. Seus companheiros ao jantar, a não ser que houvesse convidados especiais., eram os Padres Lorenzi e Magee.

Depois do jantar, havia mais preparativos para as audiências do dia seguinte. O Papa dizia a parte final do breviário diário e em seguida se retirava para dormir, em torno das 21:30.

O jantar, assim como o almoço que o precedera, seria simples e sem sofisticações. A 5 de setembro Luciani recebeu um padre veneziano, Padre Mario Ferrarese. Para convidar o padre aos aposentos papais, Luciani deu a desculpa de que desejava retribuir a hospitalidade que Padre Mario lhe dispensara em Veneza. Preferia a companhia de um padre paroquiano a considerar o fato de que os ricos e poderosos da Itália tentavam conseguir que partilhasse de sua mesa. Aquela refeição em particular foi servida por dois membros da equipe papal, Guido e Gian Paolo Guzzo. O Papa pediu notícias de Veneza, a seguir observou tranquílamente:

— Peça às pessoas por lá que rezem por mim porque não é fácil ser um Papa.

E dirigindo-se aos irmãos Guzzo disse:

— Como temos um convidado devemos servir-lhe uma sobremesa.

Após alguma demora, taças de sorvete foram servidas à mesa papal. Para os de fora, vinho. Luciani se contentava com água mineral.

Essa era a rotina diária do Papa João Paulo I... uma rotina que ele tinha a maior satisfação em perturbar de vez em quando. Sem avisar a ninguém, saía inesperadamente a passear pelos jardins do Vaticano. Podia-se pensar que era uma simples diversão, mas um passeio improvisado lançava o protocolo do Vaticano e os guardas suíços na maior confusão. Luciani já causara consternação entre os oficiais da Guarda Suiça ao conversar com homens de sentinela e também pedir que se abstivessem de ajoelhar-se cada vez que se aproximava. Ele comentou para o Padre Magee:

— Quem sou eu para que se ajoelhem na minha presença?

Monsenhor Virgilio Noe, o mestre-de-cerimônias, suplicou-lhe que não conversasse com os guardas e se limitasse a um aceno de cabeça silencioso. O Papa perguntou por quê. Noe abriu os braços numa reação de espanto.

— Santo Padre, isso simplesmente não se faz. Nenhum Papa jamais falou com os guardas.

Albino Luciani sorriu e continuou a falar com os guardas. Era muito diferente dos primeiros dias do Pontificado de Paulo, quando padres e freiras ainda ficavam de joelhos para conversar com o Papa, mesmo quando fosse pelo telefone.

A atitude de Luciani em relação ao telefone também provocou alarme entre os tradicionalistas da Cúria. Tinham de lidar agora com um Papa que se considerava perfeitamente capaz de discar para alguém que desejasse falar e atender ligações. Ligava para amigos ern Veneza. Telefonava para diversas madres superioras apenas para uma conversa inconsequente. Certa ocasião, comentou com seu amigo Padre Bartolomeo Sorges que gostaria que o Padre Dezza, um jesuíta, ouvisse sua confissão. Uma hora depois, o Padre Dezza telefonou para combinar a visita. A voz ao telefone informou-o:

— Lamento muito, mas o secretário do Papa não está no momento. Posso ajudar?

— Quem está falando?

— O Papa.

Simplesmente não se fazia assim. Nunca acontecera antes e talvez nunca mais torne a acontecer. Os dois homens que atuavam como secretários de Luciani negaram categoricamente que jamais tivesse acontecido. Era inconcebível. Mas aconteceu realmente.

Luciani começou a explorar o Vaticano, com seus 10 mil cômodos e corredores, 997 escadas, sendo que 30 secretas. Muitas vezes deixava subitamente os aposentos papais, sozinho ou acompanhado apenas pelo Padre Lorenzi. E também de repente aparecia nos escritórios da Cúria.

— Estou apenas descobrindo os caminhos por aqui — ele explicou uma ocasião ao surpreso Arcebispo Caprio, Subsecretário de Estado.

Eles não gostavam. Não gostavam absolutamente. A Cúria estava acostumada a um Papa que conhecia o seu lugar, que atuava através dos canais burocráticos. Mas aquele Papa circulava por toda parte, se intrometia em tudo, e a pior de tudo, queria fazer mudanças. A batalha pela sedia gestatoria, a cadeira em que os papas anteriores eram transportados, começou a assumir proporções extraordinárias. Luciani a banira para a depósito. Os tradicionalistas iniciaram uma luta para trazê-la de volta. O fato de coisas tão insignificantes ocuparem o tempo de um Papa e um comentário esclarecedor sobre as perspectivas de determinados setores da Cúria Romana.

Luciani tentou argumentar com homens como Monsenhor Noe como se faz com uma criança. O mundo deles não era o seu e o Papa não estava disposto a mudar. Explicou a Noe e aos outros que circulava a pé em público porque não se considerava melhor do que qualquer outro homem. Detestava a cadeira e o que ela simbolizava.

— Mas as multidões não podem vê-lo sem a cadeira — protestou um representante da Cúria. — Todos estão pedindo a sua volta. Todos devem poder ver o Santo Padre.

Obstinadamente, Luciani lembrou que aparecia com frequência na televisão e que todos os domingos aparecia na sacada para o Angelus. Disse também o quanto detestava a idéia de ser virtualmente carregado nos ombros de outros homens.

— Mas se Sua Santidade procura uma humildade ainda mais profunda do que claramente já tem, o que poderia ser mais humilhante do que ser carregado na cadeira que tanto detesta? Diante desse argumento, o Papa reconheceu a derrota. Em sua segunda audiência pública, foi levado ao Salão Nervi na sedia gestatoria.

Enquanto uma parte do tempo de Luciani era absorvida pelas atividades triviais da Cúria, a maioria de suas horas de vigília era dedicada a problemas mais sérios. Dissera ao corpo diplomático que o Vaticano renunciava a todas as reivindicações de poder temporal. Não obstante, o novo Papa logo descobriu que praticamente todos os grandes problemas do mundo passavam por sua mesa. A Igreja Católica, com mais de 18 por cento da população mundial lhe prestando fidelidade espiritual, representa uma força poderosa; como tal, era obrigada a assumir uma posição e tomar uma atitude numa enorme variedade de problemas.

Além de sua atitude em relação ao General Videla, da Argentina, qual seria a reação de Albino Luciani à pletora de ditadores que presidiam vastas populações católicas? Qual seria a sua reação à camarilha de Marcos, nas Filipinas, com seus 43 milhões de católicos? Em relação ao auto-eleito Pinochet, no Chile, que tem mais de 80 por cento da população de católicos? E o General Somoza, da Nicarágua, o ditador tão admirado pelo assessor financeiro do Vaticano, Michele Sindona? Como Luciani restauraria a posição de uma Igreja Católica para os pobres e oprimidos num pais como Uganda, onde Amin providenciava acidentes fatais para padres como uma ocorrência quase cotidiana? Qual seria sua resposta aos católicos de El Salvador, onde alguns membros da junta militar no poder consideravam que ser católico era ser um inimigo”? Trata-se de um país em que 96 por cento dos habitantes são católicos e que prometia oferecer ao mundo uma receita de genocídio, um problema um pouco mais sério do que o debate no Vaticano sobre a cadeira do Papa.

Como o homem que dissera palavras duras sobre o comunismo de seu púlpito em Veneza falaria ao mundo comunista da Basílica de São Pedro? O cardeal que aprovara um “equilíbrio do terror” em relação às armas nucleares manteria a mesma posição quando os defensores internacionais do desarmamento unilateral solicitassem uma audiência?

Havia também incontáveis problemas, herdados de Paulo VI dentro de suas próprias fileiras. Muitos padres queriam o fim do voto de celibato. Havia pressões para se permitir o ingresso das mulheres no sacerdócio. Havia grupos que exigiam a reforma das leis canônicas sobre o divórcio, aborto, homossexualismo e uma dúzia de outras questões... e todos se dirigiam a um só homem, exigindo, suplicando, exortando. O novo Papa demonstrou rapidamente, nas palavras de Monsenhor Loris Capovilla, o ex-secretário de João XXIII, que “havia mais em sua loja do que ele mostrou na vitrine”. Quando o Ministro do Exterior Monsenhor Agostino Casaroli procurou o Papa com sete questões sobre as relações da Igreja com diversos países do lest europeu, Albino Luciani prontamente deu as soluções para cinco pediu um pouco de tempo para analisar as outras duas. O aturdido Casaroli voltou a seu gabinete e relatou a um colega o que acontecera O sacerdote perguntou-lhe:

— As soluções foram corretas?

— Totalmente corretas, na minha opinião. Mas seria preciso um ano para se arrancar as respostas de Paulo.

Outro dos problemas encaminhados ao Papa envolvia a Irlanda e a atitude da Igreja em relação ao IRA. Muitos consideravam que a Igreja Católica não fora bastante franca e objetiva em sua condenação da continua carnificina na Irlanda do Norte. Poucas semanas antes da eleição de Luciani, o Arcebispo O’Fiaich, então o Primaz Católico de Toda a Irlanda, alcançara as manchetes com sua denúncia das condições na prisão de Maze, em Long Kesh. O ’Fiaich visitara a prisão e depois falara de seu choque “com o fedor e sujeira em algumas celas, os remanescentes de carne putrefata e excremento humano espalhados pelas paredes”. Havia muitos outros comentários similares. Em nenhum lugar do seu longo pronunciamento, liberado para os meios de comunicação com extremo profissionalismo, o arcebispo reconhecia que as condições na prisao eram criadas pelos próprios presos.

A Irlanda estava sem um cardeal. Muitos tentavam influenciar o Papa. O Arcebispo O’Fiaich era considerado por alguns como o maior candidato ao posto, outros sentiam que sua promoção à Arquidiocese de Armagh provou ser um absoluto desastre.

Albino Luciani devolveu o dossiê sobre O’Fiaich a seu Secretário de Estado com um movimento negativo e a frase:

— Acho que a Irlanda merece um pouco mais.

A procura por um cardeal continuou.

Em setembro de 1978, a crise no Líbano não era considerada de maior importância na lista dos problemas mundiais. Havia dois anos que reinava uma espécie de paz, entremeada de combates esporádicos entre tropas sírias e cristãs. Muito antes de qualquer outro chefe de Estado, o pequeno e discreto sacerdote do Veneto compreendeu que o Líbano era um matadouro em potencial. Discutiu o problema em profundidade com Casaroli e disse que desejava visitar Beirute antes do Natal de 1978.

Um dos homens que Luciani recebeu, durante as audiências matutinas de 15 de setembro, foi o Cardeal Gabriel-Marie Garrone, Prefeito da Sagrada Congregação para a Educação Católica. Essa audiência em particular é um exemplo extraordinário de como eram excepcionais os talentos de Luciani. Garrone viera discutir um documento chamado Sapientia Christiana, que versava sobre a constituição apostólica e as diretivas e regras de todas as faculdades católicas do mundo. Já no início dos anos 60 o Concílio Vaticano Segundo revisara as orientações para os seminários. Depois de dois anos de discussões internas, a Cúria Romana enviara suas propostas aos bispos do mundo, a fim de que estudassem e apresentassem suas recomendações. Todos os documentos relevantes foram depois submetidos a mais duas reuniões curiais, com a presença de consultores não-curiais. Os resultados foram em seguida examinados pelo menos por seis departamentos curiais, o documento final sendo apresentado ao Papa Paulo VI em abril de 1978, 16 anos depois das reformas propostas serem discutidas pela primeira vez. Paulo pensara em divulgar o documento a 29 de junho, dia de São Pedro e São Paulo. Mas um documento com um período de gestação de cerca de 16 anos naõ podia ser aprontado tão depressa no departamento de tradução da Cúria. E o Papa Paulo já morrera quando o documento finalmente ficou pronto. Qualquer iniciativa não proclamada por ocasião da morte de um Papa perde o valor, a menos que seja aprovada pelo sucessor. Por isso, o Cardeal Garrone entrou na audiência com o novo Papa com uma profunda apreensão. Cerca de 16 anos de trabalho árduo poderiam ser jogados no lixo se Luciani rejeitasse o documento. O antigo professor de seminário de Belluno disse a Garrone que passara a maior parte do dia anterior estudando o documento. Depois, sem sequer consultar uma cópia. pôs-se a discuti-lo em profundidade e detalhes. Garrone ficou atônito com a percepção e compreensão do Papa de um documento tão complexo. Ao final da audiência, Luciani comunicou que o documento tinha sua aprovação e deveria ser publicado a 15 de dezembro.

Como Casaroli, Baggio, Lorscheider e diversos outros homens Garrone saiu da audiência com Luciani extremamente admirado. Voltando a seu gabinete, encontrou por acaso com N’lonsenhor Scalzotto, da Propaganda Fide, com quem comentou:

— Acabo de me encontrar com um grande Papa.

Enquanto isso, o “grande Papa” continuava a abrir caminho pela montanha de problemas deixados por Paulo, Um deles era o Cardeal John Cody, de uma das mais poderosas e ricas dioceses do mundo, Chicago.

Para um cardeal, qualquer cardeal, ser considerado um grande problema pelo Vaticano é insólito.., mas Cody era um homem insólito. As acusações formuladas contra o Cardeal Cody, nos 10 anos anteriores ao início do pontificado de Luciani, eram extraordinárias. Mesmo que apenas cinco por cento fossem verdadeiras, então Cody não tinha condições de ser um padre, muito menos o cardeal de Chicago.

Antes de sua promoção à Arquidiocese de Chicago, em 1965, ele dirigira a diocese de Nova Orleans. Muitos padres que tentaram trabalhar com ele em Nova Orleans ainda exibem as cicatrizes para prová-lo. Um deles recordou:

— Quando aquele filho da puta ganhou Chicago, promovemos uma festa e entoamos o Te Deum. Nosso ganho era a perda de Chicago.

Quando conversei sobre a carreira subsequente do cardeal de Chicago com o Padre Andrew Greeley, famoso sociólogo cristão, escritor e antigo critico de Cody, comentei que outro padre de Chicago comparara o Cardeal Cody ao Capitão Queeg, o despótico e paranóico comandante, naval em The Caine Mutiny. A resposta do Padre Greeley foi imediata:

— Acho que é uma injustiça com o Capitão Queeg.

Nos anos que se seguiram à nomeação do Cardeal Cody para Chicago, tornou-se’moda na Cidade dos Ventos compará-lo com o Prefeito Richard Daley, um homem cujas práticas no comando da cidade só eram democráticas por acaso. Havia, porém, uma diferença básica. A cada quatro anos, Daley tinha de prestar contas de seus atos aos eleitores, pelo menos em teoria. Se conseguissem superar a sua máquina política, poderiam afastá-lo do cargo. Mas Cody não fora eleito. A não ser por uma ação muito drástica de Roma, ele continuaria ali pelo resto de sua vida. Cody gostava até de comentar:

— Não tenho de prestar contas a ninguém além de Roma e Deus.

Os acontecimentos provariam que Cody se recusava a prestar contas até a Roma. Com isso, só restava Deus.

Quando chegou a Chicago, Cody tinha a reputação de ser um excelente gerente financeiro, um liberal progressista que batalhara por muito tempo e com grande afinco pela integração escolar em Nova Orleans e um prelado muito exigente. Ele não demorou a perder os dois primeiros atributos. No início de junho de 1970, quando era tesoureiro da Igreja Americana, aplicou dois milhões de dólares em ações da Penn Central. Houve um colapso das ações poucos dias depois e a companhia faliu. Cody investira ilegalmente o dinheiro durante a administração de seu sucessor devidamente eleito, a quem se recusara a entregar os talões de cheques até muito depois do prejuízo. Mas conseguiu sobreviver ao escândalo.

Semanas depois de sua chegada a Chicago, ele demonstrou o seu tipo particular de liberalismo progressista no tratamento com alguns padres. Nos arquivos de seu antecessor, Cardeal Albert Meyer, descobriu uma lista de padres “problemas”, homens que eram alcoólatras, senis ou simplesmente incompetentes. Cody começou a passar as tardes de domingo a visitar as residências paroquiais. Demitia pessoalmente os padres, dando-lhes apenas duas semanas para deixarem as residências. Não havia fundos de pensão, planos de aposentadoria ou esquemas de seguros para os padres em Chicago em meados dos anos 60. Muitos daqueles tinham mais de 70 anos. Cody simplesmente jogouos na rua.

Ele começou a transferir padres de uma parte para outra da cidade, sem qualquer consulta. Assumia uma atitude similar em relação a fecnar conventos, residências parôquiais e escolas. Houve uma ocasião em que, por ordem de Cody, uma equipe de demolição começou a derrubar uma residência paroquial e um convento enquanto os ocupantes ainda se banhavam e tomavam o café da manhã.

O problema básico de Cody parecia ser uma profunda incapacidade de reconhecer o Concílio Vaticano Segundo como um fato da vida. Houvera conversas intermináveis no Concilio sobre partilhar o poder, tomar as decisões em colegiado. Mas essas notícias nunca chegaram à mansão do cardeal.

Numa diocese com 2,4 milhões de católicos, começaram a ser definidas as linhas de batalha entre as facções a favor e contra Cody. Enquanto isso, a maioria dos católicos na cidade se perguntava o que estava acontecendo.

Os padres formaram uma espécie de sindicato, a Associação dos Padres de Chicago. Cody ignorou quase que totalmente suas reivindicações. Cartas pedindo reuniões não eram respondidas. Telefonemas descobriam que o cardeal estava constantemente “ocupado”. Alguns permaneceram para continuar a luta por uma Igreja dirigida de forma mais democrática. Muitos desistiram. Numa década, um terço dos clérigos de Chicago abandonou o sacerdócio. Embora essas de monstrações maciças comprovassem que havia algo de podre no Estado de Illinois, o Cardeal Cody continuou a insistir que seus oponentes não passavam de “uma minoria altamente ruidosa”.

O cardeal também atacou a imprensa local, declarando-a hostil. Na verdade, porém, os meios de comunicação de Chicago foram extraordinariamente tolerantes durante o reinado de Cody.

O homem que lutara pela integração em Nova Orleans tornou-se conhecido em Chicago como o homem que fechou escolas para negros, alegando que a Igreja não tinha condições de mantê-las... numa diocese com uma receita anual que beirava os 300 milhões de dólares.

Como acontecia praticamente com todos os seus atos, Cody fechou a maioria das escolas sem consultar ninguém, nem mesmo a junta escolar. Quando o clamor de “racista” se elevou, Cody tratou de se defender com a declaração de que muitos negros não eram católicos e que a Igreja não tinha a obrigação de educar negros protestantes de classe média. Mas foi muito difícil de se desvencilhar do rótulo de racismo.

A medida que os anos passaram, as acusações contra Cody se multiplicaram. O conflito com amplos setores do seu próprio clero tornou-se encarniçado. Sua paranóia desabrochou.

Começou a contar histórias de como fora utilizado em trabalho secreto de espionagem para o governo dos Estados Unidos, e as contribuições com o FBI. Disse aos padres que também realizara missões especiais para a CIA, inclusive voando a Saigon. Os detalhes eram sempre vagos. Mas se Cody dizia a verdade, envolvera-se em atividades de serviço secreto para o governo desde o inicio dos anos 40. Parecia que John Patrick Cody, o filho de um bombeiro de St. Louis, levara muitas vidas.

A reputação de astúcia financeira que levara para Chicago e fora um tanto afetada pelo prejuízo de dois milhões de dólares da Penn Central sofreu um novo golpe quando alguns de seus oponentes começaram a investigar sua carreira anterior, bastante movimentada. Nos intervalos dos vôos reais ou imaginários sobre territórios inimigos, ele conseguira involuntariamente reduzir a um estado de pobreza uma parte da Igreja, embora não da maneira idealizada por Albino Luciani. Deixara a diocese de São José, em Kansas City , com uma dívida de 30 milhões de dólares. Fizera a mesma coisa em Nova Orleans , o que acrescentava um significado maior ao Te Deum do clero local por ocasião de sua partida. Pelo menos deixara um memento permanente de sua passagem por Kansas City, tendo aplicado somas vultosas para dourar o domo da catedral restaurada no centro da cidade.

Cody passou a vigiar os movimentos diários dos padres e freiras que suspeitava de deslealdade. Dossiês foram reunidos. Interrogatórios secretos de amigos de “suspeitos” tornaram-se uma norma. Nunca se definiu o que tudo isso tinha a ver com o Evangelho de Cristo.

Quando algumas dessas atividades foram denunciadas a Roma pelo clero de Chicago. o Papa Paulo VI ficou preocupado e angustiado. Era mais do que evidente que o membro sênior da Igreja Católica em Chicago já demonstrara, no início dos anos 70, que não tinha condições de presidir a diocese. Apesar disso, imbuido de um estranho senso de prioridades, o Papa ainda hesitava. A paz de espírito de Cody parecia pesar mais que o destino de 2,4 milhões de católicos.

Um dos aspectos mais extraordinários do caso de Cody é que ele controlava, aparentemente sem qualquer consulta a quem quer que fosse, toda a receita da Igreja Católica em Chicago. Um homem são e extremamente inteligente já teria dificuldades para controlar com plena eficiência uma receita anual entre 250 e 300 milhões de dólares. O fato dessa incumbência ser entregue às mãos de Cody desafia qualquer explicação.

Por volta de 1970, os bens da Igreja Católica em Chicago ultrapassavam um bilhão de dólares. Por causa da recusa do Cardeal Cody em publicar um balanço anual fiscalizado, padres de diversas partes da cidade passaram a reter algumas somas, que em tempos mais felizes seriam encaminhadas ao controle do cardeal. Finalmente, em 1971, seis anos depois de iniciar seu domínio despótico, Cody se dignou a divulgar o que passava por uma prestação de contas anual. Foi um curioso balanço. Não revelava os investimentos imobiliários, Não revelava os investimentos em ações. Em relação à receita dos cemitérios, apresentava finalmente uma prova de vida depois da morte. Os lucros eram enormes. Seis meses antes de as cifras serem divulgadas, Cody confidenciara a um assessor que o lucro andava na casa dos 50 milhões de dólares. Quando a prestâção de contas foi divulgada, à cifra caíra pará 36 milhões de dólares. Para um homem que podia estar simultaneamente em Romã, Saigon, Casa Branca, Vaticano e nâ mansão do cardeal em Chicago, desviar cerca de 14 milhões de dólares de receita de cemitérios era brincadeira de criança.

Cerca de 60 milhões de dólares de recursos da paróquia estâvam depositados na chancelaria de Chicago. Cody recusava-se a revelar a quem quer que fosse onde o dinheiro se achava investido ou quem se beneficiava dos juros.

Um dos trunfos pessoais mais notáveis do cardeal era o número de amigos influentes que ele continuamente adquiria dentro da estrutura de poder da Igreja. Seus tempos na Cúria Romana, antes dá guerra, trabalhando inicialmente no Colégio Norte-Americano em Roma e depois na Secretaria de Estado, produziram ricos dividendos para os momentos de necessidade. Cody era um homem que desde cedo soube aproveitar as melhores oportunidâdes. Insinuando-se nas boas graças de Pio XII e do futuro Paulo VI, ele estabeleceu uma formidável base de poder em Romã.

A ligação do Vaticano com Chicago era, no inicio dos anos 70, um de seus vínculos mais importântes com os Estados Unidos. A maior parte dos investimentos do Vaticano S.A. no mercado de ações americano era canalizada pelo Continental de Illinois. Na diretoria do banco, juntamente com David Kennedy, um amigo íntimo de Michele Síndona, estava o padre Jesuíta Raymond C. Bãumhart. As grandes somas que Cody canalizava para Roma tornaram-se um fator importante na política fiscal do Vaticano. Cody podia não ser capaz de controlar seus padres, mas certamente sabia como lidar com questões de dinheiro, Quândo o bispo que controlava a diocese de Reno fez alguns “investimentos infelizes” e houve um totâl colapso financeiro, o Vaticano pediu a Cody que o socorresse. Cody ligou para seus amigos banqueiros e o dinheiro foi prontamente providenciado.

Ao longo dos anos, a amizade entre Cody e Marcinkus tornou-se particularmente intima; tinham muita coisa em comum, muitos interesses envolvidos. Em Chicago, com sua vasta população de origem polonesa involuntariamente ajudando-o, Cody começou a desviar centenas de milhares de dólares para Marcinkus, no Banco do Vaticano, através do Continental Illinois, Marcinkus encaminhava o dinheiro para os cardeãis na Polônia.

O cardeal cuidava de garantias adicionais, distribuindo a riqueza de Chicago por determinados setores da Cúria Romana. Quando estava na cidade, e fez mais de uma centena de viagens a Roma, distribuia presentes caros pelas pessoas que mais lhe poderiam ser úteis, um isqueiro de ouro para este monsenhor, um relógio caro para aquele bispo.

Mas as queixas que continuavam a chegar a Roma superavam os presentes caros. Na Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, que age como a polícia do Vaticano em questão de ortodoxia doutrinária e moralidade clerical, a pilha de cartas crescia continuamente. Vinham não apenas de padres e freiras de Chicago, mas também de homens e mulheres dos mais diversos níveis. O Arcebispo Jean Hamer, OP, na direção da Congregação, analisou o problema. Entrar em ação contra um padre é relativamente fácil. Depois da devida investigação, a Congregação recorre ao bispo relevante, solicitando que o padre seja removido da área de controvérsia. Mas a quem recorrer quando a ação proposta é contra o cardeal?

A União dos Padres condenou Cody publicamente e declarou que ele mentia. Acabaram aprovando um voto de censura contra ele, Apesar disso, Roma permaneceu em silêncio,

No inicio de 1976, o Arcebispo Hamer não era o único membro destacado da Cúria Romana que conhecia os problemas que a conexão de Chicago estava causando. Os Cardeais Benelli e Baggio, independentemente a princípio e depois em conjunto, haviam chegado à conclusão de que Cõdy devia ser substituído.

Foi encontrada uma fórmula depois de longas conferências com Paulo VI. Numa das numerosas viagens de Cõdy a Roma, na primavera de 1976, Benelli ofereceu-lhe um posto na Cúria Romana, Ele teria um título maravilhoso, mas absolutamente nenhum poder. Reconhecia-se que Cody era ambicioso e achava que possuía talento para subir além do controle de Chicago. O plano do cardeal era tornar-se Papa. E indicativo da arrogância de Cody o fato de um homem que causara tanta confusão e transtorno em Chicago pensar seriamente que tinha possibilidades de alcançar o Pontificado. Com essa ambição, ele teria o maior prazer em trocar Chicago pelo controle de uma das Congregações da Cúria que distribuíam dinheiro às dioceses necessitadas do mundo inteiro. Cody raciocinou que poderia comprar votos suficientes para ascender ao trono de Roma quando surgisse a oportunidade. Benelli sabia disso e fora o motivo pelo qual oferecera o cargo. Mas não era o que Cody queria. Ele recusou. Era necessário encontrar outra solução.

Em janeiro de 1976, poucos meses antes da confrontação Beneldi Cody, uma delegação de Chicago visitou Jean Jadot, o núncio apostólico em Washington. Jadot informou que Roma estava cuidando da situação. A medida que o ano prosseguia sem qualquer solução, a batalha em Chicago recomeçou. A imagem pública de Cody se tornara a essa altura, tão lamentável que ele contratou uma agência de relações públicas de Chicago, à custa da Igreja, numa tentativa de obter uma cobertura favorável dos meios de comunicação.

Os irados padres e freiras começaram a se queixar outra vez a Jadot em Washington. Ele aconselhou paciência, prometendo:

— Roma encontrará a melhor solução. Mas vocês devem suspender os ataques públicos. Deixem o problema se aquietar. Roma então cuidará de tudo com a discrição necessária,

O clero aceitou as ponderações. As críticas públicas foram atenuadas. Mas logo foram reacendidas pelo próprio Cody, que decidiu fechar diversas escolas da cidade. Baggio aproveitou essa questão para outra tentativa de persuadir o Papa Paulo VI a agir de forma decisiva. O conceito de firmeza do Papai foi escrever uma carta formal a Cody, pedindo uma explicação para o fechamento das escolas. Cody ignorou a carta e gabou-se publicamente por isso.

Em Chicago, impedidos pela inatividade do Vaticano, os oponentes enviaram mais cartas a Roma, Havia novas acusações, apoiadas por depoimentos juramentados, e registros de irregularidades financeiras. Muitas evidências indicavam que o comportamento de Cody em outra área também deixava a desejar. Envolvia a sua amizade com uma mulher chamada Helen Dolan Wilson.

Cody dissera a seu pessoal na Chancelaria que Helen Wilson era sua parente. A natureza exata do parentesco variava; mas, de um modo geral, ela era descrita como prima. A fim de explicar a vida elegantede Helen Wilson, as roupas sempre na última moda, as viagens constantes, o apartamento luxuoso, o cardeal espâlhou que a prima fora deixada "muito bem de vida" pelo falecido marido. As acusações encaminhadas a Romã eram de que Cõdy e Helen Wilson não tinham qualquer parentesco, que o marido, de quem ela se divorciara há muito tempo, estava vivo na ocasião em que o cardeal o declarara morto e que, ainda por cima, quando o ex-marido morreu, em maio de 1969, não deixou testamento e seu único bem terreno, um carro de oito anos, no valor de 150 dólares, ficou para a segunda esposa.

As acusações, apresentadas a Roma em termos confidenciais, incluíam provas de que a amizade de Cody com Helen Wilson era antiga, ele fizera um seguro de vida no valor de 100 mil dólares indicando-a como beneficiária, e o registro de emprego dela na Chancelaria de Chicago fora falsificado pelo cardeal para permitir-lhe obter uma pensão maior. A pensão se baseava em 24 anos de trabalho para a diocese, o que era comprovadamente falso. Havia também provas de que Cody dera à amiga a quantia de 90 mil dólares, a fim de que ela pudesse comprar uma casa na Flórida. O Vaticano foi lembrado de que Helen Wilson acompanhara Cody a Roma quando ele fora elevado a cardeal, mas a verdade é que muitas outras pessoas integravam a sua comitiva. Ao contrário de Helen Wilson, no entanto, as outras não participavam da direção da diocese de Chicago, não decidiam os móveis e a decoração da residência do cardeal. Foi também alegado que Cody desviara centenas de milhares de dólares dos fundos dá Igreja para essa mulher.

Como se tudo isso não fosse suficiente, as acusações ainda enumeravam as vultosas quantias de seguros diocesanos encaminhadas para David. o filho de Helen. David Wilson começara a se beneficiar com a generosidade de "Tio" John já em St. Louis , em 1963, À medida que o cardeal subia, o negócio de seguros prosperava. Foi alegado que as comissões que David Wilson ganhara, aparentemente monopolizando os seguros da Igreja, controlados por Cody, ultrapassavam os 150 mil dólares.

Baggio estudou cuidadosamente a lista longa e detalhada. Houve investigações. O Vaticano é incomparável no negócio de espionagem. Basta se considerar o número de padres e freiras existentes no mundo, todos devendo fidelidade a Roma. As respostas chegaram ao Cardeal Baggio, confirmando: as acusações eram procedentes. Era agora o final de junho de 1978.

Em julho de 1978, o Cardeal Baggiõ tornou a discutir o problema do Cardeal Cody com o Papa Paulo VI, que acabou aceitando que Cody devia ser substituído. Ele insistiu, porém, que isso devia ser feito com compaixão, de uma maneira que permitisse a Cody manter as aparências. Mais importante ainda, devia ser feito de maneira a evitar qualquer publicidade escandalosa. Ficou combinado que Cody seria informado que devia aceitar uni coadjutor, um bispo que dirigiria a diocese, para todos os efeitos práticos. Oficialmente, seria anunciado que isso acontecia por causa dos problemas de saúde de Cody, que realmente existiam. Cody teria permissão para continuar como titular da diocese de Chicago até alcançar a aposentadoria compulsória, aos 75 anos, em 1982.

Munido com o édito papal, o Cardeal Baggio prontamente articulou sua viagem, fez as malas e seguiu para o Aeroporto Fiumicino, de Roma, Ali chegando, foi informado de que o Papa desejava lhe falar antes que voasse para Chicago.

Paulo mais uma vez voltara atrás. Disse a Baggio que o plano de colocar um coadjutor em Chicago para assumir o poder só poderia ser executado se Cody concordasse, Consternado, Baggio suplicou:

— Posso insistir, Santo Padre?

— Não, não pode. O plano só deve ser executado se Sua Eminência concordar.

Um irado e frustrado Cardeal Baggio voou para Chicago.

As redes de espionagem transmitem as informações para um lado e outro. O Cardeal Cody tinha as suas fontes na Cúria Romana, O elemento surpresa, com que Baggio esperava desconcertar Cody, se perdera um dia antes de sua reunião crucial com o Papa. Cody estava pronto e esperando.

A maioria dos homens na situação de Cody se submeteria a uma pequena auto-análise, talvez uma consideração dos acontecimentos que, ao longo dos anos, haviam levado aquele Papa tão relutante à conclusão angustiante de que o poder que o cardeal de Chicago detinha, no interesse de todos, devia ser entregue a outro. Sempre atencioso com os sentimentos do homem que desejava substituir, o Papa até providenciara para que o motivo da viagem de Baggio a Chicago fosse um segredo. Oficialmente, ele estava seguindo para o México, a fim de cuidar das providências finais para a Conferência de Puebla. Mas o Cardeal Cody em nenhum momento levou em consideração esses melindres.

A confrontação ocorreu na residência do cardeal, na área do seminário em Muridelein. Baggio apresentou as provas. Mostrou que, ao dar presentes em dinheiro a Helen Wilson, o cardeal incluira quantias que pertenciam à Igreja. Além disso, a pensão que concedera à sua amiga era indevida. A investigação do Vaticano revelara uma variedade de inconveniências, que certamente acarretariam descrédito para a Igreja Católica, se chegassem ao conhecimento público.

Cody estava longe de se mostrar arrependido, enquanto a confrontação rapidamente evoluia para uma discussão aos gritos. Pôs-se a falar de suas vultosas contribuições a Romã, todo o dinheiro que despejara no Banco do Vaticano para ser usado na Polônia, as doações que fizera ao Papa durante as suas visitas ad limina (as visitas e relatórios obrigatórios a cada cinco anos)... não os míseros poucos milhares de dólares que os outros levavam, mas centenas de milhares de dólares. Por toda a área do seminário podia-se ouvir os gritos dos dois Príncipes da Igreja. Cody se manteve intransigente. Outro bispo só dirigiria a diocese "por cima do meu cadáver". Ao final, como uma agulha enguiçada num disco, ele só podia pronunciar insistentemente uma única frase:

— Não renunciarei ao poder em Chicago.

Baggio foi embora, temporariamente derrotado. Um Cody desafiante, que se recusava a aceitar um coadjutor, era uma total violação das leis canônicas. Mas era inconcebível para Paulo que o público soubesse que o cardeal de uma das mais poderosas dioceses do mundo estava desafiando abertamente a autoridade papal. O Papa toleraria Cõdy até o final de seus dias, ao invés de suportar a alternativa. Para Paulo, os dias de tolerância forarri poucos. Uma semana depois de receber o relatório de Baggio, o Papa Paulo VI morreu.

Em meados de setembro, Albino Luciani já estudara em profundidade o problema de Cody. Reuniu-se com o Cardeal Baggio e discutiu o assunto. Falou das implicações da crise com Villot, Benelli, Felici e

Casaroli. A 23 de setembro, teve outra reunião longa com o Cardeal Baggio. Ao final, comunicou a Baggio que lhe falaria de uma decisão nos próximos dias.

Em Chicago, pela primeira vez em sua longa e turbulenta história, o Cardeal Cody começou a sentir-se vulnerável. Depois do Conclave, ele partícularmente não dera a menor importância ao italiano tranquilo que sucedera a Paulo.

— Tudo continuará a mesma coisa — declarara Cody a um dos seus amigos íntimos na Cúria.

Era justamente o que Cõdy queria, pois assim continuaria a mandar e desmandar em Chicago. Agora , no entanto, as notícias de Roma indicavam que ele subestimara seriamente o novo Papa. A medida que setembro de 1978 se aproximava do fim, John Cody convenceu-se de que Luciani agiria onde Paulo permanecera inativo. Os amigos de Cody informaram-no que o novo Papa, com toda certeza, levaria sua decisão até o fim, qualquer que fosse. Citaram muitos exemplos da vida de Luciani que revelavam uma excepcional força interior.

Na mesa de trabalho de Luciani estava um dos poucos bens pessoais que ele estimava. Uma fotografia. Originalmente se encontrava numa moldura velha e escalavrada, Durante a sua permanência em Veneza, um paroquiano agradecido mandara remontar a fotografia numa moldura de prata, cravejada com pedras semipreciosas. A fotografia era dos pais, tendo ao fundo as Dolomitas, cobertas de neve. Nos braços da mãe estava a bebê Pia, agora uma mulher casada, com seus próprios filhos. Durante o mês de setembro de 1978, seus secretários observaram que o Papa, em diversas ocasiões, parecia perdido em pensamentos, enquanto contemplava a fotografia. Era uma lembrança de tempos mais felizes, quando homens como Cody, Marcinkus, Calvi e os outros não perturbavam sua tranquilidade. Houvera então tempo para o silêncio e para pequenas coisas. Agora, Luciani tinha a impressão de que nunca encontrava tempo suficiente para os aspectos mais importantes de sua vida. Estava isolado de Canale e até mesmo de sua família. Ainda conversava ocasionalmente pelo telefone com Edoardo e Pia, mas as visitas inesperadas haviam acabado para sempre. A máquina do Vaticano cuidava disso. Até mesmo Diego Lorenzi tentava afastar Pia quando ela telefonava. Ela queria levar alguns pequenos presentes, lembranças do norte.

— Deixe no portão — disse Lorenzi. — O Papa está muito ocupado para recebê-la.

Luciani ouviu essa conversa e pegou o telefone.

— Venha me visitar, Não tenho tempo, é verdade, mas darei um jeito.

Almoçaram juntos. Tio Albino gozava de excelente saúde e parecia muito animado. Durante a refeição, comentou seu novo papel:

— Se soubesse que um dia me tornaria Papa, eu teria estudado mais. E muito difícil ser Papa.

Pia compreendia como o trabalho podia ser árduo e difícil, e tudo agravado pela obstinação da Cúria. Luciani desejava tratar Roma como sua nova paróquia, passeando pelas ruas como costumava fazer em Veneza e suas outras dioceses. Mas havia problemas para um Chefe de Estado se comportar assim. A Cúria declarou categoricamente que a idéia não apenas era inconcebível, mas também inexeqúivel. A cidade mergulharia num caos constante se o Santo Padre saísse a perambular pelas ruas. Luciani abandonou a idéia, mas apenas por uma versão modificada. Comunicou aos homens do Vaticano que desejava visitar todos os hospitais, igrejas e centros de refugiados em Roma, gradativamente conhecendo e circulando por todos os setores do que considerava a sua paróquia. Para um homem determinado a ser um Papa pastoral, a realidade em sua porta constituía um poderoso desafio.

Roma possui uma população católica de dois milhões e meio de habitantes. Deveria estar produzindo pelo menos 70 novos padres por ano. Quando Luciani tornou-se Papa, produzia apenas seis. A vida religiosa de Roma era mantida pela importação de clérigos. Muitas partes da cidade eram na verdade pagãs, com o comparecimento às igrejas sendo inferior a três por cento da população. Ali, no coração da fé, o ceticismo era grande.

A cidade que se tornara agora o lar de Albino Luciani também abrigava o prefeito comunista Cardo Argan, um prefeito comunista numa cidade em que o maior produto é a religião e cuja indústria só encontra equivalente no índice de criminalidade, Um dos novos títulos que Luciani adquirira era o de Bispo de Roma, uma cidade que não contava com um bispo, no mesmo sentido de Milão, Veneza, Florença ou Nápoles, há mais de um século. E isso transparecia.

Enquanto Pia almoçava com o Papa, Dom Diego estava envolvido numa discussão prolongada com um elemento da Cúria, que se recusava a sequer considerar o desejo papal de visitar diversas partes de Roma. Luciani interrompeu a conversa com Pia para dizer a seu secretário:

— Diga a ele que tem de ser feito, Dom Diego. Diga que o Papa assim deseja.

Lorenzi transmitiu a determinação papal, mas a recusa persistiu. Virando-se para o Papa, ele informou:

— Eles dizem que nâo é possível, Santo Padre, porque nunca foi feito antes.

Pia observava, fascinada, enquanto prosseguia a partida de tênis do Vaticano, Luciani acabou pedindo desculpas à sobrinha pela interrupção e disse a seu secretário que daria as instruções necessárias a Villot. E acrescentou para Pia, sorrindo:

— Se a Cúria Romana permitir, seu tio espera visitar o Líbano antes do Natal.

Ele discorreu longamente sobre aquele país conturbado e seu desejo de interferir antes que o barril de pólvora explodisse. Depois do almoço, quando a sobrinha estava de partida. Luciani insistiu em lhe dar de presente uma medalha que ganhara da mãe do Presidente do México. Poucos dias depois, a 15 de setembro, recebeu o irmão Edoardo para jantar. Essas duas reuniões familiares estavam destinadas a ser as últimas que Albino Luciani teria.

Enquanto o Pontificado de Albino Luciani prosseguia, aumentava o abismo entre o papa e os observadores profissionais do Vaticano, na proporção direta em que se tornavam mais estreitos os laços e relacionamentos entre o novo Papa e o público em geral. A perplexidade dos profissionais era compreensível.

Confrontados com um cardeal não-curial, que aparentemente carecia de reputação internacional, os profissionais concluíram que observavam o primeiro de uma nova espécie de Papa, um homem deliberadamente escolhido para garantir que houvesse uma redução de poder, um papel menos significativo para o Pontificado. Não pode haver muita dúvida de que o próprio Luciani encarava o seu papel nesses termos reduzidos. O problema essencial nessa visão de um Pontificado menos significativo era o próprio homem. A essência de Albino Luciani, sua personalidade, inteligência e talentos extraordinários fizeram com que o público em geral conferisse ao novo Papa uma posição de maior importância, aceitando o que ele tinha a dizer como algo de significado mais profundo. A reação pública a Luciani demonstrava claramente uma necessidade profunda de uma atuação papal ampliada, exatamente o inverso do que tencionavam muitôs cardeais. Quanto mais Luciani se mostrava humilde, mais exaltado se tomava para os fiéis.

Muitos que só haviam conhecido Luciani em seus dias em Veneza estavam profundamente surpresos com o que consideravam a mudança no homem. Em Vittorio Veneto , Belluno e Canale, no entanto, não houve qualquer surpresa. Aquele era o verdadeiro Albino Luciani. A simplicidade, o senso de humor, a ênfase no catecismo.., esses eram os elementos integrantes do homem.

A 26 de setembro, Luciani podia olhar para trás e contemplar com satisfação o seu primeiro mês no novo cargo. Fora um mês repleto de impactos poderosos. Suas investigações sobre atividades corruptas e desonestas lançaram os responsáveis no medo mais profundo. Sua impaciência com a pomposidade da Cúria causara indignação. Em

diversas ocasiões, ele abandonara os.discursos escritos oficialmente e se queixara em público:

— O estilo é curial demais.

Ou comentava:

— Está untuoso demais.

A Rádio Vaticano e o Osservatore Romano raramente reproduziam as suas palavras literalmente, mas o público as ouvia e o mesmo acontecia com outros meios de comunicação. Tomando emprestada uma frase de São Gregório, o Papa comentou que, ao elegê-lo, "o imperador queria um macaco para se transformar em leão". Lábios se contraíram no Vaticano, enquanto bocas se abriam em sorriso pelo público. Ali estava um "macaco" que, no transcorrer de seu primeiro mês de Pontificado, falara-lhes em latim, italiano, francês, inglês, alemão e espanhol. Como Winston Churchill poderia ter comentado, "que macaco!"

A 7 de setembro, durante uma audiência particular com Vittore

Branca, às 8:00 da manhã, um horário que causou consternação na

Cúria, o amigo manifestou sua preocupação pelo peso do Pontificado.

Ao que Luciani respondeu:

É verdade, claro que sou muito pequeno para grandes coisas. Só posso repetir a verdade e o chamado Evangelho, como fazia na igrejinha da minha terra. Basicamente, os homens precisam disso. Sou o guardião das almas, acima de tudo. Entre o padre da paróquia de Canale e mim só há diferença no número de fiéis. A missão, no entanto, é a mesma:

lembrar Cristo e sua palavra.

Mais tarde, nesse mesmo dia, reunido com todos os padres de Roma, ele falou da necessidade de meditação. Suas palavras têm um significado profundamente pungente quando se considera quão pouco tempo e espaço um novo Papa dispõe para meditação.

Fiquei comovido na estação ferroviária de Milão ao ver um carregador dormindo na maior felicidade, com a cabeça num saco de carvão e as costas numa pilastra. Os trens apitavam ão partirem, as rodas guinchavam ao chegarem. Os altofalantes constantemente interrompiam. As pessoas passavam ruidosamente. Mas o homem continuava a dormir e parecia dizer: "Façam o que devem, mas eu preciso de alguma paz. Nós, sacerdotes, devemos fazer a mesma coisa. Há um movimento contínuo ao nosso redor. Pessoas falando, jornais, emissoras de rádio e televisão. Com a disciplina e moderação de sacerdotes, devemos dizer: "Além de determinados limites, vocês não existem para mim. Sou um sacerdote do Senhor. Preciso de um pouco de silêncio para a minha alma. Eu me distancio de vocês para estar com meu Deus por algum tempo."

O Vaticano registrava os seus discursos nas audiências gerais, quando ele falou, em sucessivas quartas-feiras, em Fé, Esperança e Caridade. Mas a súplica de Luciani para que essas virtudes fossem demonstradas, por exemplo, em relação aos viciados em tóxicos, foi ignorada pela Cúria, que controlava os meios de comunicação do Vaticano.

A 20 de setembro, quando ele pronunciou a frase memorável que era errado acreditar Ubi Lenin, ibi Jerusalem (Onde Lenin está, há Jerusalém), a Cúria anunciou que o Papa estava rejeitando a "teologia da libertação". Não estava. Além disso, a Rádio Vaticano e o Osservatore Romano deixaram de registrar a qualificação importante de Luciani, de que entre a Igreja e a salvação religiosa, por um lado, e o mundo e a salvação humana, por outro, "há alguma coincidência, mas não podemos fazer uma equação perfeita".

No dia 23 de setembro, um sábado, a investigação de Luciani sobre o Vaticano S. A. estava bastante adiantada, Villot, Benelli e outros haviam fornecido relatórios sobre os quais o Papa meditara, Nesse dia, ele deixou o Vaticano pela primeira vez, a fim de tomar posse de sua catedral como o Bispo de Roma. Apertou a mão do Prefeito de Roma, Argan, trocaram discursos. Depois da missa que se seguiu, com a maioria da Cuna presente, o Papa abordou por diversas vezes os problemas intemos com que se defrontava. Referindo-se aos pobres, o setor da população que mais falava ao seu coração, Luciani disse:

Como afirmou o diácono romano Lawrence, esses são os verdadeiros tesouros da Igreja. Mas devem ser ajudados por aqueles que podem, pelos que têm mais e são mais, sem serem humilhados e ofendidos pelas riquezas ostensivas, pelo dinheiro esbanjado em coisas inúteis e não investido em empreendimentos que beneficiem a todos, na medida do possível.

Mais adiante, no mesmo discurso, ele virou-se e olhou diretamente para os homens do Banco do Vaticano, reunidos a um lado, passando a falar sobre as dificuldades de guiar e governar.

Embora tenha sido bispo de Vittorio Veneto e em Veneza por mais de 20 anos, reconheço que não aprendi o trabalho muito bem. Em Roma, eu me colocarei na escola de São Gregório, o Grande, que escreveu que (o pastor) deve, com compaixão, estar próximo de cada um que lhe está sujeito; independente de seu posto, deve se considerar no mesmo nível que o rebanho, mas sem temer exercitar os direitos de sua autoridade contra os iníquos...

Sem conhecimento do que acontecia no Vaticano, o público limitou-se a assentir sabiamente. Mas a Cúria sabia exatamente a que o Papa se referia. Era um pronunciamento elegante e indireto, ao melhor estilo do Vaticano, sobre os eventos futuros.

As mudanças pairavam no ar, e na aldeia do Vaticano havia especulações frenéticas. O Bispo Marcinkus e pelo menos dois de seus assessores mais chegados, Mennini e De Strobel, estavam para cair. Isso era considerado um fato inevitável. O que mais agitava as mentes curiais era que havia também rumores de outras substituições.

No domingo, 25 de setembro, um visitante particular dos aposentos papais foi identificado por um monsenhor atento como sendo Lino Marconato. O excitamento na aldeia alcançou um novo auge. Marconato era diretor do Banco San Marco. Sua presença nos aposentos papais indicava que já fora encontrado um sucessor para o Banco Ambrosiano?

Na verdade, porém, a reunião foi sobre questões bancárias menos exóticas. O Banco San Marco tomara-se o banco oficial da diocese de Veneza depois que Luciani, furioso, encerrara todas as contas no Banca Cattolica Veneto. Agora, Luciani precisava encerrar suas contas pessoais no San Marco, sabendo que nunca mais voltaria a residir naquela cidade. Marconato encontrou o seu quase ex-cliente na melhor saúde. Conversaram cordialmente sobre Veneza, Luciani deu instruções para que o dinheiro em sua conta de Patriarca fosse transferido para o seu sucessor.

A preocupação com as mudanças iminentes era intensa. Em muitas cidades. Por muitas pessoas.

Outro que tinha um interesse velado no que Luciani podia estar prestes a fazer era Michele Sindona. A batalha de quatro anos de Sindona pára evitar a extradição dos Estados Unidos para a Itália encaminhava-se para o climax em setembro de 1978. Pouco antes, em maio desse mesmo ano, um juiz federal americano decidira que o siciliano, que se tornara cidadão suíço, deveria ser recambiado a Milão, a fim de enfrentar o julgamento pelo que fizera. Em sua ausência, Sindona fora condenado a três anos e meio de prisão, mas sabia que essa sentença pareceria clemente depois que os tribunais italianos acabassem com ele. Apesar da investigação federal, ele ainda se achava livre de qualquer acusação nos Estados Unidos. O colapso do Franklin Bank fora seguido pela prisão de diversos homens, sob várias acusaçoes, mas em setembro de 1978 O Tubarão permanecia incólume. Seu maior problema na ocasião estava na Itália.

A bateria de advogados de um milhão de dólares persuadira os tribunais americanos a não decretarem a extradição, até que os procuradores federais provassem que havia provas concretas contra Sindona das diversas acusações formuladas em Milão.

De maio em diante, os procuradores se empenhavam ao máximo para obter essas provas. Sindona, ajudado pela Máfia e por seus companheiros da P2, empenhava-se com igual afinco para dar um sumiço nas provas. Quando setembro de 1978 se aproximava do fim, ele ainda tinha muitos "problemas".

O primeiro era o depoimento prestado no processo de extradição por uma testemunha, Nicola Biase, um antigo empregado de Sindona. Seu depoimento era considerado perigoso. Sindona procurou tomá-lo seguro". Discutiu o problema com a farmília mafiosa Gambino e um pequeno contrato foi fechado. Não chegava a ser particularmente sinistro: Biase, a mulher, a família e seu advogado seriam ameaçados de morte. Se sucumbissem à ameaça e Biase refutasse o depoimento, tudo ficaria por aí. Mas se Biase se recusasse a cooperar com a Máfia, então a família Gambino e Sindona planejavam "revisar" a situação. O que não pressagiava nada de bom para a saúde de Biase. O contrato de menos de mil dólares seria trocado por outro mais condizente. Luigi Ronsisvaíle e Bruce McDowall foram os escolhidos para executar o contrato. Ronsisvaíle é um assassino profissional.

Outro contrato também foi discutido com Ronsisvaíle, A Máfia informou-o que Michele Sindona queria a morte do promotor federal John Kenney.

Nada demonstra tão claramente a mentalidade de Michele Sindona quanto o contrato para liquidar John Kenney. O promotor que atuava no processo de extradição, era o homem que comandava a pressão do governo americano para acabar com a permanência de Sindona nos Estados Unidos. Sindona estava convencido de que o problema terminaria se Kenney fosse eliminado. Funcionaria como uma advertência ao governo de que ele, Michele Sindona, não admitia mais a pressão. A investigação seria suspensa. Não haveria mais irritantes comparecimentos ao tribunal, não haveria mais tentativas absurdas para enviá-lo de volta à Itália, O processo de pensamento neste caso é cem por cento da Máfia siciliana. E uma filosofia que funciona repetidamente na Itália. Faz parte essencial da Solução Italiana. As autoridades podem ser intimidadas e de fato o são. Os investigadores que substituem um colega assassinado não se mostram tão ansiosos em esclarecer um caso. Sindona raciocinou que qualquer coisa que funcionava em Palermo também daria certo em Nova York.

Luigi Ronsisvaíle, embora fosse um assassino profissional, relutou em aceitar o contrato. O pagamento de 100 mil dólares era ótimo, mas Ronsisvaíle. compreendendo o sistema americano muito mais do que Sindona, achava que não teria qualquer oportunidade de gastá-lo. Se Kenney fosse assassinado, haveria ondas, a repercussão seria tremenda. Ronsisvaíle começou a procurar alguém, por conta da família Gambino, que julgasse ter possibilidades de sobrevivência depois de assassinar um promotor federal americano.

Sindona e seus associados concentraram-se no problema seguinte, Cardo Bordoni, ex-associado nos negócios e amigo intimo de Sindona. Bordorti já enfrentava diversas acusações pela falência do Franklin Bank. Poderia aceitar um acordo para redução de sua pena, em troca de um depoimento fatal contra O Tubarão. Ficou decidido que o tratamento previsto para Nicola Biase, sua família e seu advogado seria também aplicado a Carlo Bordoni.

Os problemas restantes de Sindona estavam na Itália, especialmente no Vaticano. Se Marcinkus caísse, Calvi também estaria perdido. Se Calvi afundasse, Sindona também seria arrastado. A luta de quatro anos para evitar a extradição seria encerrada com a sua derrota. Um homem que julgava ser possível resolver seus problemas nos Estados Unidos com o assassinato de um promotor federal não pensaria que a grande ameaça com que se defrontava na Itália poderia ser eliminada com a morte de um Papa?

Sindona, Calvi, Marcinkus e o Cardeal Cody: a 28 de setembro de 1978, todos esses homens seriam destruidos se Albino Luciani resolvesse prosseguir nos cursos de ação que já indicara. Outros que seriam diretamente afetados: Licio Gelli e Umberto Ortolani, para esses lideres da P2 perder Calvi seria para a Loja Maçônica perder seu pagador. Em 28 de setembro, um outro nome foi acrescentado aos que seriam seriamente afetados pelas ações propostas por Luciani. O novo nome era o do Cardeal Jean Villot, Secretário de Estado do Vaticano.

Na manhã de 28 de setembro, depois de tomar café com leite e comer um croissant, Luciani já estava á sua mesa de trabalho antes das oito horas da manhã; Havia muito o que fazer.

O primeiro problema que ele enfrentou foi o Osservatore Romano. Durante o mês anterior, ele tivera motivos para se queixar do jornal em diversas ocasiões. Depois de vencida a batalha inicial contra o uso do real "nós", com que o jornal insistia em substituir o uso mais humilde da primeira pessoa do singular pelo Papa, cada nova edição diária proporcionava mais motivos de irritação para Luciani. O jornal aderia rigorosamente aos discursos escritos pela Cúria e ignorava os comentários pessoais que o Papa acrescentava. Até mesmo se queixava quando jornalistas italianos reproduziam acuradamente o que o Papa dissera, em vez de se limitarem ao que o Osservatore Romano achava que ele deveria ter dito. Havia agora novos problemas, de natureza muito mais séria.

Diversos cardeais da Cúria descobriram, horrorizados, que pouco antes do Conclave, Albino Luciani fora entrevistado a respeito do nascimento de Louise Brown, conhecida como "primeiro bebê de proveta". A entrevista se realizara três dias antes da morte do Papa Paulo VI, mas suas opiniões só se tornaram geralmente conhecidas depois que a matéria saiu em Prospettive nel Mondo, depois da eleição. Os partidários da linha dura na questão do controle da natalidade ficaram consternados ao lerem as opiniões do homem que era agora o Papa.

Luciani começara cautelosamente, deixando bem claro que estava expressando apenas a sua opinião pessoal, já que, como todo mundo "esperava para saber quais seriam os autênticos ensinamentos da Igreja depois que os experts fossem consultados".. Os eventos subsequentes criaram uma situação em que os ensinamentos autênticos da Igreja, naquele ou em qualquer outro assunto, estavam totalmente dentro da competência de Luciani.

Na entrevista, Luciani manifestou um entusiasmo comedido pelo nascimento. Estava preocupado com a possibilidade de "fábricas de bebês", uma apreensão profética, tendo em vista os acontecimentos atuais na Califórnia, onde mulheres fazem filas para serem fecundadas pelo esperma de ganhadores do Prêmio Nobel.

Numa mensagem pessoal aos pais de Louise Brown, Albino Luciani disse:

Seguindo o exemplo de Deus, que deseja e ama a vida humana, eu também envio os meus melhores votos de felicidades para a criança. Quanto aos pais, não tenho o direito de condená-los; subjetivamente, se agiram com boas intenções e de boa fé, talvez até tenham um grande mérito aos Qlhõs de Deus pelo que decidiram e pediram aos médicos que fizessem.

Depois, ele chamou a atenção para um pronunciamento de Pio XII, que poderia pôr o ato de fecundação artificial em conflito com a Igreja. Considerando a opinião de que cada individuo tem o direito de escolher por si mesmo, manifestou uma posição que estava na própria essência de sua atitude em relação a muitos problemas morais:

Concordo que a consciência individual deve ser sempre seguida, quer ordene ou proíba; o indivíduo, porém, deve sempre procurar desenvolver uma consciência bem formada.

Os setores do Vaticano que acreditam que a única consciência bem formada é aquela moldada exclusivamente por eles começaram a se pronunciar. Houve reuniões secretas. Os que compareciam a essas reuniões achavam que era evidente que se precisava deter Luciani. Falaram da "traição a Paulo", o que para certas mentes romanas refinadas é uma maneira elegante de dizer "Eu discordo".

Quando notícias do cauteloso diálogo entre a Secretaria de Estado do Vaticano e o Departamento de Estado americano começaram a vazar, esse grupo resolveu entrar em ação. A informação subsequente de que uma delegação americana envolvida com o controle da natalidade teria uma audiência com o Papa acrescentou uma urgência adicional aos homens no Vaticano que consideravam que a Humanae Vitae deveria ser a última palavra sobre o assunto.

A 27 de setembro, apareceu na primeira página do Osservatore Romano um longo artigo intitulado "Humanae Vitae e a Moral Católica". Era do Cardeal Luigi Ciappi, OP, teólogo do círculo papal. O Cardeal Ciappi fora o teólogo pessoal de Paulo VI e Pio XII. Com um autor assim, o artigo parecia ter a aprovação pessoal do novo Papa. Fora publicado antes em Laterano, para "celebrar" o 10° aniversário da Humanae Vitae. Sua republicação era uma tentativa deliberada de bloquear qualquer mudança na questão do controle da natalidade que Albino Luciani pudesse desejar. O artigo é uma sucessão de louvores à Humanae Vitae. Há muitas citações de Paulo VI, mas nenhuma palavra de Luciani confirmando que partilhava as opiniões de Paulo ou Ciappi. O motivo para isso é simples, Ciappi não discutira o artigo com Luciani. Na verdade, a 27 de setembro de 1978, o Cardeal Ciappi ainda aguardava uma audiência particular com a novo Papa. Luciani só tomou conhecimento do longo artigo e das opiniões que continha quando o leu no jornal. Na segunda página, ele encontrou outro esforço dá Cúria para solapar a sua posição: mais um artigo, em três colunas, intitulado "O Risco da Manipulação na Criação da Vida". Era uma condenação dogmática da "bebê de proveta" Louise Brown e de toda fertilização artificial.

Também não continha qualquer referência a Luciani. A Cúria sabia muito bem que, apesar de todas as alegações do Osservatore Romano de ser apenas semi-oficial, tais artigos seriam encarados pelo mundo como sendo posições do novo Papa. A batalha começara abertamente,

A 28 de setembro, pouco depois de oito horas da manhã, o Papa telefonou para seu Secretário de Estado, Jean Villot. Exigiu uma explicação completa sobre a publicação dos dois artigos. Telefonou depois para o Cardeal Felici, em Pádua, onde faria retiro espiritual.

Luciani passara a usar Felici, cada vez mais, como uma caixa de ressonância para suas idéias. Sabia que suas opiniões divergiam em muitas coisas, mas sabia também que Felici reagiria com absoluta franqueza e honestidade. O Papa estava igualmente consciente de que poucos conheciam tanto quaonto Felici, como Decano do Sacro Colégio, as maquinações da Cúria.

Luciani manifestou a sua irritação pelos dois artigos e depois disse:

— Lembra-se que há alguns dias avisou-me de que a Cúria desejava conter minha exuberância natural?

— Foi apenas um palpite, Santidade.

— Talvez possa fazer a gentileza de retribuir o cumprimento em seu nome. Avise ao pessoal desse jornaízinho para conter suas opiniões sobre essas questões. Os editores são como os Papas. Nenhum deles é indispensável.

Depois de marcar um encontro com Felici para mais- tarde, naquele mesmo dia, Luciani passou ao problema seguinte, a Igreja da Holanda. Cinco dos sete bispos holandeses planejavam assumir uma posição moderada nas questões do aborto, homossexualismo e o emprego de padres casados. Entre os cinco estava o Cardeal Willebrands, o homem que oferecera palavras de conforto a Luciani durante o Conclave. Os cinco tinham a oposição de dois bispos extremamente conservadores, Gijsens, de Roermond, e Simonis, de Rotterdam. Uma reunião na Holanda, em novembro de 1978, prometia ser o campo de batalha que revelaria as divisões profundas ao público holandês. Havia um outro problema, que fora exposto num relatório detalhado ao falecido Papa Paulo VI.

Os jesuítas moviam uma campanha contra o teólogo e professor dominicano Edward Schillebeeckx, famoso no mundo inteiro. Como acontecia com seu contemporâneo suíço Hans Kung, os conservadores desejavam silenciar o que lhes parecia ser as idéias radicais de Schillebeeckx, O temido Index dos Livros Proibidos fora abolido por Paulo VI. Sua morte deixara sem solução o problema de como a Igreja Católica controlaria seus pensadores avançados. No passado, Luciani tomara emprestada uma frase de Hans Kung para condenar os "teólogos de tocaia". Mas esse não era o caso de homens como Kung e Schillebeeckx, que manifestavam apenas um profundo desejo de levar a Igreja de volta a suas origens, uma posição que Albino Luciani aprovava plenamente. Poucos minutos antes das dez horas, Luciani pôs o relatório para o lado e se concentrou em aspectos mais felizes de seu cargo. Uma série de audiências.

Receberia primeiro um grupo que incluia o homem que Luciani promovera à presidência do Cor Unum, Cardeal Bernard Gantin, O Papa ficou radiante com a presença forte e juvenil de Gantin, que na sua opinião representava o futuro da Igreja. Durante a conversa, Luciani comentou:

— E apenas Jesus Cristo que devemos oferecer ao mundo. Além disso, não teríamos razão nem propósito, nunca seríamos escutados.

Outro que teve uma audiência naquela manhã foi Henri de Riedmatten. Quando circularam por Roma, pouco depois do Conclave, notícias de que Luciani escrevera ao Papa Paulo, antes da Humanae Vitae, exortando-o a não confirmar a proibição á anticoncepçáo artificial, fora Riedmatten quem classificara tais rumores de "total fantasia". Sua conversa com o Papa a 28 de setembro foi sobre o seu trabalho como secretário de Cor Unum, mas Luciani advertiu-o a não se precipitar a outras "negativas".

— Meu relatório sobre o controle da natalidade não chegou ao seu conhecimento?

Riedmatten murmurou algumas palavras sobre uma possível confusão.

— Deve-se tomar cuidado, Padre Riedmâtten, para não se manifestar publicamente até que toda a confusão esteja esclarecida. Caso precise de uma cópia do meu relatório, tenho certeza de que se pode providenciar.

Riedmatten agradeceu ao Papa profusamerite. E manteve um silêncio sensato a partir daí, enquanto Luciani discutia os problemas do Líbano com o Cardeal Gantin. Ele informou a Gantin que no dia anterior conversara sobre a projetada visita ao Líbano com o Patriarca Hakin, cuja diocese de rito greco-melquita se estendia não apenas pelo Líbano invadido, mas também pela Síria invasora.

Luciani também recebeu em audiência naquela manhã um grupo de bispos das Filipinas, que fazia a suá visita ad limina. Diante de homens que tinham de enfrentar a realidade cotidiana do Presidente Marcos, Luciani falou de um assunto no fundo de seu coração: a evangelização. Perfeitamente consciente das dificuldades que aqueles homens defrontariam se falasse diretamente contra o Presidente Marcos, o Papa preferiu em vez disso discorrer sobre a importância da evangelização. Lembrou-lhes a visita do Papa Paulo ás Filipinas e disse:

Num momento em que ele resolveu falar sobre os pobres, sobre justiça e paz, direitos humanos, libertação econômica e social, num momento em que ele empenhou a Igreja efetivamente no esforço para atenuar a miséria, não permaneceu e não podia permanecer em silêncio em relação ao "bem maior", que é a plenitude da vida no Reino do Céu.

A mensagem foi claramente compreendida, não apenas pelos bispos, mas também pela família Marcos.

Depois das audiências matutinas, Luciani teve uma reunião com o Cardeal Baggio. Chegara a diversas decisões e agora estava prestes a transmitir duas delas a Baggio.

A primeira era sobre o problema do Cardeal John Cody, de Chicago. Depois de avaliar todos os fatos, Luciani decidira que Cody devia ser afastado, Ele esperava que isso se efetuasse à maneira clássica do Vaticano, sem qualquer publicidade desagradável. Ele disse a Baggio que Cody deveria receber a oportunidade de renunciar por motivos de saúde. Isso não acarretaria comentários adversos da imprensa, porque a saúde de Cody não estava mesmo muito boa, Se Cody se recusasse a renunciar, ao invés de sofrer o tumulto público de um afastamento contra a sua vontade, um coadjutor seria designado. Outro bispo seria escolhido para assumir todo o poder efetivo e dirigir a diocese. Luciani tinha certeza de que, confrontado com essa alternativa, Cody optaria por se retirar com toda dignidade. Se insistisse em continuar, então não haveria outro jeito. Seria destituído de toda e qualquer responsabilidade. Luciani foi bastante claro e objetivo. Não se tratava de um pedido, uma mera sugestão. Um coadjutor seria nomeado se Cody não quisesse sair.

Baggio ficou na maior satisfação, pois o problema finalmente se resolvia. Mas não ficou tão satisfeito com a decisão seguinte que Luciani anunciou. Veneza estava sem um Patriarca. O Papa ofereceu o posto a Baggio.

Muitos homens se sentiriam honrados com tal oferecimento, Mas isso não aconteceu com Baggio. Ficou furioso. Achava que seu futuro, a curto prazo, estava em dominar a Conferência de Puebla, no México, Acreditava que o futuro da Igreja se encontrava no Terceiro Mundo. A longo prazo, seu lugar era em Roma, o centro da ação. Em Veneza, estaria fora de vista e, o que era ainda mais importante, fora dos pensamentos, quando chegasse o momento de formular os planos futuros. A sua recusa em aceitar Veneza surpreendeu Luciani. A obediência ao Papa e ao Pontificado fora incutida em Luciani desde os seus primeiros dias no seminário em Feltre. A obediência que ele adquirira fora de uma natureza incontestável. Ao longo dos anos, à medida que sua carreira progredia, passara a questionar as decisões papais, especialmente nas questões do Vaticano S.A. e da Humanae Vitae, Mas seria inconcebível para Luciani liderar uma rebelião publicamente, mesmo em questões tão importantes. Aquele era o homem que, a pedido de Paulo, escrevera diversos artigos em apoio à linha papal; ao escrever um desses artigos, sobre o divórcio, entregara-o a seu secretário, Padre Mario Senigaglia, com o seguinte comentário:

— Tenho certeza de que isto me criará muitas dores de cabeça quando for publicado, mas o Papa pediu.

Recusar um pedido do Papa, da maneira arrogante como Baggio agora o fazia, era algo inadmissível. Os dois homens tinham noções de Valores completamente diferentes. Luciani considerava o que era melhor para a Igreja Católica. Baggio considerava o que era melhor Para Baggio.

Havia diversos motivos para que o Papa concluísse que Baggio devia ser transferido de Romã para Veneza. Um deles era um nome na lista de maçons que Luciani recebera: Baggio, nome maçônico Seba, número de Loja 85/2640. Registrado a 14 de agosto de 1957.

Luciani fizera mais indagações depois de sua conversa com o Cardeal Felici. Um comentário de Felici o preocupara:

— Alguns da lista são mesmo maçons, outros não.

O problema de Luciani era distinguir os genuínos dos falsos. As investigações ajudaram a produzir alguns esclarecimentos.

O encontro entre Baggio e Luciani foi-me descrito como "uma discussão muito violenta, com toda a violência e ira derivando inteiramente de Sua Eminência, enquanto o Santo Padre permanecia calmo".

Calmo ou não, Luciani tinha um problema sem solução na hora do almoço. Veneza continuava sem um Patriarca e Baggio insistia em que seu lugar era em Roma. Um pensâtivo Luciani começou a tomar sua sopa.

O veranico que Roma vinha desfrutando desde o início do mês foi substituido por um tempo mais frio naquela quinta-feira. Depois de uma breve sesta, Luciani resolveu confinar seu exercício diário a andar internamente, Começou a perambulâr pelos corredores. O Papa voltou a seu gabinete às 15:30 e deu diversos telefonemas. Conversou com o Cardeal Felici em Pádua e com o Cardeal Benelli em Florença. Discutiu os acontecimentos da manhã, inclusive a confrontação com Baggio, depois falou de sua reunião seguinte, que seria com Villot. As diversas decisões a que Luciani chegara estavam prestes a ser transmitidas ao Secretário de Estado,

Luciani e Villot sentaram a tomar um chá de camomila. Numa tentativa de se aproximar mais de seu Secretário de Estado, o Papa de vez em quando conversava com Villot em francês, durante as suas constantes reuniões. Era um gesto que o cardeal de Si. AmandeTaílende apreciava. Ficara impressionado com a rapidez com que Luciani assumira o Pontificado. A notícia transpirara da Secretaria de Estado para diversos amigos e antigos colegas de Luciani. Monsenhor Da Rif, ainda trabalhando em Vittorio Veneto , foi um dos muitos que receberam um relatório de progresso.

Do Cardeal Villot para baixo, todos admiravam a maneira de trabalhar do Papa Luciani. Sua capacidade de chegar à raiz dos problemas, de tomar decisões rápidas e firmes. Todos se impressionavam com a sua capacidade de executar múltiplas tarefas. Era evidente que se tratava de um homem que tomava decisões e as mantinha. Não cedia a pressões. Em minha experiência pessoal, essa capacidade de manter as suas decisões era uma das características mais notáveis de Albino Luciani.

Durante o final da tarde de 28 de setembro, Jean Villot recebeu uma demonstração prolongada dessa capacidade que tanto o impressionara durante o último mês. O primeiro problema a ser discutido era o Istituto per le Opere di Religione, o Banco do Vaticano. Luciani dispunha agora de muitas informações detalhadas. O próprio Villot já apresentara um relatório preliminar. Luciani também obtivera outras informações do segundo homem da Secretaria de Estado, Arcebispo Giuseppe Caprio, assim como de Benelli e Felici,

Para a Bispo Paul Marcinkus, que iniciara o plano e desempenhara um papel tão ativo para ajudar Calvi a assumir o controle do Banca Cattolica, era mais um dos muitos problemas pelos quais teria de prestar contas. Villot comunicou ao Papa que inevitavelmente transpiraria a notícia das investigações no banco. A imprensa italiana se tornava cada vez mais curiosa e uma grande repoitagem acabara de ser publicada.

A revista Newsweek contava obviamente com excelentes fontes no Vaticano. Soubera que, antes do Conclave, diversos cardeais haviam pedido a Villot um relatório completo sobre o Banco do Vaticano. Também informara que sua "fonte bem situada" dizia que havia um movimento no Vaticano para afastar Marcinkus. Citara literalmente a sua fonte curial: "Há um movimento para tirá-lo do banco. Ele será provavelmente nomeado bispo auxiliar."

Luciani sorriu.

— A Newsweek me diz quem colocarei no lugar de Marcinkus?

Villot sacudiu a cabeça. Enquanto a conversa continuava, Luciani deixou bem claro que não tinha a menor intenção de deixar Marcinkus na Cidade do Vaticano, muito menos no Banco do Vaticano. Depois de avaliar pessoalmente o homem numa entrevista de 45 minutos no início do mês, Luciani concluira que Marcinkus seria mais proveitosamente aproveitado como bispo auxiliar em Chicago. Não manifestará sua intenção a Marcinkus, mas a polidez fria demonstrada com o homem de Cicero não passara despercebida. Voltando a seu escritório no banco, depois da entrevista, Marcinkus confidenciara a um amigo:

— Talvez eu não fique aqui por muito mais tempo.

A Calvi e a outros colegas do banco, ele dissera:

— Não se pode esquecer que este Papa tem idéias diferentes do anterior. Haverá mudanças por aqui. Grandes mudanças.

Marcinkus estava certo. Luciani comunicou a Villot que Marcinkus deveria ser removido imediatamente. Não dentro de uma semana ou um mês. Mas no dia seguinte. Marcinkus deveria tirar uma licença. Um posto conveniente lhe seria escolhido, assim que o problema do Cardeal Cody estivesse resolvido.

Villot foi informado que Marcinkus seria substituido por Monsenhor Giovanni Angelo Abbo, secretário da Prefeitura de Assuntos Econômicos da Santa Sé. Como um elemento fundamental no tribunal financeiro do Vaticano, Monsenhor Abbo certamente levaria para o novo cargo uma profunda capacidade financeira.

A inspiração dos primeiros 100 dias do Papa João com toda certeza galvanizara Albino Luciani. As garras do leão, que seus íntimos esperavam ver reveladas, apareceram para Villot ao cair da noite de 28 de setembro, Luciani, um homem despretensioso e gentil, antes do Pontificado parecera muito menor do que o seu 1 ,75m de altura. Para muitos observadores ao longo dos anos, ele dera a impressão de se fundir com o papel de parede. Seu comportamento era tão discreto e sereno que, depois de uma reunião grande, muitos desconheciam a sua presença. Mas não houve qualquer dúvida para Villot sobre a presença e firmeza dele naquele dia. Luciani lhe disse:

Há outras mudanças no Istituto per de Opere di Religione que desejo executar imediatamente. Mennini, De Strobel e Monsenhor De Bonis serão afastados. Agora. De Bonis será substituido por Monsenhor Antonetti. Discutirei o preenchimento das outras duas vagas com Monsenhor Abbo. Quero que todos os nossos vínculos com o grupo do Banco Ambrosiano sejam cortados, o mais depressa possível. Na minha opinião, porém, será impossível conseguir-se isso com as pessoas que atualmente controlam a situação.

O Padre Magee comentou para mim:

— Ele sabia o que queria. Era bastante claro e objetivo em relação ao que queria. E a maneira com que se empenhava para alcançar seus objetivos era muito delicada.

A "delicadeza" estava em sua explicação a Villot. Os dois sabiam que Marcinkus, Mennini, De Strobel e De Bonis estavam inextricavelmente ligados não apenas a Calvi, mas também a Sindona. O que não se disse não podia ser citado erroneamente mais tarde.

O Cardeal Villot anotou as mudanças sem muitos comentários. Tomara conhecimento de muitas coisas, ao longo dos anos. Muitos no Vaticano consideravam-no ineficaz. Para Villot, no entanto, fora um caso de olhar para o outro lado deliberadamente. Era o que se chamava de técnica de sobrevivência na aldeia do Vaticano.

Luciani passou para o problema de Chicago e sua conversa com Baggio sobre o ultimato que seria apresentado ao Cardeal John Cody. Villot manifestou sua aprovação. Como Bâggio, ele considerava Cody como uma chaga supurada na Igreja nos Estados Unidos. O fato do problema ser finalmente resolvido proporcionava uma profunda satisfação ao Secretário de Estado. Luciani disse que gostaria que houvesse sondagens, através do núncio apostólico em Washington, sobre um possível sucessor para Cody. E comentou:

— Houve uma traição da confiança em Chicago. Devemos cuidar para que o homem que venha a substituir Sua Eminência tenha a capacidade de conquistar os corações e as mentes de todos na diocese.

Luciani discutiu a recusa de Baggio em aceitar a Sé de Veneza. Estava determinado a que Bãggio fosse para onde mandasse.

— Veneza não é um tranquilo mar de rosas. Precisa de um homem com a força de Baggio. Eu gostaria que você conversasse com ele. Diga-lhe que todos devemos fazer algum sacrifício neste momento. Talvez seja bom lembrar-lhe que eu não tinha a menor vontade de assumir este posto.

O argumento teria um valor limitado para um homem que desejara tão ansiosamente tornar-se o sucessor de Paulo, mas Villot diplomaticamente deixou de fazer essa observação.

Luciani em seguida informou a Villot de outras mudanças que planejava fazer. O Cardeal Pericle Felici se tornaria o Vigário de Roma, substituindo o Cardeal Ugo Poletti, que tomaria o lugar de Benelli como Arcebispo de Florença. Benelli se tornaria o Secretário de Estado. Assumiria o cargo de Villot.

Villot analisou as mudanças propostas, que incluía a sua própria "renúncia". Estava velho e cansado. Além disso, achava-se também gravemente doente. Uma doença que não atenuava com os dois maços de cigarros que fumava diariamente. Villot já deixara bem claro, ao final de agosto, que desejava uma aposentadoria prematura. Agora, conseguia o que desejava um pouco mais cedo do que previra. Haveria, é claro, um período de transição, mas para todos os efeitos e propósitos seu poder estava agora acabando. O fato de Luciani propor substitui-lo por Benelli deve ter sido particularmente irritante para Villot, Beneldi fora o seu segundo homem no passado e o relacionamento deles não fora dos mais felizes.

Villot estudou as anotações que fizera sobre as mudanças propostas, Albino Luciani, largando as suas próprias anotações, serviu mais chá para ambos. Villot disse:

— Pensei que estivesse pensando em Casaroli para me substituir,

— E pensei mesmo, por algum tempo. Acho que a maior parte do seu trabalho é extraordinária, mas partilho as restrições de Giovanni Benelli a algumas de suas iniciativas no passado recente com relação à Europa Oriental.

Luciani aguardou algum sinal ou palavra de estimulo. O silêncio prolongou-se. Durante todo o relacionamento entre os dois, Villot nunca abandonara seu formalismo; sempre havia a máscara, sempre havia a frieza. Luciani tentara, diretamente e também por intermédio de Felici e Benelli, injetar um pouco de cordialidade em suas relações com Villot. Mas persistira a frieza profissional que era a característica do cardeal. O silêncio acabou sendo rompido por Luciani, que perguntou:

— E então, Eminência?

— Sua Santidade é o Papa. Tem absoluta liberdade para decidir.

— Sei disso. Mas qual é sua opinião?

Villot deu de ombros.

— Essas decisões agradarão a alguns e deixarão outros consternados. Há cardeais na Cúria Romana que se empenharam a fundo por sua eleição e agora se sentirão traidos. Acharão que as mudanças, as nomeações que apontou, são contrárias aos desejos do falecido Santo Padre.

O falecido Santo Padre por acaso planejava fazer nomeações vitalícias? Quanto aos cardeais que alegam terem se empenhado com afinco por minha eleição, quero que compreenda uma coisa. Já disse isso muitas vezes, mas obviamente preciso continuar a insistir, Não procurei a eleição para Papa. Não queria ser Papa. Não pode mostrar um único cardeal a quem eu tenha proposto qualquer coisa. Não há ninguém a quem eu tenha persuadido, por qualquer forma, a votar em mim. Não era o meu desejo. Não foi minha obra. Há homens na Cidade do Vaticano que esqueceram seu propósito. Reduziram este lugar a um mero mercado. E por isso que estou efetuando as mudanças.

— Dirão que traiu a Paulo,

— Será dito também que trai a João. Traí a Pio. Cada um formulará sua própria lista, de acordo com suas necessidades e conveniências. Minha preocupação é não trair a Jesus Cristo,

A conversa se prolongou por quase duas horas. Villot se retirou às 19:30.

Voltou ao seu escritório que ficava próximo, sentou a uma escrivaninha e pôs-se a estudar as mudanças. Depois, abriu uma gaveta e tirou outra lista. Talvez fosse apenas coincidência. Todo o pessoal clerical que Luciani estava removendo constava de supostos maçons. A relação divulgada por Pecoreldi, o desencantado membro da P2. Marcinkus. Villot. Poletti. Baggio. De Bonis. E todos os substitutos indicados por Luciani estavam notavelmente ausentes da lista de maçons. Benelli. Felici. Abbo. Antonetti.

O Cardeal ViIlot largou a lista e estudou outro documento que estava em sua mesa. Era a confirmação final de que o encontro proposto entre o comitê americano que cuidava do controle populacional e Albino Luciani seria realizado a 24 de outubro. Um grupo de representantes do governo dos Estados Unidos que desejava mudar a posição da Igreja Católica em relação à pílula anticoncepcional se encontraria dentro de algumas semanas com um Papa que desejava efetuar a mesma mudança. Villot levantou-se e deixou os papéis à vista, descuidadamente. O leão realmente revelará as suas garras.

Assim que terminou a reunião com Villot, às 19:30, Albino Luciani pediu ao Padre Diego Lorenzi para entrar em contato com o Cardeal Colombo, em Milão. Lorenzi informou-o um momento depois que Colombo só estaria disponível às 20:45. Enquanto Lorenzi voltava à sua mesa de trabalho, o Papa recebeu a companhia do Padre Magee. Juntos, recitaram a parte final do breviário diário, em inglês. Quando faltavam 10 minutos para as 20:00, Luciani sentou para jantar, com Magee e Lorenzi. Absolutamente tranquilo, apesar da prolongada reunião com Villot, ele conversou jovialmente, enquanto as Irmãs Vincenza e Assunta serviam o jantar de sopa, vitela, vagens frescas e saladas. Luciani tomou alguns goles de água enquanto Loren.z.i e Magee bebiam vinho tinto.

Na extremidade da mesa, o Padre Lorenzi lembrou-se de repente que o Pontificado de Luciani já ultrapassara o mais curto da história papal. Estava prestes a fazer um comentário a respeito quando o Papa começou a mexer no seu relógio novo. Era um presente do secretário de Paulo, Monsenhor Macchi, depois dos comentários curiais de que o Papa não deveria usar um relógio velho e avariado. Ao que parecia, isso representava uma imagem negativa. E assim se reduzia o Papa à mesma posição de um vendedor de carros de segunda mão, que precisa tomar cuidado para que sua calça esteja sempre impecavelmente passada. A última vez que Luciani fora visitado pelo irmão Edoardo presenteou-o com o relógio dizendo:

— Aparentemente não é permitido ao Papa usar um velho relógio usado que se precisa constantemente dar corda. Você se ofenderia se eu o desse a você?

Luciani acabou entregando o relógio a Magee, para acertar pelo noticiário da televisão. Faltava um minuto para as 20:00.

Logo depois de um jantar agradável e tranquilo, o Papa foi para seu gabinete, a fim de examinar as anotações que usara durante a sua conversa com Villot. As 20:45, Lorenzi fez a ligação para o Cardeal Colombo, em Milão. O cardeal recusou-se depois a conceder uma entrevista, mas outras fontes indicam que eles conversaram sobre as mudanças que Luciani tencionava efetuar. Obviamente, não houve divergência. O Cardeal Colombo recordou depois, sem fazer outros comentários:

— Ele me falou por bastante tempo, num tom absolutamente normal, pelo qual não se podia inferir qualquer doença física. Estava cheio de serenidade e esperança. Sua saudação final foi "reze",

Lorenzi anotou que a conversa telefônica terminou por volta das 21:15. Luciani examinou então o discurso que tencionava fazer para os jesuítas no sábado, dia 30. Antes, ele telefonara para o Superior Geral dos Jesuítas, Padre Pedro Arrupe, avisando-o que diria algumas coisas a respeito de disciplina. Ressaltou que uma parte do discurso seria relacionada com as mudanças que acabara de efetuar.

Todos sabem e com razão se preocupam com os grandes problemas econômicos e sociais que conturbam a humanidade hoje e que estão intimamente ligados com a vida cristã. Ao se encontrar uma solução para esses problemas, no entanto, há que se distinguir entre as tarefas dos padres e as dos religiosos leigos. Os padres devem sempre estimular e inspirar a laicidade a cumprir seus deveres, mas não devem assumir seu lugar, negligenciando a sua tarefa especifica de evangelização.

Largando o discurso, pegou as anotações sobre as mudanças drásticas que discutira anteriormente com Villot. Foi até à porta de seu gabinete, abriu-a e deparou com o Padre Magee e o Padre Lorenzi, Despediu-se deles, dizendo:

— Buona notte. A domani. Se Dio vuole. (Boa noite, Até amanhã. Se Deus quiser.)

Faltavam alguns minutos para as 21:30, Albino Luciani fechou a porta do gabinete. Pronunciara as suas últimas palavras. Seu cadáver seria encontrado na manhã seguinte. As circunstâncias precisas dessa descoberta deixam bem claro que a Vaticano tentou encobrir. Começou com uma mentira, depois continuou com uma teia de mentiras. Mentiram sobre pequenas coisas. Mentiram sobre grandes coisas. Mas todas as mentiras tinham o mesmo propósito: encobrir o fato de que Albino Luciani, Papa João Paulo I, fora assassinado em algum momento entre 21:30 de 28 de setembro e 4:30 de 29 de setembro de 1978.

Albino Luciani foi o primeiro Papa a morrer sozinho em mais de um século.., mas também fazia muito mais tempo desde que um Papa fora assassinado.

Cody. Marcinkus. Villot. Calvi. Gelli. Sindona. Pelo menos um desses homens decidira-se por um curso de ação que foi executado durante o final da noite de 28 de setembro ou na madrugada do dia seguinte. Esse curso de ação derivava da conclusão de que a Solução Italiana tinha de ser aplicada. O Papa devia morrer.

Em nome de Deus

David Yallop

"O assassinato de João Paulo I"

Parte 2

Ficamos Apavorados

Como e por que as trevas caíram sobre a Igreja Católica a 28 de setembro de 1978?

O “porquê” já foi definido. Havia uma pletora de motivos. O “como” também possui um número alarmante de possibilidades.

Se Albino Luciani foi assassinado por causa de qualquer dos motivos já registrados, então diversos fatores tinham de se aplicar.

1. O assassinato teria de ser cometido sub-repticiamente. Para que continuasse a situação de corrupção que existia antes da eleição de Luciani, então o assassinato precisava ser encoberto. Não podia haver um dramático assassinato a tiros do Papa no meio da Praça de São Pedro. Um atentado público acarretaria inevitavelmente uma investigação em grande escala sobre o motivo pelo qual aquele homem suave e santo fora eliminado. A morte súbita teria de ser consumada de uma maneira que reduzisse ao mínimo as dúvidas e a ansiedade do público.

2. A maneira mais eficiente de matar o Papa era com veneno. Um veneno que não deixasse quaisquer vestígios externos denunciadores. A pesquisa indica que havia mais de 200 drogas que atendiam a esse requisito A digitalina é apenas uma entre muitas. Não tem gosto. Não tem cheiro, pode ser acrescentada à comida, bebida ou medicamentos comuns, sem que a vítima desconfie em momento algum que ingeriu uma dose fatal.

3.Quem planejou assassinar o Papa dessa maneira precisaria um conhecimento profundo dos esquemas do Vaticano, A pessoa ou pessoas teriam de saber que, não importavam as indicações que permanecessem depois do ato, não haveria autópsia. Confiando nesse fato, poderiam usar qualquer uma entre 200 drogas. Uma droga como a digitalina mataria de tal maneira que, num exame externo do corpo, os médicos do Vaticano concluíram que a morte fora causada por um ataque cardíaco. Os conspiradores estariam plenamente conscientes de que não havia coisa alguma nas leis apostólicas que determinasse a realização de uma autópsia. Além disso, os conspiradores saberiam que, mesmo havendo suspeitas nos mais altos níveis, seria praticamente certo que as autoridades e médicos do Vaticano se contentariam com um exame elementar do corpo. Se uma droga como a digitalina foi realmente ministrada a um Luciani que de nada desconfiava, ao final da noite, então havia a certeza virtual de que o Papa se retiraria para o seu quarto pelo resto da noite. Ele se deitaria e mergulharia no sono final. A morte ocorreria entre duas e seis horas depois do consumo da dose fatal. O Papa mantinha ao lado da cama, na mesinha com o relógio-despertador todo amassado, um vidro de Effortil, um medicamento líquido que tomava há anos, para atenuar o problema de pressão baixa. Uma dose fatal de digitalina, meia colher de chá, passaria despercebida ao ser acrescentada ao remédio.

Os únicos outros medicamentos que o Papa tomava eram pílulas de vitamina, três vezes ao dia, com as refeições, e injeções para a glândula supra-renal, drogas para estimular a glândula que segrega adrenalina. Também serviam para o problema de pressão baixa. Séries dessas injeções eram aplicadas duas vezes ao ano, na primavera e no outono. As drogas variavam e uma das usadas com mais freqüência era Cortiplex. As injeções eram aplicadas pela Irmã Vincenza, Luciani estava tomando uma série durante o seu Pontificado e por isso havia necessidade da presença de Vincenza nos aposentos papais. As drogas usadas nas injeções, assim como o Effortil ao lado da cama, poderiam ser adulteradas facilmente. Não havia precauções especiais para guardar os medicamentos. O acesso a elas não representaria qualquer problema para uma pessoa pensando em assassinato. Mais do que isso, como será demonstrado, o acesso a qualquer parte dos aposentos papais não representava qualquer problema para alguém determinado a acabar com a vida de Albino Luciani.

Às 4:30 de sexta-feira, 29 de setembro, a Irmã Vincenza levou o café para a porta do gabinete, como sempre fazia. Bateu na porta do quarto do Papa um momento depois e gritou:

— Bom dia, Santo Padre.

Não houve resposta, o que era muito estranho. Vincenza esperou por mais um momento e depois afastou-se silenciosamente, Voltou à porta do gabinete 15 minutos depois. Não havia qualquer barulho, nenhum sinal de movimento. Ela trabalhava para Luciani desde 1959, em Vittorio Veneta. Nem uma única vez, em 18 anos, ele dormira além do horário habitual. Preocupada, tentou escutar alguma coisa. Silêncio total, Tornou a bater na porta, timidamente a princípio, depois com mais vigor. O silêncio persistia. Podia-se ver uma luz por baixo da porta do quarto. Ela bateu na porta do quarto. Também não houve resposta.

Abrindo a porta, ela avistou Albino Luciani sentado na cama. Ele estava de óculos, tinha alguns papéis nas mãos. A cabeça se virava para a direita, os lábios estavam entreabertos, mostrando os dentes, Não era o rosto risonho que impressionara milhões de pessoas, mas sim uma expressão de agonia. Ela foi sentir o pulso do Papa. Não faz muito tempo, Irmã Vincenza relatou-me esse momento:

— Foi um milagre que eu tenha sobrevivido, pois sofro do coração. Puxei o cordão da campainha para chamar os secretários e depois saí para procurar as outras irmãs e acordar Dom Diego.

As irmãs ocupavam o outro lado dos aposentos papais. O Padre Magee dormia lá em cima, na área do sótão. O Padre Lorenzi dormia, em caráter temporário, perto do quarto do Papa, enquanto seu próprio quarto, também na área do sótão, anteriormente ocupado pelo secretário de Paulo, Monsenhor Macchi, era reformado. Foi acordado por Irmã Vincenza.

Diversos romanos que se levantavam cedo já haviam notado, com uma tranqüila satisfação, a luz acesa no quarto do Papa, Era bom saber que não se era o único a levantar tão cedo. A luz acesa passou despercebida pelos guardas de segurança do Vaticano durante toda a noite.

Um Diego Lorenzi ainda mais aturdido observou o corpo sem vida de Albino Luciani. O primeiro a reagir foi o Padre Magee. Pela segunda vez, em dois meses, olhava para um Papa morto. Só que as circunstâncias eram completamente diferentes. Quando Paulo VI morrera, a 6 de agosto, muitos estavam reunidos em torno de seu leito, em Castel Gandolfo , a residência de verão papal, nos arredores de Roma. Os boletins médicos forneceram um relato detalhado das últimas 24 horas da vida do Papa e uma descrição igualmente detalhada da seqüência de males físicos que levaram à sua morte, às 21:40min.

Agora, depois de apenas 33 dias como Papa, Albino Luciani morria sozinho. Causa da morte? Hora da morte?

Depois de um dos mais breves Conclaves da história, houvera um dos mais curtos Pontificados. Nenhum Papa morria tão pouco tempo depois de sua eleição há quase 400 anos. Para se encontrar um Pontificado mais curto, é necessário voltar a 1605, aos tempos do Medici Leão XI, que foi Papa apenas por 17 dias. Como Albino Luciani morrera?

O primeiro ato do Padre Magee foi telefonar para o Secretário de Estado, Jean Villot, que residia dois andares abaixo. Menos de 12 horas antes, Albino Luciani comunicara a Villot sua iminente substituição por Benelli. Agora, ao invés de se tornar um ex-Secretário de Estado, a morte do Papa não apenas lhe garantia a permanência no cargo até que um sucessor fosse eleito, mas também lhe permitia assumir o papel de Camerlengo, agindo virtualmente como o chefe da Igreja. Por volta das 5:00, Villot estava no quarto do Papa e confirmava para si mesmo que Luciani estava morto.

Se Luciani morreu naturalmente, os atos e instruções subsequentes de Villot são completamente inexplicáveis. Seu comportamento só se torna compreensível quando relacionado com uma conclusão especifica. Ou o Cardeal Jean Villot era cúmplice de uma conspiração para assassinar o Papa ou encontrou provas concretas no quarto papal de que João Paulo I fora assassinado e prontamente deliberou que para proteger a Igreja essas provas deviam ser destruídas,

Ao lado da cama do Papa, na mesinha-de-cabeceira, estava o medicamento que Luciani vinha tomando para a pressão baixa. Villot guardou no bolso o vidro de remédio e retirou das mãos do Papa morto as anotações sobre as transferências e nomeações papais que também guardou. Da escrivaninha no gabinete foi removido o testamento de Luciani. E também desapareceram do quarto os óculos e as chinelas do Papa. Nenhuma dessas coisas jamais foi vista outra vez. Villot criou então, para os aturdidos membros do círculo papal, um relato totalmente fictício das circunstâncias que levaram à descoberta do corpo. Impôs um voto de silêncio sobre a descoberta de Irmã Vincenza e determinou que a notícia da morte não seria revelada enquanto ele não autorizasse expressamente. Depois, sentando no gabinete papal, Villot fez uma série de ligações.

Baseado no que disseram as testemunhas oculares que entrevistei, o remédio, os copos, os chinelos e seu testamento estavam todos no quarto e no escritório papal antes que Villot entrasse nos aposentos. Após seu exame e visita inicial todos os itens acima mencionados desapareceram.

A notícia da morte foi transmitida ao Cardeal Confalonieri, o Decano do Sacro Colégio, com 86 anos. E depois ao Cardeal Casaroli, chefe da diplomacia do Vaticano. Villot mandou que as freiras no centro telefônico localizassem seu subsecretário e o terceiro homem na hierarquia da Igreja, Arcebispo Giuseppe Caprio, que estava de férias em Montecatini. Somente depois é que telefonou para o Dr. Renato Buzzonetti, subchefe do serviço médico do Vaticano. Ligou em seguida para a sala dá guarda. Falou com o Sargento Hans Roggan e ordenou-lhe que viesse imediatamente aos aposentos papais.

O Padre Diego Lorenzi, o único homem que acompanhara Luciani de Veneza, vagueava chocado e aturdido pelos aposentos. Perdera um homem que, durante os últimos dois anos, fora como um segundo pai. Em lágrimas, ele tentava compreender, encontrar algum sentido. Quando Villot finalmente decidiu que o mundo podia tomar conhecimento, milhões de pessoas partilhariam a dor e a perplexidade de Lorenzi.

Apesar das determinações de Villot de que a notícia não podia transpirar, Diego Lorenzi telefonou para o médico de Luciani, Giuseppe da Ros. Ele fora médico de Luciani por mais de 20 anos. Lorenzi recorda nitidamente a reação do médico:

— Ele ficou chocado. Atordoado. Incapaz de acreditar. Perguntou-me a causa, mas eu não sabia. O Dr. Da Ros estava igualmente perplexo. Disse que partiria imediatamente para Veneza e pegaria um avião para Roma.

O telefonema seguinte de Lorenzi foi para a sobrinha de Albino, Pia, que era provavelmente mais chegada ao tio do que qualquer outra pessoa da família. Diego Lorenzi parecia ser o único membro da Igreja a compreender que até mesmo os Papas têm parentes. Lorenzi naturalmente achou que a família justificava um telefonema pessoal, ao invés de brutalmente receber a notícia pelo rádio.

— Nós o encontramos morto esta manhã. Você precisa de muita fé agora.

Muitos precisariam de uma grande fé. Muitos teriam de recorrer a toda a sua fé para aceitar o que Villot e seus colegas diriam nos próximos dias.

A notícia começava a se espalhar pela aldeia do Vaticano. No pátio, perto do Banco do Vaticano, o Sargento Roggan encontrou o Bispo Paul Marcinkus. Faltavam 15 minutos para as 7:00. O que Marcinkus, que morava na VilIa Stritch na Via della Nocetta, em Roma, e não estava habituado a acordar cedo, como era do conhecimento de todos, fazia ali tão cedo permanece um mistério. A VilIa Stritch fica a 20 minutos de carro do Vaticano. Roggan deu-lhe a notícia:

— O Papa está morto.

Marcinkus limitou-se a olhar fixamente para o sargento da Guarda Suiça. Roggari chegou mais perto do presidente do Banco do Vaticano.

— O Papa Luciani morreu. Encontraram-no morto na cama.

Marcinkus continuou a olhar fixamente para Roggan, sem demonstrar qualquer reação. O sargento finalmente se afastou, deixando Marcinkus a olhar em sua direção.

Alguns dias depois, durante o funeral do Papa, Marcinkus apresentou uma explicação para o seu estranho comportamento:

— Desculpe, mas pensei que você tivesse enlouquecido.

O Dr. Buzzonetti fez um rápido exame do corpo. Comunicou a Villot que a causa da morte era infarto do miocárdio agudo, um ataque cardíaco. O médico calculou que a morte ocorrera por volta das 23:00 do dia anterior.

Determinar a hora da morte como 23:00 e a causa como infarto do miocárdio, depois de um exame externo tão breve, é uma impossibilidade médica.

Villot já decidira, antes do exame de Buzzonetti, ocorrido ás 6:00 aproximadamente, que o corpo de Albino Luciani deveria ser imediatamente embalsamado. Mesmo antes de telefonar para o Cardeal Confalonieri, às 5:15, Villot já tomara as primeiras providências para um rápido embalsamamento. Os irmãos Signoracci. Ernesto e Renato, haviam embalsamado os três últimos Papas. Agora, um telefonema ao amanhecer e um carro do Vaticano que chegou às 5:00 foram os atos iniciais no que seria um longo dia para os irmãos Signoracci. O fato de terem sido procurados tão cedo prova que o Vaticano já entrara em contato com o Instituto de Medicina que emprega os irmãos e dera as instruções necessárias, entre 4:45 e 5:00.

As 7:00, mais de duas horas depois da morte ter sido descoberta pela Irmã Vincenza, o mundo em geral ignorava que João Paulo I não estava mais vivo. Enquanto isso, a aldeia do Vaticano continuava a ignorar totalmente o édito de Villot. O Cardeal Benelli, em Florença, soube da noticia por um telefonema às 6:30. Dominado pela dor e chorando abertamente, retirou-se imediatamente para seu quarto e começou a rezar. Todas as esperanças, sonhos e aspirações estavam destruídos. Os planos que Luciani fizera, as mudanças, a nova orientação, tudo dava em nada. Quando um Papa morre, todas as decisões ainda a serem anunciadas morrem com ele. A menos que seu sucessor decida adotá-las.

Às 7:20, sinos da igreja da paróquia em que Albino Luciani nascera, Canale d’Agrodo, estavam repicando. A Rádio Vaticano permanecia em silêncio sobre a morte. Finalmente, às 7:27, cerca de duas horas e 45 minutos depois da descoberta da morte pela Irmã Vincenza, o Cardeal Villot sentia-se suficientemente no controle da situação para que a morte do Papa fosse anunciada:

"Esta manhã, dia 29 de setembro de 1978, por volta das 5:30, o secretário particular do Papa, não encontrando como de hábito o Santo Padre na capela de seus aposentos particulares, procurou-o em seu quarto e descobriu-o morto na cama, com a luz acesa, como alguém concentrado em ler. O médico, Dr. Renato Buzzonetti, prontamente convocado, confirmou o óbito, que ocorreu presumivelmente por volta das 23:00 de ontem, como "morte súbita que pode ser relacionada com infarto agudo do miocárdio".

Posteriormente, boletins informaram que o secretário em questão era o Padre Magee, que geralmente dizia a missa com o Papa às 5:30. O Vaticano informou também que, na ocasião de sua morte, o Papa lia A Imitação de Cristo, a obra do século XV geralmente atribuída a Thomas A. Kempis.

Juntamente com o remédio, as anotações papais, os óculos e as chinelas, a Irmã Vincenza e sua descoberta do corpo às 4:45 também se desvaneceram. Mesmo com duas horas e 45 minutos para forjar uma boa história, Villot e aqueles que o aconselhavam criaram a maior confusão. Enquanto todos os jornais e emissoras de rádio e televisão do mundo livre divulgavam a notícia, baseada em boletins do Vaticano, Villot encontrava as maiores dificuldades para sustentar sua versão.

A idéia de colocar um livro que Luciani reverenciava em suas mãos na ocasião da morte parecera um pensamento inspirado a Villot. O problema era que não havia um único exemplar no quarto do Papa. Mais do que isso, não havia um exemplar em qualquer lugar dos aposentos papais. O exemplar de Luciani ainda se achava em Veneza. Alguns dias antes, ele desejara citar corretamente um trecho do livro e Lorenzi tivera de pedir emprestado o exemplar de seu confessor no Vaticano. Mas Don Diego devolvera o livro antes da morte do Papa. Suas queixas sobre uma invenção óbvia não puderam ser reprimidas. O Vaticano continuou a manter essa mentira em particular até 2 de outubro — ou seja, por quatro dias. Durante esses primeiros quatro dias, as informações falsas transmitidas pelo Vaticano tornaram-se, nas mentes das pessoas, a realidade, a verdade.

Muitos se deixaram enganar pela desinformação que saía do Vaticano. Houve a história, por exemplo, do Padre Magee ter ido ao quarto do Papa pouco antes das 22:00 de 28 de setembro. Emanava diretamente da Cúria Romana e dizia que Magee falara ao Papa sobre o assassinato de um estudante em Roma. Ao que o Papa teria dito:

— Esses jovens estão atirando uns contra os outros novamente? É uma coisa horrível.

Essas foram noticiadas amplamente, no mundo inteiro, como sendo as últimas palavras do Papa. Proporcionavam o bônus adicional de uma possível explicação paira a inesperada morte de Luciani. Ele morreu de choque ao tomar conhecimento das trágicas noticias. A conversa entre Magee e Luciani não ocorreu. Foi uma invenção do Vaticano.

Outra invenção do Vaticano foi a sugestão de que Luciani tinha o hábito de dizer a missa com Magee às 5:30. A missa nos aposentos papais não ocorria antes das 7:00. Como já foi registrado antes, Luciani aproveitava o período entre 5:30 e 7:00 para meditação e oração, geralmente sozinho, às vezes em companhia de Magee e Lorenzi, a partir das 6:30. A imagem de um Magee transtornado e consternado, alarmado pelo não aparecimento de Luciani às 5:30 é fantasia do Vaticano.

O choque pela morte trágica e inesperada espalhou-se pelo mundo. As maciças portas de bronze da Basílica de São Pedro foram fechadas, a bandeira do Vaticano foi hasteada a meio-pau — essas foram as indicações exteriores. Mas a notícia da morte de Albino Luciani era tão desconcertante que a incredulidade manifestada por seu médico particular foi partilhada por milhões de pessoas. Ele deliciara o mundo. Como podia o candidato de Deus devidamente eleito deixar o mundo tão depressa?

O Cardeal Willebrands, da Holanda, que acalentara grandes esperanças pelo Pontificado de Luciani, declarou:

— E um desastre. Não posso exprimir em palavras o quanto ficamos felizes naquele dia de agosto em que escolhemos João Paulo. Tínhamos as maiores esperanças. Foi um sentimento maravilhoso, um sentimento de que algo novo aconteceria à nossa Igreja.

O Cardeal Baggio, um dos homens que Luciani decidira afastar de Roma, foi mais comedido.

— O Senhor nos usa, mas não precisa de nós—disse pela manhã, depois de ter visto o corpo. E acrescentou: — Ele era como um padre paroquial para a Igreja.

Perguntaram o que aconteceria agora e Baggio respondeu calmamente:

— Providenciaremos outro.

Baggio, porém, foi uma exceção. A maioria das pessoas demonstrou profundo choque e amor. Quando o Cardeal Benelli finalmente emergiu de seus aposentos, às nove horas da manhã, foi imediatamente cercado pelos repórteres. Ainda com lágrimas escorrendo pelas faces, ele disse:

— A Igreja perdeu o homem certo para o momento certo. Estamos profundamente consternados. Ficamos assustados. O homem não pode explicar uma coisa assim. E um momento que nos limita e condiciona.

No Vaticano, os planos de Villot para um embalsamamento imediato depararam com dificuldades. Os Cardeais Felici, em Pádua, e Benelli, em Florença, que conheciam exatamente a natureza das mudanças que Luciani estava prestes a efetuar, sentiam-se particularmente transtornados e foi o que disseram em conversas telefônicas com Villot. Já havia rumores na Itália de que se deveria fazer uma autópsia. Era uma posição que, nas circunstâncias, Benelli e Felici estavam pelo menos dispostos a considerar, Caso o corpo fosse embalsamado, uma autópsia posterior seria inútil se a causa da morte fosse envenenamento.

Oficialmente, o Vaticano criou a impressão de que o corpo de João Paulo 1 foi embalsamado antes de ser exposto à visitação pública, na Sala Clementina, ao meio-dia de sexta-feira. Na verdade, os visitantes naquele dia viram um Luciani em estado natural, sem estar embalsamado. O Padre Diego Lorenzi me disse:

O corpo foi levado dos aposentos particulares diretamente para a Sala Clementina, Na ocasião, ainda não houvera qualquer embalsamamento. O Papa Luciani foi vestido pelo Padre Magee, Monsenhor Noe e eu. Fiquei junto ao corpo, assim como Magee, até as 23:00. Os irmãos Signoracci voltaram nessa ocasião e o corpo foi levado para a Sala Clementina.

O contraste com a morte do Papa Paulo era espantoso. Houvera então pouca emoção pública; agora, os sentimentos eram incontroláveis, No primeiro dia, 250 mil pessoas passaram pelo corpo. A especulação pública que sua morte não fora natural aumentava a cada minuto. Homens e mulheres passavam pelo corpo inerte e comentavam:

— Quem fez isso com você? Quem o assassinou?

Enquanto isso, continuava o debate sobre se deveria ou não haver uma autópsia, entre a minoria de cardeais que se reunia em Roma. Se Luciani fosse um cidadão comum de Roma, não haveria qualquer discussão e a autópsia seria efetuada imediatamente. A lei italiana declara que não pode haver embalsamamento sem a autorização expressa de um juiz, até 24 horas depois da morte. Se um cidadão italiano comum morresse em circunstâncias similares às de Luciani, a autópsia seria prontamente determinada. A moral seria a de que os cidadãos italianos que desejam garantir as providências legais normais depois de sua morte não devem se tornar Chefe de Estado da Igreja Católica.

Para homens que nada têm a esconder, as ações de Villot e outros membros da Cúria Romana continuaram a ser incompreensíveis. Quando alguns homens conspiram para esconder alguma coisa, é porque existe algo a esconder.

Foi de um cardeal residente em Roma que tomei conhecimento do motivo mais extraordinário apresentado para toda a cobertura:

Ele (Villot) me disse que ocorrera um trágico acidente. Que o Papa involuntariamente tomara uma dose excessiva de seu remédio. O Camerlengo ressaltou que ficaria patente a dose excessiva fatal se fosse efetuada uma autópsia. Ninguém acreditaria que Sua Santidade a tomara acidentalmente. Alguns alegariam suicídio, outros falariam em assassinato. Por isso, ficou combinado que não haveria autópsia.

Em duas ocasiões, entrevistei o Professor Giovanni Rama, o especialista responsável por receitar Effortil, Cortiplex e outros medicamentos para aliviar o problema de pressão baixa de Albino Luciani. Ele era paciente do Dr. Rama desde 1975. Seus comentários, a propósito de uma superdose acidental, administrada pelo próprio paciente, são esclarecedores:

Uma superdose acidental não é verossímil. Ele era um paciente consciencioso. E muito sensível aos medicamentos, Precisava de bem pouco. Estava tomando uma dose mínima de Effortil, Normalmente, são 60 gotas por dia. Mas 20 ou 30 gotas por dia eram suficientes para ele. Sempre fomos muito prudentes ao prescrever medicamentos.

Conversas adicionais estabeleceram que Villot chegara a essa conclusão naqueles poucos momentos no quarto do Papa em que embolsara o vidro de remédio. Villot era evidentemente um homem de muito talento, O Papa morre sozinho, depois de se retirar para o seu quarto como um homem gozando de boa saúde, que acaba de tomar algumas decisões cruciais, inclusive a que afeta diretamente o futuro de Villot. Sem quaisquer exames, sem provas internas ou externas, o idoso Secretário de Estado deduz que o racional Albino Luciani se matara acidentalmente. Talvez, na atmosfera rarefeita da aldeia do Vaticano essa história tenha credibilidade. Para nós, que vivemos no mundo real aqui de fora, provas que teriam indicado a verdade seriam essenciais.

Algumas dessas provas essenciais que teriam indicado a verdade já haviam sido destruídas por Villot... o remédio e as anotações de Luciani sobre as mudanças fundamentais. Pode-se avaliar o pânico de Villot pelo desaparecimento do testamento de Albino Luciani. Nada continha de importância em relação à sua morte, mas mesmo assim foi destruído junto com outras provas essenciais. Ainda é um mistério por que os óculos e as chinelas do Papa também desapareceram.

Os rumores espalharam-se por toda a aldeia do Vaticano. Comentou-se que uma luz de alarme num painel nos aposentos papais ficara acesa durante a noite inteira e ninguém respondera ao pedido de socorro, Falou-se que sinais de vômito foram encontrados no quarto, sujando diversas coisas, era por isso que as sandálias e os óculos desapareceram. O vômito é freqüentemente um dos primeiros sintomas de uma superdose de digitalina. Grupos de bispos e padres se reuniram em diversas salas e recordaram o insólito incidente da súbita morte trágica do arcebispo ortodoxo russo de Leningrado, Nikodem. Ele fora recebido em audiência especial por Albino Luciani a 5 de setembro, E de repente, inesperadamente, o prelado russo de 49 anos tombara para a frente em sua cadeira. E um momento depois estava morto. Espalhou-se agora pelo Vaticano a notícia de que Nikodem tomara uma xícara de café destinada a Albino Luciani. Nikodem tinha uma saúde precária e já sofrera anteriormente alguns ataques cardíacos. Na assustada cidade-estado, esses fatos haviam sido afastados para um lado. Agora, no entanto, em retrospecto, eram encarados como um sinal, um prenúncio para os eventos pavorosos que acabaram ocorrendo nos aposentos papais.

Durante o dia 29 de setembro, tudo o mais nos aposentos papais que pertencia a Albino Luciani foi removido, inclusive suas cartas anotações, livros, todos os documentos e até mesmo os poucos mementos pessoais, como a fotografia dos pais com a pequena Pia. O pessoal da Secretaria de Estado removeu todos os documentos confidenciais. Rapidamente, todas as provas materiais de que Albino Luciani já vivera e trabalhara ali foram encaixotadas e despachadas para longe. Por volta das 18:00, todos os 19 cômodos estavam despojados de qualquer coisa associada sequer remotamente com o Pontificado de Luciani. Era como se ele nunca tivesse estado ali, como se nunca existisse. As 18:00 os aposentos papais foram lacrados pelo Cardeal Villot. Permaneceriam fechados até que um sucessor fosse eleito.

Discretamente, as freiras e os dois secretários foram embora. Magee guardou como lembrança as fitas cassette que Luciani usava para melhorar seu inglês. Lorenzi ficou com uma miscelânea de imagens e recordações. Evitando cuidadosamente os repórteres à espera, o grupo foi se instalar numa residência dirigida pelas Irmãs Maria Bambina.

John Magee se tornaria secretário de um Papa pela terceira vez, algo extraordinário e sem precedentes. Diego Lorenzi ficou profundamente abalado pela morte de um homem a quem amava. Voltaria ao norte da Itália para trabalhar numa pequena escola. Vincenza seria despachada ainda mais para o norte, ficando num obscuro convento. A máquina do Vaticano garantia assim, com esse virtual banimento, que se tornasse quase impossível localizá-los.

Depois que as portas da Sala Clementina foram fechadas ao público, às 18:00 de sexta-feira, 29 de setembro, o homem que se sentia mais aliviado no Vaticano era Villot, O trabalho dos técnicos podia finalmente começar. Depois que o corpo fosse embalsamado, seria impossível numa autópsia subsequente encontrar vestígios de veneno. Se o Papa realmente morrera de infarto agudo do miocárdio, os fluidos do embalsamamento não destruiriam os vasos sangüíneos naturalmente lesionados.

No que foi presumivelmente uma coincidência irônica, a Associação dos Proprietários de Farmácias de Roma distribuiu justamente naquele dia um comunicado ao público de que diversos medicamentos essenciais para o tratamento de determinados casos de envenenamento e males cardíacos se encontravam em falta. De maior pertinência ainda talvez tenha sido a declaração que os repórteres italianos conseguiram finalmente arrancar do Cardeal Villot:

Quando estive ontem com Sua Santidade, ao cair da noite, ele gozava de boa saúde e estava totalmente lúcido, dando-me todas as instruções para o dia seguinte.

Por trás das portas fechadas, na Sala Clementina, o processo de embalsamamento prolongou-se por três horas. Os cuidados e preservação do corpo foram de responsabilidade do Professor Cesare Gerin, mas o trabalho de embalsamamento foi executado pelo Professor Marracino e por Ernesto e Renato Signoracci. Quando examinaram o corpo antes que fosse removido para Clementina, os dois irmãos Signoracci concluíram, pela ausência de rigidez cadavérica e pela temperatura do corpo, que a morte ocorrera não às 23:00 da noite anterior, mas entre 4:00 e 5:00 horas daquela madrugada. Receberam uma confirmação independente de sua conclusão de Monsenhor Noe, que informou aos irmãos que o Papa morrera pouco antes das cinco horas da manhã. Entrevistei os dois irmãos amplamente, em três ocasiões diferentes. Eles estão absolutamente convencidos de que a morte ocorreu entre 4:00 e 5:00 da madrugada do dia 29 de setembro e que o corpo foi descoberto uma hora depois. Se essa conclusão é acurada, então o Papa acabara de morrer quando Irmã Vincenza entrou em seu quarto. Somente a autópsia resolveria essas opiniões conflitantes.

Por insistência do Vaticano, nenhum sangue foi retirado do corpo nem removido qualquer órgão. Injeções de formol e outros elementos químicos preservativos foram aplicadas no corpo principalmente através da veia femoral e arterial, O processo demorou três horas porque o Vaticano insistiu que nenhum sangue fosse retirado, contrariando a prática normal, em que o sangue é drenado ou limpo com uma solução de água salgada que circula pelo corpo. Uma pequena quantidade do sangue seria mais do que suficiente para que um laboratório estabelecesse a presença de qualquer substância venenosa.

O tratamento cosmético aplicado no corpo eliminou a expressão de angústia no rosto. As mãos que seguravam os papéis agora desaparecidos foram cruzadas sobre um rosário. O Cardeal Villot finalmente foi se deitar, pouco antes da meia-noite,

O Papa Paulo VI, de acordo com as leis italianas, não foi embalsamado até 24 horas depois de sua morte. Embora tenha havido suspeita de incompetência médica após sua morte, não houve qualquer indicação de crime. Agora, não só com o público mas o rádio, a televisão e a imprensa em geral pedindo uma autópsia, o corpo de Luciani foi embalsamado 12 horas após ter sido descoberto.

No sábado, 30 de setembro, uma indagação em particular era formulada com crescente pressão: "Por que não houve autópsia?" Os meios de comunicação começaram a procurar uma explicação para uma morte tão súbita e inesperada. A Cúria se apressou em lembrar aos repórteres curiosos um comentário informal que Luciani fizera durante a sua Audiência Geral, na quarta-feira, 27 de setembro. Virando-se para um grupo de doentes e deficientes físicos, no Salão Nervi, Luciani dissera:

— Lembrem-se de que o seu Papa já esteve nu hospital Oito vezes e sofreu quatro operações.

O Serviço de Imprensa do Vaticano começou a responder a pedidos de informações sobre a saúde de Luciani com a frase do falecido Papa. Usaram-na tão excessivamente que até adquiriu as características de uma máquina de respostas telefônicas, deixando frustrados os que pediam notícias mais detalhadas do acontecimento.

Os vários meios de comunicação recordaram que Luciani não dera a impressão de estar com problemas de saúde durante o seu breve Pontificado. Ao contrário, comentaram todos, ele parecia ser a própria imagem da saúde, cheio de vida e animação. Outras pessoas que conheciam Luciani há muito tempo começaram a ser procuradas para dar suas opiniões.

Quando Monsenhor Senigaglia, secretário de Luciani em Veneza por mais de seis anos, revelou que o falecido Papa se submetera a um check-up médico completo, pouco antes de viajar para o Conclave, os resultados sendo "favoráveis sob todos os aspectos’ , as exigências de uma autópsia tornaram-se ainda maiores.

Quando diversos especialistas médicos começaram a proclamar categoricamente a necessidade de uma autópsia, a fim de se determinar a causa precisa da morte, o pânico no Vaticano atingiu um novo auge. Era evidente que os médicos estavam dispostos a admitir uma variedade de motivos que podiam ser fatores contributivos (a súbita tensão de se tornar Papa era um dos prediletos), mas nenhum se dispunha a aceitar sem uma autópsia, a declaração do Vaticano de que Albino Luciani morrera de infarto do miocárdio.

O Vaticano reagiu com a declaração de que a execução de uma autópsia era contrária às regras da Igreja. Tratava-se de outra mentira divulgada à imprensa mundial. Os jornalistas italianos pressionaram e ficou evidente que o Vaticano dizia isso com base na Constituição Apostólica, anunciada por Paulo VI em 1975. Era o documento que fixava as normas para a eleição de seu sucessor, determinando uma busca por microfones secretos na área do Conclave e definindo as dimensões dos cartões de votação. Uma leitura cuidadosa do documento revela que Paulo não previra a possibilidade de qualquer controvérsia a respeito da causa de sua morte. Uma autópsia não era proibida nem aprovada. Não havia simplesmente qualquer referência a respeito.

A morte de Paulo tornou-se então assunto para debate público. E abundantemente claro que a vida de Paulo poderia ter sido prolongada. O tratamento médico que ele recebera em seus últimos dias, na opinião de muitos dos maiores especialistas do mundo, deixara muito a desejar. Em seu hospital em Cape Town , o Dr. Christian Barnard comentou, ao saber que o Papa Paulo não fora colocado num centro de tratamento intensivo:

— Se isso acontecesse na África do Sul, os médicos responsáveis seriam denunciados à Associação Médica por negligência.

Um dos principais responsáveis pelo tratamento do Papa Paulo fora o Dr. Renato Buzzonetti, o subchefe dos serviços médicos do Vaticano, Agora, o mesmo médico, que na opinião do Dr. Barnard se mostrara negligente em agosto, realizava uma impossibilidade médica ao determinar a causa da morte solitária de Albino Luciani, Sem uma autópsia, sua conclusão não tinha o menor significado.

Foi nesse ambiente que o Cardeal Confalonieri presidiu a primeira reunião da Congregação de Cardeais, o grupo que controla os assuntos da Igreja depois da morte de um Papa. Essa Congregação inclui todos os cardeais... se por acaso estiverem em Roma. Quando essa reunião inicial ocorreu, às 11:00 da manhã de sábado, 30 de setembro, a maioria dos cardeais ainda estava espalhada pelo mundo. Dos 127 cardeais, somente 29 se achavam presentes, a maioria sendo constituída naturalmente por italianos. Essa minoria tomou diversas decisões. Decidiu que o funeral de Albino Luciani se realizaria na quarta-feira seguinte, 4 de outubro. Enquanto isso, a maciça manifestação pública de pessoas que queriam visitar pessoalmente o corpo do Papa causava a maior confusão e tumulto para as autoridades do Vaticano. Previam um grau de interesse similar ao que fora demonstrado quando Paulo morrera... um outro exemplo de como a Cúria não fora capaz de compreender o impacto de Luciani. Foi tomada a decisão de transferir o corpo naquela noite para a Basílica de São Pedro. As duas decisões mais significativas, tomadas naquela manhã, porém, foram a de que o próximo Conclave ocorreria na data mais próxima possível, 14 de outubro, e que não haveria autópsia.

As dúvidas de homens como Benelli, Felici e Caprio sobre a morte de Luciani foram repelidas. Sabendo que a controvérsia cresceria até que o público recebesse um elemento novo para desviar sua atenção, Villot e seus colegas inverteram totalmente a maneira como haviam raciocinado em agosto. Naquela ocasião, o Conclave fora protelado por quase tanto tempo quanto o máximo permitido. Agora, seria o prazo mais curto. Era uma trama astuta. Os cardeais da Cúria, em particular, raciocinaram que, depois do funeral, os meios de comunicação se concentrariam nas especulações sobre o possível sucessor de Luciani. Se pudessem resistir até o funeral, a se realizar dentro de poucos dias, estariam seguros. Além disso, qualquer um da maioria de cardeais ainda por chegar que pedisse a autópsia se confrontaria com decisões já tomadas. Inverter tais decisões, no tempo limitado antes do funeral, seria uma virtual impossibilidade. "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará", diz a Bíblia, uma exortação que 29 cardeais preferiram ignorar, em nome da Igreja Católica, naquela manhã de 30 de setembro de 1978.

Depois que a reunião foi encerrada, o Cardeal Confalonieri deu sua opinião sobre o motivo pelo qual o Papa morrera subitamente:

Ele não podia suportar a solidão. Todos os Papas vivem numa espécie de solidão institucional, mas talvez Luciani tenha sofrido com isso mais do que os outros. Sempre vivera no meio de muitas pessoas, mas descobriu-se a conviver apenas com dois secretários, que não conhecia antes, e duas freiras, que nem mesmo levantavam os olhos na presença do Papa. Ele não tinha tempo sequer para fazer amigos.

O Padre Diego Lorenzi trabalhava em estreito contato com Luciani há mais de dois anos. A Irmã Vincenza trabalhara com Luciani por quase 20 anos. Ao invés de abaixar os olhos quando ele se aproximava, Vincenza era uma fonte de grande conforto para Luciani. Ele estava de fato isolado, mas será que uma legião de amigos íntimos poderia evitar uma morte solitária e misteriosa?

Não pode haver a menor dúvida de que a hostilidade e arrogância curiais, demonstradas durante os seus últimos 33 dias, não foram das experiências mais felizes, mas Albino Luciani lutara contra a hostilidade e arrogância clericais em Veneza por quase uma década.

Às 18:00 de sábado, 30 de setembro, o corpo embalsamado foi transferido, descoberto, para a Basílica de São Pedro. Uma grande parte do mundo assistia pela televisão, enquanto o cortejo, incluindo 24 cardeais, 100 bispos e arcebispos, passava pela Primeira Loggia, o Salão Ducal, o Salão e Escada dos Reis, atravessava a Porta de Bronze e saía para a Praça de São Pedro. A esta altura, o canto do Magnificat foi inesperadamente abafado por um desses gestos que são tipicamente italianos. A enorme multidão prorrompeu em aplausos altos e prolongados, o equivalente latino ao respeitoso silêncio anglo-saxão.

No mundo inteiro, opiniões informadas e desinformadas tentaram avaliar a vida e a morte de Albino Luciani. Muito do que se escreveu revela bem mais do autor que a respeito do homem. A convicção de que as mentes podiam ser rapidamente desviadas da morte para a sucessão, manifestada naquela manhã pela Cúria, começou rapidamente a se provar acurada. Na Inglaterra, The Times espelhou com perfeição a natureza transitória da vida com um editorial intitulado "O Ano dos Três Papas".

Alguns observadores falaram perceptivamente de uma grande promessa irrealizada, outros de um Pontificado que dera a impressão de que seria divertido. Em relação à explicação para a morte súbita, a campanha de desinformação da Cúria Romana alcançou um sucesso extraordinário. Um jornalista depois de outro apresentou uma longa lista de doenças. O fato de alguém tão experiente como Patrick O’Donovan, do Observer, se deixar enganar a ponto de escrever o seguinte, mostra como a campanha foi vitoriosa: "Somente agora se sabe que o Cardeal Luciani tinha um longo registro de doenças, embora não fatais".

Não foi anunciado exatamente quais eram essas doenças. Confrontados com um prazo de fechamento de seus jornais ou revistas, é claro que O’Donovan e outros jornalistas não tiveram tempo para pesquisa pessoal e foram obrigados a se basear em contatos no Vaticano. Alguns falaram que Luciani fumava demais, que só tinha um pulmão, que sofrera diversas crises de tuberculose. Outros foram informados, por fontes do Vaticano, que ele tivera quatro ataques cardíacos em decorrência de uma flebite. Outros mencionaram que ele sofria de enfisema, uma doença crônica dos pulmões, geralmente causada pelo cigarro. Não há nenhum fundo de verdade em tudo isso,

O exagero das mentiras do Vaticano causa o próprio fracasso. Será que 111 cardeais se reuniriam em Roma, em agosto de 1978, para eleger um homem que sofria de tantas doenças? E, depois, permitiriam que ele morresse sozinho? Juntamente com as mentiras sobre a história médica de Luciani, a campanha de desinformação do Vaticano era ativa em outras áreas. A Cúria divulgava a opinião extra-oficial, que não podia ser atribuída especificamente a ninguém, de que Luciani não era de qualquer forma um bom Papa. Por que então lamentar tanto quem não tinha o menor valor? Conversei sobre essa campanha de difamação com o Cardeal Benelli, que comentou:

Pareceu-me que o objetivo deles (da Cúria Romana) era duplo. Minimizar a competência de Luciani reduziria o senso de perda e, por conseguinte, as exigências de uma autópsia. Em segundo lugar, a Cúria se preparava para o próximo Conclave. E queria um Papa curial.

Quando Luciani almoçara com a sobrinha Pia, um dos temas da conversa fora distorção da imprensa. Agora, na morte, Luciani tornou-se uma vítima disso. Os comentários negativos eram inspirados basicamente por padres e monsenhores insignificantes, que normalmente se ocupavam a escrever memorandos irrelevantes no Vaticano. Acharam que era extremamente lisonjeiro serem interrogados a respeito de suas opiniões sobre o falecido Papa. O fato de nenhum deles ter acesso aos corredores do poder ou sequer se aproximar dos aposentados papais era disfarçado pela descrição abrangente "uma alta fonte do Vaticano disse hoje". O que eles disseram foi parte da grande injustiça cometida contra o Papa morto. Permitiu a muitos jornalistas e observadores, que antes do Conclave de agosto ignoravam as possibilidades de Luciani, se livrar do fato incômodo de que a eleição do Patriarca de Veneza demonstrava como eram mal-informados. O pensamento de todos parece ter sido o seguinte: "Nós não lhe demos qualquer importância, mas todos compreendem agora que estávamos certos". E a explicação para comentários como os seguintes:

As audiências atraíram a simpatia imediata do público, mas desapontaram e às vezes preocuparam as altas autoridades da Igreja. O Papa expressava uma filosofia de existência que parecia ocasionalmente calcada em Seleções do Reader’s Digest: bom senso, um tanto simplista, diga-se de passagem, em contraste com os grandes vôos teológicos de oratória de Paulo VI. Evidentemente, ele não possuía a cultura e o preparo intelectual de seu antecessor.

(Roberto Sole, correspondente no Vaticano de Le Monde)

Acompanhamos primeiro com ansiedade e depois com um crescente senso de ridículo os seus generosos esforços para descobrir quem era. Ele sorria, seu pai fora socialista, trocou a tiara por uma simples estola, falava informalmente nas audiências.

(Commonweal)

Newsweek comentou que a rejeição por Luciani da filosofia "Ubi Lenin, ibi Jerusalem" era uma traição aos cardeais latino-americanos, que haviam participado de forma tão valiosa em sua eleição. A revista achou que Luciani, ao fazer esse comentário, rejeitara a teologia da libertação. Não perceberam que Luciani, por causa da censura da Cúria, acrescentara um importante qualificativo, que alterava completamente a situação: "Existe alguma coincidência, mas não podemos fazer um perfeito equilíbrio."

Peter Nichols, o experiente correspondente do Times, mas nessa ocasião escrevendo para o Spectator, comparou Luciani a um popular comediante italiano que só precisava se mostrar ao público para receber uma ovação. Ele só não explicou por que Paulo VI jamais conseguia receber ovações ao se apresentar em público.

Outros criticaram o fato de que Luciani mantivera todos os membros da Cúria nas mesmas funções. Esqueceram de mencionar, porém, que todos os três Papas que o antecederam agiram da mesma forma e que ele detinha o poder e a autoridade de remover a qualquer um deles em qualquer ocasião.

Nos dias que seguiram à morte do Papa, a maior parte dos meios de comunicação do mundo inteiro divulgaram histórias sobre o ritual do

Vaticano que envolve esse momento. Os jornais contaram que o Cardeal Villot se aproximara do corpo inerte e indagara três vezes "Albino, você está morto?", a cada uma batendo simbolicamente na testa do Papa com um martelinho de prata. A imprensa também descreveu dramaticamente como Villot retirara da mão de Luciani o Anel do Pescador Papal e o destruíra.

Por ocasião da morte de Albino Luciani, na verdade, não houve a indagação ritual nem a batida simbólica na testa. Tais cerimônias haviam sido abolidas no Pontificado de Paulo, Quanto ao anel de Luciani, o Pontificado fora tão breve que o Vaticano não tivera tempo para providenciá-lo. O único anel na mão de Luciani, durante todo o seu Pontificado, fora o recebido por cada bispo que comparecera ao Concílio Vaticano Segundo.

A divulgação de todos esses absurdos completamente falsos, quando se sabe o quanto Luciani realizou em tão pouco tempo e como era tido em alta conta por homens como Casaroli, Benelli, Lorscheider, Garrone, Felici e muitos Outros, só se explica por uma campanha meticulosamente organizada. Nenhum obituário critico ou artigo referiu-se a qualquer dos fatos registrados no capitulo anterior, Uma das muitas frases que os homens do Vaticano gostam de citar é bastante esclarecedora: "Nada vaza do Vaticano sem um propósito especifico."

A 1° de outubro, a pressão para uma autópsia do cadáver de Luciani aumentou ainda mais. O jornal mais respeitado da Itália, Corriere della Sera, publicou um artigo na primeira página com o título "Por que dizer não a uma Autópsia?" Era de Carlo Bo, um jornalista extraordinário, com profundo conhecimento do Vaticano, A simples publicação do artigo já é significativa. Na Itália, por causa do Tratado de Latrão e de acordos subsequentes entre o Estado italiano e o Vaticano, a imprensa sofre sérias restrições ao escrever sobre a Igreja Católica, as leis de calúnia são rigorosas. Os comentários críticos, ainda mais os ataques diretos, podem resultar em processos judiciais.

Carlo Bo evitou habilmente qualquer risco. Num estilo reminescente do discurso de Marco Antônio à turba romana, Bo falou das suspeitas e acusações que haviam aflorado depois da morte súbita. Disse aos leitores que estava convencido de que os salões e porões do Vaticano estavam livres há séculos de tais ações criminosas. Por esse motivo, ele não podia compreender por que o Vaticano resolvera não efetuar nenhuma verificação científica, "em palavras mais humildes, por que não houve autópsia". E acrescentava:

A Igreja nada tem a temer; portanto, nada tem a perder. Ao contrário, teria muito a ganhar. Saber agora de que o Papa morreu é um fato histórico legítimo, parte da nossa história visível, não afeta por qualquer forma o mistério espiritual de sua morte. O corpo que deixamos para trás, quando morremos, pode ser compreendido com nossos parcos instrumentos e não passa de um refugo. A alma já está, ou melhor, sempre esteve, dependente de outras leis, que não são humanas, e assim permanecem inescrutáveis. Não transformemos em mistério um segredo a guardar por razões terrenas. Devemos reconhecer a insignificância de nossos segredos. Não declaremos sagrado o que não é.

Enquanto os 15 médicos do serviço de saúde do Vaticano recusavam-se a comentar se era ou não desejável efetuar autópsias em Papas mortos, Edoardo Luciani, voltando da Austrália, não ajudou a posição do Vaticano ao ser interrogado por jornalistas sobre a saúde do irmão:

No dia seguinte à cerimônia de entronização, perguntei a seu médico particular como ele estava, levando-se em consideração toda a tensão a que estava sujeito agora. O médico tranqüilizou-me, garantindo que meu irmão gozava de excelente saúde e seu coração estava em bom estado.

Indagado se o irmão já sofrera alguma vez de problemas cardíacos, Edoardo respondeu:

— Absolutamente nenhum, ao que eu saiba.

Esses comentários não combinavam com a fantasia promovida pelo Vaticano.

Na segunda-feira, 2 de outubro, a controvérsia sobre a morte do Papa assumira proporções internacionais. Na França, em Avignori, o Cardeal Silvio Oddi descobriu-se pressionado por muitas perguntas. Como um cardeal italiano, ele não podia revelar aos franceses os verdadeiros fatos? Oddi disse que o Colégio de Cardeais "não examinará de jeito nenhum a possibilidade de uma investigação, não aceitará interferência de quem quer que seja e nem sequer discutirá o assunto

E concluiu:

— Sabemos com toda certeza que a morte de João Paulo 1 ocorreu porque seu coração parou de bater por causas perfeitamente naturais.

O Cardeal Oddi realizara uma grande façanha médica, diagnosticando sem uma autópsia o que só se pode determinar dessa forma.

Enquanto isso, os protestos do Padre Lorenzi e de outros que serviram ao Papa, sobre uma mentira em particular, finalmente produziram resultados. O Vaticano anunciou:

Depois das verificações necessárias, estamos agora em condições de informar que o Papa, ao ser encontrado morto na manhã de 29 de setembro, tinha nas mãos determinados papéis, contendo seus escritos pessoais, como homilias, discursos, reflexões e diversas anotações.

Quando o Vaticano anunciara anteriormente que Luciani tinha nas mãos A Imitação de Cristo, o Padre Andrew Greeley registra em seu livro, Como se Fazem os Papas: "Alguns repórteres riram abertamente."

Os papéis, detalhando as mudanças cruciais que Luciani estava prestes a fazer, sofreram metamorforses extraordinárias ao longo dos anos: um relatório sobre a Igreja na Argentina; anotações para o seu próximo discurso no Angelus; sermões feitos em Belluno, Vittorio Veneto e Veneza; uma revista paroquial; o discurso que faria aos jesuítas (que foi encontrado, na realidade, em sua mesa de trabalho); um relatório escrito pelo Papa Paulo, Quando um Chefe de Estado morre nas circunstâncias de Luciani, as últimas coisas que ele escreveu ou leu são de interesse mais do que meramente acadêmico. De mais de cinco fontes diferentes obtive a confirmação de que Luciani tinha nas mãos suas anotações pessoais sobre as diversas mudanças que pretendia fazer. Duas dessas fontes são diretamente do Vaticano; as outras três vieram de fora, de pessoas que não residem no Vaticano. Com o Vaticano defendendo oficialmente a versão de que Luciani tinha nas mãos A Imitação de Cristo, a máquina curial começou a mostrar sinais de tensão,

A tensão tornou-se ainda maior quando a imprensa mundial começou a comentar diversos aspectos desconcertantes da tragédia. Muitos observadores acharam que era errado não haver ninguém para acompanhar o bem-estar de um Papa do anoitecer até a manhã seguinte. Parecia um absurdo que o Dr. Renato Buzzonetti trabalhasse principalmente num hospital de Roma e assim não pudesse garantir uma disponibilidade absoluta para atender ao Papa. Se os observadores conhecessem toda a ineficiência do Vaticano, a indignação seria ainda maior. Os fatos completos demonstram não apenas o potencial para uma morte natural prematura mas também as condições para um assassinato.

Na Espanha, assim como em outros países, a controvérsia transformou-se num debate público. O Professor Rafael Gambra, da Universidade de Madri, foi um dos muitos que lamentaram estar o Vaticano "fazendo coisas ao estilo italiano ou ao estilo florentino da Renascença". Clamando por uma autópsia, Gambra manifestou temores de que um Papa disposto a restaurar uma disciplina tão necessária na Igreja pudesse ter sido assassinado,

Na Cidade do México, o Bispo de Cuernavaca, Sergio Arothco, exigiu publicamente uma autópsia, declarando que isso seria útil, na minha opinião e na do Cardeal Miranda". O bispo determinou que uma proclamação detalhada fosse lida em todas as igrejas de sua diocese. A máquina do Vaticano entrou em ação rapidamente. A proclamação detalhada, como muitas outras coisas nesse caso, desapareceu por completo da face da terra. Quando o Vaticano acabou de trabalhar o Cardeal Miranda, ele pôde declarar, ao chegar a Roma, que não tinha absolutamente qualquer dúvida sobre a morte do Papa.

A 3 de outubro, enquanto o povo continuava a passar pelo corpo do Papa, numa média de 12 mil pessoas por hora, a controvérsia se tornou ainda mais acesa. O testamento de Albino Luciani desapareceu, mas, por seu extraordinário comportamento, o Vaticano garantia-lhe um legado amargo. Um Papa com a capacidade de falar abertamente, com absoluta objetividade e simplicidade, era envolvido na morte pela fraude e desonestidade. Obviamente a perda sentida pelas pessoas comuns era enorme. No Vaticano, não houve praticamente qualquer reconhecimento a esse sentimento disseminado. Ao contrário, a preocupação era uma furiosa ação de retaguarda, não pela memória de Albino Luciani, mas para proteger aqueles que se apresentavam como suspeitos de cumplicidade em seu assassinato.

Sacerdotes não-curiais estavam agora debatendo nos jornais os méritos e deméritos de uma autópsia. Os mestres e observadores criticaram severamente o Vaticano por sua obstinação. Mas o que era absolutamente evidente, como Vittorio Zucconi ressaltou em Corriere della Sera. era que, "por trás das dúvidas sobre a morte do Papa, há uma profunda insatisfação com as ‘versões oficiais"’.

A organização tradicionalista cristã conhecida como Civilita Christiana expressou como se sentia profundamente insatisfeita. O secretário Franco Antico revelou que apresentara um apelo oficial para um completo inquérito judicial sobre a morte do Papa João Paulo I ao tribunal da Cidade do Vaticano.

A decisão de apresentar o apelo e os motivos para isso ganharam manchetes no mundo inteiro. Antico citou diversas contradições que emergiram das informações do Vaticano. O grupo queria não apenas uma autópsia, mas um completo inquérito judicial. Antico disse:

Se o Presidente Carter morresse em circunstâncias similares, o povo americano certamente exigiria uma explicação.

Antico declarou à imprensa que sua organização aventara inicialmente a possibilidade de uma acusação formal de que o Papa fora assassinado por pessoa ou pessoas desconhecidas. Exibindo um exemplo maravilhoso da complexidade da mente italiana, ele disse que se abstiveram de tal providência porque ‘não estamos procurando um escândalo". A Civilita Christiana também encaminhara seu pedido ao Cardeal Confalonieri, Decano do Sacro Colégio. Algumas das questões que eles levantaram foi o prolongado intervalo entre a descoberta do corpo e o anúncio público da morte, um Papa aparentemente trabalhando até na cama sem que houvesse ninguém disponível para cuidar de seu bem-estar e o fato de que não fora apresentado o atestado de óbito. Nenhum médico do Vaticano, através de um atestado de óbito oficial, assumiu publicamente a responsabilidade do diagnóstico da causa mortis de Albino Luciani.

Os partidários do rebelde Arcebispo Marcel Lefebvre, que já haviam proclamado que Luciani morrera porque Deus não o queria como Papa, anunciaram agora, por intermédio do braço direito do cardeal, Abade Ducaud-Bourget, uma teoria diferente: "É difícil acreditar que a morte tenha sido natural, levando-se em consideração todos os demônios que habitam o Vaticano."

Tendo sido obrigado anteriormente a retirar a declaração de que as autopsias papais eram especificamente proibidas, o Vaticano defrontou-se na terça-feira, 3 de outubro, com os esforços de investigação de alguns tenazes repórteres italianos. A imprensa revelou, por exemplo, que já se efetuara autópsias em Papas. Foi o caso de Pio VIII, que morreu a 30 de novembro de 1830. O diário do Príncipe Dom Agostini Chigi registrou que na noite seguinte foi feita uma autópsia no corpo. O resultado dessa autópsia é oficialmente desconhecido porque o Vaticano jamais admitiu que tenha sido efetuada. Na verdade, além de alguns problemas e deficiências nos pulmões, todos os órgãos se encontravam em perfeitas condições. Suspeitara-se que o Papa fora envenenado.

Naquela noite, 3 de outubro, às 19:00, ocorreu um estranho incidente. Os portões da Basílica de São Pedro já haviam sido fechados ao público naquele dia. A’ basílica ficou deserta, exceto pelos quatro guardas suíços postados nos cantos do catafalco, a tradicional proteção de 24 horas por dia concedida ao corpo de um Papa morto. As 19:45, um grupo de cerca de 150 peregrinos de Canale d’Agrodo, o povoado de Albino Luciani, acompanhado pelo Bispo de Belluno, foi introduzido na basílica por uma entrada lateral. Os peregrinos acabavam de chegar a Roma e receberam uma permissão especial do Vaticano para entrarem na basílica, depois do fechamento oficial para o dia, a fim de prestarem suas últimas homenagens a um homem que muitos conheceram pessoalmente. Mas alguém na Cidade do Vaticano, com planos pessoais em relação ao corpo do Papa, não foi avisado disso. Poucos minutos depois de entrarem na basílica, os peregrinos foram expulsos sem a menor cerimônia para a Praça de São Pedro,

Autoridades do Vaticano apareceram, junto com alguns médicos. Todos os demais receberam ordens para saírem. Os quatro guardas suíços também foram dispensados. Enormes biombos vermelhos foram colocados em torno do corpo, a fim de impedir que qualquer espectador, que por acaso ainda se encontrasse no interior da basílica, visse o que os médicos faziam. Esse exame médico não anunciado prolongou-se até as 21:30. Depois que foi concluído, alguns peregrinos de Canale d’Agrodo, que permaneceram do lado de fora, perguntaram se não poderiam finalmente prestar suas últimas homenagens ao corpo. O pedido foi negado.

Por que foi feito esse exame a menos de 24 horas do funeral? Muitos jornalistas não tiveram qualquer dúvida a respeito. Houvera uma autópsia.

O Vaticano finalmente tomara providências para apaziguar a ansiedade pública? Se foi isso, então as declarações subsequentes do Vaticano sobre esse exame médico inexoravelmente à conclusão de que confirmaram-se os temores de que o Papa fora assassinado,

Não houve qualquer anúncio oficial depois do exame. Apesar de pressionado com perguntas pelos meios de comunicação, o serviço de imprensa do Vaticano continuou a manter um silêncio total sobre o que ocorrera na Basílica de São Pedro, até o momento em que o Papa foi sepultado. Somente depois é que apresentou sua versão. Antes, extra-oficialmente, informara à agência noticiosa italiana ANSA que o exame médico fora uma verificação normal do estado de preservação do corpo, efetuado pelo Professor Gerin e Arnaldo e Ernesto Signoracci, entre outros. A ANSA foi também informada que haviam sido aplicadas mais injeções do fluido embalsamador.

Quando finalmente se manifestou em termos oficiais, o serviço de imprensa do Vaticano reduziu a duração do exame de 90 para 20 minutos. Declarou também que se constatara que tudo estava em ordem e que depois os peregrinos de Canale d’Agrodo receberam permissão para retornar à basílica. Além dos erros ou mentiras deliberadas na declaração oficial, há outros fatos inquietantes. O Professor Cesare Gerin, ao contrário do que disseram os informantes do Vaticano interrogados pela ANSA, não estava presente. Além disso, os irmãos Signoracci, entrevistados por mim, garantiram que também não se achavam presentes durante essa bizarra ocorrência, Era uma verificação da preservação do corpo sem os preservadores.

Se, como muitos acreditam, foi realmente efetuada uma autópsia, até mesmo uma autópsia parcial, pois em 90 minutos não se poderia realizar todos os processos padronizados de um post mortem completo, então os resultados, se negativos, certamente seriam anunciados com estardalhaço. Que outra maneira melhor de silenciar os rumores? O Corriere della Sera informou que, "no último momento, um famoso médico da Universidade Católica juntou-se à equipe especial". Posteriormente, o "famoso médico" desvaneceu-se na neblina matutina que se elevava do Tibre.

O psicólogo católico Rosario Mocciaro, comentando o comportamento dos homens que tinham a incumbência de controlar a Igreja Católica durante aquele período de trono vazio, assim descreveu a situação:

Houve uma espécie de omertá (silêncio) como na Máfia, disfarçada de caridade cristã e protocolo.

Enquanto isso, continuava o diálogo de amor que Albino Luciani inspirara, entre ele próprio e o povo. Ignorando a chuva contínua, quase 100 mil pessoas se concentraram na Praça de São Pedro para assistir à missa campal de réquiem, no dia 4 de outubro, Quase um milhão de pessoas passaram junto ao corpo durante os quatro dias anteriores. A primeira das três leituras, tirada do Apocalipse de São João, terminava com as seguintes palavras: "Eu sou o Alfa e o Ômega, o principio e o fim. Eu darei água do poço da vida para quem esteja com sede."

O corpo de Albino Luciani, hermeticamente encerrado em três caixões, de cipreste, chumbo e ébano, foi para o seu lugar de repouso final, dentro de um sarcófago de mármore, na cripta da Basílica de São Pedro. Mesmo enquanto seus restos mortais, ao frio crepúsculo romano, iam ocupar seu lugar entre João XXIII e Paulo VI, a discussão continuou, todos querendo saber se antes de sua morte não haviam dado a Albino Luciani alguma coisa além de água do poço da vida.

Muitas pessoas permaneceram perturbadas pela ausência de uma autópsia, entre as quais o próprio médico particular de Luciani, Giuseppe Da Ros. O fato de que o próprio médico particular do Papa achava que "podia ser oportuno determinar a causa da morte cientificamente" é bastante significativo.

Com o Papa encerrado dentro de três caixões, seria praticamente impossível persuadir o Vaticano a mudar de idéia. O pedido formal da Civilita Christiana ao Tribunal do Vaticano foi julgado por um único magistrado, Giuseppe Spinelli. Mesmo que ele quisesse que houvesse uma autópsia e uma investigação completa, seria muito difícil superar o poder do Vaticano e dos homens que o controlavam,,, homens que alegam, como um "fato" histórico, que eles e seus antecessores têm quase dois mil anos de prática na direção da Igreja Católica.

Era perfeito para os jesuítas compararem a morte de Luciani a uma flor no campo que se fecha à noite ou para os franciscanos falarem na morte como sendo um ladrão na calada da noite. Os que não tinham aspirações estéticas continuaram a procurar por uma explicação mais prática. Podia-se encontrar céticos nos dois lados do Tibre, Entre os mais perturbados no Vaticano estava o grupo que conhecia ao verdade sobre a descoberta do corpo pela Irmã Vincenza. A preocupação se avolumava, à medida que aumentavam as mentiras oficiais. Com o Papa sepultado, vários deles acabaram se manifestando. Inicialmente, falaram à agência noticiosa ANSA; recentemente, conversaram comigo. Na verdade, foram diversos membros desse grupo que me convenceram a investigar a morte de Albino Luciani.

No dia 5 de outubro, pouco depois da hora do almoço, eles começaram a fornecer à ANSA os detalhes sobre a descoberta do corpo pela Irmã Vincenza, As informações até identificavam corretamente que os papéis que Luciani tinha nas mãos, por ocasião de sua morte, referiam-se "a determinadas nomeações na Cúria Romana e no episcopado italiano". O grupo também revelou que o Papa discutira o problema da recusa de Baggio em aceitar o Patriarcado de Veneza. Quando a história explodiu sobre o público, a reação do Vaticano foi a mesma que Monsenhor Henri Riedmatten tivera ao ser confrontado com indagações sobre o documento de Luciani a respeito do controle da natalidade. Como já foi dito, Riedmatten descartou esse documento como "uma fantasia". Agora, confrontado por centenas de repórteres, literalmente, exigindo um comentário oficial sobre as últimas informações, o diretor do serviço de imprensa do Vaticano, Padre Pancirolli, limitou-se a uma negativa lacônica:

— São notícias destituídas de qualquer fundamento,

Entre os que não se deixaram embair por essa negativa estavam muitos dos cardeais que ainda chegavam a Roma para o próximo Conclave. Na reunião da Congregação de Cardeais, realizada a 9 de Outubro, a inquietação deles aflorou. O Cardeal Villot, em particular, descobriu-se sob um ataque cerrado. Como Camerlengo, ele tomara as decisões e autorizara as declarações que indicavam claramente que a morte de Luciani fora seguida por uma operação para encobrir os fatos. Muitos dos Príncipes da Igreja não-italianos queriam saber exatamente o que estava sendo encoberto. Queriam saber por que a causa da morte não fora determinada com precisão, por que fora apenas presumida. Queriam saber por que não houvera um esclarecimento maior sobre a hora da morte e por que um médico não assumira a responsabilidade oficial de pôr seu nome num atestado de óbito que pudesse ser divulgado ao público.

Não foram bem-sucedidos em seus esforços para obter essas informações. O novo Conclave se aproximava rapidamente, graças à decisão tomada por uma minoria, no dia seguinte à descoberta do cadáver do Papa. Os cardeais começaram a se concentrar nas manobras e intrigas para a escolha do homem que sucederia Luciani, uma indicação de que a Cúria Romana, com uma experiência herdada de quase dois mil anos, aprendera realmente muita coisa com seus antecessores.

A 12 de outubro, menos de 48 horas antes do Conclave seguinte, o Vaticano fez a sua declaração final a respeito da morte de Luciani, Foi apresentada pelo chefe do serviço de imprensa do Vaticano, Padre Romeo Panciroli:

Ao final dos Novemdiales, quando entramos numa nova fase de Sede Vacante, o diretor do Serviço de Imprensa da Santa Sé expressa palavras de firme desaprovação aos que, nos últimos dias, se regozijavam em espalhar estranhos rumores sem qualquer confirmação, freqüentemente falsos e às vezes alcançando o nível de graves insinuações, ainda mais sérios pelas repercussões que podem ter nos países em que as pessoas não estão acostumadas a formas de expressão excessivamente informais. Nestes momentos de luto e pesar para a Igreja, espera-se um comedimento maior e um respeito maior.

Ele repetiu que "tudo o que aconteceu foi fielmente informado no comunicado da manhã de sexta-feira, 29 de setembro, que conserva sua absoluta validade e que refletiu o atestado de óbito assinado pelo Professor Mário Fontana e pelo Dr. Renato Buzzonetti de tal forma que tornou a sua divulgação desnecessária".

Ele também ressaltou, com satisfação, "a integridade de muitos profissionais, que num momento difícil para a Igreja demonstraram uma leal participação nos acontecimentos e informaram a opinião pública com noticias comedidas e objetivas".

A fim de evitar "graves insinuações", farei em vez disso uma declaração categórica: Estou absolutamente convencido de que o Papa João Paulo I, Albino Luciani, foi assassinado.

Até hoje, o atestado de óbito não foi divulgado; apesar dos pedidos insistentes, o Vaticano sempre se recusou a me fornecer uma cópia. Não resta a menor dúvida de que declara que a causa da morte foi infarto do miocárdio. A recusa sistemática em divulgar o atestado de óbito só pode significar que nenhum médico está disposto a aceitar publicamente a responsabilidade legal pelo diagnóstico da causa da morte de Albino Luciani. O fato do diagnóstico se basear apenas num exame externo, o que é inaceitável medicamente, pode ter alguma relação com essa recusa do Vaticano.

Não ter havido uma autópsia a despeito da preocupação internacional é prova irrefutável de que o Papa foi assassinado. Se Luciani morreu naturalmente por que então não se efetuar uma autópsia que acabasse com os rumores?

E evidente que, pelo menos oficialmente, o Vaticano não sabe quando Albino Luciani morreu ou o que o matou. "Presumivelmente em torno das 23:00" e "morte súbita que pode ser relacionada com infarto do miocárdio" são expressões que demonstram um alto grau de especulação. O corpo de um mendigo encontrado nas sarjetas de Roma mereceria mais cuidados e atenções profissionais.

O escândalo se torna ainda maior quando se sabe que o médico que fez o exame jamais cuidara de Albino Luciani em vida. Conversei com o Dr. Renato Buzzonetti em Roma e perguntei quais os medicamentos que o Papa tomara nas semanas anteriores à sua morte. Ao que ele respondeu:

— Não sei que remédios o Papa tomava. Não era seu médico. A primeira vez em que o vi numa relação médico/paciente foi por ocasião de sua morte.

O Dr. Seamus Banim é um cardiologista com mais de 20 anos de experiência profissional. E consultor do St. Bartholomew’s Hospital, em Londres, e do Nuffield Hospital. Durante uma entrevista declarou:

Para um médico, diagnosticar infarto do miocárdio como causa da morte é errado. Eu não ficaria satisfeito. Se ele conhecesse o paciente antes, se o tivesse tratado por algum tempo, se observasse o homem vivo depois do que provaria ser um ataque cardíaco fatal, então o diagnóstico poderia ser permissível. Mas se não conhecesse o paciente antes, ele não teria o direito de fazer esse diagnóstico. E assumir um risco muito grande e ele não poderia fazer um diagnóstico assim na Inglaterra. Tal diagnóstico só pode ser apresentado depois de uma autópsia.

Temos, portanto, uma conclusão altamente suspeita sobre a causa da morte e uma conclusão igualmente suspeita sobre a hora da morte.

O Vaticano disse ao mundo que acontecera ‘presumivelmente por volta das 23:00 do dia 28 de setembro o Dr. Derek Barrowcliff, um ex-patologista do Ministério do Interior Britânico, com mais de 50 anos de experiência, explicou:

A menos que haja uma série de registros da temperatura no reto, somente um homem muito corajoso dirá que a morte ocorreu numa hora determinada. E precisa haver mesmo muita coragem para se fazer tal afirmativa.

O rigor mortis tende a ficar patente depois de cinco ou seis horas, dependendo de diversos fatores, inclusive a temperatura ambiente. Uma sala quente faz com que ocorra mais depressa, a temperatura mais baixa torna-o mais lento.

Pode levar até 12 horas para se desenvolver, permanece por outras 12 horas e depois começa a enfraquecer, nas 12 horas subseqüentes. Este cálculo é bastante aproximado. Mas se o rigor mortis está presente, pode-se presumir que a morte ocorreu em torno de seis horas antes ou mais. Claro que a temperatura do fígado (que não foi verificada) poderia ajudar. Se a pessoa examina o corpo cuidadosamente num sentido médico-legal. vai perceber diferentes graus de rigor. O processo é suave. Assim, se o corpo estava rígido às 6:00 da manhã, seria razoável supor que a morte ocorrera às 23:00 da noite anterior. Mas poderia igualmente ter ocorrido às 21:00.

Portanto, dois fatos foram estabelecidos incontestavelmente:

1. Não sabemos o que causou a morte de Luciani.

2. Não sabemos com qualquer grau de certeza a que horas ele morreu.

Quando o Papa Paulo VI morreu, em agosto de 1978, estava cercado por médicos, secretários e diversos sacerdotes. Considere-se os detalhes contidos no boletim oficial que foi publicado e assinado pelos médicos Mário Fontana e Renato Buzzonetti.

No transcorrer da última semana, o Santo Padre Paulo VI sofreu um sério agravamento dos dolorosos sintomas decorrentes do artritismo que tem há muitos anos. Na tarde de sábado, 5 de agosto, teve febre por causa do repentino ressurgimento de cistite aguda. Depois de uma consulta ao Professor Fabio Prosperi, urologista-chefe dos Hospitais Unidos de Roma, foi iniciado o tratamento conveniente. Durante a noite de 5 para 6 de agosto e durante todo o domingo. 6 de agosto, o Santo Padre teve febre alta. Por volta das 1 8:15 do domingo, 6 de agosto, observou-se uma grave e progressiva alta da pressão arterial. Seguiram-se rapidamente os sintomas típicos de insuficiência do ventrículo esquerdo, com o quadro clínico de edema pulmonar agudo.

Apesar de todos os cuidados médicos que foram prontamente aplicados, Sua Santidade Paulo VI faleceu às 21:40.

Na ocasião da morte, os médicos responsáveis indicaram o seguinte quadro clínico geral: poliartritismo arteriosclerótico cardiopático, pielonefrite crônica e cistite aguda. Causa imediata da morte: crise hipertensiva, insuficiência do ventrículo esquerdo, edema pulmonar agudo. Menos de dois meses depois o sucessor de Paulo morria como uma flor do campo que se fecha à noite" sem um único médico por perto.

Em contraste com a pletora de mentiras que se despejou da Cidade do Vaticano sobre a história médica de Luciani, vale a pena enunciar os fatos.

Na infância ele apresentou sinais de tuberculose, os sintomas sendo a dilatação de gânglios no pescoço. As amígdalas foram removidas aos 11 anos. Tirou as adenóides aos 15 anos. Essas operações foram realizadas no hospital-geral de Pádua. Em 1945 e outra vez em 1947, foi internado num sanatório, com suspeita de tuberculose. Os exames nas duas ocasiões apresentaram resultados negativos e os problemas pulmonares foram diagnosticados como bronquite. Teve uma total recuperação e as radiografias subseqüentes foram negativas. Foi operado em abril de 1964 por cálculos biliares e bloqueie) no cólon; em agosto, foi operado de hemorróidas. O Professor Amedeo Alexandre, que realizou as duas operações, no Hospital Pordenone, conferiu suas fichas médicas do período anterior. Ele me informou que Albino Luciani não sofria de quaisquer outros males e que todos os exames médicos, antes e depois das operações, confirmaram que gozava de perfeita saúde. Os exames incluíram radiografias e eletrocardiogramas, que detectam anomalias do coração. O professor declarou também que a recuperação de seu paciente das duas pequenas intervenções cirúrgicas foi total. Disse ele:

— Tornei a examiná-lo no verão seguinte à segunda operação. Ele continuava em excelente saúde.

Um exemplo de como Albino Luciani era saudável pode ser encontrado em sua rotina diária, que me foi descrita por um colega seu na ocasião, Monsenhor Taferal. E praticamente idêntica à rotina em Veneza e posteriormente no Vaticano. Ele acordava entre 4:30 e 4:45 e ia se deitar cerca de 16 horas depois, entre 21:00 e 22:00. Monsenhor Taferal informou-me que Luciani, além de muitas outras funções, fazia visitas pastorais em todas as suas 180 paróquias e já estava concluindo uma segunda ronda quando foi promovido e transferido para Veneza. Sofreu um coágulo na veia central da retina do olho esquerdo, em dezembro de 1975. Não houve necessidade de uma operação. O especialista que o tratou, Professor Rama, disse-me:

O tratamento foi apenas de caráter geral, baseado em anticoagulantes e medicamentos brandos para dilatar os vasos sangüíneos, além de alguns dias de repouso no hospital, o que era muito importante. Os resultados foram quase imediatos, com uma completa recuperação da visão e do estado geral. Ele nunca foi o que se chamaria de um "colosso físico", mas era fundamentalmente saudável e os exames feitos em diversas ocasiões jamais revelaram problemas cardíacos.

O Professor Rama ressaltou que Luciani tinha pressão baixa, que em circunstâncias normais oscilava em torno de 120/80. Consultei 23 médicos e todos consideraram que a pressão era "o melhor diagnóstico possível para expectativa de vida".

Durante o tempo que passou em Veneza, Luciani ficava de vez em quando com os tornozelos inchados. Seus médicos acharam que isso era decorrente da pressão baixa e da necessidade de mais exercício. Em julho, ele passou 10 dias internado no Instituto Stella Maris, no Lido, a fim de prevenir uma possível recorrência dos cálculos biliares. Foi submetido a uma dieta branda e fazia amplas caminhadas pela manhã e ao entardecer, a fim de atenuar a ligeira inchação. Fez um check-up médico depois disso e foi constatado que gozava de excelente saúde.

Essa é a história médica total de Albino Luciani, durante sua vida inteira. Está baseada em entrevistas com os médicos que cuidaram dele, parentes, amigos e colegas. Deve ser comparada com as mentiras que saíram do Vaticano sobre sua saúde. A questão maior que aflora imediatamente a qualquer um é: Por que todas as mentiras? Quanto mais se investiga a vida de Luciani, maior se torna a convicção de que ele foi assassinado. Durante cinco anos, as mentiras do Vaticano sobre o falecido Papa permaneceram incontestadas e sem confirmação. A Cúria Romana queria que o mundo acreditasse que Albino Luciani era um simplório, quase um idiota, um homem gravemente doente, cuja eleição foi uma aberração e cuja morte natural foi uma misericordiosa libertação para a Igreja. Esperava assim encobrir o assassinato. Os últimos 400 anos nada significaram. Estamos de volta aos tempos dos Bórgias.

Enquanto os meios de comunicação do mundo inteiro divulgavam detalhes da fantasia do Vaticano sobre a saúde de Luciani, havia muitos que, se interrogados, poderiam oferecer um quadro diferente.

Eu o conhecia desde 1936. Além dos dois períodos de internamento por suspeita de tuberculose, ele era perfeitamente saudável. Teve uma recuperação completa depois do segundo internamento. Posso garantir, com absoluta certeza, que até 1958, quando ele se tornou Bispo de Vittorio Veneto, não sofreu qualquer doença mais grave.

(Monsenhor Da Rif ao autor)

Sua saúde, durante o tempo qua passou em Vittorio Veneto , era excelente. Sofreu duas operações em 1964. por cálculos biliares e hemorróidas, mas teve uma recuperação completa. Sua capacidade de trabalho permaneceu a mesma. Ouvi falar de pressão baixa e pernas inchadas. Nenhuma das duas coisas ocorreu enquanto esteve aqui ( em Vittorio Veneto ). Encontrei-o muitas vezes depois que foi para Veneza. Estava sempre com uma ótima saúde. Entre 1958 e 1970, tirando essas duas operações, sua saúde foi perfeita.

(Monsenhor Taferal ao autor)

Nos Oito anos que passou em Veneza só vi o Cardeal Luciani acamado por doença uma vez, mas foi por uma simples gripe. O Patriarca de Veneza era muito saudável e não sofria de qualquer doença.

(Monsenhor Giuseppe Bosa, Administrador Apostólico de Veneza)

Ele não tinha absolutamente características cardiopáticas. Além do mais, sua pressão baixa deveria, pelo menos em teoria, deixá-lo a salvo de ataques cardiovasculares agudos. A única vez em que precisei aplicar-lhe um tratamento foi por uma gripe.

(Dr. Carlo Frizzerio, um médico de Veneza)

Albino Luciani não tinha coração fraco. Quem tem problemas de coração não escala montanhas, como o Patriarca fazia todos os anos, em minha companhia, de 1972 a 1977. Íamos para Pietralba, perto de Bolzano, escalávamos o Corno Bianco, de 1.500 a 2.400 metros , a uma boa velocidade,.. Nunca houve qualquer sinal de insuficiência cardíaca. Ao contrário. Em 1974, por insistência minha, foi feito um eletroencefalograma, que não registrou nada de irregular. Imediatamente antes de partir para o Conclave, em agosto de 1978, e depois de sua visita à Clínica Stella Maris, ele fez um check-up médico completo. Os resultados foram favoráveis, sob todos os aspectos. E é um absurdo a teoria de stress ou exaustão. Seu dia de trabalho no Vaticano não era maior do que aqui em Veneza. Além disso, ele tinha mais assistentes no Vaticano, muito mais ajuda e não sei quantos conselheiros mais. Os homens das montanhas não morrem do coração.

(Monsenhor Mano Senigaglia, secretário de Albino Luciani de 1970 a 1976, ao autor)

O Dr. Da Ros me disse: "Você tem algum remédio secreto? Albino Luciani está com uma saúde perfeita e muito mais relaxado. Quais são as drogas mágicas que está lhe dando?"

(Padre Diego Lorenzi, secretário de Albino Luciani de 1976 até sua morte, ao autor)

Todas as pessoas citadas e mais 20 outras, que conheceram Albino Luciani desde a infância, confirmaram que ele nunca fumou, bebia álcool raramente e comia com moderação. Seu estilo de vida e mais a pressão baixa não poderiam ser melhorados se desejasse evitar qualquer doença das coronárias.

Além dos médicos já referidos, que cuidaram de males específicos, havia o seu médico clínico, Dr, Giuseppe Da Ros. Seu relacionamento com Albino Luciani revela que a saúde do Papa foi constante e regularmente controlada ao longo dos últimos 20 anos de sua vida.

Da Ros era também um amigo e em Vittorio Veneto visitava Luciani todas as semanas. Em Veneza, aparecia pelo menos uma vez por quinzena, às 6:30, e ficava pelo menos 90 minutos. Tomavam juntos o café da manhã, mas as visitas eram também profissionais, além de sociais.

As visitas continuaram depois da eleição de Luciani para Papa. Da Ros fez três exames médicos completos em Luciani durante os 33 dias de Pontificado. O último foi no sábado, dia 23, pouco antes de Luciani deixar o Vaticano para o seu primeiro compromisso público em Roma, um encontro com o Prefeito Argan, em que receberia oficialmente a Igreja de São João de Latrão uma autêntica provação que certamente agravaria qualquer problema físico de que o Papa sofresse. Da Ros encontrou o paciente em tão boa saúde que sugeriu a Luciani que, em vez de voltar dentro de duas semanas, como fora inicialmente combinado, só tornaria a aparecer em três semanas.

Da Ros encontrou-se com o Dr. Buzzonetti, do serviço médico do Vaticano, nesse mesmo dia. Conversaram sobre a história médica de Luciani. Obviamente, o Papa precisaria de um clínico geral baseado em Roma, mas os dois médicos concordaram que não havia uma urgência imediata. Por mais algum tempo, Da Ros continuaria a vir periodicamente de Vittorio Veneto.

Ofato de o médico que cuidava dele há mais de 20 anos e a equipe médica do Vaticano concordarem que o clínico geral do Papa podia residir a quase 600 quilômetros de Roma é provavelmente a evidência esclarecedora que se poderia imaginar. Sendo essa disposição satisfatória para todos os envolvidos, só podemos chegar a duas conclusões: o Dr. Da Ros e os médicos do Vaticano foram culpados de uma terrível negligência e não tinham competência para exercer a profissão ou então Albino Luciani era um homem perfeitamente saudável, sem qualquer doença, por ocasião de sua morte. ‘Levando-se em consideração os cuidados e atenções que o Dr. Da Ros sempre dispensou a Luciani, para não falar de sua afeição genuína pelo paciente, a segunda conclusão é a óbvia. Da Ros ficou "chocado, atordoado e perplexo" quando foi informado da morte do Papa.

O Dr. Da Ros declarou que encontrou o Papa com tão boa saúde que no futuro só viria a cada terceiro sábado, em vez de no segundo. Não havia necessidade disso, pois o Papa estava muito bem. Ele se encontrava em perfeitas condições na última noite. Durante o seu Pontificado, não ocorreu o tal problema de inchaço das pernas. Ele fazia seus exercícios diariamente, nos jardins do Vaticano ou no grande salao.

(Padre John Magee, secretário do Papa João Paulo 1 de final de agosto de 1978 até sua morte, ao autor)

Em grande parte por causa de sua amizade com o Dr. Da Ros, poucos homens podem alegar ter recebido uma atenção médica maior do que Luciani, com visitas semanais e depois quinzenais por mais de 20 anos. A uma atenção médica tão intensa seguiu-se uma morte súbita e inesperada, acompanhada por um falso diagnóstico e a omissão na apresentação do atestado de óbito.

Como então explicar o inexplicável? Uma teoria popular por ocasião da morte do Papa foi a de ter sido causada pela tensão. Não é uma teoria que mereça credibilidade por muitos dos médicos que entrevistei. Não foram poucos os que se mostraram contundentes com o que classificaram de "negócio do estresse", uma indústria que ganha milhões explorando os medos populares. Um excesso de relação sexual causa o estresse. Pouca atividade sexual causa estresse. Brincar com as máquinas eletrônicas causa estresse. Exercício em demasia causa estresse. Pouco exercício causa estresse.

Examino muitas pessoas com sintomas de estresse, mas que não têm qualquer problema nas coronárias. São insuportáveis. Trabalham demais, seis ou sete dias por semana, absorvem-se totalmente no trabalho, perdem a perspectiva. Minha impressão é que, depois de algum tempo, acumulam, esse tremendo saldo negativo, se não relaxarem. Procuram um neurologista para as dores de cabeça, um especialista para distúrbios estomacais como úlceras, vêm a mim por causa das dores no peito. Nunca estão sofrendo realmente de alguma doença cardíaca. Aqui, no St. Bartholomew, temos uma unidade coronária das mais movimentadas. Mas não são os jovens brilhantes da cidade que temos como pacientes e sim os carregadores e mensageiros. Se o mito do estresse tivesse alguma validade, não teríamos a mudança na mortalidade que estamos testemunhando. E o que estamos vendo é as classes superiores reduzirem seus ataques coronários, enquanto aumentam os das classes mais baixas. Os fatores de risco, se você pertence à classe social cinco, são muito maiores do que se você está na classe social um ou dois. A vasta quantidade de pessoas com sintomas de estresse não se torna em problemas de coronárias; apenas apresentam insólitas dores no peito, respiração ofegante, reações singu- lares. Nunca é o coração. Precisam apenas ser tranquilizadas. E não se pode dizer-lhes quais são os verdadeiros sintomas cardíacos, caso contrário voltarão pouco depois a se queixarem deles

.(Dr. Seamus Banim ao autor)

As pesquisas indicam que o estresse pode às vezes levar à doença cardíaca e até mesmo a um ataque cardíaco fatal. A diferença é que a doença cardíaca causada pelo estresse não ocorre da noite para o dia. Os sintomas se manifestam, por meses ou mesmo anos. Nenhum desses sintomas jamais foi registrado por qualquer dos médicos que cuidaram de Albino Luciani ao longo de toda a sua vida.

O Vaticano mentiu quando declarou que uma autópsia no Papa era proibida pela regras do Vaticano. O Vaticano mentiu quando declarou que uma autópsia num Papa nunca fora efetuada antes.

O filete de mentiras se transformou numa enxurrada.

O testamento do Papa. A saúde do Papa. O momento de seu embalsamamento. A natureza exata dos exames médicos que foram feitos no corpo antes do funeral. O Vaticano mentiu sobre cada um e todos esses aspectos.

Considere-se o testamento de Albino Luciani. Nenhum testamento jamais foi apresentado ou divulgado. A família de Luciani foi informada de que não existia qualquer testamento. E, no entanto...

Claro que existe. Não conheço a extensão ou sequer o que diz. Lembro que o Papa falou a respeito duas semanas antes de sua morte. Edoardo, o irmão, comentou com grande entusiasmo o testamento de Paulo VI. "O meu testamento é de outro tipo e menos solene", disse o Papa Luciani. Depois, mostrando um pequeno espaço entre o indicador e o polegar, ele acrescentou: "O meu é assim." (Padre Diego Lorenzi ao autor)

Quando Cardeal de Veneza, ele elaborou um testamento de três linhas que deixava tudo para o seu seminário em Veneza e designava o seu bispo auxiliar como executor. Quando o bispo auxiliar morreu, Luciani riscou o seu nome e o substituiu pelo meu, mostrando-me o testamento. (Padre Mario Senigaglia ao autor)

Quando ele morreu, seu testamento nunca foi encontrado, embora eu tenha certeza de que o fizera. Algum dinheiro que ele tinha numa conta em Veneza foi enviado para a minha família, porque em teoria ele morreu intestado. Mandamos o dinheiro para a diocese de Veneza, sabendo que essa era a sua intenção. Uma parte foi para seu sucessor e outra para obras da caridade específicas. Sei que havia um testamento. Quando ele foi de Belluno para Vittorio Vene- to, destruiu o testamento que tinha e fez um novo. Teve a mesma iniciativa quando foi para Veneza. E quando ele se tornou Papa, o Padre Carlo, um dos seus secretários em Veneza, recebeu o pedido para que levasse o testamento ao Vaticano. Dom Carlo o levou. Deveria haver o testamento datando dos 33 dias ou então o testamento de Veneza. Ele sempre foi meticuloso nessas coisas. Não entendo por que não foram capazes de encontrar o testamento. (Pia Luciani ao autor)

Como já ficou estabelecido, os bens materiais não tinham o menor interesse para Luciani. Mas um testamento papal invariavelmente inclui mais do que apenas instruções sobre os bens materiais. Há sempre uma mensagem espiritual... comentários e reflexões sobre a situação da Igreja. O testamento de Albino Luciani foi destruído porque refletia os sentimentos e opiniões do Papa sobre o que descobrira naqueles 33 dias? Luciani, um escritor refinado, um dos Papas mais literários dos tempos modernos, não deixando um comentário escrito final? Não houve as últimas reflexões do Papa revolucionário?

Pode ser considerado chocante que tanta informação falsa ema- nasse diretamente do Vaticano, um lugar considerado por milhões como o lar espiritual do cristianismo. E menos chocante que homens que dedicaram a vida inteira a Jesus Cristo tivessem destruído tantas provas fundamentais? É menos chocante que o Secretário de Estado Cardeal Villot impusesse um juramento de silêncio aos membros do círculo papal? É menos chocante que Villot, agindo como virtual curador do Papa, tirasse do quarto papal o remédio, os óculos e as chinelas? Deveria remover e destruir os papéis que se encontravam na mão do Papa morto... papéis que descreviam as mudanças importantes que estavam prestes a serem feitas e que Albino Luciani discutira com o Cardeal Villot pouco antes de sua morte totalmente inesperada? Villot seria um cúmplice na conspiração para assassinar o Papa? Não resta a menor dúvida de que suas ações subseqüentes foram as de um homem determinado a encobrir a verdade sobre a morte. Não resta a menor dúvida de que ele pegou o testamento ao sentar à mesa de Luciani no estúdio papal e dar a série de telefonemas matutinos. Tendo removido os papéis da mão de Luciani, o Cardeal Villot estava obviamente determinado a não deixar qualquer vestígio das mudanças que tanto o haviam preocupado na última noite de vida do Papa. Só Deus sabe o que mais foi retirado dos aposentos papais. Sabemos com toda certeza de que os itens acima mencionados desapareceram.

O Padre Magee, as Irmãs e eu procuramos por toda parte. Não conseguimos encontrar essas coisas. Vasculhamos tudo durante a manhã de 29 de setembro. (Padre Diego Lorenzi ao autor)

Sabemos com toda certeza que esses itens estavam nos aposentos antes de Villot ser chamado. Mais do que isso, os óculos estavam no rosto de Albino Luciani. Quando Villot se retirou, as coisas haviam desaparecido.

O Vaticano mentiu quando declarou que a descoberta inicial do corpo foi feita pelo Padre Magee, "por volta das 5:30 da manhã de 29 de setembro". A Irmã Vicenza relatou-me diretamente o momento em que descobriu o Papa morto. Antes, ela usara praticamente as mesmas palavras para Monsenhor Mario Senigaglia, para a sobrinha de Luciani, Pia, e para sua irmã Nina.

Foi um milagre que eu tenha sobrevivido. Tenho um coração fraco. Toquei a campainha para chamar os secretários e depois sal para procurar as outras Irmãs e acordar Dom Diego.

Ela também me contou que, enquanto se mantinha imóvel por um momento, paralisada, a olhar para o cadáver do Papa, o despertador começou a tocar. Instintivamente, ela estendeu a mão e desligou-o.

Há um curioso fato externo que confirma a veracidade do depoimento de Irmã Vincenza. Conan Doyle pôs a sua criação fictícia, Sherlock Holmes, a comentar em determinado momento que houve algo estranho e significativo com um cachorro. Não latiu. Nos aposentos papais, havia ao lado da cama do Papa um despertador que não tocou. Interroguei os dois secretários papais e outros membros do círculo papal a respeito. Todos se mostraram inflexíveis. Na manhã em que Albino Luciani foi encontrado morto, o despertador que armava todos os dias, há muitos anos, não tocou. Estava marcado para 4:45 horas da madrugada. O corpo não foi oficialmente encontrado antes das 5:30. Diego Lorenzi, que dormia tão perto do quarto do Papa que podia acompanhar seus movimentos, não ouviu o despertador.

Quando o Papa Paulo VI morreu, em agosto de 1978, 24 horas transcorreram antes que seu corpo fosse embalsamado, de acordo com a lei italiana. Quando Albino Luciani morreu, em setembro de 1978, a lei italiana foi ignorada e o Vaticano fez o que bem queria.

O corpo de Albino Luciani foi embalsamado 14 horas depois da morte. Por que a pressa? Há indícios de que Villot desejava um embalsamamento ainda mais rápido. Há provas de que os embalsama- dores foram chamados antes mesmo que se encontrasse "oficialmente" o corpo. Se Magee encontrou o corpo "pouco depois das cinco e meia", por que então os agentes funerários do Vaticano, os Signoracci, foram chamados 45 minutos antes? A prudência foi levada a limites extremos.

A 29 de setembro, a agência noticiosa italiana ANSA, uma organização altamente respeitada, no mesmo plano que a Press Association ou a Reuters, transmitiu muitas informações sobre a morte do Papa. Uma das notícias era a seguinte: "Dois irmãos Signoracci, Ernesto e Renato (os outros dois são Cesare e Arnaldo), foram despertados ao amanhecer e às 5:00 um carro do Vaticano pegou-os em suas casas, levando-os para o necrotério do pequeno estado, onde começaram imediatamente a trabalhar."

Procurei e entrevistei o jornalista responsável por essa noticia, Mario de Francesco. Ele confirmou a acurácia de sua história, baseada numa entrevista com os Signoracci, conduzida naquele mesmo dia. Entrevistei os irmãos Signoracci em diversas ocasiões. Eles se mostram agora, cinco anos depois, meio indecisos sobre o momento em que foi feito o primeiro contato. Confirmaram que foi bem cedo na manhã de 29 de setembro. Se a história de Francesco é acurada, então temos uma situação típica da Máfia. Agentes funerários são chamados antes que se tenha um corpo.

Embalsamadores convocados antes que a causa da morte seja determinada. Por que o Vaticano haveria de querer destruir a prova mais valiosa antes que a causa oficial da morte fosse determinada?

Houve uma autópsia secreta na véspera do funeral do Papa? Tudo indica que houve um exame prolongado e detalhado. Qual teria sido o propósito? Uma verificação rotineira do embalsamamento levaria apenas alguns minutos, O que os médicos estavam fazendo por trás dos biombos, numa igreja trancada, durante quase uma hora e meia?

Deve ser registrado que o médico pessoal de Albino Luciani voou de Veneza para Roma a 29 de setembro e concordou com os médicos do Vaticano de que a causa da morte foi infarto do miocárdio. Deve igualmente ser registrado que sua opinião médica não tem o menor valor, pois observou um corpo morto há muitas horas e só efetuou um exame superficial.

Se havia um homem na Itália que estava em condições de confirmar que Albino Luciani morreu de fato de infarto do miocárdio era o Professor Giovanni Rama, o oftalmologista que tratava Luciani desde 1975 por um coágulo sangüíneo no olho esquerdo. Ele acha que o problema vascular poderia em última análise levar à morte de Luciani, mas ressalta que tal opinião médica não tem o menor valor sem uma autópsia. Se o Cardeal Villot e seus colegas mais antigos do Vaticano realmente acreditavam que Albino Luciani morrera naturalmente de um infarto do miocárdio, o Professor Rama, com mais de três anos de experiência em tratá-lo, era o homem certo a ser convocado. Ele me garantiu que não recebeu qualquer chamado do Vaticano depois da morte de Albino Luciani e comentou:

- Fiquei muito surpreso porque eles não me chamaram para examinar o corpo do Papa.

O comentário mais significativo de um médico foi certamente o atribuído ao Professor Mario Fontana. Ao que parece, ele deu a sua opinião em particular, pouco depois da morte do Papa. Mas só se tornou pública depois de sua própria morte, em 1980.

Se eu tivesse de atestar, nas mesmas circunstâncias, a morte de um cidadão comum, sem qualquer importância, teria simplesmente me recusado a permitir que fosse enterrado.

O Professor Mano Fontana era o chefe do serviço médico do Vaticano.

Como e por que a escuridão caiu sobre a Igreja Católica em 28 de setembro de 1978?

Para se determinar que houve um assassinato não é necessário estabelecer um motivo, embora sempre ajude, como qualquer policial experiente pode confirmar. Sempre há problemas quando não se encontra um motivo. Com relação à morte de Albino Luciani, porém, houve uma quantidade assustadora de motivos. Já identifiquei alguns neste livro. Também identifiquei os homens que tinham esses motivos.

O fato de três desses homens - Villot, Cody e Marcinkus - serem sacerdotes não os exclui da lista de suspeitos. Pelo menos em teoria, os homens do clero deveriam estar acima de qualquer suspeita. Deveriam estar. Lamentavelmente, no entanto, muitos têm demonstrado, desde a origem do cristianismo, a capacidade de cometer crimes horríveis. Villot, Cody, Marcinkus, Calvi, Sindona, Gelli: cada um tinha um motivo muito forte. O Cardeal Villot poderia cometer um assassinato para conservar sua posição como Secretário de Estado, proteger outros homens que também estavam prestes a ser removidos e, acima de tudo, evitar a sensação que seria inevitável quando Albino Luciani assumisse publicamente uma posição diferente na questão do controle da natalidade?

O Cardeal Cody, ajudado por algum dos seus muitos amigos no Vaticano e numa tentativa de se manter corruptamente no posto em Chicago, poderia silenciar o Papa que estava prestes a afastá-lo?

O Bispo Paul Marcinkus, na presidência de um banco comprovadamente corrupto, poderia tomar alguma providência drástica para garantir sua permanência no IOR?

É possível que um desses três homens seja culpado. As ações de Villot, depois da morte do Papa, foram certamente criminosas: destruição de provas; uma história falsa; a imposição de silêncio. Foi um comportamento que deixa muito a desejar.

E por que o Bispo Paul Marcinkus circulava pelo Vaticano tão cedo? Uma investigação policial normal exigiria muitas respostas desses três homens. Mas esses interrogatórios vitais se tornaram impossíveis cinco anos depois. Villot e Cody estão mortos, Marcinkus se esconde no interior do Vaticano. A prova mais pertinente, em defesa desses três homens, não está em seus inevitáveis protestos de inocência. E o próprio fato de serem homens do clero, homens da Igreja Católica. Dois mil anos ensinaram a homens assim a assumirem uma perspectiva a longo prazo. A história do Vaticano é a história de incontáveis Papas ansiosos em fazer reformas, mas contidos e neutralizados pelo sistema. Se a Igreja em geral e a Cidade do Vaticano assim o querem, podem e conseguem influenciar e afetar drasticamente as decisões papais. Já foi registrado como uma minoria impôs sua vontade a Paulo VI na questão do controle da natalidade. Já foi registrado como Baggio se recusou categoricamente a substituir Luciani em Veneza.

Quanto às mudanças que Luciani estava prestes a efetuar, muitos no Vaticano as teriam acolhido com satisfação, mas mesmo os que se opunham profundamente haveriam de reagir provavelmente de uma forma menos drástica que o assassinato. Mas é claro que isso não exclui Villot, Cody e Marcinkus. Na melhor das hipóteses, coloca-os no fundo da lista de suspeitos e transfere Calvi, Sindona e Gelli para o alto. Qualquer desses homens tinha condições para cometer o assassinato? A resposta é sim.

Quem assassinou Lucianni estava obviamente contando que o próximo Conclave e o próximo Papa não reativariam as últimas instruções de Luciani. Todos os seis suspeitos tinham muito a ganhar se o homem "certo" fosse eleito. Alguém mataria apenas para ganhar um mês de adiamento? Se o homem "certo" fosse eleito, esse mês se Prolongaria indefinidamente pelo futuro. Dois desses homens, Villot e Cody, estavam em condições de influenciar o próximo Conclave. Marcinkus também tinha alguma influência. E o mesmo acontecia com Calvi, Sindona e Gelli.

Foi na villa de Umberto Ortolani que um grupo de cardeais elaborou as planos finais que resultaram na eleição do Papa Paulo VI. Gelli e Ortolani, como os líderes da P2, tinham acesso a todo os pontos da Cidade do Vaticano, assim como tinham acesso também aos altos escalões do governo italiano, aos bancos e ao sistema judiciário.

Em termos práticos, como poderia ser cometido o assassinato de Albino Luciani? Era possível se infiltrar além da segurança do Vaticano? A verdade é que se podia penetrar pela segurança do Vaticano, por ocasião da morte de Luciani, com extrema facilidade... com a mesma facilidade com que um homem chamado Michael Fagin entrou calmamente no Palácio de Buckingham, de madrugada, circulou por toda parte e finalmente foi sentar no quarto de Sua Majestade, pedindo um cigarro à Rainha da Inglaterra.

Em 1978, a segurança do Vaticano podia ser penetrada tão facilmente quanto a segurança do Presidente Ronald Reagan, dos Estados Unidos, no momento em que John Hinckley baleou-o e a outros membros de sua equipe. Ou tão facilmente quanto aconteceu a 13 de maio de 1981, uma quarta-feira, quando Mehmet Ali Agca acertou três tiros no Papa João Paulo II.

João XXIII abolira a prática da Guarda Suiça de manter uma vigília durante a noite inteira fora dos seus aposentos. Não obstante, Albino Luciani merecia uma proteção melhor do que lhe foi concedida. A Cidade do Vaticano, um pouco maior do que o St. James's Park, em Londres, com seis entradas, não apresentava qualquer dificuldade para quem estivesse determinado a se infiltrar.

O Conclave que elegera Luciani era em teoria um dos lugares mais rigorosamente guardados do mundo. O leitor deve recordar os detalhes extraordinários que o Papa Paulo VI descrevera para garantir que ninguém pudesse entrar ou sair durante as sessões que escolheriam o novo Papa. Depois de sua eleição, Luciani manteve o Conclave em sessão no sábado, 26 de agosto. Contudo, um padre simples e modesto, Diego Lorenzi, relatou-me como, ansioso em se encontrar com Luciani, vagueou sem que ninguém o interpelasse até o próprio meio do Conclave. Somente quando se encontrava à vista dos 110 cardeais e do seu Papa recentemente eleito é que lhe perguntaram quem era e o que fazia ali. A esta altura, ele já poderia ter explodido todo o prédio para o outro mundo, se assim desejasse.

Por ocasião do Conclave, muitos autores comentavam a total ausência de segurança. Citarei apenas dois.

Havia também, nessa ocasião, a ameaça incessante de terrorismo, embora não se falasse a respeito. Na minha opinião, a segurança em torno do Vaticano não foi tão impressionante durante a última semana. O palácio amplo e irregular, que se abre para as ruas em muitos lugares, talvez apresente problemas insuperáveis. O que constituía um motivo ainda maior para acabar o Conclave o mais depressa possível.

(Paul Johnson, Sunday Telegraph, 27 de agosto de 1978)

Até onde posso constatar, os guardas de segurança estão mais interessados em conversar com as mulheres nos cafés com mesas pela calçada. Espero que a Brigada Vermelha não esteja planejando qualquer coisa para esta noite (o dia do funeral de Paulo VI). Poderiam se aproximar facilmente e liquidar de uma só vez muitos dos líderes do mundo. (Padre Andrew Greeley, Como se Fazem os Papas)

O funeral de Albino Luciani, menos de dois meses depois, recebeu do mesmo autor o seguinte comentário: As medidas de segurança são enormes. (Padre Andrew Greeley, Como se Fazem os Papas)

Foi curioso que, depois da morte, a segurança inexistente durante a vida de Albino Luciani aparecesse subitamente. E o Padre Diego Lorenzi informou:

- Não havia guardas na área dos aposentos papais quando lá estive com Albino Luciani.

Entrevistei o Sargento Hans Roggan, da Guarda Suíça. Ele estava no comando da guarda na noite em que Luciani morreu. Contou-me que no inicio da noite deixou o Vaticano para ir jantar com a mãe, em Roma mesmo. Viram a luz acesa no quarto papal ao voltarem, por volta das 22:30. A mãe de Roggan foi deitar e ele voltou a seu plantão. Ele me contou:

Por algum motivo, foi uma noite horrível para mim. Estava encarregado do palácio naquela noite. Não conseguia dormir de jeito nenhum. Acabei me levantando e fui para o escritório e trabalhei em algumas contas. Normalmente, durmo muito bem.

Esse é o depoimento do homem que estava encarregado da segurança do Vaticano na noite da morte súbita de Luciani, revirando-se em sua cama, sem conseguir dormir. Acrescentar que ninguém julgou conveniente descobrir por que a luz continuou acesa no quarto do Papa durante a noite parece quase supérfluo. Muito se criticou a segurança inepta ou inexistente por ocasião do assassinato do Presidente Kennedy em Dallas. Em comparação com o que passava por segurança em torno de Luciani, o presidente americano era extremamente bem protegido.

Investigações adicionais determinaram que, na ocasião do Pontifi cado de Luciani, havia um guarda suíço no alto da escada da Terceira Loggia. Sua função era meramente cerimonial, já que poucas pessoas entravam nos aposentos papais por aquele caminho. O acesso aos aposentos se fazia geralmente pelo elevador. A entrada para o elevador, de que muitos tinham a chave, não era guardada. Qualquer homem vestido como um padre podia entrar e sair dos aposentos papais sem ser interpelado.

Há muitos outros exemplos da segurança caótica na Cidade do Vaticano. Recentemente, depois da morte de Albino Luciani, foi redescoberta uma escada próxima dos aposentos papais. Não estava escondida, não fora encoberta por qualquer obra posterior. Simples- mente ninguém sabia de sua existência. Ou será que sabiam? E que alguém usou-a em setembro de 1978?

Guardas suíços oficialmente adormecidos durante o seu turno de vigia. Guardas suíços que tomam conta de uma entrada que ninguém usa. Uma escada que ninguém conhecia. Até mesmo um assassino amador não teria maiores dificuldades e quem matou Albino Luciani não era certamente um amador. Para ajudar qualquer assassino em potencial, L'Osservatore della Domenica publicou uma planta detalha- da, inclusive com fotografias, dos aposentos papais. Data da publicação: 3 de setembro de 1978.

Se Mehmet Ali Agca efetuasse preparativos elementares, o Papa João Paulo II estaria morto agora. Assassinado como o seu antecessor. Quanto mais investiguei, mais ficou evidente que alguém decidido a matar Albino Luciani tinha uma tarefa relativamente simples. Não haveria a maior dificuldade para se ter acesso aos aposentos papais em setembro de 1978 e adulterar o remédio, a comida ou a bebida do Papa, com qualquer uma de 200 drogas letais.

A certeza de que não haveria uma autópsia, facilitou ainda mais o assassinato. Não havia sequer um médico de plantão 24 horas por dia. O serviço médico do Vaticano não dispunha dos equipamentos comuns em qualquer hospital moderno. Não havia uma estrutura de atendimento médico de urgência. E no meio de tudo isso se encontrava um homem honesto, que se lançara a diversos cursos de ação, que ofereciam a pelo menos seis homens motivos muito fortes para assassiná-lo.

A despeito do estarrecedor ataque sofrido pelo sucessor de Luciani, muito pouco mudou com relação à segurança no Vaticano.

Durante minha pesquisa, circulei pelos jardins da residência agostiniana, por onde Luciani passeava antes do Conclave. Foi num domingo, em setembro de 1982. No outro lado da Praça de São Pedro, Sua Santidade apareceu na sacada para pronunciar o Angelus do meio- dia. Eu me encontrava numa linha de fogo direta, a cerca de 1.800 metros de distância, com toda a parte superior do corpo do Papa inteiramente desprotegida. Se Agca ou alguém de seu tipo estivesse ali, o Papa estaria morto e o assassino se perderia no coração de Roma em poucos minutos. E circulei pelos jardins sem que ninguém me interpelasse.

Poucos dias depois, passei facilmente pelo Portão de Santa Anna do Vaticano. Levando uma valise bastante grande para conter bombas, fui até o Banco do Vaticano sem que ninguém me detivesse. Na semana seguinte, em companhia de dois pesquisadores, todos carregando valises e bolsas, atravessamos o próprio coração do Vaticano sem que nos revistassem, a caminho de um encontro com o Cardeal Ciappi. Isso aconteceu apenas 17 meses depois que o Papa João Paulo II foi quase assassinado na Praça de São Pedro.

Será possível que na Itália, um país com um dos índices mais baixos de mortes por ataques cardíacos em toda a Europa, um homem perfeitamente são, que tinha pressão baixa com uma característica física excepcional, o que diminuía a possibilidade de um ataque cardíaco fatal, morresse de infarto do miocárdio? É possível que Albino Luciani, um homem que não fumava, comia moderadamente e era abstêmio, que fazia tudo o que os cardiologistas costumam aconselhar, tenha sido apenas um desventurado? Tão desventurado que acabou morrendo depois de todas as precauções médicas concebíveis. Tão desventurado que, apesar dos constantes check-ups médicos, incluindo numerosos eletrocardiogramas, jamais apresentou qualquer indício de deficiência cardíaca em 65 anos de existência. Tão desafortunado que sofreu uma morte de tal forma súbita e imediata que nem teve tempo de apertar a campainha a poucos centímetros de sua mão. Segundo os professores Ruili e Masini, dois dos especialistas que consultei em Roma, "é extremamente improvável que a morte seja tão rápida que o indivíduo não tome qualquer ação. Isso é muito raro".

Na verdade, todas as evidências são contrárias à possibilidade da morte de Luciani ter sido natural. Tudo sugere homicídio. Pessoalmente- te, não tenho a menor dúvida. Estou igualmente convencido de que pelo menos um dos seis suspeitos que já identifiquei é a chave para se esclarecer tudo.

Aos 65 anos, Albino Luciani foi considerado pelo Conclave que o elegeu como estando na idade certa para o Pontificado. Paulo VI tinha 66 anos ao ser eleito e permaneceu no Vaticano por 15 anos. João XXIII tinha 77 anos quando foi eleito numa espécie de mandato-tampão mas seu pontificado durou cinco anos. O Conclave concluira que Luciani reinaria por um mínimo de 10 anos. Os Conclaves são operações dispendiosas. A morte de Paulo VI e a eleição de seu sucessor custou mais de cinco milhões de dólares. A Igreja não gosta de realizar Conclaves freqüentes. Em decorrência da morte súbita e inesperada de Albino Luciani, houve dois Conclaves em menos de dois meses.

É claro que não estou alegando que a trama para assassinar Albino Luciani foi concebida a 28 de setembro de 1978. O ato final foi obviamente executado nesse dia, mas a decisão fora tomada anteriormente. Não é fácil determinar em que momento.

Pode ter sido poucos dias depois da eleição de Luciani, quando o novo Papa iniciou as suas investigações sobre o Vaticano S.A. Pode ter sido nas duas primeiras semanas de setembro, quando alguns membros da aldeia do Vaticano souberam que Luciani investigava a maçonaria na Igreja. pode ter sido em meados de setembro, quando as atitudes do novo Papa em relação ao controle da natalidade e seus planos de pôr em prática uma posição liberal no problema causavam profunda preocupação em setores do Vaticano. Pode ter sido na terceira semana de setembro, quando se tornou uma certeza que Marcinkus e outros membros do Banco do Vaticano seriam removidos. Pode ter sido poucos dias antes de sua morte que o plano foi acionado, num período em que Albino Luciani chegava a decisões profundas e cruciais. Quando dos, o ato quer que o plano tenha surgido, para os suspeitos já mencionados, final foi cometido no momento exato. Se permitissem que mais uns poucos dias transcorressem, teria sido tarde demais.

Certamente alguns comentarão que muitas das provas já apresen- tadas são de natureza circunstancial. Quando se está lidando com assassinato, as provas são muitas vezes inteiramente circunstanciais. Homens e mulheres que planejam cometer um assassinato não têm o hábito de anunciar suas intenções na primeira página do The Times, Le Monde ou The Washington Post. E muito raro que observadores independentes estejam presentes e em condições de oferecerem um testemunho incontestável. As provas circunstanciais por si mesmas têm sido consideradas suficientes para enviar muitos homens e mulheres para a forca, cadeira elétrica, pelotão de fuzilamento ou câmara de gás. Um fato é de extrema importância quando se analisa o assassinato de Albino Luciani. Para que alcançasse seu objetivo, O assassinato tinha de ser cometido secretamente e de tal maneira que houvesse uma possibilidade razoável de parecer morte natural. Por quase seis anos, os responsáveis pelo assassinato de Albino Luciani conseguiram isso, no que deve ser classificado como um dos crimes do século.

Para se identificar corretamente quem foi o responsável pelo assassinato de Albino Luciani, deve-se levar em consideração o que ocorreu no segundo Conclave e o que aconteceu depois. Uma análise de determinados eventos deve determinar qual dos seis homens se encontrava no centro da conspiração para assassinar o "Candidato de Deus".


Graças ao Assassinato, Os Negócios Continuam Como Sempre

Quando começou a votação no Conclave para eleger um sucessor de Albino Luciani, no domingo, 15 de outubro de 1978, o Espírito Santo estava ostensivamente ausente. Uma luta longa e encarniçada, principalmente entre os partidários de Siri e Benelli, foi o tema predominante no primeiro dia de votação. Os responsáveis pelo assassinato de Luciani quase que se viram diante da necessidade de providenciar a morte súbita de um segundo Papa. Durante oito votações, em dois dias, o Cardeal Giovanni Benelli esteve a poucos votos da vitória. Se Benelli fosse eleito, não resta a menor dúvida de que muitos cursos de ação iniciados por Luciani teriam continuidade. Cody seria removido. Villot seria substituído. Marcinkus, De Strobel e Mennini seriam prontamente afastados do Banco do Vaticano.

Mas Benelli ficou a nove votos da eleição e o eventual vencedor, Cardeal Karol Wojtyla, não tem muita semelhança com Albino Luciani. Quanto a seguir o caminho de Albino Luciani, Wojtyla tem dado incontáveis demonstrações de que tudo o que possui em comum com o seu antecessor é o nome papal, João Paulo.

Apesar dos esforços de Benelli, Felici e outros cardeais, o Pontificado de João Paulo II tem sido norteado pelos negócios, como sempre, que se beneficiaram imensamente não só pelo assassinato de Albino Luciani, mas por todos os assassinatos que se seguiram à estranha e solitária morte ocorrida no Vaticano, em setembro de 1978. Depois de sua eleição, o atual Papa tomou conhecimento das mudanças que Luciani tencionava efetuar. Foi informado das várias consultas de seu antecessor sobre uma ampla variedade de assuntos.

Os levantamentos financeiros coligidos por Benelli, Felici, membros da APSA e outros, por conta de Luciani, foram postos à disposição de Wojtyla. Ele conheceu as provas que levaram Luciani a concluir que o Cardeal Cody, de Chicago, devia ser substituído. Conheceu as provas que confirmavam a infiltração da maçonaria no Vaticano. Foi informado do diálogo de Luciani com Departamento de Estado americano e a planejada reunião com o comitê do Congresso dos Estados Unidos sobre população e controle da natalidade. Villot também esclareceu plenamente o novo Papa sobre a atitude de Luciani em relação ao controle da natalidade. Em suma, o Papa João Paulo II se encontrava em posição excepcional para pôr em prática todos os planos de Luciani. Mas nenhuma das mudanças propostas por Luciani se converteu em realidade. Quem quer que tenha assassinado o Papa, não cometeu um crime em vão.

Villot foi novamente confirmado como Secretário de Estado. Cody permaneceu no controle de Chicago. Marcinkus, ajudado por Mennini, De Strobel e Monsenhor de Bonis continuou a controlar o Banco do Vaticano e a garantir que florescessem as atividades criminosas em conluio com o Banco Ambrosiano. Calvi e seus mestres da P2, Gelli e Ortolani, estavam livres para continuarem em seus roubos e fraudes gigantescas, sob a proteção do Banco do Vaticano. Sindona pôde manter sua liberdade em Nova York , pelo menos a curto prazo. Baggio não foi para Veneza. O corrupto Poletti permaneceu como o Cardeal Vigário de Roma.

Muitos milhões de palavras já se escreveram desde a eleição de Karol Wojtyla, em tentativas de analisar e compreender como é o homem. É o tipo de homem que pode permitir que homens como Villot, Cody, Marcinkus, Mennini, De Strobel, De Bonis e Poletti permaneçam em seus cargos. Não pode haver qualquer defesa sob alegação de ignorância. Marcinkus é diretamente subordinado ao Papa e desafia a imaginação e credulidade que Wojtyla não tenha conhecimento nenhum dos crimes do americano. Em relação a Cody, Sua Santidade tomou conhecimento de todos os fatos em outubro de 1978, pelos cardeais Benelli e Baggio. Wojtyla não fez nada. Temos um Papa que publicamente censura os padres da Nicarágua que se envolvem em política, mas ao mesmo tempo concede sua bênção às enormes quantidades de dólares remetidas para o Solidariedade na Polônia, secreta e ilegalmente. E o Pontificado dos duplos padrões: um jogo para o Papa e um segundo para o resto da humanidade. O Pontificado de João Paulo II tem sido um trunfo para os negocistas, os corruptos, os ladrões internacionais como Calvi, Gelli e Sindona, enquanto Sua Santidade mantém uma imagem altamente divulgada que não é muito diferente da que se poderia imaginar num astro do rock em perpétua excursão. Os homens por trás do astro beija-pista-de-aeroporto estão garantindo que os negócios continuam como sempre, as bilheterias aumentando cada vez mais, ao longo dos últimos cinco anos. E de se lamentar que os discursos severamente moralistas de Sua Santidade não possam presumivelmente ser ouvidos nos bastidores.

Como já registrei anteriormente, depois da eleição de Luciani o Bispo Paul Marcinkus advertiu a seus colegas no Banco do Vaticano e a Roberto Calvi em Buenos Aires :

— Não se esqueçam de que este Papa tem idéias diferentes do anterior e que muitas coisas mudarão por aqui.

Com a eleição de Wojtyla, tudo voltou aos valores de Paulo VI, acrescido de juros. Como no caso da infiltração dos maçons no Vaticano. O Vaticano, através do atual Papa, não apenas absorveu em seus quadros uma ampla variedade de maçons, de uma ampla variedade de lojas, mas também adquiriu a sua própria versão interna. Seu nome é Opus Dei... a Obra de Deus.

A 25 de julho, Albino Luciani escrevera sobre a Opus Dei em li Gazzetino o jornal veneziano. Os comentários se limitaram a uma curta história do movimento e o relato de algumas aspirações da organização para a espiritualidade leiga. Em relação aos aspectos mais controvertidos da Opus Dei, Luciani os ignorava, o que é improvável, ou estava novamente demonstrando a sua discrição.

Com a eleição de Karol Wojtyla, a discrição tornou-se um artigo raro. Seu apoio à Opus Dei está bem documentado. Como essa organização católica partilha muitas posições e valores com a corrupta P2 e se tornou uma força dentro da Cidade do Vaticano, deve-se registrar alguns detalhes a seu respeito.

A Opus Dei é uma organização católica de dimensões internacionais. Embora tenha relativamente poucos associados (as estimativas variam entre 60 e 80 mil), sua influência é vasta. E uma sociedade secreta, algo estritamente proibido pela Igreja. A Opus Dei nega que seja uma organização secreta, mas se recusa a divulgar a lista de seus associados. Foi fundada por um sacerdote espanhol, Monsenhor Josemaria Escriva, em 1928. Situa-se na extrema direita da Igreja Católica, um fato político que lhe tem atraído inimigos, mas também muitos associados. Há uma pequena parcela de sacerdotes entre seus membros, cerca de cinco por cento; e leigos de ambos os sexos. Embora se encontre pessoas de todos os níveis sociais, procura atrair principalmente elementos dos escalões superiores, inclusive estudantes e recém-formados que aspiram a conquistar uma posição executiva. O Dr. John Roche, professor da Universidade de Oxford e ex-membro da Opus Dei, descreve-a como "sinistra, furtiva e orwelliana". E possível que a preocupação com a auto-flagelação seja a causa da hostilidade dos meios de comunicação contra a seita. Certamente a idéia de uma pessoa chicotear suas próprias costas ou usar tiras de metal cheias de pinos pontiagudos na coxa pela grandeza da glória de Deus, demonstra ser de difícil aceitação pela maioria das pessoas nesta última parte do século XX. Contudo, ninguém pode duvidar da total sinceridade dos membros da Opus Dei. Estão igualmente voltados para uma tarefa de grande importância: assumir o controle da Igreja Católica. Tal coisa deveria ser motivo de grande preocupação não só para os católicos como para todos os outros. Sem dúvida, existem alguns aspectos a se admirar nesta sociedade secreta. Albino Luciani ressaltou eloqüentemente alguns dos conceitos espirituais básicos, embora tenha se mantido em discreto silêncio com relação à questão da auto-flagelação e da filosofia política fascista. Sob o pontificado do Papa João Paulo II, Opus Dei floresceu. Se o atual Papa não é um membro da Opus Dei, é exatamente como os membros da Opus Dei gostariam que um Papa fosse. Um dos primeiros atos após sua eleição foi dirigir-se à sepultura do fundador da Opus Dei e rezar. A seguir garantiu à seita status de organização episcopal, um passo significativo para o Cardeal Cody, que diz apenas prestar contas a Roma e a Deus.

Esta organização tem, de acordo com suas próprias informações, membros trabalhando em mais de 600 jornais, revistas e publicações científicas espalhadas ao redor do mundo. Possui membros em mais de 50 estações de rádio e televisão. Em 1960, três de seus membros faziam parte do gabinete do ditador espanhol, Franco, criando o "milagre econômico" espanhol. O cabeça do enorme conglomerado Rumasa na Espanha, José Mateos, é um membro da Opus Dei, também está fugindo após construir uma teia de corrupção semelhante ao império de Calvi, como foi recentemente revelado. A Opus Dei é extremamente rica. Até recentemente, quando trocou de dono, qualquer um que entrasse numa loja de vinhos Augustus Barnett, na Inglaterra, estaria depositando dinheiro nos cofres da Opus Dei.

José Mateos, conhecido como o homem mais rico da Espanha, canalizou milhões para a Opus Dei. Uma parte considerável desse dinheiro proveio de transações ilegais com Calvi, perpetradas tanto na Espanha como na Argentina. O dono do dinheiro da P2 e o dono do dinheiro da Opus Dei: seria possível que a Igreja se refira a isso quando fala nos misteriosos caminhos de Deus?

Desde a morte de Albino Luciani e sua sucessão por Karol Wojtyla, a Solução Italiana, aplicada ao problema de um Papa honesto, tem sido usada freqüentemente para superar as dificuldades com que se defrontam Marcinkus, Sindona, Calvi e Gelli. A litania de assassinato e ameaça para se encobrir o saque, numa escala além de nossa imaginação, constitui uma leitura macabra. Também serve para confirmar que Albino Luciani foi mesmo assassinado.

Roberto Calvi, Licio Gelli e Umberto Ortolani não voltaram à Itália enquanto Luciani reinava como Papa. Calvi só retornou ao final de outubro, depois da eleição de Karol Wojtyla. Gelli e Ortolani continuaram a controlar os acontecimentos do Uruguai. Teria sido apenas mera coincidência o fato desses três homens permanecerem em diversas cidades sul-americanas? As conferências financeiras precisavam realmente se prolongar por agosto e setembro, e estender-se até novembro? Era realmente necessário a Gelli e Ortolani insistirem em ficar próximos de Calvi durante o mês de setembro de 1978’ ? Seria mesmo preciso todo esse tempo para que se discutisse a abertura de novas sucursais do Banco Ambrosiano?

O espaço para respirar obtido pelo líder da P2 com a morte de Luciani parecia ser de natureza temporária, depois do encontro de Calvi com o inspetor do Banco da Itália, Giulio Padalino, a 30 de outubro, em Milão. Mais uma vez, com os olhos fixados nas pontas dos sapatos, Calvi recusou-se a dar respostas diretas a uma série de perguntas. A 17 de novembro estava concluída a inspeção do Banco da Itália no Banco Ambrosiano.

Apesar da carta fraudulenta de Marcinkus e seus colegas do Banco do Vaticano sobre a propriedade da Suprafin, apesar das mentiras e evasivas de Roberto Calvi, apesar da ajuda de seu protetor. Licio Gelli, os inspetores do banco central italiano concluíram, num longo relatório, que havia muita coisa de podre na situação do império de Calvi.

Usando mais uma vez o seu codinome especial, Gelli telefonou da América do Sul para Calvi, em sua residência particular. Para Calvi, afundando cada vez mais nas areias movediças dos negócios da Máfia/Vaticano/P2, as notícias eram péssimas.

Poucos dias depois do Inspetor Giulio Padalino entregar seu relatório ao chefe da Vigilância Bancária do Banco da Itália, Mano Sarcinelli, Licio Gelli, em Buenos Aires , tinha em suas mãos uma cópia completa. Não a recebera de Sarcinelli ou Padalino, mas por cortesia da rede da P2. Gelli informou a Calvi que o relatório estava prestes a ser enviado pelo Banco da Itália para os magistrados em Milão. especificamente ao homem que o líder da P2 previra em setembro, Juiz Emilio Alessandrini.

Calvi se encontrava novamente á beira da denúncia e da ruína total. Emilio Alessandrini não podia ser comprado. Muito inteligente e corajoso, ele representava para Calvi, Marcinkus, Gelli e também Sindona uma ameaça muito grave. Se prosseguisse nas investigações, com seu vigor costumeiro, Calvi certamente estaria liquidado, Marcinkus seria denunciado, Gelli perderia a galinha dos ovos de ouro que era o roubo continuo do Ambrosiano e Sindona teria pela frente o argumento mais poderoso e convincente para sua extradição imediata dos Estados Unidos.

No inicio de janeiro de 1979, os círculos financeiros de Milão estavam outra vez preocupados com os rumores sobre O Cavaleiro, Roberto Calvi. O Juiz Emilio Alessandrini, depois de estudar cuidadosamente o relatório de 500 páginas compilado pelo Banco da Itália, determinou ao tenente-coronel Cresta, o comandante da polícia fiscal em Milão, que enviasse seus homens ao banco dos padres". A instrução era conferir ponto a ponto as muitas irregularidades criminosas detalhadas no relatório. Fora dos círculos oficiais, ninguém teve acesso ao relatório.., isto é, ninguém à exceção de Calvi e Gelli.

A 21 de janeiro, L'Espresso comentou os rumores que circulavam pela cidade, inclusive as notícias alarmantes de que Calvi e todos os seus diretores estavam prestes a ser presos e que o passaporte de Calvi seria confiscado, Era preciso tomar alguma providência imediata antes que houvesse uma corrida do público em geral ao Banco Ambrosiano.

Na manhã de 29 de janeiro, Alessandrini despediu-se da esposa com um beijo, depois levou o filho pequeno à escola, de onde seguiu para seu gabinete. Parou num sinal de trânsito na Via Muratori poucos segundos antes das 8:30. Ainda olhava para a luz vermelha quando cinco homens se aproximaram do carro e começaram a disparar contra ele.

Mais tarde, no mesmo dia, um grupo de terroristas de extrema esquerda, chamado Prima Línea, reivindicou a responsabilidade pelo assassinato. O grupo também deixou um manifesto sobre o crime numa cabine telefônica na Estação Central de Milão. Nem o telefonema nem o manifesto ofereciam algum motivo definido para o assassinato.

Por que um grupo de extrema esquerda assassinaria a sangue-frio um juiz que era nacionalmente conhecido por suas investigações sobre o terrorismo de extrema direita? Emilio Alessandrini era um dos principais investigadores do atentado a bomba na Piazza Fontana, que era reconhecida como uma atrocidade de extrema direita. Por que a Prima Línea assassinaria um homem que obviamente tentava, através de meios legais, que eles, em teoria, mais aplaudiriam, levar elementos criminosos da extrema direita a julgamento por seus atos?

Grupos como a Prima Línea e a Brigada Vermelha não se limitam a matar e mutilar pela ordem política e ideológica. São também pistoleiros de aluguel. Por exemplo, os vínculos entre a Brigada Vermelha e a Máfia local estão bem documentados.

Na ocasião em que este livro foi escrito, cinco homens que já confessaram o assassinato de Alessandrini estão aguardando julgamento. Seus depoimentos sobre o crime propriamente dito são detalhados, mas levantam mais perguntas do que oferecem respostas quando se passa para o motivo.

Marco Donat Cattin, o segundo homem que abriu fogo contra o juiz acuado, desarmado e impotente, comentou:

— Esperamos que os jornais noticiassem a morte e encontramos nos obituários do juiz os motivos para justificar o atentado.

Três dias depois do assassinato, na tarde de 10 de fevereiro, Roberto Calvi tomava um drinque num coquetel em Milão. A conversa inevitavelmente se virou para o crime recente. Calvi prontamente tentou obter simpatia, não para a Sra. Alessandrini ou para seus filhos sem pai, mas para si mesmo:

— E realmente uma pena. No dia anterior, Alessandrini me disse que não tomaria mais nenhuma providência e arquivaria o processo.

O assassinato de Luciani proporcionara a Marcinkus, Calvi, Sindona e seus amigos da P2 uma pausa para respirar. O assassinato de Emilio Alessandrini proporcionou mais algum tempo. A investigação iniciada pelo Juiz Alessandrini continuou, só que num ritmo de lesma.

No Banco da Itália, Mario Sarcinelli estava consciente da falta de ímpeto. Sarcinelli e o presidente do banco, Paolo Baffi, se achavam determinados a impedir que a longa e complexa investigação, realizada durante o ano anterior, fosse um desperdício.

Em fevereiro de 1979, Mario Sarcinelli convocou Calvi ao Banco da Itália. Calvi foi interrogado sobre a Suprafin, o relacionamento do Ambrosiano com o JOR, a subsidiária de Nassau e quem exatamente possuía o Banco Ambrosiano. Com Alessandrini morto, Calvi era um novo homem. Ou melhor, voltava a ser o antigo. Os olhos se mostravam de novo frios como gelo, A proteção de Licio Gelli inspirara uma arrogância ainda maior do que o normal. Ele se recusou categoricamente a responder ás perguntas de Sarcinelli. Mas o encontro deixou Calvi com a certeza de que a investigação do Banco da Itália não fora inibida pelo assassinato.

Tornou a discutir o problema com Gelli, que garantiu-lhe uma solução para o problema. Antes disso, porém, havia outra questão que causava uma preocupação considerável aos maçons da P2. Era o problema apresentado pelo advogado e jornalista Mino Pecorelli. Entre as muitas atividades de Pecorelli estava a de editor de um insólito semanário chamado O.P.

Essa publicação já foi descrita como "sensacionalista’ e de ‘imprensa marrom". Era as duas coisas. E era também acurada. Ao longo dos anos 70, publicou uma quantidade espantosa de denúncias e acusações de corrupção na Itália. Tornou-se uma leitura obrigatória para quem se interessasse em saber exatamente quem roubava quem. Apesar das leis rigorosas sobre calúnia na Itália, a publicação parecia levar uma vida encantada. Pecorelli obviamente tinha acesso ás mais explosivas informações. Jornalistas italianos freqüentemente aproveitavam os inspirados artigos de O.P. Particularmente, tentavam descobrir quem se encontrava por trás dessa agência noticiosa que estava obviamente acima da lei. Mas a O.P. permanecia um organismo misterioso. A irmã de Pecorelli, Rosita, comentou numa entrevista pela televisão que a agência noticiosa O. P. era financiada pelo primeiro-ministro Andreotti.

No início dos anos 70, o nome de Michele Sindona era freqüentemente relacionado com a O. P. Pecorelli obviamente tinha fontes no serviço secreto italiano, mas seus principais contatos eram num organização mais poderosa e até mais secreta do que essas agência oficiais do governo. Mino Pecorelli era um membro dá P2 e era dessa Loja Maçônica ilegal que tirava muitas das informações que fazian fervilhar os meios de comunicação da Itália. Numa reunião da Loja Lício Gelli convidava os membros a contribuir com documentos o informações a serem transmitidos à O.P. A principal função da O.P durante esse período foi a de promover as ambições de Gelli e os objetivos da P2. Em meados de 1978, no entanto, Pecorelli decidiu se lançar a um pequeno empreendimento particular. Obteve informações sobre uma das maiores fraudes na história financeira italiana. O mentor do roubo foi Licio Gelli. No início dos anos 70, a operação privou a Itália de dois e meio bilhões de dólares em impostos petroliferos. Na Itália, o mesmo subproduto do petróleo é usado para o aquecimento das casas e para abastecer os caminhões diesel. O combustfvel para aquecimento é tingido, a fim de distingui-lo do que é usado nos veículos tendo um imposto 50 vezes mais baixo. Era uma situação ideal para um criminoso como Gelli. Sob sua orientação, o magnata do petróleo Bruno Musselli, um membro da P2, adulterava as tinturas. O chefe da policia financeira, General Raffaele Giudice, também um membro da P2, falsificava os documentos para garantir que todo o combustível fosse taxado pelo índice mais baixo. O combustível era então distribuído aos postos de abastecimento, que pagavam aos conspiradores pela taxa mais alta.

Com a ajuda de Michele Sindona, outro membro da P2, os lucros eram transferidos, através do Banco do Vaticano, para uma série de contas secretas no banco suíço de Sindona, o Finabank. Licio Gelli tornou-se uma presença familiar a passar pelo Portão de Santa Anna, levando enormes valises contendo bilhões de liras roubadas,

O General Giudice fora nomeado para o comando da policia financeira pelo Primeiro-Ministro Giulio Andreotti, um amigo íntimo de Licio Gelli. A nomeação fora consumada depois que o Cardeal Poletti, Cardeal Vigário de Roma escrevera ao Primeiro-Ministro recomendando Giudíce para o cargo. Poletti era um dos homens que Albino Luciani planejava afastar de Roma. A ligação do Vaticano com esse escândalo era desconhecida de Pecorelli, mas ele soubera o suficiente desse roubo gigantesco para começar a publicar pequenas informações a respeito. Uma delegação que incluía o senador democrata-cristão Claudio Vitalone, o Juiz Cárlo Testi e o General Donato lo Prete comprou o seu silêncio. As notíciais sobre o escândalo cessaram.

Compreendendo que poderia ganhar mais dinheiro com a mesma tecníca, Pecorelli começou a escrever sobre os maçons. O número que saiu no principio de setembro de 1978, contendo os nomes de mais de cem maçons no Vaticano, foi uma advertência a Licio Gelli. O fato de um exemplar chegar à mesa de Albino Luciani, que conferiu cuidadosamente e começou a agir, foi a suprema ironia para Licio Gelli, que já estava perfeitamente consciente da ameaça que o novo Papa representava para seu principal pagador. Roberto Calvi.

Com Luciani morto, Gelli tentou negociar com Pecorelli. Subornou-o. Inevitavelmente, Pecorelli exigiu mais dinheiro por seu silêncio. Gelli recusou-se a pagar. Pecorelli publicou o primeiro do que prometia ser uma série de artigos. Revelava que GeIli, o pilar do fascismo de extrema direita, espionara para os comunistas durante a guerra e continuara a trabalhar para eles depois. Pecorelli, assumindo agora o manto de um jornalista investigador destemido, prometeu aos leitores que revelaria tudo sobre a P2. Informou ainda que Licio Gelli, antigo nazista, ex-fascista, comunista ocasional, também mantinha fortes ligações com a CIA. Com a revelação de uma parcela tão grande da verdade, os colegas de Pecorelli na P2 concluíram que ele os traíra.

A 20 de março, Gelli telefonou para Pecorelli, em seu escritório em Roma. Sugeriu uma conversação de paz durante o jantar no dia seguinte, "se for conveniente". Era. Na verdade, Pecorelli comentou que, naquela noite, trabalharia no escritório até tarde, mas poderia jantar com Gelli no dia seguinte. Foi um jantar que Pecorelli não chegou a comer.

Mino Pecorelli deixou seu escritório na Via Orazio ás 21:15. Encaminhou-se para seu carro, estacionado a pouca distância, As duas balas que o mataram, ao sentar no carro, foram disparadas no interior de sua boca, um gesto clássico da Máfia siciliana, sasso in bocca, uma pedra na boca de um morto para demonstrar que ele não mais falará.

Não podendo jantar com seu antigo amigo, Licio Gelli aproveitou o tempo para abrir as suas fichas secretas de membros da P2 e escrever "falecido" junto ao nome de Mino Pecorelli.

Ninguém jamais "reivindicou" a responsabilidade pelo assassinato de Pecorelli. Em 1983, no entanto, Antonio Viezzer, que fora um alto funcionário do SID, o serviço secreto italiano, foi preso sob suspeita de envolvimento na morte de Pecorelli. Antonio Viezzer era um membro da P2.

Poucos dias antes de Pecorelli ser silenciado para sempre, um dos homens que ele incluira na lista de maçons do Vaticano, Cardeal Jean Villot, precedeu-o no caminho para a sepultura. Ele morreu ainda mantendo o vasto rol de títulos oficiais que possuía durante o breve pontificado de Luciani. Para um homem que, se não foi um cúmplice da conspiração criminosa para assassinar Albino Luciani, quase que certamente prestou uma ajuda vital à conspiração, a morte de Villot, com os diversos estágios descritos em relatórios médicos, constitui um curioso contraste com a de João Paulo I, que "morreu como uma flor na noite".

Enquanto o Vaticano sepultava o seu falecido Secretário de Estado, a batalha por um pouco de purificação temporal continuava no outro lado do Tibre. O chefe da vigilância do Banco da Itália, Mário Sarcinelli, e seu presidente, Paolo Baifi, estavam agora exigindo uma ação rápida na investigação sobre Calvi. Insistiam que havia provas mais do que suficientes para justificar uma prisão imediata. Obviamente, Gelli e Calvi concordavam com essa opinião.

As prisões foram efetuadas a 25 de março de 1979... mas não de Roberto Calvi e seus colegas. Os presos foram Sarcinelli e Baffi. Um juiz de Roma, Mario Alibrandi, conhecido por suas tendências de extrema direita, concedeu fiança a Baffi por causa de sua idade, 67 anos. Sarcinelli foi menos afortunado e ficou na prisão. As acusações contra os dois, omissão na revelação de um crime, eram claramente capciosas. Sarcinelli também teve uma fiança fixada, depois de duas semanas. As acusações, no entanto, persistiriam até janeiro de 1980, quando se admitiu que eram totalmente falsas e não tinham a menor justificativa. Enquanto isso, porém, o juiz manteve a sua decisão de proibir que Sarcinelli voltasse a seu cargo de chefe da Vigilância do Banco da Itália durante um ano. Com essa ação, a P2 conseguira eficazmente imobilizar o Banco da Itália. Paolo Baifi, o chocado e consternado presidente do banco, renunciou em setembro de 1979. A demonstração de poder de Calvi e seus companheiros criminosos convencera Baifi de que ele e seus homens lutavam contra uma força que era muito maior do que a possuida pelo Banco da Itália, Entre o escândalo da prisão injustificada de Sarcinelli e a renúncia de Baifi, os dirigentes do Banco da Itália receberam uma demonstração final de como eram poderosas as forças que enfrentavam. A demonstração ocorreu em Milão. Foi organizada e paga por Michele Sindona.

Enquanto Calvi e seus amigos cuidavam à sua maneira dos problemas que tinham na Itália, o companheiro deles na P2, Michele Sindona, também fazia a sua parte em Nova York. Sindona finalmente sufocara as tentativas de extraditá-lo para a Itália. Mas a maneira como a vitória se consumou não lhe trouxe grande conforto.

A 9 de março de 1979, o Departamento de Justiça americano indicou Sindona por 99 acusações, de fraude, perjúrio e apropriação indébita de fundos do banco. As acusações provinham diretamente da falência do Franklin National Bank. Sindona pagou uma fiança de três milhões de dólares e foi libertado, com a condição de se apresentar diariamente a um delegado federal.

Na primeira semana de julho de 1979, um juiz federal decidiu que Sindona não podia ser extraditado para a Itália para enfrentar acusações de fraude bancária porque em breve seria julgado por acusações similares nos Estados Unidos. O tratado de extradição entre Itália e Estados Unidos tinha uma cláusula de dupla ação. O promotor público, John Kenney, comentou que o governo norte-americano pretendia extraditá-lo após a solução do caso nos Estados Unidos.

Kenney, ainda vivo apesar do contrato de 100 mil dólares que fora oferecido pelos colegas de Sindona. devia a sobrevivência a apenas um fato. Na Itália, matar um juiz ou um promotor é muitas vezes uma providência eficaz para persuadir as autoridades a irem mais devagar num processo. O assassinato de Alessandrini é um excelente exemplo. Nos Estados Unidos, tal assassinato teria justamente o efeito oposto. O pagamento de 100 mil dólares era tentador, mas os profissionais sabiam que o assassinato de Kenney resultaria não apenas numa perseguição implacável ao assassino, mas também numa aceleração rigorosa do processo contra Sindona.

Diante da realidade de um julgamento em Nova York , com o tenaz Kenney na acusação, Sindona resolveu usar a Solução Italiana em outro homem que estava lhe causando problemas ainda maiores:

Giorgio Ambrosoli.

A 29 de setembro de 1974, o advogado Giorgio Ambrosoli foi designado para liquidante do Banca Privata Italiana de Sindona. Como já foi registrado antes, Sindona criara o Banca Privata em julho de 1974, com a fusão de dois de seus bancos. Banca Privata Finanziara e Banca Unione, um banco fraudulento grande para substituir dois bancos fraudulentos médios. Por volta de 1979, nenhum homem sabia mais do que Giorgio Ambrosoli sobre as trapaças de Sindona. Nomeado liquidante pelo Ministro do Tesouro e o presidente do Banco da Itália, Ambrosoli iniciara a tarefa de pesadelo de esclarecer as operações de um moderno Maquiavel. Já a 21 de março de 1975, o cauteloso e cuidadoso Ambrosoli, num relatório secreto ao Procurador Geral da Itália, declarava estar convencido do caráter criminoso das atividades de Sindona. As provas que estudara até aquele momento demonstravam claramente que a falência não fora causada simplesmente por maus negócios; no início de 1974, Sindona e seus companheiros "queriam que as operações de fevereiro criassem as circunstancias para a falência".

Fora uma manobra fraudulenta friamente planejada.

Giorgio Ambrosoli era um homem extremamente corajoso. Mais ou menos na ocasião em que comunicou suas descobertas iniciais ao Procurador Geral, ele confidenciou à esposa alguns dos seus sentimentos mais íntimos:

O que quer que aconteça, certamente pagarei um alto preço por ter aceitado o trabalho. Mas eu sabia disso antes de aceitar e não estou me queixando. Foi uma oportunidade excepcional de fazer alguma coisa pelo país... Obviamente, estou também fazendo inimigos.

Lenta e metodicamente, Ambrosoli começou a pôr algum sentido no que Sindona deliberadamente confundira e misturara. O estacionamento de ações, as recompras, as transferências desconcertantes por incontáveis companhias. Enquanto Sindona falava a universitários americanos sobre seus sonhos de capitalismo cósmico, o circunspecto advogado milanês estava estabelecendo acima de qualquer dúvida que o siciliano era corrupto até as pontas dos dedos manicurados.

Em 1977, Ambrosoli foi procurado por um advogado de Roma, Rodolfo Guzzi, que apresentou uma proposta complicada para comprar o Banca Privata e tirá-lo da falência. Ambrosoli descobriu que Guzzi representava Michele Sindona. Recusou a oferta, apesar de apoiada pelo menos por dois ministros democrata-cristãos.

A força que Sindona ainda tinha pode ser avaliada por esse apoio ministerial. Ambrosoli teve outro exemplo desse poder quando o presidente do Banco da Itália lhe falou da pressão que era exercida por Franco Evangelisti, o braço direito do Primeiro-Ministro Andreotti, insistindo por uma solução tipicamente italiana. Ele queria que Baffi autorizasse o banco central a encampar as dívidas de Sindona. Baffi bravamente recusou. A investigação de Ambrosoli continuou.

Ambrosoli continuou a encontrar referências na montanha de documentos que diligentemente examinava sobre "os 500"; outras alusões deixavam bem claro que essas 500 pessoas eram as superexportadoras do mercado negro. Os homens e mulheres que, com a ajuda de Sindona e do Banco do Vaticano, haviam transferido dinheiro para fora da Itália ilegalmente. A lista dos nomes podia continuar a se esquivar a Ambrosoli, mas ele tomou conhecimento de praticamente todo o resto. Verificou que inúmeras organizações públicas, instituições respeitáveis como a gigantesca seguradora INPDAI, depositaram seus recursos nos bancos de Sindona por uma taxa de juro inferior à que estava em vigor no mercado, 8% em vez de 13%. Recebiam, no entanto, uma taxa de juros secreta, que ia direta e particularmente para os bolsos dos diretores da INPDAI e de outras augustas empresas.

Ambrosoli identificou muitos dos artifícios que Sindona usara para exportar dinheiro ilegalmente, inclusive comprar dólares a um câmbio maior que o do mercado, o saldo depositado numa conta em banco estrangeiro, em Londres, Suíça ou Estados Unidos.

Ambrosoli começou a compilar sua própria lista de culpados. Nunca chegou aos 500 — Michele Sindona cuidou de evitá-lo — mas alcançou a 77 nomes, inclusive homens de confiança do Vaticano, Massimo Spada e Luigi Mennini. O liquidante acumulou provas irrefutáveis da cumplicidade do Banco do Vaticano em muitos dos crimes de Sindona. Durante todo o seu período de trabalho para o Banco da Itália, Ambrosoli, atuando praticamente sozinho, foi submetido por Sindona a todo tipo de pressão. Primeiro, houve ações judiciais de Sindona contra Ambrosoli, sob a acusação de desvio de dinheiro. Depois, as ações eram canceladas e substituidas por um meio diferente pelo genro de Sindona, Pier Sandro Magnoni, convidando Ambrosoli a tornar-se presidente do novo banco de Sindona, "depois que acertar esse problema cansativo das falências".

A infiltração da P2 de Sindona era total entre os que Ambrosoli pensava que podia confiar que Magnoni foi capaz de transcrever literalmente um relatório secreto coligido por Ambrosoli e do qual só tomaram conhecimento oficialmente poucos funcionários do banco.

Em março de 1979, Ambrosoli pôde determinar uma cifra para as dimensões de II Crack Sindona, pelo menos em relação ao Banca Privata. O prejuízo era de 257 bilhões de liras. Também em março de 1979, Ambrosoli recebeu uma série de ameaças por telefone. Os interlocutores sempre tinham um sotaque ítalo-americano.

As ameaças e os insultos aumentaram de intensidade a partir do final de 1978. Os interlocutores variavam as táticas, tentando Ambrosoli com ofertas de muito dinheiro ou fazendo ameaças diretas. Sempre deixavam bem claro por conta de quem telefonavam.

— Por que não vai procurar Sindona nos Estados Unidos como um amigo? — perguntou um dos homens, com um forte sotaque americano.

Ambrosoli recusou o convite e passou a gravar os telefonemas. Falou a amigos e colegas sobre as ligações. Acabou tocando uma das gravações para um advogado de Sindona. Recebeu o telefonema seguinte poucos dias depois:

— Seu filho da..... nojento! Pensa que é muito esperto gravando telefonemas, hein?

O advogado admitiria depois que, ao tomar conhecimento da gravação, ligara imediatamente para Sindona em Nova York.

A 10 de abril de 1979, Sindona confrontou-se com outro homem que considerava um inimigo: Enrico Cuccia, diretor-executivo do Mediobanca, um banco de investimentos de capital aberto. A avaliação de Sindona era acurada. Cuccia frustrara a manobra de Sindona para assumir o controle da Bastogi em 1972. Chegara à conclusão, antes de muitos outros, de que Sindona era um escroque maníaco. Durante o seu encontro em abril de 1979, Cuccia teve amplas provas para justificar a conclusão a que chegara quase oito anos antes. O que levara Cuccia a visitar Nova York fora uma série de telefonemas que recebera, de homens com sotaque ítalo-americano. Como os telefonemas para Ambrosoli, também eram de natureza ameaçadora. Mas enquanto Ambrosoli preferira continuar em Milão com seu trabalho, Cuccia resolveu ter uma confrontação com Sindona.

Sindona apresentou diversas exigências. Queria que Cuccia revogasse o mandado de prisão italiano contra ele. Sindona encarou como trivial o fato de ter sido condenado, em sua ausência, a três anos e meio de prisão, em 1976. Exigiu também que Cuccia arrumasse 257 bilhões de liras e cobrisse o rombo do Banca Privata. E queria ainda mais dinheiro para sustentar sua família. Além do gesto gracioso de permitir que o Signor Cuccia continuasse a viver, não está muito claro o que mais Sindona oferecia em troca.

Durante essa conversa extraordinária, talvez para demonstrar o perigo que Cuccia corria, Sindona referiu-se a Giorgio Ambrosoli:

— Aquele maldito liquidante do meu banco está me prejudicando e por isso quero a sua morte. Farei com que ele desapareça sem deixar vestígios.

Essa é a realidade da mentalidade da Máfia. Al Pacino e ternos elegantes. filhos maravilhosos e pais amorosos é o mundo de fantasia da Máfia. A realidade é a ralé como Michele Sindona.

Essas ameaças foram proferidas menos de um mês depois de Sindona ter sido indiciado por 99 acusações. A mesma mentalidade, que concluiu que o processo de extradição seria arquivado se o promotorassistente John Kenney fosse assassinado, estava em ação outra vez. Se Ambrosoli fosse silenciado, as acusações criminais presumivelmente se dissipariam como a neblina da manhã. Uma mentalidade que funciona com um raciocínio tão pervertido pode planejar matar um Papa sem a menor hesitação.

Enrico Cuccia deixou a reunião sem estar impressionado. Em outubro de 1979. uma bomba explodiu na porta da frente do apartamento de Cuccia em Milão. Felizmente , ninguém ficou ferido. Giorgio Ambrosoli não teve tanta sorte.

Era evidente para todas as partes envolvidas no julgamento iminente de Sindona que as provas reunidas por Giorgio Ambrosoli eram de extrema importância. A 9 de junho de 1979, o juiz designado para o processo de Sindona, Thomas Griesa, marcou o depoimento de Ambrosoli em Milão.

Nesta data, o homem que aceitara o contrato de 100 mil dólares para matar Giorgio Ambrosoli se encontrava no Hotel Splendido, em Milão, há 24 horas. Estava registrado como Robert McGovern. Era também conhecido como "Billy, o Exterminador". Seu verdadeiro nome é William Arico. No hotel de primeira classe, a menos de 50 metros da Estação Central de Milão, Arico jantou com os cinco homens que deveriam ajudá-lo no assassinato. Os dois cúmplices principais eram Charles Mico, seu filho, e Rocky Messina. As armas incluiam uma metralhadora M-11, especialmente adaptada com um silenciador, e cinco revólveres P-38. Arico alugou um Fiat e começou a vigiar Ambrosoli.

O pedido de um depoimento detalhado e longo de Ambrosoli fora formulado inicialmente pelos advogados de Sindona. Esperavam assim demonstrar o absurdo das acusações a seu cliente, apresentadas em Nova York. O despertar deles, que começou na manhã de 9 de julho, foi extremamente brusco. Quatro anos de trabalho, mais de 100 mil laudas de petições cuidadosamente preparadas e a inteligência de um advogado excepcional começaram a revelar toda a verdade a um punhado de advogados americanos, dois delegados especiais representando o Juiz Griesa, de Nova York, e o Juiz Giovanni Galati, italiano.

Quando a sessão foi suspensa, ao final do primeiro dia, os advogados de Sindona podiam ser facilmente identificados, ao se retirarem. Eram homens com expressões preocupadas.

Seguido por Arico e sem desconfiar do perigo que corria, Ambrosoli foi a outra reunião. Era com o vice-superintendente da força policial de Palermo e chefe do CID naquela cidade, Boris Giuliano. O assunto era o mesmo sobre o qual Ambrosoli prestara depoimento durante o dia inteiro: Michele Sindona. Giuseppe Di Cristina, um pistoleiro da Máfia contratado pelas famílias Gambido, Inzerillo e Spatola, fora assassinado em Palermo em maio de 1978. Giuliano encontrara em seu corpo cheques e outros documentos que indicavam que Sindona vinha reciclando os lucros da venda de heroína através do Banco do Vaticano e enviado para o seu Smincor Bank, na Suíça. Depois de comparar as anotações sobre as investigações separadas, os dois homens marcaram uma reunião mais ampla, depois que Ambrosoli concluísse seu depoimento para os advogados americanos.

Mais tarde, nesse mesmo dia, Ambrosoli voltou a falar sobre Sindona. Teve uma longa conversa pelo telefone com o Tenente-Coronel Antonio Varisco, chefe do Serviço de Segurança, sediado em Roma. O assunto foi a investigação em que Varisco se empenhava: a P2.

A 10 de julho, Ambrosoli continuou seu depoimento e largou algumas bombas. Descrevendo como o Banca Cattolica del Veneto trocara de mãos e como Pachetti fora descarregado por Sindona para Calvi, Ambrosoli declarou que Sindona pagara "uma comissão de seis e meio milhões de dólares a um banqueiro milanês e um bispo americano".

Ambrosoli concluiu seu depoimento a 11 de julho. Ficou combinado que ele voltaria no dia seguinte para assiná-lo e ficaria disponível durante a semana subseqüente para interrogatório e esclarecimentos a respeito aos promotores americanos e advogados de Sindona.

Pouco antes da meia-noite do dia 11, Ambrosoli aproximou-se de seu apartamento. A mulher acenou da janela. Teriam um jantar tardio. Quando Ambrosoli encaminhou-se para a porta, Arico e dois cúmplices emergiram das sombras. A indagação veio da escuridão.

— Giorgio Ambrosoli?

— Si.

Arico apontou à queima-roupa e pelo menos quatro balas de um P-38 penetraram no peito do advogado. Ele teve morte instantânea.

Arico já estava na Suíça às seis horas da manhã. Cem mil dólares foram transferidos de uma conta de Sindona no Banca dei Gottardo, pertencente a Calvi, para uma conta que Arico tinha sob o nome de Robert McGovern no Crédit Suisse, em Genebra. O número da conta é 41585 1-22-1.

A 13 de julho de 1979, menos de 48 horas depois do assassinato de Giorgio Ambrosoli, o Tenente-Coronel Antonio Varisco seguia num BMW branco pela Lungotevere Arnaldo da Brescia, em Roma. Eram 8:30. Uma Fiat 128 branca emparelhou. Uma espingarda de cano serrado apareceu na janela. Quatro tiros foram disparados, matando o tenente-coronel e seu motorista. Uma hora depois, a Brigada Vermelha "reivindicou" a autoria.

Na manhã de 21 de julho de 1979, Boris Giuliano entrou no Lux Bar, na Via Francesco Paolo Di Biasi, em Palermo, para tomar um café. Eram 8:05. Depois de tomar o café, ele encaminhou-se para o caixa, a fim de pagar. Um homem aproximou-se e disparou seis tiros em Giuliano. O café estava apinhado na ocasião. O interrogatório policial subsequente constatou que ninguém vira coisa alguma. Ninguém ouvira nada. O cargo de Boris Giuliano foi ocupado por Giuseppe Impallomeni, um membro da P2.

Nem mesmo criaturas como os membros da Brigada Vermelha "reivindicaram", falsamente ou não, a responsabilidade pelos assassinatos de Giorgio Ambrosoli e Boris Giuliano. Quando a notícia do assassinato de Ambrosoli chegou a Nova York, Michele Sindona, o homem que pagara para que o liquidante fosse morto por um exterminador, reagiu de maneira típica:

— Ninguém deve me relacionar com esse ato de covardia e processarei imediatamente qualquer um que o fizer.

Dois anos antes, numa entrevista a II Fiorino, Sindona fizera uma declaração muito mais significativa. Falando da "conspiração que existe contra mim", ele relacionara os líderes, entre os quais figurava Giorgio Ambrosoli. E Sindona comentara:

— Há muitos que deveriam estar com medo..., muitos mesmo.

Giorgio Ambrosoli não morreu em vão. Seus muitos anos de trabalho e mais o seu depoimento, embora sem assinatura, seriam poderosos instrumentos da acusação no julgamento de Michele Sindona.

O banqueiro milanês e o bispo americano referidos no depoimento de Ambrosoli foram rapidamente identificados como Calvi e o Bispo Paul Marcinkus. Marcinkus negaria categoricamente ter recebido qualquer comissão. Ambrosoli não era, com toda certeza, um homem de fazer acusações sem provas concretas. Quanto à veracidade da declaração do Bispo Marcinkus, basta lembrar que pouco depois do estouro de Sindona ele negou jamais ter conhecido Sindona.

Quais foram os principais beneficiários dessa série de crimes brutais? A lista começa a ter uma ressonância familiar: Marcinkus, Calvi, Sindona, Gelli e Ortolani.

Em Milão, o terror depois da série de assassinatos era mais discernível no Palácio da Justiça. Homens que trabalharam com Ambrosoli descobriram uma súbita dificuldade em lembrar que o haviam ajudado na investigação das atividades de Sindona. O Juiz Luca Mucci, que assumira a investigação criminal depois do assassinato de Alessandrini, reduziu o inquérito a um ritmo tão lento que os espectadores podiam pensar que ele se transformara numa estátua de pedra. Uma avaliação inicial da investigação do Banco da Itália no Banco Ambrosiano concluiu, espantosamente, que as explicações de Calvi eram perfeitamente aceitáveis. Ou pelo menos foi essa a opinião da polícia financeira.

Pedalino, o funcionário do Banco da Itália que conduzira a investigação de 1978, passou a ser frequentemente convocado a Milão, onde era confrontado por magistrados em dúvida. Enquanto o verão de 1979 prosseguia, Padalino foi ameaçado e pressionado por elementos do judiciário de Milão. Foi advertido que seu relatório sobre o Ambrosiano equivalia a uma calúnia. A P2 de Gelli e a Máfia de Sindona reduziam os conceitos de justiça a uma depravação.

Um exemplo de como o eixo Calvi/Gelli era poderoso foi a série de acontecimentos na Nicarágua, mais ou menos na ocasião do assassinato de Emilio Alessandrini, em janeiro de 1979. Calvi abrira uma sucursal de seu império em Manágua, em setembro de 1977. Era o Banco Comercial do Grupo Ambrosiano. Sua função oficial "era realizar transações comerciais internacionais". A função verdadeira, no entanto, era transferir da subsidiária de Nassau, com a aprovação do diretor Bispo Paul Marcinkus, as provas que revelariam as manobras fraudulentas e criminosas, na compra e venda de ações do banco de Milão. A Nicarágua servia para afastar ainda mais toda a sujeira dos olhos do Banco da Itália. Como sempre, havia um preço a ser pago. Gelli facilitara as coisas por um contato com o ditador da Nicarágua, Anastacio Somoza. Depois que vários milhões de dólares foram embolsados pelo ditador, ele anunciou que seria uma excelente idéia a abertura de uma sucursal do banco de Calvi em seu país. Um dos benefícios secundários para Calvi foi a obtenção de um passaporte diplomático da Nicarágua, que ele manteve até o final de sua vida.

Calvi e Gelli analisaram a situação política na Nicarágua, com a crescente possibilidade da rebelião sandinista assumir o poder, num futuro não muito distante. Esses homens, que possuíam documentos tanto de uma associação fascista como de guerrilheiros durante a

Segunda Guerra Mundial, não haviam mudado os hábitos da vida inteira de jogo duplo e prudência, em termos bancários. Calvi também distribuiu muito dinheiro aos rebeldes, uma parte para comprar alimentos, outra para armas.

No início de 1979, a tomada do poder pela esquerda na Nicarágua tornou-se uma realidade. Como acontece muitas vezes quando a esquerda sobe ao poder, os sandinistas prontamente nacionalizaram os bancos estrangeiros — com uma exceção: o Banco Comercial do Grupo Ambrosiano continuou em atividade, sob o comando de Roberto Calvi. Até mesmo os idealistas de esquerda, ao que parece, têm um preço.

Em Nova York , com muitos dos seus inimigos italianos silenciados, permanente ou temporariamente, Michele Sindona decidiu, ao final de julho de 1979, que já podia voltar à Itália. Ilegalmente. O fato de que estava sob uma fiança de três milhões de dólares em Nova York e obrigado a se apresentar diariamente ao gabinete de um delegado federal, assim como o fato de já estar condenado a três anos e meio de prisão na Itália e ser procurado por outras acusações, deviam representar um bom motivo para não voltar. A solução de Sindona foi a própria simplicidade. Com a ajuda de seus associados da Máfia, em Nova York e Sicília, ele providenciou o próprio "sequestro".

Os motivos de Sindona para um retorno secreto à sua terra natal incluiam a necessidade de obter o máximo de apoio para seu iminente julgamento em Nova York. Sindona achava que muitas pessoas lhe deviam favores. Queria agora cobrar. Se os favores passados não persuadissem os amigos e colegas italianos a cooperarem, Sindona estava disposto a recorrer ao último trunfo de que dispunha. Revelaria os nomes dos 500.

A lista dos 500 maiores exportadores italianos ilegais de liras escapara às autoridades italianas durante os últimos 10 anos. Diversos investigadores, inclusive Giorgio Ambrosoli, haviam deparado constantemente com referências à lista dos 500, que supostamente incluía os nomes de muitos dos mais poderosos homens da Itália. Tornara-se uma espécie de Santo Graal das finanças italianas. Mas a lista não é apenas legendária. Existe de fato. Sindona e Gelli certamente possuem cópias, assim como Calvi também tinha. Sindona estava convencido de que a ameaça de divulgar os nomes misteriosos seria suficiente para consumar sua total reabilitação na sociedade italiana. A sentença de prisão seria revogada, todas as outras acusações contra ele seriam arquivadas e recuperaria seus bancos italianos. O tribunal de Nova York se defrontaria com um homem em condições de alegar que era vítima de conspirações iníquas, possivelmente de inspiração comunista. Diversas pessoas respeitáveis testemunhariam que Michele Sindona era não apenas um homem caluniado, mas também o mais brilhante banqueiro do mundo, um homem que personificava o capitalismo bom, puro e saudável. Tudo isso seria alcançado através de uma técnica na qual Sindona se gabara muitas vezes para Carlo Bordoni de ser um mestre: a chantagem.

Mais tarde. Sindona declarou que havia uma outra razão para a viagem. Sindona insiste hoje, para quem quer que esteja disposto a ouvi-lo, que tudo fez para derrubar o governo italiano na Sicília e declarar a ilha um Estado independente. Sindona diz que depois ofereceria a Sicília aos Estados Unidos como o 51° Estado americano, em troca do arquivamento de todas as acusações criminais que enfrentava em Nova York. Ele garante que o plano teria dado certo, se não fosse pelo fato da Máfia, depois de encenar um falso sequestro, parar para uma ação autêntica. Fantasias e ilusões assim são cômicas, até que a gente se lembra que homens bons e honestos como Giorgio Ambrosoli não morreram rindo.

A loucura de Michele Sindona talvez fique mais patente nos detalhes desse plano do que em qualquer outra coisa. Sindona assegura que a família Gambino estava plenamente disposta a abrir mão de suas fábricas de heroína na Sicília. Cabe ressaltar que essa indústria letal proporciona lucros às famílias Gambino, Inzerillo e Spatola calculados pelas autoridades italianas num mínimo de 600 milhões de dólares por ano. Em troca dessa atitude de espírito público, a família Gambino ganharia o controle do comércio de laranjas e Rosario Spatola teria permissão para construir um cassino em Palermo.

Sindona desapareceu das ruas de Nova York a 2 de agosto de 1979. Teria de trabalhar muito se quisesse que a Sicília fosse anexada e houvesse um acordo com o Presidente dos Estados Unidos antes do julgamento, marcado para começar a 10 de setembro. Levando um passaporte falso com o nome de Joseph Bonamico e acompanhado por Anthony Caruso, de óculos, peruca branca, bigode e barba postiços, Sindona embarcou no Vôo 740 da TWA para Viena, no Aeroporto Kennedy. A farsa, completada com pedidos de resgate encaminhados a diversas pessoas pelos "sequestradores", que se intitulavam do Comitê Proletário para a Eversão (sic) de uma Justiça Melhor, prolongou-se até 16 de outubro, quando um Sindona "emocionalmente exausto e fisicamente debilitado", com um curativo de ferimento a bala na coxa, telefonou para um dos seus advogados em Nova York , de uma cabine na esquina da Rua 42 com a Décima Avenida, em Manhattan.

A viagem não fora absolutamente um sucesso. A Sicília não se tornara parte dos Estados Unidos. Muitos dos antigos amigos de Sindona permaneceram apenas assim, antigos amigos. A lista dos 500, apesar de todas as ameaças, não fora revelada, e Sindona, em futuro próximo, teria de enfrentar acusações adicionais de perjúrio, quebra de fiança e de um falso sequestro. O maior ganho para Sindona parece ter sido de 30 bilhões de liras. Essa quantia foi paga por Roberto Calvi, depois da gentil interferência de Licio Gelli, por conta de Sindona. Em teoria, o dinheiro foi pago aos "seqüestradores" de Sindona por um banco pertencente a Calvi, Banca dei Gottardo, na Suíça. Em teoria, o dinheiro foi pago ao mafioso Rosario Spatola pela "libertação" de Sindona.

Os principais conspiradores, além do próprio Sindona, foram Anthony Caruso, Joseph Macaluso, Johnny Gambino, Rosano Spatola, Vincenzo Spatola e Joseph Michele Crimi. As autoridades italianas determinaram que Rosario Spatola, que normalmente podia ser encontrado a circular entre as misturadoras de cimento na companhia construtora que possuía em Palermo, estivera em Nova York exatamente na ocasião em que Sindona sumira. Interrogado a respeito de sua viagem a Nova York, respondeu simplesmente:

— Fui tratar de problemas de família.

O julgamento de Sindona por todas as acusações decorrentes da quebra do Franklin National Bank finalmente começou, no início de fevereiro de 1980. Pouco antes, o Vaticano deixou bem claro que a Igreja Católica pelo menos continuaria a apoiar o seu antigo assessor financeiro.

O Cardeal Giuseppe Caprio, o Cardeal Sergio Guerri e o Bispo Paul Marcinkus concordaram com o pedido de um advogado de defesa de gravar depoimentos em vídeo-teipe para ajudar Sindona. Intrigada com o que esses homens devotos poderiam dizer a respeito de Sindona, a promotoria não levantou objeções a essa manobra insólita. O normal é que as testemunhas prestem seus depoimentos sob juramento, num tribunal, na presença do juiz e do júri. O Juiz Thomas Griesa, presidindo o julgamento, revelou essa exigência para os homens do Vaticano e determinou aos advogados de Sindona que voassem para Roma na sexta-feira, 1° de fevereiro. O acordo era os advogados tomarem os depoimentos no dia seguinte e voltarem a Nova York para apresentá-los ao juiz na segunda-feira. A transcrição do relatório deles, encontrada nos autos do processo Estados Unidos da América x Michele Sindona, é uma leitura extraordinária.

No último minuto — ou mais precisamente quatro horas antes dos depoimentos serem gravados — o Cardeal Casaroli, Secretário de Estado do Vaticano, interferiu. Não haveria depoimentos. Casaroli declarou:

— Seria um precedente incômodo. Tem havido muita publicidade lamentável a propósito desses depoimentos. Lamentamos profundamente que o governo americano não conceda reconhecimento diplomático ao Vaticano.

Os sofisticados advogados de Nova York ainda se encontravam em estado de incredulidade quando se apresentaram ao Juiz Griesa. As onze horas da manhã de sábado, o secretário do Cardeal Guerri, Monsenhor Blanchard, telefonara para a Embaixada Americana, a fim de confirmar que os cardeais e Marcinkus lá estariam às 4:00 da tarde. Tornara a telefonar poucos minutos depois para informar que Casaroli proibira os depoimentos: Foi interrogado a respeito de seu telefonema anterior. Negou categoricamente qualquer telefonema anterior. Agravou essa mentira com outra, ao comunicar à embaixada que "o juiz americano já sabe de tudo".

O aturdido funcionário da embaixada, desacostumado a uma demonstração tão ostensiva de desonestidade do Vaticano, entrou em contato diretamente com o Cardeal Guerri. Localizou Sua Eminência, que disse que não sabia se iria ou não prestar o depoimento. Acabou não o fazendo. Guerri, Caprio e Marcinkus asseguraram aos advogados americanos que seus depoimentos teriam sido repletos de louvores a Michele Sindona. O problema não era esse, mas sim a proibição do Cardeal Casaroli, que percebera as terríveis implicações. Se o júri considerasse Sindona culpado, então os três prelados da Igreja Católica seriam marcados como mentirosos. Além disso, permitir que os três testemunhassem, mesmo em depoimentos voluntários, abriria um portão do Vaticano pelo qual se lançaria cada magistrado italiano, a exigir a mesma cooperação. isso levaria a uma violação do Tratado de Latrão, que concedia a um cardeal total imunidade contra prisão na Itália. O passo seguinte seria um refletor indesejável iluminando o Vaticano S.A.

Casaroli sagazmente salvara o Vaticano no último momento. O que os advogados americanos não sabiam era que, ao fazer isso, ele passara por cima de uma decisão tomada pelo Papa. João Paulo II concordara na maior satisfação com o pedido para que Marcinkus e os outros revelassem ao mundo o quanto tinham Michele Sindona em alta conta.

A 27 de março de 1980, Michele Sindona foi considerado culpado de 65 acusações, incluindo fraude, conspiração, perjúrio, falsas declarações bancárias e apropriação indébita de recursos bancários. Ficou preso no Centro Correcional Metropolitano, em Manhattan, aguardando a sentença.

A 13 de maio, dois dias antes da sentença final, Sindona tentou o suicídio. Cortou os pulsos superficialmente, mas também consumiu uma boa quantidade de digitalina. A conselho do Grão-Mestre Gelli, Sindona há muitos anos que andava por toda parte com uma dose letal de digitalina. Gelli aconselhara não apenas a Sindona, mas também a outros membros importantes da P2 a fazerem isso. Era a apólice de seguro da P2 contra um membro ser forçado a revelar os detalhes da organização.

Ainda é um mistério como a droga foi contrabândeadá para a prisão. Sindona aparentemente alegou que há anos tinha a droga escondida no forro de um terno. Mas contrabandear a digitalina para a sua prisão seria muito mais difícil do que levá-la para os aposentos papais em setembro de 1978.

A princípio, parecia que a morte de Sindona era inevitável, especialmente porque os médicos estavam desorientados. sem saber que droga ele ingerirá, mas a dose foi insuficiente. Concluindo finalmente que era digitalina, eles puderam aplicar o antídoto. Sindona teve uma recuperação total e a 13 de junho de 1980 foi condenado a 25 anos de prisão e multado em mais de 200 mil dólares. Carlo Bordoni, que fora a principal testemunha de acusação contra Sindona, recebeu uma sentença de sete anos de prisão e multa de 20 mil dólares. Posteriormente, Sindona foi considerado culpado de encenar o próprio sequestro e condenado a mais dois anos e meio de prisão. Anthony Caruso e Joseph Macaluso foram considerados culpados de conspirar com ele e ajudá-lo a violar a fiança. Ambos foram condenados a cinco anos de prisão.

Enquanto tudo isso acontecia em Nova York , os companheiros de Sindona na P2, Calvi e Gelli, continuavam os negócios como sempre, no outro lado do Atlântico. Por volta de 1979, Roberto Calvi procurava proteção por toda parte. Tinha um exército particular de oito guardacostas; guardas vigiavam Calvi, sua família, suas casas em Milão, Roma e Drezzo, 24 horas por dia; os Alfa Romeo eram blindados, com pneus à prova de balas. Essas manifestações dos medos pessoais do mestre dos ladrões estavam custando aos acionistas do Ambrosiano mais de um milhaõ de dólares por ano. Ninguém na Itália, incluindo o Presidente e o Primeiro-Ministro, era tão bem protegido. Calvi procurava também a proteção de partidos políticos de todas as tendências e cores — democratas-cristãos, socialistas, comunistas, todos eram ilegalmente beneficiados por Calvi. Ele contava com a proteção da P2 de Gelli e de seus associados da Máfia, mas ambas eram espadas de dois gumes, que podiam ser usadas contra ele.

As ações ilegalmente adquiridas do Ambrosiano foram escondidas em companhias panamenhas, além da jurisdição do Banco da Itália. Mas o temor de Calvi sempre fora a possibilidade de que as autoridades descobrissem esse aspecto de suas muitas atividades criminosas. Primeiro, usara a subsidiária de Nassau para encobrir as transações ilegais. Quando o Banco da Itália estivera próximo de provar todas as coisas de que se desconfiava, Calvi transferira o centro da fraude para a Nicarágua. Depois, em 1979, transferira para mais longe ainda, para o Peru, a atividade central que governava a fraude, O Banco Ambrosiano Andino, com sede em Lima, foi inaugurado a 11 de outubro de 1979. Pouco depois, a maioria dos empréstimos concedidos às companhias de fachada do Panamá e Liechtenstein foi transferida para o Peru. Essas pequenas companhias de fachada, muitas com um capital nominal de apenas 10 mil dólares, continuaram a proliferar e chegaram a ser 17. A maioria era possuída por uma empresa de Luxemburgo chamada Manic S.A., que por sua vez era possuída pelo Banco do Vaticano.

Se os bancos internacionais que faziam fila para emprestar milhões e milhões de dólares a Calvi, ao longo dos anos, tivessem feito uma investigação elementar, o banqueiro milanês seria denunciado muito antes de sofrer o seu destino final. E verdade que o relatório do Banco da Itália em 1978 sobre o Banco Ambrosiano foi altamente confidencial e não estava disponível a qualquer um. Essa ainda era a situação quando obtive uma cópia, em 1981. Se um escritor pode ter acesso a um relatório assim, então presumivelmente também podem o Midland, o Lloyds, o National Westminster ou qualquer outro dos 250 bancos espalhados pelo mundo que foram enganados por Calvi, que acabou roubando o nosso dinheiro. Esses banqueiros possuem uma reputação muito alardeada de sagacidade e astúcia, mas acreditaram piamente nas contas manipuladas que Calvi lhes apresentava. Aceitaram as declarações que ele fazia, de que os enormes empréstimos serviam para financiar as exportações italianas. Ninguém verificou a alegação? Não houve qualquer controle subseqüente? O fato de mais de 450 milhões de dólares serem emprestados por bancos internacionais, não a outro banco, mas a uma mera companhia holding, chamada Banco Ambrosiano Holdings, baseda em Luxemburgo e sem contar ostensivamente com o apoio de qualquer banco central, é uma condenação absoluta às práticas de empréstimo do mercado interbancário. Os homens que ocupam as diretorias desses bancos emprestadores deveriam prestar contas a seus acionistas e a todos os correntistas. Não é agradável refletir que alguns de nós, ingleses, financiaram os mísseis Exocet que a Argentina usou para matar tantos homens durante a guerra nas Falklands. Contudo, não resta a menor dúvida de que isso ocorreu. Calvi desviou milhões de dólares para Licio Gelli, que por sua vez usou uma parte desse dinheiro para comprar Exocets para a Argentina. Investir no futuro é uma ótima coisa, mas investir para garantir que muitos de seus compatriotas não tenham qualquer futuro é outra muito diferente. Com toda certeza, os homens que negociaram esses enormes empréstimos a Calvi alegariam que parecia um ótimo negócio na ocasião.

A indecência dessa transação em particular só pode ser avaliada quando se toma conhecimento que esse dinheiro foi desviado para Gelli e Ortolâni através de uma companhia panamenha que pertencia ao Vaticano.

A companhia em questão, Bellatrix, era controlada por Marcinkus no Banco do Vaticano, mas fora criada por uma trindade de membros da P2, Gelli, Ortolani e Bruno Tassan Din, diretor-executivo e estrategista financeiro do gigantesco grupo editorial Rizzoli. Esses maçons ordenharam a vaca Ambrosiano de 184 milhões de dólares. O capital da Bellatrix? Apenas 10 mil dólares. O empréstimo não restituível foi garantido no papel com um bloco considerável de ações da Rizzoli, que era possuída conjuntamente pela P2 e o Vaticano. O preço indicado para as ações da Rizzoli ultrapassava em muito o seu valor real.

A Astolfine, mais uma das companhias panamenhas possuidas pelo Vaticano, com um capital de 10 mil dólares, pôde assumir dividas de 486 milhões de dólares. Sua garantia? Um bloco enorme de ações do Banco Ambrosiano com um valor muito acima do mercado.

Com transações financeiras desse tipo, o capitalismo não precisa temer a destruição final pelo marxismo. Tudo o que os marxistas precisam fazer é cruzar os braços e esperar que o capitalismo se autodestrua automaticamente.

E compreensível que a ENI, um dos maiores conglomerados do mundo, começasse de repente a emprestar dinheiro a Calvi; é compreensível que essa gigantesca empresa petrolífera estatal passasse subitamente a funcionar como banco, emprestando dinheiro ao invés de tomar emprestado do Banco Ambrosiano Holdings, em Luxemburgo. Afinal , o presidente da ENI, Giorgio Mazzanti, e seu diretor financeiro, Leonardo di Donna, são membros da P2. Até agora, nenhum membro da P2 foi descoberto nos altos escalões dos muitos bancos internacionais que continuamente despejaram milhões de dólares nos bolsos de Calvi, entre 1978 e 1980.

Quando o homem comum em Londres, Paris, Nova York, Copenhagen, Tóquio, Ottawa, Sydney e Wellington protesta contra os juros altos cobrados por seu banco, deveria tirar o chapéu ao fantasma de Roberto Calvi e aos sempre esquivos Licio Gelli e Umberto Ortolani. Deveria também reservar um pensamento à Cidade do Vaticano. Quando pagamos os juros altos, estamos contribuindo para cobrir o prejuízo que eles causaram.

As provas de que o Vaticano possui essas misteriosas companhias panamenhas remontam a 1971, à época em que Calvi e Sindona puseram o Bispo Paul Marcinkus na diretoria do banco subsidiário em Nassau.

Em Milão, durante o ano de 1979, o Juiz Luca Mucci interrogou Calvi periodicamente. Calvi examinava atentamente os próprios sapatos, murmurava alguma coisa sobre a necessidade de preservar o sigilo bancário, discutia as possibilidades da Inter de Milão vencer a sua próxima partida de futebol e deixava o juiz atordoado.

Ao final de 1979, a descoberta financeira das companhias de fachada possuidas pelo Vaticano e controladas por Calvi era superior a 500 milhões de dólares. Felizmente, as fantasias bancárias intercósmicas de Sindona ainda não haviam se tornado uma realidade. Calvi não podia, contudo, controlar algumas situações financeiras. O dólar começou a subir em relação à lira. Os bens do Ambrosiano consistiam essencialmente de ações baseadas em liras. A manipulação tornou-se frenética. Era preciso um malabarismo incessante só para manter a fraude, especialmente quando os custos elevados incluíam 30 bilhões de liras para comprar o jornal veneziano Il Gazzettino, a fim de manter os democrata-cristãos felizes, e um ,,empréstimo'" de 20 bilhões de liras ao diário romano Paese Sera, para deixar os comunistas satisfeitos. Todos metiam as mãos e parecia sempre que as mãos maiores eram de Licio Gelli.

Em janeiro de 1980 foi inaugurado em Buenos Aires o Banco Ambrosiano de America del Sud. Não havia praticamente atividades bancárias, mas foi esse braço do império de Calvi que ajudou a financiar as compras argentinas de mísseis Exocet. Também proporcionou recursos para compras de armamentos por outros regimes sulamericanos.

Em julho de 1980, o Juiz Luca Mucci sentiu-se bastante impressionado com a investigação realizada pela Guardia di Finanza, a polícia financeira, na esteira do inquérito do Banco da Itália, em 1978, para ordenar que Calvi entregasse seu passaporte à justiça e o advertisse de que teria de enfrentar acusações criminais. Era um pequeno passo a frente, em nome da justiça.

Mas houve um passo para trás, poucos meses depois, quando Calvi recuperou seu passaporte, graças aos bons ofícios de Licio Gelli. O Grão-Mestre não parecia tão propenso a intervir quando Massimo Spada, que fora do Banco do Vaticano e nessa ocasião se tornara o presidente do conselho de administração do Banca Cattolica del Veneto, foi preso e acusado de cumplicidade criminosa com Il Crack Sindona. O seguinte a sentir as algemas, pelo menos momentaneamente, foi Luigi Mennini, ainda em atividade no Banco do Vaticano, sob acusações similares.

Enquanto o cerco em torno de Calvi se apertava, apesar dos ingentes esforços de Gelli para corromper a todos, as esperanças do banqueiro milanês de continuar a roubar quantias vultosas baseavam-se em grande parte em Marcinkus. As manobras se tornavam cada vez mais difíceis e Calvi não conseguiria mais esconder os seus crimes sem a ajuda constante do Banco do Vaticano. Essa ajuda sempre existira, mas no passado a pressão sobre o Vaticano era mínima; agora, com a prisão de Mennini, a pressão aumentou. Calvi começou a temer que, apesar de todo o dinheiro que canalizava para as mãos do Bispo Paul Marcinkus, podia estar se aproximando rapidamente o momento em que o homem do outro lado do Tibre retiraria seu apoio e o deixaria sozinho, numa situação altamente vulnerável,

No início de 1981, o Ministro do Tesouro Beniamino Andreatta, que fora promovido ao cargo em outubro anterior, concluiu que o Vaticano deveria retirar seu apoio imediatamente. Ele estudara o relatório de 1978 do Banco da Itália e sentia-se compelido a fazer uma tentativa de proteger a Igreja. Foi ao Vaticano e conversou longamente com o Ministro do Exterior, Cardeal Casaroli. Descreveu toda a situação. Recomendou que o Vaticano rompesse todos os vínculos com o Banco Ambrosiano antes que fosse tarde demais, O conselho foi ignorado. Marcinkus alegaria mais tarde que não teve conhecimento dessa reunião. De qualquer forma, se estivesse a par de todos os fatos, o devoto católico Andreatta saberia que era impossível ao Vaticano romper os vínculos. O Vaticano possuía de fato o Banco Ambrosiano. Através da rede de companhias sediadas no Panamá e Liechtenstein, adquirira o controle de mais de 16 por cento do Banco Ambrosiano. Com o resto das ações do banco bastante disperso entre pequenos acionistas, o Vaticano tinha o controle acionário.

Ao meio-dia de 2 de março de 1981, o serviço de imprensa do Vaticano divulgou um documento que deixou muita gente perplexa. Apresentado sem qualquer explicação, lembrava a todos os católicos que as leis canônicas abrangiam os maçons e ressaltava que o atual código "proíbe aos católicos, sob pena de excomunhão, ingressarem em associações maçônicas ou similares". Ninguém entendeu o motivo para a divulgação do documento naquele momento. Os católicos estavam sujeitos à excomunhão automática se se tornassem maçons desde 1738. Por que lembrá-los no início de março de 1981? A resposta não demorou muito a surgir e indica que a rede de informações da Igreja é pelo menos tão eficiente quanto a de Licio Gelli. A declaração do Vaticano não explicava como todos os bons católicos que figuravam nas listas de associados da P2 podiam ter seus nomes suprimidos dos registros antes que as autoridades italianas os descobrissem. Para o membro da P2 Calvi, esse problema aparentemente insuperável teria conseqüências desastrosas.

Quando a denúncia pública finalmente chegou, foi ironicamente através da associação de Calvi com seu protetor, Licio Gelli. Em 1981, os magistrados italianos ainda tentavam esclarecer os fatos sobre o auto-sequestro de Sindona. A 17 de março de 1981, a policia deu uma batida na mansão de Gelli em Arezzo e em seu escritório na fábrica têxtil Giole. Procurava provas do envolvimento de Gelli na viagem de surpresa de Sindona à Itália. O que encontrou foi uma caixa de Pandora de escândalos, Havia no cofre de Gelli uma lista de 962 membros da P2. Também encontraram dossiês e relatórios secretos do governo.

A lista de membros da P2 era um verdadeiro "Quem é Quem" da Itália, As forças armadas estavam muito bem representadas, com mais de 50 generais e almirantes. O governo no poder estava presente com dois ministros. Havia industriais, jornalistas (inclusive o editor do Corriere della Sera e diversos elementos importantes de sua equipe), 36 parlamentares, artistas famosos, professores e policiais. Era um Estado dentro de um Estado. Muitos disseram que Gelli planejava assumir o poder na Itália. Pois estavam enganados. Ele já tinha o poder. Mas não havia qualquer sinal do Grão-Mestre. Os preparativos para a batida policial foram ultra-secretos, o que significava o seguinte: avisem apenas aos agentes policiais de absoluta confiança e a Licio Gelli. Ele fugira para a América do Sul.

O escândalo subseqüente derrubou o governo italiano e proporcionou um impulso considerável à investigação do juiz de Milão sobre Calvi. O Juiz Mucci fora substituido por Gerardo d’Ambrosio. Já se haviam passado dois anos desde o assassinato do Juiz Emilio Alessandrini... dois anos de protelações. Agora, com um novo juiz presidindo o inquérito e com a ajuda dos documentos comprometedores encontrados no cofre de Gelli, em apenas dois meses Calvi foi preso e posto numa cela em Lodi.

Era o momento de todos os bons amigos ajudarem o homem que tantas vezes os financiara. Nas semanas seguintes a prisão de Calvi Bettino Craxi, o líder do Partido Socialista, e Flaminio Piccoli, o presidente do Partido Democrata Cristão, levantaram-se no Parlamento para fazer comentários favoráveis sobre Calvi e seu banco. O Vaticano permaneceu em silêncio. Toda a sua atenção estava focalizada numa situação muito mais grave. Sete dias antes da prisão de Calvi, o Papa João Paulo II tivera o seu encontro quase fatal, na Praça de São Pedro., com Mehmet Ali Agca.

Enquanto uma grande parte do mundo orava para que o Papa sobrevivesse, Roberto Calvi em sua cela de prisão estava totalmente absorvido no que lhe parecia ser um problema infinitamente mais importante: a sua própria sobrevivência. Através de sua família, começou a pressionar Marcinkus para admitir publicamente que, ao longo dos anos, os dois haviam trabalhado juntos.

Depois de muitos telefonemas inúteis, o filho de Calvi, Carlo, conseguiu finalmente falar com Marcinkus. Argumentou com o bispo que a grave situação do pai ficaria consideravelmente atenuada se o Vaticano reconhecesse seu envolvimento. As transações haviam sido canalizadas através do Banca del Gottardo, em Lugano, pertencente a Calvi, mas que não podia revelar a verdade por causa dos rigorosos regulamentos bancários suíços. Mas a Banco do Vaticano não tinha de obedecer a ninguém. Podia fornecer voluntariamente as informações. Marcinkus, no entanto, não tinha a menor intenção de assumir publicamente a responsabilidade. E disse ao filho de Calvi:

— Se fizermos isso, não será apenas a imagem do IOR e do Vaticano que sofrerá. Vocês também perderão, pois nossos problemas são igualmente seus. E eram mesmo. Os dois bancos estavam indissoluvelmente ligados. Há anos que isso acontecia, O Bispo Marcinkus se encontrava numa situação terrível. Se revelasse a verdade, atrairia sobre o Vaticano a ira da Itália. A alternativa era deixar Calvi sem qualquer apoio, na esperança de que o envolvimento profundo e continuado do Vaticano permanecesse em segredo e tudo voltasse a ser um problema de negócios, como sempre, depois do julgamento de Calvi. O Bispo Marcinkus adotou a segunda opção. Essa decisão indubitavelmente se baseou no fato de que, entre todos os crimes cometidos, as acusações que Calvi enfrentava agora envolviam apenas duas de suas transações ilegais, quando vendera a si mesmos ações que já possuia, na Toro e Credito Varesino, a preços altamente inflacionados, Isso envolvera a exportação ilegal de moeda para fora da Itália e era por esse crime que os magistrados de Milão esperavam obter a condenação de Calvi. Marcinkus raciocionou que o jogo poderia continuar se todos se mantivessem calmos e controlados, Calvi, na prisão de Lodi, não se deixou sensibilizar pelas mensagens de seu cúmplice no Vaticano, Os banqueiros internacionais sacudiam a cabeça em incredulidade, enquanto ele continuava a dirigir o Banco Ambrosiano, do interior da prisão.

A 7 de julho, o governo italiano acusou Michele Sindona de ordenar o assassinato de Giorgio Ambrosoli, A reação de Calvi a essa notícia foi particularmente interessante. Ele tentou cometer suicídio na noite seguinte. Engoliu uma quantidade grande de barbitúricos e cortou os pulsos. Explicou mais tarde o motivo:

— Foi por causa de um desespero lúcido. Porque não havia qualquer vestígio de justiça em tudo o que se fazia contra mim. E não estou me referindo ao julgamento.

Se ele quisesse realmente acabar com a própria vida, é claro, bastaria obter a quantidade de digitalina recomendada que Gelli contrabandeou para a prisão. Os magistrados encarregados do julgamento não se mostraram impressionados.

A 20 de julho, Roberto Calvi foi condenado a quatro anos de prisão e uma multa de 16 bilhões de liras. Seus advogados entraram imediatamente com um recurso e ele foi solto sob fiança. Uma semana depois, o conselho de administração do Ambrosiano reconduziu-o por unanimidade à presidência do banco e ofereceu-lhe uma ovação de pé. Os banqueiros internacionais tornaram a sacudir a cabeça em perplexidade. Como Marcinkus previra, os negócios continuariam como sempre. A P2 ainda era um poder. O Banco da Itália permitiu o retorno de Calvi. O governo italiano não tomou qualquer iniciativa para acabar com o espetáculo extraordinário de um homem condenado por crimes bancários voltar a dirigir um dos maiores bancos do país.

Houve um banqueiro que protestou. O gerente-geral do Ambrosiano, Roberto Rosone, pediu ao Banco da Itália que determinasse o afastamento de Calvi e sua substituição pelo presidente anterior, Ruggiero Mozzana. O Banco da Itália, ainda preocupado com o poder da P2 e a força política que Calvi comprara ao longo dos anos, recusouse a interferir.

A segunda ameaça ao império bancário de Gelli veio do Peru e Nicarágua. Pára anulá-la, Calvi recrutou a ajuda de Marcinkus. O bispo recusara-se a dar seu apoio público a Calvi por ocasião do julgamento, mas estava agora disposto a prestar-lhe toda assistência para garantir que a fraude criminosa perpetrada por ambos continuasse em segredo.

Durante o julgamento de Calvi, o Vaticano anunciou que o Papa João Paulo II nomeara uma comissão de 15 cardeais para examinar as finanças da Igreja Católica. A função da comissão era recomendar melhorias que aumentassem a receita do Vaticano.

O Bispo Paul Marcinkus não integrava a comissão, mas achava que, como presidente do Banco do Vaticano, podia assim mesmo oferecer uma grande contribuição ao problema aflitivo das finanças do Vaticano. Manteve diversos encontros secretos com o condenado Calvi, que tiveram como resultado o Banco do Vaticano admitir oficialmente o aumento de quase um bilhão de dólares em suas dívidas pendentes. Essa era a quantia devida aos bancos de Calvi no Peru e Nicarágua, em decorrência dos empréstimos de centenas de milhões de dólares à Bellatrix, Astolfine, etc,, por instruções de Calvi. Peru e Nicarágua, embora subsidiários de Calvi, estavam finalmente adquirindo independência. As garantias para esses vultosos empréstimos eram insignificantes.

Peru e Nicarágua queriam maior cobertura. Quem pagaria a conta no caso de uma omissão? Quem exatamente possuía as misteriosas companhias panamenhas? Quem emprestara tanto dinheiro com tão pouca garantia? Os homens do Peru estavam particularmente preocupados, tendo emprestado cerca de 900 milhões de dólares.

A esta altura, em agosto de 1981, Calvi e Marcinkus cometeram a sua maior fraude. Os documentos tornaram-se conhecidos como ,,cartas de conforto". Mas não oferecem conforto algum a qualquer católico, nenhuma garantia a quem acreditava na integridade moral do Vaticano. As cartas foram escritas em papel timbrado do Instituto per de Opere di Religione, Cidade do Vaticano, sendo datadas de 1º de setembro de 1981. Estavam endereçadas ao Banco Ambrosiano Andino, em Lima, Peru, e ao Banco Comercial do Grupo Ambrosiano, na Nicarágua. Por determinação do Bispo Paul Marcinkus, estavam assinadas por Luigi Mennini e Pellegrino de Strobel. Diziam o seguinte:

Prezados Senhores:

Confirmamos por esta carta que controlamos, direta ou indiretamente, as seguintes empresas:

Manic S. A. — Luxemburgo
Astolfine S. A. — Panamá
Nordeurop Establishment - Liechtenstein
UTC — United Trading Corporation — Panamá
Erin S. A. — Panamá
Bellatrix S.A. — Panamá
Belrose S.A. — Panamá
Starfield S.A. — Panamá

Confirmamos também que temos conhecimento das dívidas dessas empresas da data de 10 de junho de 1981, conforme o extrato de contas em anexo.

O extrato de contas mostrava que as dividas somente com a subsidiária do Peru se elevavam a 907 milhões de dólares.

Os diretores na Nicarágua e Peru relaxaram. Possuíam agora uma admissão objetiva de que as dívidas enormes eram de responsabilidade do Banco do Vaticano, A Santa Igreja Católica garantia, Nenhum banqueiro poderia desejar uma garantia melhor. Só havia um pequeno problema. Os diretores no Peru e Nicarágua conheciam apenas a metade da história, Havia outra carta, de Roberto Calvi para o Banco do Vaticano, datada de 27 de agosto de 1981. Chegou às mãos de Marcinkus antes que ele reconhecesse que o Banco do Vaticano era responsável por dívidas no valor de um bilhão de dólares. A carta de Calvi continha uma solicitação formal para as cartas de conforto em que o Vaticano admitiria possuir as companhias no Luxemburgo, Liechtenstein e Panamá. Calvi assegurava que essa admissão do Vaticano "não acarretaria responsabilidades para o IOR", Terminava com um parágrafo confirmando que, não importava o que acontecesse, o Banco do Vaticano não sofreria futuros danos ou prejuízos". Assim, o Banco do Vaticano ficava secretamente isento das dívidas que estava prestes a admitir.

Para que a carta secreta de Calvi a Marcinkus tivesse alguma validade legal, era necessário que sua existência e conteúdo preciso fossem revelados aos diretores no Peru e Nicarágua. Além disso, os acordos entre Calvi e Marcinkus teriam de ser aprovados pela maioria dos diretores em Milão. Mais ainda: para que o acordo fosse legal, era essencial que o conteúdo das duas cartas fosse comunicado a todos os acionistas do Banco Ambrosiano, inclusive os muitos pequenos acionistas na área de Milão.

As duas cartas e os acordos entre Calvi e Marcinkus constituem um caso inequívoco de fraude criminosa cometida pelos dois. O fato de tudo isso ter transpirado no terceiro aniversário da eleição de Albino Luciani para o Pontificado aumenta o escândalo. Luciani, um homem empenhado em eliminar a corrupção no Vaticano, fora sucedido pelo Papa João Paulo II, um homem que apoiava plenamente o Bispo Paul Marcinkus.

Essa desfaçatez vergonhosa aumentou a 28 de setembro de 1981, o terceiro aniversário da morte de Luciani, quando Marcinkus foi promovido pelo Papa. Foi anunciado que ele fora designado PróPresidente da Comissão Pontifical pará o Estado da Cidade do Vaticano. Ele se tornava assim, virtualmente, o Governador da Cidade do Vaticano. Ainda mantinha o seu cargo à frente do Banco do Vaticano e o novo posto lhe garantia a elevação automática a arcebispo.

Graças a suas origens lituanas, apoio constante em termos financeiros às necessidades da Polônia e proximidade com o Papa, em decorrência de seu papel como guarda-costas pessoal e supervisor de toda a segurança nas viagens ao exterior, Marcinkus descobrira na pessoa de Karol Wojtyla o mais poderoso protetor que um empregado do Vaticano poderia ter. Sindona, Calvi e os outros iguais são, na opinião do Vaticano, homens iníquos que enganaram sacerdotes ingênuos e confiantes. Ou Marcinkus enganou, mentiu e escondeu a verdade do Papa João Paulo II desde outubro de 1978, ou o atual Papa também é culpado.

Enquanto Karol Wojtyla demonstra um carisma extraordinário e diz ao mundo que um homem que olha para a esposa com desejo pode muito bem estar cometendo adultério no coração, Marcinkus continua a seduzir muitos dos banqueiros do mundo. Enquanto o Papa de Cracóvia demonstra sua preocupação em manter o status quo católico com sua declaração que os católicos divorciados que tornam a casar só podem receber o sacramento se se abstiverem totalmente das relações sexuais, os banqueiros do Papa não se mostram tão exigentes com as pessoas com quem se consorciam.

Nos anos que transcorreram desde a eleição de Wojtyla, Licio Gelli, o incrédulo, continuou a demonstrar seu poder e carisma. Ninguém o chamaria de representante de Deus, mas muitos continuariam a pular quando o mestre dos títeres puxasse os seus cordões.

Do santuário de sua casa em Montevidéu, a capital do Uruguai, Licio Gelli permaneceu em contato com Calvi. Ainda manobrando nos bastidores, ainda extorquindo enormes quantias do banqueiro italiano, telefonava com freqüência quando Calvi se achava em sua mansão em Drezzo. Sua mulher, Clara, e suá filha, Anna, confirmaram que o número do telefone só era conhecido de Gelli e de Umberto Ortolani, um canal direto de emergência da P2. Gelli jamais anunciava seu nome quando alguém da família de Calvi atendia. Era sempre o codinome especial: Luciani.

Por que o Grão-Mestre da P2 assumia o nome de Albino Luciani... um nome que usava em seus contatos com Calvi desde 1978? Seria um lembrete constante de um determinado acontecimento? Uma ameaça constante de que o mestre da chantagem poderia revelar os detalhes desse acontecimento, a menos que o dinheiro continuasse a ser despejado em suas contas bancárias? Não resta a menor dúvida de que o dinheiro continuou a fluir para Gelli, Até o final, Calvi ainda pagava a Gelli. Com o Grão-Mestre em desgraça e escondido na América do Sul, procurado pelas autoridades italianas por incontáveis acusações, a proteção que podia proporcionar a Calvi era bastante limitada. Por que então os milhões de dólares que a simples menção do nome "Luciani" despejava nos bolsos de Gelli? Calvi, pessoalmente, estimou que as fortunas de Gelli e Ortolani excediam os 500 milhões de dólares cada uma.

Meses antes do escândalo da P2 irromper, Calvi tentou claramente cortar todos os seus vínculos com Gelli, quando o Grão-Mestre ainda se encontrava na Itália. Por que evitava os telefonemas? Por que mandava a família dizer que se achava doente ou saíra? Segundo os relatos da família, Gelli, o insaciável colecionador de segredos e informações, incutia pavor a Roberto Calvi. Qual era o supremo segredo que Gelli conhecia que lançava Calvi ao terror, trêmulo e suado, à simples menção de seu nome? O poder de Gelli sobre Calvi continuou até o fim da vida dobbanqueiro. Quando ele assoviava, Calvi dançava. Ao final de 1981, Carlo de Benedetti, diretor-executivo da Olivetti, tornou-se vicepresidente do Banco Ambrosiano, a convite de Calvi, Proporcionou à imagem tão afetada do banco uma saudável injeção de respeitabilidade, No Uruguai, Gelli e Ortolani ficaram alarmados ao serem informados Um vice-presidente honesto não combinava com seus planos de continuar a saquear o Banco Ambrosiano, "Luciani" pegou o telefone e ligou para a linha particular da mansão em Drezzo. Depois de persuadir Benedetti a ingressar no banco, Calvi depois tornou praticamente impossível a ação do homem da Olivetti,

— Você deve tomar o maior cuidado — disse ele a Benedetti — A P2 está preparando um dossiê sobre você. Aconselho-o a tomar cuidado porque sei como são essas coisas,

Pouco mais de um mês depois de assumir o cargo, Benedetti foi forçado a renunciar.

Uma longa carta de reclamação, com apêndices detalhados, foi enviada por um grupo de acionistas milaneses do Banco Ambrosiano a João Paulo II. Datada de 12 de janeiro de 1982, a carta era um ataque contundente ao banco. Relatava as ligações entre Marcinkus, Calvi, Gelli e Ortolani, Os acionistas estavam particularmente consternados pelo rompimento da aliança entre o Ambrosiano e o Banco do Vaticano. Os aflitos católicos de Milão comentaram:

O IOR não é apenas um acionista do Banco Ambrosiano É um associado e parceiro de Roberto Calvi. As ações judiciais, em número cada vez maior, revelam que Calvi é hoje uma das principais ligações entre o setor mais degenerado da maçonaria (a P2) e os círculos da Máfia, como o herdeiro de Sindona, Isso se tornou possível com o envolvimento de pessoas generosamente nutridas pelo Vaticano. Uma delas é Ortolani, que circula entre o Vaticano e poderosos grupos do submundo internacional.

Ser associado de Calvi significa ser também associado a Gelli e Ortolani, pois ambos o orientam e influenciam decisivamente. Portanto, quer goste ou não, o Vaticano é também um cúmplice ativo de Gelli e Ortolani, através de sua associação com Roberto Calvi.

A carta terminava com um apelo de ajuda e orientação ao Papa João Paulo II. Embora o Papa fale muitas línguas, inclusive italiano, os milaneses acharam melhor traduzi-la para o polonês e providenciaram para que nem a Cúria em geral ou o substituto de Villot, Casaroli evitassem que a carta chegasse até o Papa. Os autores não receberam resposta, sequer uma notificação de que a carta foi recebida. Talvez Sua Santidade estivesse muito ocupado com uma homília sobre a caridade ser um dos maiores dons.

Calvi tomou conhecimento da carta e também que contara com a aprovação de seu gerente-geral e vice-presidente, Roberto Rosone. Ele conversou com seu amigo íntimo e companheiro da P2 Flávio Carboni sobre a ameaça representada pelas tentativas de Rosone de limpar o banco.

A extensão dos amigos e contatos de Carboni era a maior possível. Incluía homens como os dois chefões do submundo do crime em Roma, Danilo Abbruciati e Ernesto Diotavelli.

Na manhã de 27 de abril de 1982, Rosone deixou seu apartamento poucos minutos antes das 8:00. Felizmente para Rosone, ele por acaso residia no prédio por cima de uma agência do Ambrosiano, protegida por guardas armados 24 horas por dia, como acontece com todos os bancos italianos. Quando Rosone saiu para a rua, um homem aproximou-se e começou a atirar. Ferido nas pernas, Rosone caiu. Os guardas do banco responderam ao fogo. Momentos depois, o atacante também estava estendido na calçada. Morto. Seu nome era Danilo Abbruciati.

No dia seguinte à tentativa de assassinato de Rosone, 28 de abril, Flavio Carboni pagou 530 mil dólares ao chefão sobrevivente do submundo de Roma. O trabalho fracassara, mas Calvi era um homem que honrava seus compromissos... com o dinheiro dos outros, é claro.

Calvi, que com toda certeza encomendara o assassinato de seu próprio vice-presidente, foi postar-se o mais depressa possível à cabeceira de seu colega, levando inclusive um ramo de flores.

— Madonna! Que mundo de loucos! Eles querem nos assustar, Roberto, a fim de se apropriarem de um grupo que vale 20 trilhões de liras.

O cerco a Calvi se apertou ainda mais em maio de 1982. Consob, a agência italiana que controla e regulamenta o mercado de valores mobiliários, obrigou-o a relacionar publicamente suas ações na Bolsa de Valores de Milão, Essa relação implicaria uma auditoria independente dos liv'ros do banco.

Clara, a mulher de Roberto Calvi, declarou sob juramento que no inicio deste ano, numa audiência particular com o Papa João Paulo Ii, Calvi discutira o problema da dívida de um bilhão de dólares assumida pelo Vaticano em decorrência das atividades de Calvi, Gelli, Ortolani e Marcinkus, O Papa fez uma promessa a Calvi:

— Se puder livrar o Vaticano dessa divida, assumirá o controle total da recuperação de nossas finanças.

Se essa oferta foi realmente apresentada, então Sua Santidade estava obviamente querendo mais da mesma coisa. Seriam os negócios como de hábito para todo o sempre, sem qualquer Amém.

O Papa e Calvi eram apenas dois entre os muitos que começaram a demonstrar uma profunda preocupação com a fortuna em dólares despejada nas companhias no exterior possuidas pelo Vaticano. A 31 de maio de 1982, o Banco da Itália escreveu para Calvi e sua diretoria em Milão. Exigia que a diretoria apresentasse um relato completo de todos os empréstimos externos do grupo liderado pelo Banco Ambrosiano. A diretoria, numa demonstração lamentavelmente tardia de resistência a Gelli, votou 11 à 3 em favor do atendimento do pedido do banco central italiano.

Licio Gelli que voltara secretamente da Argentina para a Europa a 10 de maio, estava apresentando outra exigência a Calvi, Gelli se encontrava no mercado em busca de mais mísseis Exocet para ajudar seu país adotivo na guerra das Falklands com a Grã-Bretanha. Como a maior parte dos bens argentinos no exterior estavam congelados e havia um embargo oficial às transações com armamentos, Gelli foi obrigado a recorrer aos operadores do mercado negro, que demonstraram algum ceticismo sobre a capacidade de Gelli em pagar o que oferecia pelos mísseis mortíferos. Ele oferecia quatro milhões de dólares por míssil, com uma encomenda mínima de 20. A seis vezes mais que o preço oficial, hav'ia um interesse considerável pela encomenda, desde que Gelli provasse ser capaz de levantar o dinheiro necessário. Ele era bem conhecido dos traficantes de armamentos, como um homem que no passado comprara equipamento de radar, aviões, canhões, tanques e os Exocets originais. por conta da Argentina. Agora, ele precisava de pelo menos 80 milhões de dólares e a necessidade era urgente. A guerra nas Falklands se achava na balança.

Calvi, já fazendo malabarismos com as necessidades do Papa João Paulo II, sua clientela da Máfia, seus irados acionistas. os vigias da Bolsa de Valores de Milão, uma diretoria recalcitrante e um assassino incompetente, que conseguira apenas se matar, tornou a se defrontar com Gelli com a mão estendida.

Calvi só via dois caminhos para a sobrevivência. O Vaticano tinha de ajudá-lo a preencher o buraco sempre crescente que aparecia no banco ou Gelli devia mais uma vez demonstrar que ainda controlava a estrutura de poder italiana e salvar da ruína o pagador da P2.

Calvi discutiu as opções com Flávio Carboni, que continuava secretamente a gravar suas conversas.

Pelos comentários de Calvi, é evidente que ele considerava que o Banco do Vaticano devia preencher o enorme buraco do Banco Ambrosiano, quanto menos não fosse por ser o principal beneficiário dos milhões desaparecidos e também por haver a obrigação legal. Calvi disse:

O Vaticano deve honrar seus compromissos, vendendo parte da riqueza controlada pelo IOR. E um patrimônio fabuloso. Calculo que se eleva a 10 bilhões de dólares. Para ajudar o Ambrosiano, o IOR pode começar por vender em parcelas de um bilhão.

Se algum leigo no mundo conhecia a riqueza do Vaticano, só podia ser Roberto Calvi, Ele estava a par praticamente de todos os seus segredos financeiros. Há mais de uma década era o homem a quem o Vaticano recorria em questões financeiras. Já registrei anteriormente que, na ocasião em que Albino Luciani foi eleito Papa, em 1978, a riqueza controlada pelas duas seções da APSA e pelo Banco do Vaticano andava no mínimo pela casa dos três bilhões de dólares. Agora, no inicio de 1982, Roberto Calvi, sempre moderado, situa o patrimônio do IOR somente em 10 bilhões de dólares.

É evidente que, à medida que progredia o ano de 1982, o homem erroneamente conhecido pelo mundo como "o banqueiro de Deus" enfrentava incontáveis problemas. A maioria fora criada por ele próprio. ""O Ladrão de Deus" seria um título mais apropriado para esse homem que roubou milhões por conta da P2 e do Vaticano. Desde o final dos anos 60 que só há um homem que merece o apelido de "Banqueiro de Deus"... e esse homem homem é o Arcebispo Paul Marcinkus.

Apesar da profusão de problemas terríveis com que se defrontava na ocasião, problemas que eu só conhecia em parte, Roberto Calvi mostrou-se inicialmente calmo quando o entrevistei pelo telefone, n noite de 9 de junho de 1982. A entrevista fora combinada por um intermediário em quem Calvi confiava. Estendia-se por uma ampla variedade de assuntos. Através do intérprete, comecei a interroga Calvi sobre a transação do Banca Cattolica dei Veneto. Ele fora informado que eu escrevia um livro sobre o Vaticano. Quando fale sobre o banco de Veneza, ele perguntou qual seria o tema central dc livro, E respondi:

— É um livro sobre a vida do Papa João Paulo I... O Papa Luciani.

O comportamento de Calvi sofreu subitamente uma mudança total, A calma e o controle se desvaneceram sendo substituidos por uma torrente de comentários em voz muito alta. Ele estava obviamente nervoso e emocionado. O intérprete começou a traduzir a torrente de palavras para mim:

— Quem o mandou me perseguir? Quem lhe disse para fazer isso? Sempre pago. Sempre. Como conheceu Gelli? O que você quer? Quanto terei de pagar?

Declarei que jamais me encontrara com Gelli, não o conhecia pessoalmente Calvi fez apenas uma breve pausa para me escutar, antes de concluir bruscamente a conversa:

— Quem quer que você seja, não vai escrever esse livro. Não posso lhe contar coisa alguma. Não torne a me telefonar Nunca mais.

Oito dias depois, o corpo de Roberto Calvi foi encontrado a pender de uma corda sob a Ponte Blackfriars, em Londres, a poucos quilômetros de minha casa.

Poucos dias depois, foi descoberto um rombo no Banco Ambrosia no de Milão, Um rombo de 1 bilhão e 300 milhões de dólares.

O objetivo central da minha investigação foi a morte de outro homem. Albino Luciani, Villot, Calvi, Marcinkus, Sindona, Gelli, Cody: um desses homens estava no próprio centro da conspiração que resultou no assassinato de Luciani. Antes de chegar a seu veredicto, leitor, vamos fazer uma análise final desses homens.

O Cardeal Jean Villot, a quem Albino Luciani estava determinado a afastar da Secretaria de Estado, manteve o posto com a eleição de Karol Wojtyla. Também manteve os outros cargos, inclusive no comando da APSA. E foi a APSA que assumiu o papel de noiva no casamento entre Sindona e o Vaticano, O Bispo Marcinkus tem sido freqüentemente acusado de levar Sindona para o interior da Cidade do Vaticano, Mas ele não tem qualquer responsabilidade por esse ato. A decisão foi do Papa Paulo, Monsenhor Macchi, Umberto Ortolani e os homens da APSA, inclusive o seu diretor, Cardeal Villot, como não podia deixar de ser. Se Luciani vivesse, o afastamento de Villot da Secretaria de Estado implicaria automaticamente a sua remoção da APSA. É essa organização, não o Banco do Vaticano de Marcinkus, que é reconhecida como um banco central pelo Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e Banco de Compensação Internacional, com sede na Basiléia, E uma organização que tem muito a esconder, desde o seu profundo envolvimento com Sindona.

Por ocasião da eleição de Luciani, Villot não tinha muito tempo a mais para viver. Era um homem cansado, fraco, que em setembro de 1978 já sabia que estava gravemente doente. Morreu menos de seis meses depois de Luciani, a 9 de março de 1979. Sua morte, segundo o Vaticano, foi causada por "broncopneumonia com complicações, colapso circulatório, insuficiência renal e hepática". Sabia-se que ele queria se aposentar, mas também desejava escolher seu sucessor.., e o homem que tinha em mente não era Benelli. Se Benelli descobrisse o escândalo da APSA, certamente alertaria o novo Papa. Isso e mais as outras mudanças que Villot sabia que Luciani estava prestes a fazer criavam um clima propicio. Se Villot estava no centro de alguma conspiração para assassinar Luciani, o motivo seria o futuro da Igreja. De acordo com os depoimentos de três testemunhas do Vaticano, Villot considerava as mudanças prestes a serem executadas ""uma traição à vontade de Paulo, um triunfo da restauração". Temia que levassem a Igreja de volta ao pré-Concílio Vaticano Segundo. O fato de seus receios serem nulos não é relevante. Villot os sentia e sentia profundamente. Também se opunha encarniçadamente ao plano de Luciani de modificar a posição da Igreja Católica em relação ao controle da natalidade, passando a permitir que os católicos do mundo inteiro usassem a pílula anticoncepcional. Com Paulo VI, o criador da Humanae Vitae, recentemente morto, Villot observava de perto a destruição de um édito que muitas vezes apoiara publicamente, Villot não poderia concluir que a Igreja estaria melhor servida com a morte de Luciani?

Seu comportamento depois da morte do Papa foi o de um homem que sentia responsabilidade por essa morte ou sofria de uma grave crise de consciência, Destruiu provas. Mentiu. impôs um voto de silêncio aos membros do serviço papal. Precipitou o processo de embalsamamento antes que a maioria dos cardeais estivesse em Roma, Não consultou os colegas. Se Villot é inocente em relação à morte de Luciani, pelo menos ajudou materialmente quem quer que tenha sido o responsável. Suas ações e declarações garantiram que alguém escapasse impune a um assassinato. Ele próprio tinha um motivo; e também teve a oportunidade. Além disso, por sua posição de Camerlengo, ele tinha virtualmente o controle total dos acontecimentos imediatamente subseqüentes... ou não-acontecimentos, como no caso de sua recusa em permitir uma autópsia oficial,

É bem possível que as diversas ações ilegais cometidas por Villot depois da descoberta do corpo de Albino Luciani fossem motivadas pelo que considerava o fator supremo, o bem maior da Igreja Católica, s encontrou provas óbvias de assassinato, se ficou convencido de que Papai não tivera uma morte natural. Muitos alegariam que suas açõe subseqüentes visavam a proteger a Igreja. Mesmo assim, eu ainda insistiria que moralmente ele pareceria estar precisando de ajuda.

O Cardeal John Cody, outro dos homens que Luciani estava determinado a afastar do cargo, manteve a sua posição como Cardeal de Chicago com a eleição do sucessor de Albino Luciani, Karol Wojtyla. Em seu livro The Making of The Popes (Como se Fazem os Papas), o Padre Andrew Greeley comenta:

O Cardeal Cody aproveitou suas contribuições passadas à Polônia (e também algumas contribuições novas, segundo fontes de Chicago), as dimensões da população polonesa de Chicago e sua suposta amizade com o Papa para desfechar uma vitoriosa contra-ofensiva sobre seus inimigos. João Paulo II, segundo o que disse o cardeal a visitantes no inicio de dezembro (1978), ofereceu-lhe um cargo em Roma, que ele recusou, O cardeal insinuou ainda que o Papa considerava que a questão estava encerrada,

Minhas pesquisas confirmam tudo isso. Além do mais, as contribuições financeiras que Cody entregou posteriormente ao Vaticano e que foram secretamente canalízadas para a Polônia eram parte de uma operação muito maior, promovida por Marcinkus e Calvi, por conta do Papa João Paulo II.

O Cardeal Cody continuou a ser um generoso distribuidor de presentes. O Papa João Paulo II visitou os Estados Unidos em outubro de 1979. No Aeroporto O’Hare, em Chicago, foi recebido pelo Cardeal Cody, que pôs em suas mãos uma pequena caixa de madeira, dizendo que era um presente pessoal", Havia 50 mil dólares na caixa. Ninguém negaria ao cardeal o direito de dar um presente ao Papa, mas a dúvida que o ato levanta, além da grosseria óbvia, é simples: de onde vinha o dinheiro? Seria dos fundos diocesanos? Seria de fundos controlados exclusivamente por Cody? De que fonte exatamente saíram os misteriosos 50 mil dólares?

Menos de um ano depois desse incidente, o governo dos Estados Unidos iniciou uma investigação oficial, embora secreta, sobre Cody. Promotores estudaram as acusações de que Cody desviara ilegalmente um milhão de dólares de fundos da Igreja para sua velha amiga Helen Wilson, Também começaram a investigar diversas outras acusações, inclusive a de que ele misturava seus recursos pessoais com os da Igreja, que pagara um salário secreto a Helen Wilson durante muitos anos, que lhe concedera benefícios de pensão indevidamente e que lhe comprara uma casa de 90 mil dólares na Flórida. O fato de tudo isso ter sido feito supostamente com recursos da Igreja, que são isentos de impostos, tornava o caso da alçada do governo federal. Tendo em vista as implicações políticas altamente delicadas de tal investigação, o fato do governo iniciá-la constitui por si só uma indicação da força dos indícios. A investigação foi iniciada em setembro de 1980.

Em janeiro de 1981, um grande júri federal emitiu diversas intimações a Cody, exigindo que ele apresentasse os seus registros financeiros. Se Cody era puro como a neve, seu comportamento subsequente foi inexplicável. Somente o cardeal, seus advogados e um ou dois confidentes muito íntimos tinham conhecimento das investigações e das intimações. Cody ocultou os acontecimentos da congregação de Chicago, do núncio apostólico em Washington e do Vaticano. Também se recusou a atender aos pedidos do governo para apresentar os registros financeiros diocesanos. Para um cidadão comum, a recusa em cooperar acarretaria a prisão. Mas Cody, que um dia declarou "não dirijo o país, mas mando em Chicago", demonstrou que não se gabava à toa.

Em setembro de 1981, quando o Chicago Sun Times divulgou a história, Cody ainda não atendera às intimações. O Sun Times vinha conduzindo a sua própria investigação sobre o cardeal há quase dois anos. Apresentou a seus leitores uma longa relação de crimes alarmantes, supostamente cometidos por Cody.

O cardeal recusou-se a apresentar uma só prova que refutasse as muitas acusações. Em vez disso, tentou concentrar por trás dele os dois e meio milhões de católicos da cidade, ao declarar:

— Não é um ataque contra mim, mas um ataque contra toda a Igreja.

Muitos reagiram favoravelmente a essa declaração totalmente capciosa. Muitos não o fizeram. Os danos enormes à imagem e reputação da Igreja Católica que Albino Luciani previra se tornavam agora uma realidade. A cidade estava dividida. Inicialmente, é claro que a maioria apoiou Cody. Mas, à medida que os meses passaram, um fato fundamental foi sobressaindo. Cody ainda não atendera às intimações. Seus próprios partidários começaram a exigir que ele obedecesse ao governo. Sua resposta inicial, através de seus advogados, fora categórica:

Só tenho de prestar contas a Deus e a Roma.

Era um conceito que ele levou para a sepultura. Em abril de 1982, com o governo ainda aguardando as respostas, o Cardeal Cody morreu. Apesar de haver uma longa história de doenças, o corpo de Cody, ao contrário do que acontecera com Albino Luciani, foi submetido a uma autópsia. A morte fora causada por "grave lesão da artéria coronária".

Ele deixara uma mensagem final para ser lida depois de sua morte.

Não oferecia qualquer prova de sua inocencia diante das sérias acusações. Ao contrário, ostentava a arrogância que fora uma de suas características durante toda a vida: "Perdôo a meus inimigos, mas Deus não perdoará."

Com o déspota tirânico Cody morto, houve especulação imediata sobre o seu sucessor. Um nome frequentemente mencionado era o do Arcebispo Paul Marcinkus, cidadão de Cicero, Chicago. que no momento chafurdava em escândalo na Itália. A hierarquia da Igreja americana protestou e comunicou ao Vaticano que entregar Chicago a Marcinkus "seria mais da mesma coisa". O posto acabou indo para o Arcebispo Joseph Bernardin, de Cincinatti. que prometeu urna imediata investigação da Igreja sobre as atividades de Cody.

O governo anunciou que estava encerrando a sua própria investigação e o inquérito do grande júri federal foi arquivado sem que se formalizasse qualquer acusação. Com a morte do acusado, não restava muita alternativa.

Em dezembro de 1982, Bernardin emitiu urna carta pastoral de duas páginas para os católicos de Chicago. A carta não estava apoiada em qualquer prova documental. Bernardin concluía que uma investigaçao das finanças de Cody não revelara nada de errado, embora ele pudesse ter concedido indevidamente uma pensão a Helen Wilson e nem sempre "adotasse as normas reconhecidas de contabilidade". Mais significativo foi o fato de que os contadores contratados por Bernardin recusaram-se a confirmar "a precisão das cifras estimadas de receita e despesa", apesar de considerarem que estavam "dentro de limites aceitáveis para os propósitos de inquérito". O motivo para a recusa dos contadores, como o próprio Bernardin admitiu. foi o fato de não ser possível localizar alguns dos registros financeiros da arquidiocese... e "se eles forem encontrados posteriormente, então as conclusões podem exigir uma reavaliação". Mais de um ano depois, esses registros financeiros ainda estão desaparecidos.

O despótico e arrogante Cody obviamente tinha um motivo — e dos mais fortes — para envolver-se numa conspiração para assassinar Albino Luciani. Pode ficar um ponto de interrogação em relação à sua corrupção financeira. Mas não pode haver dúvida de que Cody sofria de paranóia aguda. Se ele era um psicótico paranóico, é perfeitamente coerente que tenha procurado resolver os seus problemas, reais ou imaginários, de uma maneira violenta. E evidente que qualquer Papa só conseguiria remover Cody de Chicago por cima de seu cadáver... o de Cody ou o do proprio Papa. Com seus muitos anos em Roma e depois em suas visitas numerosas, Cody conseguira insinuar-se nas boas graças de dois futuros Papas, Pacelli e Montini. Criou uma ampla rede de amigos e informantes. O fato de que esse homem podia comandar o Papa Paulo VI é uma indicação do seu poder. Os muitos presentes em dinheiro, não apenas à Polônia mas também a membros favoritos da Cúria Romana, também serviram para consolidar um tipo muito especial de lealdade. Cody possuía a sua própria Máfia ou P2 plantada no coração do Vaticano, homens com constante acesso aos aposentos papais.

O Arcebispo Paul Marcinkus, o terceiro dos homens que Albino Luciani estava determinado a afastar do cargo, manteve a sua posição no comando do Banco do Vaticano com a eleição de Karol Wojtyla. Mais do que isso, como já foi registrado antes, ele foi promovido a arcebispo e adquiriu um poder ainda maior. Para um homem que comentara, por ocasião de sua designação para o Banco do Vaticano, que "minha única experiência financeira anterior é cuidar da coleta dominical", Marcinkus percorrera um longo caminho. Ele tinha muito mais direito ao titulo de "banqueiro de Deus" do que seus dois velhos amigos íntimos e associados nos negócios, Roberto Calvi e Michele Sindona. Também pode reivindicar com justiça a façanha de promover mais descrédito e desonra para a Igreja Católica do que qualquer outro homem nos tempos modernos.

É absolutamente evidente que, em meados dos anos 70, Calvi e Marcinkus idealizaram um esquema que gerou incontáveis crimes. E igualmente evidente que as companhias panamenhas e as outras que o Vaticano possuía no exterior — e ainda possui — eram operadas exclusivamente para o benefício mútuo do Banco Ambrosiano e do Banco do Vaticano.

O Vaticano alegou, depois da morte de Calvi, que só tomou conhecimento das companhias no exterior e sua propriedade em agosto de 1981. As provas estabelecem que isso é mais uma mentira do Vaticano. Há provas documentais, já em 1978, de que o Bispo Marcinkus procurava ativamente garantir que fosse escondido o fato de que o Vaticano possuía essas companhias. Um exemplo bastará. A UTC, United Trading Corporation, do Panamá, é uma das companhias indicadas nas cartas de conforto, uma companhia que o Vaticano alega agora desconhecer até pouco antes das notórias cartas serem escritas por Marcinkus. Documentação datada de 21 de novembro de 1974, devidamente assinada por dirigentes do Banco do Vaticano, solicita que o Banca deI Gottardo, de Calvi, providencie por conta do Banco do Vaticano a formação de uma companhia chamada United Trading Corporation.

Para Calvi, o esquema ilegal tinha muitas vantagens. E o que Marcinkus e o Banco do Vaticano ganhavam com isso? Ganhavam dinheiro. Muito dinheiro. Calvi comprava ações de si mesmo, a preços altamente inflacionados; mas, no papel, essas ações eram legalmente possuidas — e ainda são legalmente possuidas — pelas companhias panamenhas, que por sua vez são possuidas pelo Vaticano. Calvi devidamente entregava os dividendos anuais dos gigantescos lotes de ações a seu legítimo proprietário, o Banco do Vaticano. A quantia envolvida variou ao longo dos anos, mas a média foi de dois milhões de dólares anuais.

Essa era apenas a ponta do iceberg. Ganhos mais substanciais podem ser localizados. Darei um exemplo. Em 1980, o Banco do Vaticano vendeu dois milhões de ações numa companhia construtora internacional, com sede em Roma, chamada Vianini. As ações foram vendidas a uma pequena companhia panamenha chamada Laramie. Foi o primeiro estágio de uma operação em que o Vaticano venderia à Laramie seis milhões de ações da Vianini. O preço das ações estava bastante inflacionado. O primeiro lote de dois milhões de ações custou à Laramie 20 milhões de dólares. A Laramie é mais uma das companhias possuidas pelo Vaticano. Pode ser considerado um exercício de futilidade vender a si mesmo as próprias ações, a um preço inflacionado. A situação pode se tornar diferente quando se usa o dinheiro dos outros, como Calvi demonstrara ao longo dos anos. Os 20 milhões de dólares para pagar as ações vieram de Roberto Calvi. E o Banco do Vaticano manteve as ações que já possuia, além de ficar também com os 20 milhões de dólares. Outra coisa: não tinha e nunca tivera seis milhões de ações da Vianini. O máximo que já teve nunca ultrapassou três milhões de ações. Era com transações assim que Calvi pagava a Marcinkus.

O Arcebispo Marcinkus concedeu uma de suas raras entrevistas em março de 1982. Foi para o semanário italiano Panorama. Os comentários que fez a respeito de Roberto Calvi são particularmente esclarecedores. Era uma opinião emitida oito meses depois de Calvi ser multado em 13,7 milhões de dólares e condenado a quatro anos de prisão, apenas sete meses depois de o Vaticano e Marcinkus (se quisermos acreditar na versão do Vaticano) descobrirem que Calvi roubara mais de um bilhão de dólares e deixara o Vaticano para pagar a conta.

Calvi merece nossa confiança. Não tenho o menor motivo para duvidar disso. Não temos a menor intenção de ceder as ações do Banco Ambrosiano que possuímos. Não apenas isso: temos outros investimentos nesse grupo, como Banca Cattolica, por exemplo, que estão indo muito bem.

Estava de acordo com os elogios que Marcinkus fizera aos procuradores do governo americano e agentes do FBI que investigavam o seu suposto envolvimento num golpe de títulos falsificados no valor de um bilhão de dólares, em abril de 1973. Naquela ocasião, Marcinkus louvava as virtudes de um homem que alega agora não conhecer, um homem que por sua vez insiste em dizer:

— Nós nos encontramos muitas e muitas vezes ao longo dos anos em que fizemos negócios juntos. Marcinkus foi meu sócio em dois bancos.

Esse homem é Michele Sindona, que entre muitos outros crimes é o responsável pelo maior desastre bancário isolado da história dos Estados Unidos e que Marcinkus considerava estar "muito à frente de seu tempo em questões bancárias".

Pode-se alegar, em defesa de Marcinkus, que essa declaração foi feita um ano antes de il Crack Sindona. Em 1980, seis anos depois do estouro de Sindona, Marcinkus estava disposto a testemunhar em sua defesa e só foi impedido pela intervenção do Cardeal Casaroli, que se sentiu na obrigação de passar por cima de uma decisão do Papa João Paulo II.

Hoje, só há um motivo para que Marcinkus não tenha sido elevado a cardeal. Apesar da maciça desgraça internacional que suas atividades acarretaram para o Vaticano, Karol Wojtyla ainda queria conceder um chapéu vermelho ao homem de Cicero. Foi somente a insistência de Casaroli, mais uma vez, que evitou que isso acontecesse. Parece que o Papa é mais tolerante com os pecados cometidos por trás do balcão de um banco do que com os pecados cometidos na cama.

Em relação ao assassinato de Albino Luciani, Marcinkus tinha o motivo e a oportunidade.

Uma das funções que desempenhava para Paulo VI era a de atuar na segurança pessoal do Papa e conselheiro nas questões de segurança. Tarefas que desempenhou posteriormente para o Papa João Paulo II, sem sucesso.

Seu conhecimento das medidas de segurança que protegiam o Papa era insuperável. Ainda não foi explicado por que ele vagueava pela Cidade do Vaticano antes das sete horas, na manhã em que Luciani foi encontrado morto. Tudo indica que não poderia ser encontrado tão cedo nas imediações do banco. Ao contrário de Villot, ele não residia no Vaticano, mas sim na Villa Stritch, em Roma. Marcinkus levou muitas facetas para o seu trabalho no Banco do Vaticano, inclusive elementos de sua infância na Cicero de Al Capone. "Como vão os seus amigos gangsters de Chicago, Paul?" era uma piada corrente no início dos anos 70. Foi ouvida muito menos depois do julgamento de Sindona. E nunca mais foi ouvida depois do colapso de Calvi.

Se não estava ativamente envolvido na conspiração para assassinar Albino Luciani, é possível que Marcinkus tenha atuado como catalisador, voluntária ou involuntariamente. Um rei inglês bradou há muitos anos: "Ninguém me livrará desse padre intrometido?" Pouco depois, a Igreja Católica tinha um mártir na pessoa de Thomas Beckett. Não resta a menor dúvida de que Marcinkus transmitiu a Robert Calvi os seus receios pelo novo Pontificado. Também não resta a menor dúvida de que Albino Luciani estava prestes a remover Marcinkus do Banco do Vaticano e cortar todos os vínculos com o Banco Ambrosiano. As apreensões que Marcinkus manifestara sobre aquele novo Papa, não apenas a Calvi, mas também a outros, teriam provocado o curso de eventos que na manhã de 29 de setembro deixou o bispo americano atordoado quando um guarda lhe disse que Luciani estava morto?

Michele Sindona foi muitas vezes incorretamente chamado de"Banqueiro de Deus". Um rótulo mais acurado seria de "Especulador de Deus". Por ocasião do assassinato de Albino Luciani, Sindona lutava contra um pedido de extradição apresentado pelo governo italiano. Era também procurado para interrogatório por muitos crimes financeiros em diversos outros países. Em setembro de 1978 era bem provável que as autoridades americanas iniciassem um processo criminal contra ele pela falência fraudulenta do Franklin Bank. Havia quem garantisse que isso era inevitável. O processo americano o salvaria da extradição, mas o deixaria em risco imediato nos Estados Unidos. O único trunfo que lhe restava para jogar dependia da cooperação do Vaticano. Sindona raciocinava que um júri se deixaria influenciar se pessoas tão augustas como o Bispo Marcinkus, Cardeal Guerri e Cardeal Caprio testemunhassem em sua defesa. Com Albino Luciani como Papa, não existia qualquer possibilidade de depoimentos do Vaticano, muito menos favoráveis.

Sindona, como membro tanto da Máfia e da P2, não apenas tinha o motivo e a oportunidade para o assassinato, mas também já demonstrara amplamente que possuía a capacidade. Era um homem perturbado o bastante para acreditar que seus problemas nos Estados Unidos acabariam com o assassinato de um promotor-assistente federal, um homem bastante perturbado para pensar que seus problemas italianos desapareceriam com o assassinato de Giorgio Ambrosoli. Um homem assim possui claramente a capacidade para remover um Papa honesto e reformador.

Sindona continua a ser um homem em evidência. Há uma sentença de três anos e meio de prisão contra ele na Itália. Há a investigação americana sobre a tentativa de resgatá-lo de helicóptero de sua prisão nos Estados Unidos, em janeiro de 1981. Há o indiciamento do governo italiano, em 10 de julho de 1981, sob a acusação de ter ordenado o assassinato de Giorgio Ambrosoli. Também indiciados nesse processo estão seu filho Nino Sindona e o genro Pier Sandro Magnoni. Há o indiciamento de janeiro de 1982 de Palermo, Sicília, em que ele e 65 membros das famílias mafiosas Gambino, Inzerillo e Spatola são acusados por uma operação de 600 milhões de dólares anuais em tráfico de heróina entre a Sicília e os Estados Unidos. Há ainda os processos sicilianos em que Sindona é acusado de posse ilegal de armas, fraude, uso de passaporte falso e violação dos regulamentos monetários. Há também os indiciamentos do governo italiano em julho de 1982, acusando Sindona e outros, inclusive Massimo Spada e Luigi Mennini. do Banco do Vaticano, com uma longa lista de crimes relacionados com a falência fraudulenta do Banca Privata Italiana. Nada mais apropriado que esses últimos processos estejam baseados em grande parte no trabalho corajoso do assassinado Giorgio Ambrosoli. Nenhuma palavra minha poderia descrever tão apropriadamente que tipo de homem é Sindona e que família ele gerou como uma declaração de seu filho Nino Sindona. Era uma entrevista gravada com o escritor Luigi di Fonzo. (A gravação se encontra agora no gabinete da promotoria federal de Nova York.) A longa entrevista se prolongou pela noite de 18 de março e a madrugada de 1º de março de 1983.

Meu pai admitiu para mim que foi Arico... quem cometeu o assassinato. Estavam ameaçando Ambrosoli e foi eficaz por algum tempo. Billy Arico foi enviado a Milão por Venetucci (um traficante de heroína e supostamente membro da família Gambino), a pedido de meu pai. Deveria balear Ambrosoli, mas não matá-lo. Arico cometeu o assassinato. .. . A família de Ambrosoli não merecia qualquer piedade. Não tenho compaixão pelo desgraçado e acho que não foi o bastante para um filho da puta como ele. Lamento apenas que ele tenha morrido sem sofrer. Vamos deixar uma coisa bem clara. Jamais condenarei meu pai porque Ambrosoli não merecia estar neste mundo... Meu pai já sofreu demais. Agora, chegou a vez de nossos inimigos sofrerem um pouco. Griesa. Kennev, é a vez deles sofrerem. Não meu pai de novo, não nós. Não fizemos nada. . . Pára obter justiça, não haveria crime que eu tivesse receio de cometer. Pessoas como Griesa e Kenney podem morrer sofrendo as maiores dores e pára mim seria apenas um motivo para comemorar com champanha. Acredito no homicídio justificado.

Thomas Griesa era o juiz que presidia o julgamento de Estados Unidos x Sindona. John Kenney era o promotor que atuava no caso. Luigi di Fonzo perguntou a Nino Sindona como ele podia justificar um assassinato.

Poderia justificar em um segundo e meio. Como também poderia justificar o assassinato político em um segundo e meio. Vamos supor que eu quisesse matar o Juiz Griesa. Para mim, é legítima defesa... porque ele cometeu o crime terrível de meter meu pai na cadeia pelo resto da vida. E não há qualquer possibilidade de um novo julgamento enquanto o Juiz Griesa estiver vivo. Portanto, ao matá-lo, estaríamos obtendo a chance de um novo julgamento. Portanto, trata-se de legitima defesa.

Evidentemente, para pessoas como Michele Sindona e seu filho assassinar um Papa que se punha em seu caminho seria "legitima defesa".

Passemos a Roberto Calvi. Lenin disse um dia: "Dê a um capitalista corda suficiente e ele acabará se enforcando." É óbvio que o primeiro inquérito judicial que tratou da morte de Calvi concordou com Lenin. E apresentou o veredicto de suicídio. O fato da audiência ser comprimida em apenas um dia, testemunhas faltarem e outras cometerem perjúrio, além de não haver praticamente provas relevantes, não pareceu perturbar o juiz sumariante. Na Itália, o veredicto foi recebido com incredulidade. Em 1983, um segundo inquérito judicial chegou mais perto da verdade ao concluir por um veredicto em aberto sobre a morte do homem que apropriadamente foi encontrado enforcado junto a uma saída de esgoto.

Não tenho a menor dúvida de que Calvi foi "suicidado" por seus amigos da P2 — mais um exemplo dos altos riscos inerentes à carreira bancária na Itália. Horas antes de Calvi morrer, sua secretária em Milão, Graziella Corrocher, foi "suicidada" de uma janela no quarto andar da sede do Banco Ambrosiano. Sua "mensagem de suicida", com muitas imprecações e insultos a Roberto Calvi, foi encontrada por Roberto Rosone, ainda andando com a ajuda de muletas, depois do atentado contra sua vida. Poucos meses depois, a 2 de outubro de 1982, Giuseppe Dellacha, um executivo do banco, também foi "suicidado" de uma janela da sede em Milão. Clara Calvi , a viúva, também não tem qualquer dúvida, atribuindo toda a culpa às portas de bronze do Vaticano:

— O Vaticano mandou matar meu marido para esconder a falência do Banco do Vaticano.

Se é esse o caso e não é uma opinião que eu partilhe, então talvez tenha ocorrido uma justiça poética. As provas contra Roberto Calvi, em relação) a seu envolvimento direto na morte de Albino Luciani, são fortes. Muito fortes.

Calvi estava empenhado num roubo progressivo e continuado de mais de um bilhão de dólares, um roubo que seria totalmente denunciado se Luciani vivesse. Essa denúncia ocorreria em 1978. Com Luciani morto, Calvi ficou livre para continuar a cometer toda uma gama colossal e assustadora de crimes. Mais de 400 milhões de dólares do dinheiro que aparentemente desapareceu no triângulo panamenho foram tomados emprestados por Calvi depois da morte de Albino Luciani:

Calvi aconselhava a todos que lessem O Poderoso Chefão, explicando:

— Poderão então compreender como são as coisas no mundo.

Era certamente assim que acontecia no mundo que ele habitava. Até o final de sua vida, Calvi continuou a limpar dinheiro para a Máfia, função que herdara de Michele Sindona. Também reciclava dinheiro para a P2. Essas funções eram executadas com a ajuda do Banco do Vaticano. O dinheiro era transferido do Banco Ambrosiano para uma conta do Vaticano na Itália e depois para o Banco Gottardo, na Suíça. Calvi limpava o dinheiro de seqüestros vendas de tóxicos e armas, assaltos a bancos, roubos de jóias e obras de arte. Seus contatos criminosos iam do que é conhecido como Alta Máfia e assassinatos comuns, passando por organizações terroristas de extrema direita.

O rombo de 1 bilhão e 300 milhões de dólares no Banco Ambrosiano não foi criado apenas pela aquisição fraudulenta por Calvi de ações do seu próprio banco. Muitos milhões foram desviados para Gelli e Ortolani. Um exemplo: 55 milhões de dólares foram transferidos por Calvi do Peru para uma conta numerada no UBS, em Zurique. O dono da conta é Licio Gelli. Outros 30 milhões de dólares foram desviados para contas suíças do membro da P2 Flavio Carboni.

No início de 1982, Calvi transferiu diretamente do banco matriz em Milão para o Peru a quantia de 470 milhões de dólares. Entregou à sua secretária uma passagem de avião para Monte Carlo e uma pilha de mensagens de telex. Essas mensagens, devidamente despachadas de Monte Carlo, transferiam o dinheiro para diversas contas numeradas suíças.

Os partidos políticos italianos, tanto o democrata-cristão como o comunista e o socialista, não foram as únicas facções políticas a se beneficiarem da galinha dos ovos de ouro. Por ordens expressas de Calvi, milhões foram entregues aos regimes militares, que ainda controlam o Uruguai e Paraguai e antes controlavam também a Argentina. Dinheiro roubado por Calvi foi usado pela junta militar argentina para comprar mísseis Exocet dos franceses, com a participação do banco de Calvi no Peru na operação. Milhões foram ilegalmente enviados para o Solidariedade, na Polônia. Essa transação em particular envolveu dinheiro roubado por Calvi e recursos do Banco do Vaticano recebidos de fiéis católicos. Calvi falou muitas vezes sobre essa transação a amigos de confiança. Carboni foi um deles: como todos os bons membros da P2, ele tinha na ocasião um gravador ligado secretamente.

Marcinkus deve tomar cuidado com Casaroli, que é o chefe do grupo que se opõe a ele. Se Casaroli se encontrasse com um dos financistas de Nova York que trabalham para Marcinkus, enviando dinheiro para o Solidariedade, o Vaticano desabaria. Ou então bastava que Casaroli encontrasse um desses papéis que eu conheço. E adeus Marcinkus. Adeus Wojtyla. Adeus Solidariedade. A última operação seria suficiente, a de 20 milhões de dólares. Já falei com Andreotti. mas não é muito claro de que lado ele está. Se as coisas na Itália seguirem por um rumo determinado, o Vaticano terá de alugar um prédio em Washington, por trás do Pentágono. Muito longe da Basílica de São Pedro.

A quantia total canalizada pelo Vaticano para o Solidariedade, secreta e ilegalmente, foi superior a 100 milhões de dólares. Muitos que sentem a maior simpatia pelo Solidariedade podem aplaudir tal atitude. Mas interferir dessa maneira com os problemas internos de outro país cria um precedente perigoso. Por que não 100 milhões de dólares canalizados secretamente para o IRA matar e mutilar na Inglaterra? Ou um bilhão de dólares para os Sandinistas explodirem alguns prédios em Nova York , Chicago e São Francisco? Bancar Deus, mesmo para um Papa, pode ser uma ocupação perigosa. Pois, Karol Wojtyla censurar publicamente os padres da Nicarágua por se envolverem em política, enquanto ele interfere dessa maneira com os problemas internos da Polônia, é uma hipocrisia descomunal,

Não temos bens temporais a trocar, não temos interesses econômicos a discutir. Nossas possibilidades de intervenção são específicas e limitadas, de um caráter especial. Não interferem com os assuntos puramente temporais, técnicos e políticos, que são problemas para os seus governos.

Assim falou Albino Luciani ao Corpo Diplomático credenciado junto ao Vaticano. É evidente que o homem que o sucedeu assume exatamente o ponto de vista oposto.

Em relação ao assassinato de Albino Luciani. Roberto Calvi tinha o motivo. a oportunidade e, indubitavelmente, como Michele Sindona, a capacidade.

Antes do assassinato de Luciani, os associados de Calvi na P2 demonstraram a sua capacidade de matar com diversos atentados a bomba monstruosos. A capacidade de matar uma pessoa especifica foi comprovada pelo assassinato de Vittorio Occorsio. Depois da morte do Papa. os assassinatos e atentados aumentaram de intensidade, no ritmo dos roubos gigantescos que Calvi cometia. O fato de Emilio Alessandrini, Mino Pecorelli, Giorgio Ambrosoli, Antonio Varisco e Bons Giuliano estarem mortos é a prova mais evidente do tipo de companhia em que Roberto Calvi andava. O fato do presidente do Banco da Itália e um dos seus colegas de absoluta confiança poderem ser vítimas de falsas acusações, o fato de Sarcinelli passar seis semanas na prisão, o fato de homens que conheciam a verdade passarem anos com medo de agir, tudo isso demonstra o tremendo poder que estava às ordens de Calvi.

Era um poder que emanava de muitas fontes, inclusive de Licio GeIli, o Grão-Mestre da P2.

Licio GeIli, o mestre dos títeres, com alguns milhares de cordões para manipular. Cordões que pareciam levar a toda parte. Ao coração do Vaticano. A Casa Branca. Aos palácios presidenciais em muitos países. Gelli, com seu conselho singular aos membros mais destacados da P2 de que deveriam andar sempre com uma dose fatal de digitalina, uma dose letal que causaria, para usar um termo leigo, um ataque cardíaco. Qualquer exame subseqüente por um médico, se for puramente externo, confirmará que a morte foi causada por um infarto do miocárdio. A droga é inodora e impossível de se detectar, a menos que seja efetuada uma autópsia.

Licio Gelli, usando um estranho codinome sempre que telefonava para o pagador da P2 pela linha especial, "Luciani", será que a simples menção desse nome era suficiente para fazer com que milhões e milhões fluíssem da Calvi para as várias contas bancárias da Gelli?

Segundo pessoas da família de Calvi, ele atribuía todos os seus problemas "aos padres". E deixou bem claro que os padres a que se referia eram os do Vaticano. Em setembro de 1978, um padre em particular representava para Calvi a maior ameaça com que ele já se defrontara. Calvi estivera com Gelli e Ortolani na América do Sul em agosto de 1978, planejando novas operações criminosas. Alguém pode acreditar que Gelli e Ortolani se limitaram a dar de ombros quando Calvi lhes disse que Albino Luciani estava prestes a adotar providências que acabariam com toda a operação?

O assassinato de um juiz ou um policial pode ser executado abertamente. A morte permaneceria um mistério ou seria atribuida a uma das muitas organizações terroristas que então assolavam a Itália. Mas o assassinato de um Papa teria de ser cometido sub-repticiamente.

Teria de despertar o mínimo de preocupação possível. Para que o assassinato alcançasse seu objetivo, a morte teria de parecer natural.

Não importa quão alto fosse, o custo em subornos, contratos honorários e comissões, era irrelevante. Se o objetivo da morte do Papa era proteger e resguardar Roberto Calvi, permitindo-lhe continuar a roubar milhões, era preciso envolvê-la no mais absoluto mistério. O problema do vice-presidente Roberto Rosone, que Calvi discutira com seu companheiro da P2 Carboni, deveria ser resolvido com o contrato para seu assassinato. Rosone sobreviveu ao atentado, mas mesmo assim Carboni pagou 530 mil dólares, no dia seguinte, ao gangster sobrevivente, Ernesto Diotavelli. Meio milhão por um vice-presidente de banco. Quanto por um Papa, quando se tem um banco inteiro à disposição?

Depois da morte de Roberto Calvi, o obituário mais pertinente veio de Mário Sarcinelli. um dos muitos que experimentaram pessoalmente os poderes a que o banqueiro milanês tinha acesso:

— Ele começou como criado, depois tornou-se patrão, só para mais tarde voltar a ser criado de outros patrões.

O último patrão de Calvi foi o homem que acredito ter sido a peça mais importante da conspiração para matar Albino Luciani: Licio Gelli.

Este livro já registrou muitos exemplos do poder e influência que Licio Gelli exercia. Por ocasião da morte de Albino Luciani, em setembro de 1978, Licio Gelli, para todos os propósitos práticos, dominava a Itália. Seu acesso a qualquer pessoa ou lugar na Cidade do Vaticano era incomparável, graças a Umberto Ortolani. O fato de esses dois homens estarem na América do Sul no momento da morte de Luciani não constitui um álibi, no sentido legal convencional. Sindona saboreava um martini seco em Nova York , ao cair da tarde, no exato momento em que Giorgo Ambrosoli era assassinado por William Arico em Milão. Isso não salvaria Sindona se as autoridades italianas conseguissem a sua extradição dos Estados Unidos.

Gelli, que usa codinome secreto de Luciani, continua a oferecer demonstrações impressivas de que é um homem de extraordinária influência. Em 1979, Gelli e Ortolani começaram a trabalhar para promover uma reconciliação política entre o líder democrata-cristão, o ex-primeiro-ministro Giulio Andreotti e o líder socialista Bettino Craxi.

A denúncia de quase mil membros da P2 em 1981 prejudicou essas delicadas negociações. E agora voltam a florescer. Na ocasião em que escrevo, o primeiro-ministro da Itália é Bettino Craxi e o ministro do exterior é Giulio Andreotti ... e ambos têm muito o que agradecer a Licio GeIli.

A 8 de abril de 1980, Gelli escreveu da Itália para Phillip Guarino, um membro eminente do comitê nacional do Partido Republicano americano, que na ocasião concentrava todos os seus esforços em levar Ronald Reagan à presidência. Gelli escreveu: "Se acha que pode ser útil e favorável a seu candidato ser divulgado na Itália, envie-me algum material e cuidarei para que saia num dos jornais daqui."

Sem ter conhecimento do poder que Gelli controlava, pareceria uma oferta curiosa. Como poderia um homem que não possuia nenhum jornal garantir cobertura favorável ao presidente Reagan? Com uma associação de membros da P2 mais a Rizzoli, controlada pelo Vaticano e o maior grupo publicador, com interesses que se estendem até Buenos Aires. Entre as muitas publicações, jornais e revistas, figuram o Corriere della Sera, o jornal de maior prestígio na Itália, Outros membros da P2 se encontravam nos meios de rádio, televisão e da propaganda na Itália. Os comentários favoráveis ao presidente Reagan cuidadosamente solicitados por Gelli realmente apareceram.

Em janeiro de 1981, por ocasião da posse do presidente americano, Licio Gelli era um convidado de honra. Guarino mais tarde observou pesarosamente: "Ele conseguiu uma posição melhor do que a minha.’"

Em maio de 1981, após a descoberta da lista dos mil nomes de membros da P2, que incluíam vários ministros e que levou ao colapso o governo italiano, Gelli continuou o exercício de poder de uma variedade de bases sul-americanas. Uma indicação de que Gelli estava longe de perder tempo pode ser sentida na movimentação de 95 milhões de dólares por Calvi do Banco Ambrosiano para a companhia Bellatrix, uma das companhias controladas pela P2. Essa transferência através de rotas exóticas, inclusive através do Rotschild, em Zurique, em Guernsey e o Banque Nationale de Paris, no Panamá, pulverizou 20 milhões de dólares no Ansbacher & Cia, um pequeno banco mercantil em Dublin.

Um ano depois, em maio de 1982, com a guerra das Falklands com a Grã-Bretanha no auge, Licio Gelli, um homem escondido, em fuga, procurado por incontáveis acusações, voltou calmamente à Europa para ajudar seus amigos argentinos. Os mísseis Exocet originais que Gelli comprara para a junta militar haviam demonstrado ser uma arma devastadora. Como já foi informado anteriormente, Gelli vinha comprar mais Exocets. Ficou com Ortolani numa vilia em Cap Ferrat e iniciou negociações secretas, não apenas com diversos traficantes de armas, mas também com a Aerospatiale, que fabricava o míssil. O serviço secreto británico tomou conhecimento dessas negociações e alertou o serviço secreto italiano, que prontamente se dirigiu à villa em Cap Ferrat. Mas os italianos foram impedidos de pegar Gelli pelo DST, o serviço secreto francês, que frustrou clamorosamente todas as tentativas de prender o líder da P2. Aí está um exemplo do poder de Licio Gelli.

Enquanto negociava com uma ampla variedade de fornecedores em potencial do Exocet, Gelli também se mantinha em contato diário com Calvi, Os dois maçons ainda tinham muita coisa em comum, Na segunda semana de junho de 1982, Calvi também era um homem em fuga, como Gelli. Com seu império do Ambrosiano à beira do colapso ele deixara ilegalmente a Itália, primeiro viajando para a Austria e posteriormente para Londres. Ele e Gelli tinham outra vez uma profunda necessidade mútua. Calvi precisava da proteção das autoridades italianas, Gelli precisava de muitos milhões para a compra dos Exocets. Minhas pesquisas indicam que os franceses planejavam encontrar um meio de contornar o embargo de vendas de armas à Argentina que então vigorava. Os mísseis seriam encaminhados à Argentina por intermédio do Peru. Técnicos franceses se encontravam de prontidão para seguirem de avião com a missão de modificar os Exocets para a força aérea argentina.

As prioridades de Gelli e Calvi se confrontaram de uma maneira fatal. A guerra não esperaria enquanto o mestre dos títeres puxava os seus cordões italianos. Calvi, por sugestão de Gelli, viajou para Londres, ao encontro de sua morte. Ele foi "suicidado" a 17 de junho de 1982, o mesmo dia em que o General Galtieri era substituído na presidência da Argentina pelo General Bignone. A Argentina perdera a guerra. Os colegas de Calvi na P2 acharam que a demora em desviar dinheiro para os Exocets contribuíra para a derrota.

Em agosto de 1982, a junta militar argentina decidiu secretamente reiniciar as hostilidades contra as forças britânicas que guardavam as Falklands. Estavam convencidos de que um suprimento de Exocets lhes garantiria a vitória e a posse das ilhas.

Desta vez, Gelli tratou com um ex-oficial do serviço secreto italiano, o Coronel Massimo Publiese, um membro da P2. Outra vez o serviço secreto britânico tomou conhecimento da operação. E garantiu que malograsse.

Durante esse mesmo mês, agosto de 1982. Gelli se defrontava com um problema em uma de suas contas bancárias secretas na Suíça. Não estava funcionando como deveria.

Cada vez que Gelli, em Buenos Aires , tentava transferir dinheiro

o UBS em Genebra recusava-se a atender às instruções, Gelli foi informado que teria de comparecer pessoalmente ao banco.

Usando um passaporte argentino falso, Calvi voou para Madri e depois para Genebra, a 13 de setembro de 1982. Apresentou sua documentação falsa e foi informado que haveria uma pequena espera. Foi preso poucos minutos depois. Caíra numa armadilha cuidadosamente preparada. A conta fora congelada a pedido do governo italiano, que fora informado pelos suíços da verdadeira identidade do correntista.

A conta fora aberta para Gelli por Roberto Calvi, O banqueiro milanês depositara nela mais de 100 milhões de dólares. Na ocasião de sua prisão. Gelli tentava transferir para O Uruguai os 55 milhões de dólares que ainda tinha na conta.

O processo de extradição começou imediatamente com Gelli entoando a mesma cantiga de Sindona e Calvi: "Sou vítima de perseguição política. E uma conspiração da esquerda." Enquanto os magistrados examinavam o processo, Gelli ficou detido numa prisão de segurança máxima, Champ Dollon. Os processos de extradição de quaisquer membros da P2, como já ficou explicado neste livro, tendem a ser prolongados. Gelli ainda se encontrava em Champ Dollon no verão de 1983.

Com a Itália prestes a enfrentar eleições gerais em junho, a comissão parlamentar que investigava a P2 foi suspensa. O Partido Democrata-Cristão apresentou pelo menos cinco membros da P2 como candidatos. A Signorina Tina Anselmi, que presidira a comissão, interrogada a respeito de suas opiniões sobre a P2, depois de dois anos de investigação intensiva da sociedade secreta, declarou:

A P2 não está absolutamente morta. Continua a funcionar em diversas instituições. Está em ação na sociedade. Possui dinheiro, meios e instrumentos ainda à sua disposição. Tem centros de poder em plena operação na América do Sul. E ainda é também capaz de influenciar, pelo menos parcialmente, a vida política italiana.

Tudo confirma a validade das declarações da Signorina Anselmi. Quando a notícia da prisão de Gelli chegou à Argentina. o Almirante Emilio Massera. que era um membro da junta militar reinante, comentou:

— O Signor Gelli prestou serviços valiosos à Argentina. Este país tem muito a agradecer-lhe e estará sempre a dever-lhe.

O Almirante Massera, assim como o General Carlos Suarez Mason, o comandante do 1 Exército argentino, e José Lopez Rega, o organizador dos Esquadrões da Morte argentinos, era membro da seçao argentina da P2. No Uruguai. a P2 conta entre seus membros com o antigo comandante-supremo das Forças Armadas, General Gregorio Alva re z.

Se alguém na Itália ou em qualquer outro país pensou que Tina Anselmi estava apenas tentando ganhar benefícios políticos antes de uma eleição, deve ter levado um susto a 10 de agosto de 1983. Champ Dollon tinha um preso a menos que no dia anterior. Licio Gelli fugira. As autoridades suíças, procurando disfarçar seu profundo constrangimento, tentam agora atribuir toda a culpa a um guarda corrupto, Umberto Cerdana, que recebeu de Gelli um suborno de pouco mais de seis mil libras. Se algum leitor deste livro acredita que Gelli escapou da Suíça com a ajuda de apenas um guarda da prisão, então provavelmente também acredita que Albino Luciani morreu de causa natural. Um guarda recebe o equivalente a quatro meses de salário por um ato que pode agora lhe valer uma sentença de prisão de sete anos e meio.

Nove dias depois da fuga, as autoridades suíças aceitaram o pedido de extradição da Itália. O problema era que Gelli não estava mais à disposição para ser extraditado. Levado por seu filho de carro para a França, ele partiu em seguida para Monte Carlo, A desculpa que o piloto recebeu para se desviar de Nice em direção a Monte Carlo foi a de que Gelli precisava de tratamento dentário urgente. E num iate de Francesco Pazienza, um homem que diz ter sido amigo do falecido Roberto Carboni, Gelli continuou sua procura por um bom dentista no Uruguai, onde, no momento em que este livro é escrito, continua a exercer influência de uma fazenda a poucos quilômetros ao norte de Montevidéu. É procurado em muitos países, acusado de muitos crimes, mas a quantidade de informações que adquiriu com o passar dos anos assegura-lhe proteção.

A eleição italiana, em junho de 1983, levou ao cargo de PrimeiroMinistro o Signor Bettino Craxi, um dos muitos beneficiários da generosidade de Calvi. Interrogado a respeito da fuga de Gelli, ele declarou:

— A fuga de Gelli confirma que o Grão-Mestre possui uma rede de amigos poderosos.

Se — e é realmente um se muito grande — Licio Gelli for entregue vivo algum dia ao governo italiano, terá de enfrentar muitas acusações criminais, incluindo as seguintes: extorsão, chantagem, tráfico de tóxicos, contrabando de armas, conspiração para derrubar o governo legal, espionagem política, espionagem militar, posse ilegal de segredos de Estado, cumplicidade em vários atentados a bomba, inclusive o da estação ferroviária de Bolonha. em que morreram 85 pessoas.

É muito forte a corrente que, de elo em elo, leva de um Papa assassinado ao Bispo Paul Marcinkus, Roberto Calvi, Umberto Ortolani e Licio Gelli. Para que sejam aceitas, as provas circunstanciais devem ser fortes, devem resistir à inspeção mais rigorosa, antes que um júri possa apresentar o veredicto de "culpado". Nenhum júri confrontado com as provas apresentadas neste livro poderia oferecer um veredicto de "morte por causas naturais", Nenhum juiz do mundo aceitaria tal veredicto com as provas existentes. Não pode haver a menor dúvida quanto a isso. Não há qualquer prova para indicar que a morte de

Albino Luciani foi o resultado de um acidente. Só nos resta o homicídio. Na minha opinião, não por pessoa ou pessoas desconhecidas, mas sim por pessoas muito bem conhecidas, com Licio Gelli no centro da conspiração. Um homem que por acaso contava, entre os membros da P2, com Francesco, o irmão do Cardeal Sebastino Baggio. Gelli, um homem cujas reuniões com os poderosos e famosos incluiram audiências com o Papa Paulo VI. Gelli, o homem com amigos íntimos como o Cardeal Paolo Bertoli. Gelli, cujo assessor mais chegado na P2, Umberto Ortolani, conhecia a Cidade do Vaticano melhor do que muitos cardeais. Ortolani, cumulado de honrarias e prêmios do Vaticano. O homem que estava tão perto do centro nervoso do poder no Vaticano que foi em sua villa, ele servindo como anfitrião, que se realizou a reunião secreta pré-conclave que concluiu a estratégia e definiu a eleição de Paulo VI. Ortolani, que concebeu a idéia da venda de muitos milhões de dólares da participação do Vaticano na Societa Generale Immobiliaire, Ceramiche Pozzi e Condotte. Ortolani, o casamento da P2 unindo como parceiros o mafioso e colega maçônico Michele Sindona com Sua Santidade o Papa Paulo VI. Recebendo de um vultosas comissões e honrarias papais de outro. Por intermédio de Ortolani, não havia sala em toda Cidade-Estado do Vaticano em que fosse negado o acesso ao Mestre dos Fantoches ou homens e mulheres que ele controlava, Gelli, o colecionador de conhecimentos e informações curiosas, inclusive fotografias do Papa João Paulo II completamente nu ao lado de sua piscina. Quando Gelli mostrou essas fotografias ao veterano Vanni Nistico, líder do Partido Socialista, não pôde deixar de comentar:

— Pense nos problemas que a maioria dos serviços secretos enfrenta. Se é possível tirar estas fotografias do Papa, imagine como seria fácil alvejá-lo.

Absolutamente certo. Ou envenenar seu antecessor.

E Jesus entrou no templo de Deus, expulsou todos os que ali vendiam e compravam, derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombos.

E lhes disse: Está escrito. Minha casa será chamada a casa da oração, mas vós a transformastes num covil de ladrões. Mateus, 21:12/13

Albino Luciani teve um sonho. Imaginou uma Igreja Católica Romana que atenderia de verdade às necessidades de seus fiéis em questões vitais cruciais como o controle de natalidade. Sonhou com uma Igreja que dispensaria a riqueza. o poder e o prestígio adquiridos através do Vaticano S.A.; uma Igreja que deixaria o mercado financeiro e abandonaria a agiotagem em que o nome de Cristo fora maculado; uma Igreja que voltaria a se apoiar no que sempre fora seu maior trunfo, sua fonte do verdadeiro poder, seu maior direito a um prestígio singular: o Evangelho.

Ao cair da noite de 28 de setembro de 1978, Albino Luciani já dera os primeiros passos para a realização do seu sonho extraordinário. Às 9:30 da noite fechou a porta de seu quarto e o sonho acabou.

Na Itália, agora, fala-se em converter Albino Luciani num santo. Já houve petições com milhares de assinaturas. Em última análise, se esse homem que foi "um homem pobre, acostumado às pequenas coisas e ao silencio, for beatificado, nada mais condizente. A 28 de setembro de 1978 ele foi martirizado por suas convicções. Em confrontação com um homem como Albino Luciani, com os problemas que sua presença continuada apresentaria, a Solução Italiana foi aplicada. A decisão de que o Papa deve morrer foi tomada e assassinaram o Candidato de Deus.


Epílogo

Se o bem que Albino Luciani representava foi enterrado com seus ossos, o mal perpetrado por Roberto Calvi certamente sobreviveu à sua morte.

Poucas horas depois de seu corpo ser identificado em Londres, campainhas de alarme soavam em vários lugares da Itália. Na segunda-feira, 22 de junho, o primeiro dia em que os bancos abriram depois que O Cavaleiro foi encontrado enforcado, não muito longe do lugar em que os frades carmelitas ofereciam santuário a vigaristas e ladrões na Idade Média, o Banco Ambrosiano, em Milão, sofreu uma corrida intensa de saques. O que não é do conhecimento público, até agora, é se o Banco do Vaticano passou pelo mesmo apuro. Muitos milhões de dólares foram retirados por membros da elite italiana, que estavam a par dos fatos e sabiam que um rombo de um bilhão e 30<) milhões de dólares no grupo Ambrosiano chegaria em breve ao conhecimento público. Sabiam também que esse rombo não estava desligado do antigo relacionamento comercial e pessoal de Calvi com o Bispo Paul Marcinkus e o IOR.

Em setembro de 1982, o homem que nunca se afastara do lado do Papa, durante a visita à Grã-Bretanha em maio e junho, tornara-se um virtual prisioneiro dentro do Vaticano. Foi substituído como organizador e guarda avançada das viagens internacionais do Papa... pois se arriscar a sair da Cidade do Vaticano seria se expor à prisão imediata pelas autoridades italianas.

Marcinkus continuou a exercer o comando do Banco do Vaticano e declarou que o Vaticano não tinha e não aceitaria qualquer responsabilidade pelo um bilhão e 300 milhões de dólares desaparecidos.

A Cúria Romana recusou-se a aceitar intimações judiciais que o governo italiano tentou entregar a Marcinkus e a outros no Banco do Vaticano. O protocolo devia ser respeitado em todas as circunstâncias, insistiu a Cúria, mesmo quando está envolvido o roubo de mais de um bilhão de dólares. As intimações teriam de ser encaminhadas através do embaixador italiano credenciado no Vaticano.

A Cidade do Vaticano acabou instituindo uma comissão de inquérito, depois de muitas pressões do governo italiano. Simultaneamente, os advogados do Banco do Vaticano também se empenharam numa investigação. O próprio governo italiano também criou uma comissão de inquérito. A esta altura, havia cargos para quase todo mundo. Os advogados trabalhando para Marcinkus apresentaram primeiro as suas conclusões.

1.O Instituto para as Obras da Religião não recebeu dinheiro do Grupo Ambrosiano ou de Roberto Calvi. Portanto, não precisa restituir coisa alguma.

2.As companhias estrangeiras devedoras do Grupo Ambrosiano nunca foram dirigidas pelo IOR, que não tem qualquer conhecimento das operações realizadas pelas mesmas.

3.É absolutamente certo que todos os pagamentos efetuados pelo Grupo Ambrosiano às referidas companhias foram feitos antes das chamadas "cartas de conforto".

4.Essas cartas, pelas datas em que foram emitidas, não exerceram qualquer influência sobre os pagamentos.

5. Em qualquer verificação futura dos fatos, tudo o que foi exposto acima será confirmado.

Já demonstrei que esses "fatos" do Vaticano estão muito longe da verdade.

A comissão de inquérito instituída pelo Vaticano ainda não apresentou seu relatório. As conclusões deveriam ser apresentadas ao final de março de 1983, depois ao final de abril, agosto, outubro, novembro...

A comissão é integrada por "quatro homens sábios". Dois deles, por sua simples presença numa comissão que o Cardeal Casaroli previsivelmente classificou de "objetiva", invalidam completamente quaisquer descobertas a que se possa eventualmente chegar. Um deles é Phillipe de Weck, o ex-presidente do UBS, de Zurique. De Weck ainda mantém ligações profundas com o UBS, o banco que guarda, por conta de Licio Gelli, 55 milhões de dólares do dinheiro roubado. E também o banco que guarda, por conta do falecido Roberto Calvi e de Flavio Carboni, mais de 30 milhões de dólares do dinheiro roubado.

É o banco que guarda por conta da amante australiana de Carboni. Manuela Kleinszig, dois milhões de dólares do dinheiro roubado.

Phillipe de Weck é também o homem no centro do que os franceses chamam de "o caso dos aviões farejadores". Envolveu uma invenção maravilhosa, criação de um técnico italiano, Aldo Bonassoli, e de um idoso belga, o Conde Alain de Villegas. A invenção se desdobrava em duas partes, uma alojada num avião e transmitindo para a segunda em terra, definindo as camadas geológicas muitas centenas de metros abaixo da superfície.

O potencial era ilimitado. Além da prospecção mineral e petrolífera. a uma fração do custo tradicional, havia também as implicações militares: qualquer sistema que pudesse localizar petróleo centenas de metros abaixo da superfície da terra, podia igualmente localizar um submarino nuclear submerso. Estimulada pelo Presidente Giscard d'Estaing. a gigantesca companhia petrolífera francesa Elf aplicou cerca de 120 milhões de dólares na companhia panamenha do conde, a Fisalma. Villegas era o único acionista e a companhia era administrada por Phillipe de Weck. Quando os franceses finalmente perceberam que haviam sida vítimas de um golpe de mestre. 60 milhões de dólares já tinham desaparecido. De Weck disse aos franceses que o dinheiro fora gasto em pesquisa e "obras de caridade". Um dos homens que. representando a UBS. acompanhava esse interessante trabalho pioneiro da arte da vigarice internacional era Ernst Keller. que ao mesmo tempo era também acionista da Ultrafin AG, uma companhia possuída por Calvi e ligada ao Ambrosiano Holding de Luxemburgo. A Ultrafin foi o canal pelo qual a companhia panamenha do conde recebeu os pagamentos iniciais.

Outro membro da comissão é Herman Abs, que foi diretor do Deutsche Bank. de 1940 a 1945. O Deutsche Bank foi o principal instrumento financeiro nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Abs era na realidade o pagador de 1-litler, Durante esse período. Abs integrou também a diretoria da I.G. Farben. o conglomerado químico e industrial que prestou uma colaboração tão entusiástica ao esforço de guerra de Hitler. Abs participou de reuniões de diretoria da 1. (3. Farben em que se discutiu o aproveitamento de trabalho-escravo numa fábrica de borracha localizada no campo de concentração de Auschwitz,

Não importa quantos ex-presidentes de bancos ou ex-pagadores nazistas o Vaticano contrate. a verdade não desaparecerá. Pelo menos um bilhão ele dólares de empréstimos devidos a vários bancos são de responsabilidade do Vaticano. Talvez a maior ironia sejam o tato de que. não importando quanto tenha-se beneficiado das companhias-fantasmas espalhadas pelo Panamá e outros lugares. o vaticano as possuía no momento em que as dividas foram executadas. Na verdade. beneficiou-se enormemente. Mas se os bancos que são os credores estiverem realmente determinados a recuperar seu dinheiro, só lhes resta um caminho lógico: processar o Vaticano.

Por ocasião de sua morte, Calvi estava, segundo os depoimentos juramentados de pessoas de sua família, negociando com a Opus Dei, que concordara em comprar 16 por cento do Banco Ambrosiano que pertenciam ao Vaticano. Se essa operação fosse concluída, o rombo de um bilhão e 300 milhões de dólares seria coberto, o império de Calvi permaneceria intacto e o Arcebispo Paul Marcinkus seria afastado do cargo. Muitos, inclusive Marcinkus, protestaram contra essa salvação de ultima hora, provindo de uma organização assim.

Agora, com Calvi morto, o Vaticano vem discutindo com o governo italiano e um consórcio representando bancos internacionais há quase dois anos, em fevereiro de 1984, a notícia de que finalmente se chegara a um acordo transpirou da sala de reuniões em Genebra. Em maio de 1984, os acordos foram definidos. Os bancos internacionais receberão aproximadamente dois terços dos 600 milhões de dólares que emprestaram à companhia holding de Calvi no Luxemburgo. Desse total, cerca de 250 milhões de dólares serão pagos pelo Banco do Vaticano.

Este pagamento é esperado para 30 de junho de 1984, e será feito pelo Vaticano "não pelo fato de ter alguma culpa", mas "em reconhecimento de um envolvimento moral". O leitor pode conferir as negativas de envolvimento do Vaticano com relação a este iminente pagamento.

Os fiéis devem ignorar todos os apelos que certamente serão feitos nas igrejas católicas romanas do mundo inteiro. Tudo o que o Banco do Vaticano está fazendo é pagar o dinheiro que lhe foi emprestado. E, depois, ainda escapará impune com milhões e milhões de dólares que representam uma parcela substancial dos recursos ainda desaparecidos.

Na ocasião em que este livro é escrito, o Arcebispo Paul Marcinkus ainda se apega ao seu cargo. Já foi ameaçado de afastamento em diversas ocasiões, mas ainda sobrevive, Ainda se mantém escondido no Banco do Vaticano, com receio de sair e ser imediatamente preso pelas autoridades italianas. Recentemente, Marcinkus apelou para a justiça italiana, pedindo imunidade contra as acusações. Seria bom que antes da justiça italiana considerar o pedido de Marcinkus obtivesse acesso aos documentos secretos de negociação entre a Itália e a Cidade-Estado do Vaticano. Provavelmente, a mais extraordinária informação contida nos documentos oficiais é a revelação que o acordo secreto entre Marcinkus e Calvi, ocorrido em agosto de 1981, não foi, como o Vaticano gostaria que o mundo acreditasse, um acordo singular entre um indulgente arcebispo e um devoto banqueiro católico. Existem provas agora de outros acordos criminosos e ilegais entre Marcinkus e Calvi, desde novembro de 1976. A conspiração foi iniciada em pleno pontificado do Papa Paulo VI. Estes fatos servem para ressaltar o que ocorreria se Albino Luciani continuasse vivo, Também escondido no Vaticano está seu colega e parceiro em tantos crimes, Luigi Mennini. E também escondido no Vaticano se acha Pellegrino de Strobel.

Enquanto os três continuavam a se esquivar à justiça italiana, as autoridades confiscaram todos os bens italianos pertencentes a Mennini e Strobel. Todos os três são procurados por inúmeras autoridades italianas, em diversas cidades. Outro colega que seria prontamente removido por Luciani, se vivesse, Monsenhor Donato de Bonis, o secretário do IOR, esconde-se entre os muros do Vaticano dos magistrados de Turim, que investigam um escândalo de sonegação fiscal no valor de um bilhão de dólares. De Bonis, que teve seu passaporte confiscado pelas autoridades, continua a trabalhar no Banco do Vaticano, como seus três colegas.

O Cardeal Ugo Poletti, o Cardeal Vigário de Roma, a quem Luciani desejava afastar, é outro exemplo em que há provas abundantes para confirmar a sabedoria dessa decisão. Poletti foi o responsável por recomendar ao então primeiro-ministro Giulio Andreotti que o comando da Polícia Financeira fosse entregue ao General Raffaele Giudice. Posteriormente, Giudice, um membro da P2, promoveu a sonegação fiscal de um bilhão de dólares, desviando quantias vultosas para Licio Gelli, Em 1983, o Cardeal Poletti negou indignado ter usado qualquer influência para levar Giudice ao cargo. Os magistrados de Turim mostraram ao Cardeal Vigário de Roma uma cópia de sua carta a Andreotti, Poletti continua a ser o Cardeal Vigário de Roma. E dessa maneira que o Papa João Paulo II preside a Igreja Católica Romana em abril de 1984.

A nova Concordata recentemente assinada entre o Vaticano e o governo italiano constituiu um epitáfio apropriado para o pontificado do atual Papa. A Itália, por quase dois mil anos encarada pelos católicos como a base de sua fé, não tem mais o catolicismo romano como "a religião do estado". A posição privilegiada da Igreja na Itália está acabando.

Outra mudança deve trazer um sorriso satisfeito ao rosto de Licio Gelli, A nova lei canônica, que entrou em vigor a 27 de novembro de 1983, abandonou o preceito de que os maçons estão sujeitos à excomunhão automática. Os sobreviventes da lista de maçons do Vaticano que Albino Luciani estudou estão agora seguros. O expurgo que ele planejara não será executado por seu sucessor.


* Os textos acima são partes do livro, Em nome de Deus, de David Yallop, sobre o provável assassinato do Papa João Paulo I, escrito no ano de 1984.

Fonte: Portal Anjo