42 famílias no Brasil têm chips no corpo


25/04/2006

Há um ano, quando veio à tona a primeira notícia de implante de chip de monitoramento sob a pele no Brasil, a idéia parecia polêmica, assustadora e cara demais para se tornar objeto do desejo coletivo. Na época, existiam 42 famílias no Brasil usando o chip subcutâneo e 2 mil na fila de espera por uma oportunidade.

De lá para cá, a novidade ganhou força, pelo menos no que diz respeito ao interesse das pessoas. O número de famílias com chips implantados continua o mesmo, 42, mas, atualmente, há 11 mil famílias interessadas em colocar o chip, segundo dados da RCI First Security Intelligency Advising, empresa que monitora os implantes. "O número de famílias incluídas na lista de espera mais do que quadruplicou em apenas um ano. O motivo da procura continua a ser o medo à violência", diz Ricardo Chilelli, diretor presidente da RCI e responsável pelo monitoramento do chip no País.

O implante custa US$ 10 mil e é preciso desembolsar mensalmente uma taxa do serviço de segurança, que varia de US$ 200 a US$ 800. A base de monitoramento da RCI fica nos Estados Unidos, de onde é possível rastrear pessoas em todo o mundo.

O chip não pode ser inserido no Brasil

Por enquanto, o implante é feito apenas nos EUA, que registrou a tecnologia como experimental. "Estamos esperando a regulamentação oficial do órgão americano FDA (Food and Drug Administration) para entrar com um pedido de registro da tecnologia aqui, na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)", explica Chilelli. Ele diz que o fato do implante ser realizado no exterior dificulta o crescimento do número efetivo de chips implantados. "Mal ou bem, as pessoas pensam duas vezes na hora de fazer uma operação no exterior", completa.

A Anvisa foi contatada pelo WNews e confirmou que, até agora, não houve qualquer pedido de regulamentação desta tecnologia. Segundo a assessoria de imprensa da Agência, as discussões sobre o registro de qualquer tecnologia envolvem a análise de profissionais de diversas áreas e um longo processo burocrático. Para dar início a este processo, no entanto, é preciso, antes, que haja um pedido de regulamentação.

Do tamanho de um grão de arroz

Existem dois tipos de chips subcutâneos. O primeiro, conhecido como passivo, guarda informações e dados pessoais. Normalmente é utilizado para armazenar dados médicos. O dispositivo permite identificar, por exemplo, pacientes cardíacos ou com Alzheimer, assim que eles entram em um hospital - isto é, se o hospital tem estrutura para "ler" as informações contidas no chip. No Brasil, essa forma de tecnologia já é usada em alguns rebanhos de gado.

O outro tipo, chamado de ativo, pode ser usado, entre outras funções, para monitorar movimentos de pessoas. É implantado sob a pele com uma seringa e fica dentro de uma cápsula de vidro do tamanho de um grão de arroz. No caso do modelo usado pelo RCI, trata-se de uma etiqueta eletrônica avançada, que utiliza a tecnologia de localização por satélite GPS (Global Positioning System) para fazer o rastreamento do usuário.

Quando o implante é realizado, o usuário define uma região geográfica por onde pode circular. Caso a pessoa saia da área determinada sem avisar à base de monitoramento ou à família, começa o processo de busca, que envolve, inclusive, uma equipe de segurança procurando em campo. "As 42 famílias que têm o chip implantado aqui no Brasil estão entre as mais abastadas do País. Elas necessitam de monitoramento 24 horas devido a risco de seqüestro, por exemplo", completa Chilelli.

Há, porém, uma série de riscos envolvidos no processo de inserção do localizador em um ser humano. "Há chances de rejeição e inflamação que precisam ser levadas em conta", lembra Carmen Silva Betuzzo, presidente da Comissão de Ética em Pesquisa da Unicamp (Universidade de Campinas). "Além da questão ética", completa a médica, vinculando o assunto ao direito à privacidade.

No resto do mundo

Mas não é apenas para monitoramento que os chips são úteis. Em Barcelona, na Espanha, a casa noturna a Baja Beach Club criou o sistema de implante de chip com uma seringa na pele de cada cliente. O microprocessador Verichip emite sinais de rádio (RFID) e tem um código único, como se fosse um RG. Tudo o que é consumido na balada é registrado no chip. No final da noite, basta passar diante de um leitor e a conta é calculada.

No Japão, o chip pode substituir a velha lista de presença dos colégios. Uma escola de Ensino Fundamental de Rikkyo implantou desde outubro de 2004 uma etiqueta eletrônica desenvolvida pela empresa Fujistsu, que utiliza a tecnologia de identificação por radiofreqüência (RFID). Quando o aluno passa pelo portão de entrada da escola, um sensor detecta a etiqueta. O sistema identifica o aluno e envia um e-mail para o celular dos pais automaticamente, avisando que ele chegou à escola.

RFID

A tecnologia RFID, abreviação em inglês para identificação via radiofreqüência, permite a emissão constante do sinal de rádio, o que possibilita saber, a qualquer momento, onde está a pessoa “chipada”. Este monitoramento em tempo real é a febre na indústria da segurança e uma arma contra seqüestros. No entanto, pode representar o fim da privacidade.

O RFID deve substituir o código de barras, padrão mundial usado para identificar mercadorias. Há duas razões que justificam essa migração. A primeira é que, com um leitor que capta ondas à distância, evita-se o manuseio do produto. A segunda é que um chip de radiofrequência tem 96 campos para se preencher com letras, números e símbolos. No código de barras há apenas 14 disponíveis. Mais campos significam mais combinações para identificar cada produto ou pessoas.

 

Fonte: http://wnews.uol.com.br/site/noticias/materia_especial.php?id_secao=17&id_conteudo=215