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Análise do Filme pela Ótica Cristã
Antes de você assistir a “A Bússola de Ouro”, é importante
saber em que tipo de terreno está pisando. E, no caso, é um
terreno de lodo puro. O filme é baseado no primeiro livro da
trilogia escrita pelo ateu radical Phillip Pullman. Em uma
entrevista em 2001, o escritor afirmou com todas as letras: ”Meus
livros são sobre matar Deus”. Crítico ferrenho do cristianismo,
fã confesso da série “Harry Potter” e refratário à série
cristã ”As Crônicas de Nárnia” (”uma das coisas mais feias
e venenosas que já li”), Pullman definiu sua própria trilogia
como ”os materiais sombrios”, escrita para ser uma influência
atéia oposta a ”Nárnia” e ”O Senhor dos Anéis”. ”Tento
destruir os alicerces da fé cristã”, confessou sem pudores
Pullman.
O filme conta a história de uma menina, Lyra, que viaja a um mundo
distante para salvar um amigo. No caminho, encontra criaturas
metamorfas, bruxas e uma série de personagens de um universo fantástico.
Lyra é acompanhada por um ”daemon”, sua alma em forma de um
animal. Ao adaptar “A Bússola de Ouro” para as telas, o diretor
Chris Weitz buscou suprimir muitas das referências ateístas e
anticristãs da trama, para não perder o dinheiro do ingresso dos
crentes. Ele afirmou que o filme não faria, ao contrário do livro,
menção direta a Deus ou a religião - dois temas-chave do livro.
Como os fãs dos livros reclamaram, Weitz confessou: ”bem, a
religião está lá, mas mascarada por eufemismos”. Falaremos mais
sobre isso adiante.
Não há dúvidas sobre os aspectos técnicos do longa-metragem. A
computação gráfica cria cenários e personagens fantásticos,
junto com um figurino de extremo bom gosto. É fácil se deixar
encantar por esse visual de fantasia. Os atores - entre eles Nicole
Kidman e o 007 Daniel Craig, repetindo a dobradinha de
”Invasores” - não chegam a impressionar, mas mostram competência
em suas atuações. Até mesmo as crianças estão bem em seus papéis.
Fora das cenas de ação, a trama é arrastada, chegando à beira do
tédio em certos momento.
O filme é violento. Violento demais para menores de idade - apesar
de ser promovido como uma obra voltada para o público
infanto-juvenil. Lyra, a heroína da história, tenta matar a própria
mãe! Não bastasse isso, muitas cenas são incomodamente explícitas,
como a luta entre dois ursos em que um arranca a mandíbula do
outro. Muitos personagens são assassinados, há tiroteios, lutas de
espada, bruxas flecham seus adversários… é uma festa sangrenta.
Bruxas, aliás, são fundamentais na história, bem como demônios.
E o inferno é mencionado como um lugar literal.
Sob a capa de beleza, fantasia e aventura, a produção carrega
mensagens anti-religiosas, mascaradas por termos aparentemente
inocentes. Não se usa, por exemplo, a palavra ”Igreja”, mas sim
”Magisterium”. ”Deus” é chamado de ”a Autoridade”. E,
sim, Deus é morto no fim da trama. No mundo criado pela trilogia de
Pullman, o Magisterium está ligado a experimentos cruéis com crianças,
visando a descobrir a natureza do pecado, além de tentativas de
acobertar fatos que prejudicariam sua legitimidade e seu poder.
Lyra, a heroína que as meninas vão querer imitar após ver o
filme, não apenas tenta matar a mãe, mas é manipuladora e
enganadora. Ao pôr em prática seus esquemas, ela sempre se dá bem
- e é aplaudida por isso.
O grande perigo do filme é promover o livro, cujo conteúdo ateu,
anticristão e - estava tentando evitar essa palavra para não
assustar os leitores que não são cristãos, mas, sinceramente, não
dá - diabólico constrói na mente de quem o lê uma imagem irreal
de Deus. Assusta pensar nas legiões de crianças e adolescentes que
vão correr às livrarias para comprar “A Bússola de Ouro” após
ver o filme, do mesmo modo que fizeram com a série ”Harry
Potter”. Hoje mesmo passei por uma livraria e vi o livro lá, na
prateleira mais próxima da porta, como uma isca à espera do
primeiro incauto que, incentivado pelo burburinho em torno do
longa-metragem, vai se enredar em suas páginas.
Graças a Deus (literalmente?), “A Bússola de Ouro” foi um
fiasco nas bilheterias americanas. No fim de semana de estréia,
arrecadou apenas US$ 25,7 milhões em ingressos, enquanto os
produtores esperavam faturar entre US$ 30 milhões e US$ 40 milhões.
Até 18 de dezembro, o filme, que cusou US$ 180 milhões, faturou
apenas US 40 milhões, um fracasso de proporções bíblicas para os
padrões americanos.
O Vaticano condenou o filme, dizendo que ele promove a idéia de um
mundo frio, sem Deus e caracterizado pela desesperança. Num
editorial longo, o jornal do Vaticano l’Osservatore Romano também
fez duras críticas a Philip Pullman. Foi a crítica mais dura feita
pelo Vaticano a um autor e um filme desde a condenação que fez de
“O Código Da Vinci”, em 2005 e 2006. “No mundo de Pullman a
esperança simplesmente não existe, porque não existe salvação
senão na capacidade pessoal e individualista de controlar a situação
e dominar os acontecimentos”, disse o editorial. O jornal do
Vaticano disse que os espectadores honestos vão constatar que o
filme é “destituído de qualquer emoção em especial, além de
uma grande frieza”. Grupos católicos nos EUA pediram o boicote ao
filme, e a Liga Católica dos EUA exortou os cristãos a não
assistirem ao filme, dizendo que seu objetivo é “prejudicar o
cristianismo e promover o ateísmo” entre as crianças.
Pullman criou o universo de “A Bússola de Ouro” para fazer
oposição aos mundos de Tolkien e C. S. Lewis. Mas a jornada épica
de Lyra a um mundo em que agentes teocráticos seqüestram e
torturam crianças é destituída de alegria e de filosofias
edificantes, o que cria um abismo entre ”Crônicas de Nárnia” e
”O Senhor dos Anéis” e esta bússola que só aponta para baixo.
Apesar de ser vendido como um longa-metragem esplendoroso, mantém-se
em trevas, especialmente nas trevas da mentira espiritual.
Por Maurício Zágari Tupinambá. Maurício é jornalista e crítico
de cinema. |
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