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....Agora,
a cada dia alguém diz alguma coisa mais incrível - até mesmo
inimaginável - sobre a obsessão do presidente Bush pela guerra.
Ontem, George Bush estava falando para uma platéia em Cincinnati
sobre "santos guerreiros nucleares". Esqueça por um
momento que ainda não podemos provar que Saddam Hussein tem armas
nucleares. Esqueca que o último discurso de Bush foi apenas uma
repetição de todos os "se" e "talvez" e
"poderia" das frágeis alegações de Tony Blair em seu
dossiê de 16 páginas historicamente desonesto. Esqueça que se
Osama bin Laden tivesse adquirido arma nuclear ele a empregaria
primeiro em Saddam. Não. Nós temos que combater os "santos
guerreiros nucleares". É isto que temos que fazer para
justificar a charada toda na qual estamos sendo levados pela Casa
Branca, por Downing Street, por todos os decadentes
"peritos" em terrorismo e, ai, muitos jornalistas também.
....Esqueça que 14 palestinos, inclusive uma criança de
12 anos, foram mortos por Israel poucas horas antes de Bush falar,
esqueça que quando seu avião matou 9 crianças palestinas em
julho, juntamente com um militante, o primeiro-ministro Ariel
Sharon - um "homem de paz" nas palavras de Bush -
descreveu a matança como "um grande sucesso". Israel
está do nosso lado.
....Lembre-se de usar a palavra
"terror". Use-a para Saddam Hussein, use-a para Osama
bin Laden, use-a para Yasser Arafat, use-a para qualquer um que se
oponha a Israel ou ao Estados Unidos. Em seu discurso de ontem,
Bush a usou 30 vezes em meia hora, um "terrorismo" por
minuto.
Mas, agora, vamos relacionar exatamente o que precisamos esquecer
de verdade se formos apoiar esta loucura. Mais importante de tudo,
precisamos esquecer definitivamente que o presidente Ronald Reagan
despachou um enviado especial para encontrar-se com Sadda Hussein,
em dezembro de 1983. É fundamental esquecermos isto por três
motivos. Primeiro, porque o terrível Saddam já estava usando gás
contra os iranianos - que é uma das razões pelas quais estamos
indo à guerra com ele.
....Em segundo, porque o enviado foi
mandado para o Iraque para negociar a reabertura da embaixada
americana - a fim de assegurar melhor comércio e relações econômicas
com o Açougueiro de Bagdá. Terceiro, porque o enviado era -
vejam só - Donald Rumsfeld. Agora você poderia achar estranho
que Rumsfeld, no decorrer de uma de suas simpáticas entrevistas
coletivas não tenha nos contado sobre este interessante pedaço.
Você pode achar que ele tivesse desejado nos esclarecer sobre a
natureza maléfica do criminoso cujas mãos apertou tão
calorosamente. Mas, não.
....Estranhamente, Rumsfeld não fala
sobre isto. Como ele está perto de ter um encontro igualmente
simpático com Tariq Aziz - que tinha acabado de acontecer em um
dia do mês de março de 1984, que a ONU liberasse seu relatório
prejudicial sobre o uso de gás venenoso por Saddam contra o Irã.
A mídia americana também não fala sobre isto, é claro. Porque
precisamos nos esquecer.
....Precisamos esquecer também que,
em 1988, enquanto Saddam destruía a população de Halabja com gás,
e mais dezenas de milhares de outros curdos - quando ele
"usou gás contra seu próprio povo", nas palavras de
Bush/Cheney/Blair/Cook/Straw e outros - o presidente Bush, pai, o
ajudou com $500 milhões em subsídios do governo americano para
comprar produtos agrícolas. Precisamos esquecer que no ano
seguinte, depois de Saddam ter completado seu genocídio, o
presidente Bush, pai, dobrou este subsídio para $1 bilhão,
juntamente com bacilos de anthrax, helicópteros e o famoso
material de "duplo uso" que poderia tanto ser utilizado
para armas biológicas como para químicas.
....E quando o presidente Bush,
filho, promete ao povo iraquiano "uma era de nova esperança"
e democracia depois da destruição de Saddam - como ele fez ontem
à noite - precisamos esquecer como os americanos prometeram ao
Paquistão e Afeganistão uma nova era de esperança depois de
derrotar o exército soviético em 1980 - e não fez nada.
Precisamos esquecer como o presidente Bush, pai, insistiu com os
iraquianos em que se rebelassem contra Saddam em 1991 e - quando
eles obedeceram - não fez nada. Precisamos esquecer de como a América
prometeu, em 1993, uma nova era de esperança para a Somália e,
então, depois da "Queda do Falcão Negro", abandonou o
país.
....Precisamos esquecer de como o
presidente Bush, filho, prometeu "dar apoio" ao
Afeganistão antes que ele começasse os bombardeios no ano
passado e ter deixado o país em uma confusão econômica de barões
da droga, senhores da guerra, anarquia e medo. Ele se orgulhava
ontem de que o povo do Afeganistão tenha sido
"libertado" - isto depois de ele não conseguir caçar
bin Laden, não conseguir caçar Mulá Omar e enquanto seus
soldados estão sob ataques diários. Precisamos esquecer, quando
ouvirmos sobre a necessidade de fazer retornar os inspetores de
armas, que a CIA usou, escondido, esses mesmos inspetores de arma
da ONU para espionar o Iraque.
...E, é claro, precisamos esquecer o
petróleo. Na verdade, o petróleo é a mercadoria principal - e
uma das poucas coisas que George Bush, filho, tem um pouco mais de
informação, juntamente com seus ex-camaradas do petróleo Cheney
e Rice e vários outros da administração - que nunca são
mencionados.
....Em todo o seu discurso
anti-Iraque de 30 minutos, ontem - agradavelmente combinado com
apenas dois minutos de "espero que isto não exija ação
militar" - não houve uma única referência ao fato de que o
Iraque pode ter reservas petrolíferas maiores do que as da Arábia
Saudita, que as companhias petrolíferas americanas esperam ganhar
bilhões de dólares na eventualidade de uma invasão americana
que, uma vez fora do poder, Bush e seus amigos tornar-se-iam
multimilionários com os espólios de guerra. Precisamos ignorar
tudo isto antes de irmos á guerra. Precisamos esquecer.
Publicado
no Independent,
em 9/10/02
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