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01.04.2008
- Mais combates no Iraque. Somália no caos. As pessoas neste país
não conseguem pagar suas hipotecas e em alguns lugares agora as
pessoas não conseguem nem mesmo comprar arroz.
Mas nada disso e nem o restante das notícias preocupantes das
atuais primeiras páginas importará caso dois homens, que estão
impetrando um processo em um tribunal federal no Havaí, estiverem
certos. Eles acham que um acelerador gigante de partículas, que
começará a fragmentar prótons nos arredores de Genebra neste ano,
poderá produzir um buraco negro que significará o fim da Terra -e
talvez do universo. |
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Os
cientistas dizem que é muito improvável -apesar de terem feito
alguma checagem para se certificarem.
Os físicos do mundo gastaram 14 anos e US$ 8 bilhões construindo o
Grande Colisor de Hádrons, no qual a colisão de prótons recriará
energias e condições vistas pela última vez a um trilionésimo de
segundo após o Big Bang. Os pesquisadores analisarão os destroços
destas recriações primordiais em busca de pistas sobre a natureza
da massa e de novas forças e simetrias na natureza.
Mas Walter L. Wagner e Luis Sancho argumentam que os cientistas no
Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em francês),
subestimaram as chances de que o colisor possa produzir, entre
outros horrores, um minúsculo buraco negro, que, segundo eles,
devoraria a Terra. Ou que possa cuspir um "strangelet",
que converteria nosso planeta a uma massa densa morta e encolhida de
algo chamado "matéria estranha". O processo deles também
diz que o Cern não forneceu uma declaração de impacto ambiental
de acordo com o exigido pela Lei Nacional de Política Ambiental.
Apesar de soar bizarro, o caso toca em uma questão séria que tem
incomodado acadêmicos e cientistas nos últimos anos -como estimar
o risco de novas experiências inovadoras e a quem cabe a decisão
de prosseguir ou não.
O processo, impetrado em 21 de março no Tribunal Distrital Federal
em Honolulu, busca uma injunção temporária proibindo o Cern de
prosseguir com o acelerador até que produza um relatório de
segurança e uma avaliação de impacto ambiental. Ele cita o
Departamento de Energia dos Estados Unidos, o Laboratório Nacional
do Acelerador Fermi, a Fundação Nacional de Ciência e o Cern como
réus.
Segundo um porta-voz do Departamento de Justiça, que está
representando o Departamento de Energia, uma reunião foi marcada
para 16 de junho.
Por que o Cern, uma organização de países europeus com sede na Suíça,
deveria comparecer a um tribunal no Havaí?
Em uma entrevista, Wagner disse: "Eu não sei se vão
aparecer". O Cern teria que se submeter voluntariamente à
jurisdição do tribunal, ele disse, acrescentando que ele e Sancho
poderiam ter processado na França ou na Suíça, mas para
economizar as despesas eles acrescentaram o Cern ao processo aqui.
Ele alegou que a injunção ao Farmilab e ao Departamento de
Energia, que ajudam a fornecer e manter os imensos ímãs
supercondutores do acelerador, desativaria o projeto de qualquer
forma.
James Gillies, chefe de comunicações do Cern, disse que o laboratório
ainda não tem nenhum comentário sobre o processo. "É difícil
entender como um tribunal distrital no Havaí teria jurisdição
sobre uma organização intergovernamental na Europa", disse
Gillies.
"Não há nada novo sugerindo que o colisor é inseguro",
ele disse, acrescentando que sua segurança foi confirmada por dois
relatórios, que um terceiro está a caminho e estará sujeito a uma
discussão aberta no laboratório em 6 de abril.
"Cientificamente, não estamos escondendo nada", ele
disse.
Mas Wagner não está tranqüilizado. "Eles fazem muita
propaganda dizendo que é seguro", ele disse em uma entrevista,
"mas basicamente é propaganda".
Em uma mensagem por e-mail, Wagner chamou o relatório de segurança
do Cern de "fundamentalmente falho" e disse que foi
iniciado tarde demais. O processo de revisão viola os padrões da
Comissão Européia de adesão ao "Princípio Precautório",
ele escreveu, "e foi feito por cientistas que são 'parte
interessada'".
Físicos de dentro e fora do Cern disseram que vários estudos,
incluindo um relatório oficial do Cern em 2003, concluíram que não
há problema. Mas para ter certeza, no ano passado o anônimo Grupo
de Avaliação de Segurança realizaria uma nova revisão.
"A possibilidade de um buraco negro devorar a Terra é uma ameaça
tão séria que a deixamos como tema de discussão para
malucos", disse Michelangelo Mangano, um teórico do Cern que
disse fazer parte do grupo. Os outros preferem permanecer anônimos,
disse Mangano, por vários motivos. O relatório deles foi entregue
em janeiro.
Este não é o primeiro processo de Wagner. Ele impetrou ações
semelhantes em 1999 e 2000, para impedir o Laboratório Nacional de
Brookhavem de operar o Colisor Relativístico de Íons Pesados. O
processo foi indeferido em 2001. O colisor, que colide íons de ouro
na esperança de criar o que é chamado de "plasma quark-glúon",
opera sem incidentes desde 2000.
Wagner, que vive na Grande Ilha do Havaí, estudou física e
realizou pesquisa de raios cósmicos na Universidade da Califórnia,
em Berkeley, e recebeu doutorado em Direito por aquela que é
atualmente conhecida como Universidade do Norte da Califórnia, em
Sacramento. Ele posteriormente trabalhou como diretor de segurança
de radiação para a Administração de Veteranos.
Sancho, que descreve a si mesmo como um autor e pesquisador de
teoria do tempo, vive na Espanha, provavelmente em Barcelona, disse
Wagner.
Os temores apocalípticos têm um longo histórico, mesmo que não
ilustre, na física. Em Los Alamos antes do teste da primeira bomba
nuclear, Emil Konopinski foi encarregado da tarefa de calcular se a
explosão incendiaria ou não a atmosfera.
O Grande Colisor de Hádrons é projetado para disparar prótons em
energias de 7 trilhões de elétrons-volt antes de colidirem um
contra o outro. Na verdade, nada acontecerá no colisor do Cern que
não aconteça 100 mil vezes por dia pelos raios cósmicos na
atmosfera, disse Nima Arkani-Hamed, um teórico de partículas do
Instituto para Estudos Avançados em Princeton.
O que é diferente, reconhecem os físicos, é que os fragmentos dos
raios cósmicos passam inofensivamente pela Terra quase à
velocidade da luz, mas o que quer que seja criado quando os raios
baterem de frente no colisor nascerá em relativo repouso para o
laboratório, de forma que permanecerá ali e portanto poderia
causar caos.
As novas preocupações são a respeito dos buracos negros que,
segundo algumas variações da teoria das cordas, poderiam surgir no
colisor. Esta possibilidade foi muito alardeada em muitos estudos e
artigos populares nos últimos anos, mas seriam perigosos?
Segundo um estudo do cosmólogo Stephen Hawking em 1974, eles
evaporariam rapidamente em um vestígio de radiação e partículas
elementares, portanto sem representar ameaça. Mas ninguém já viu
um buraco negro evaporar.
Conseqüentemente, Wagner e Sancho argumentam em sua queixa, os
buracos negros poderiam realmente ser estáveis, e um micro buraco
negro criado pelo colisor poderia crescer, no final engolindo a
Terra.
Mas William Unruh, da Universidade da Colúmbia Britânica, cujo
trabalho explorando os limites do processo de radiação de Hawking
é citado no site de Wagner, disse que ele não entendeu seu
argumento. "Talvez a física realmente seja tão estranha a
ponto de buracos negros não evaporarem", ele disse. "Mas
realmente teria que ser muito, muito estranha."
Lisa Randall, uma física de Harvard cujo trabalho ajudou a
alimentar a especulação sobre buracos negros no colisor, apontou
em um trabalho no ano passado que buracos negros não seriam
produzidos no colisor, apesar de que outros efeitos da chamada
gravidade quântica poderão aparecer.
Como parte do relatório de avaliação de segurança, Mangano e
Steve Giddings, da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara,
trabalharam intensamente nos últimos meses em um estudo que explora
todas as possibilidades destes temidos buracos negros. Eles acham
que não há problemas, mas relutam em conversar sobre suas conclusões
até passarem pela revisão de seus pares, disse Mangano.
Arkani-Hamed disse, em relação às preocupações com a morte da
Terra ou do universo, que "nenhuma tem qualquer mérito".
Ele apontou que devido à natureza aleatória da física quântica,
há alguma probabilidade de quase qualquer coisa acontecer. Há uma
probabilidade minúscula, ele disse, do "Grande Colisor de Hádrons
criar dragões que possam nos devorar".
Fonte: UOL notícias
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