Site menu:

 

Por Elizabeth Lev
ROMA, segunda-feira, 21 de julho de 2008 (ZENIT.org).- Supus que isso seria inevitável. Após Dan Brown ficar rico por vender Jesus – com Maria Madalena e Leonardo Da Vinci misturados para uma boa receita – foi só um pouco de tempo até que algum aventureiro autor voltasse sua atenção a Michelangelo.


Mas este livro, diferentemente do «Código Da Vinci», não teve a decência de ser classificado de ficção.


«The Sistine Secrets: Michelangelo’s Forbidden Messages at the Heart of the Vatican» (Os segredos da Capela Sistina, Mensagens escondidas de Michelangelo no coração do Vaticano. N.d.T.), de Benjamin Blech e Roy Doliner, pretende revelar como Michelangelo deixou mensagens secretas de ensinamento cabalístico e sentimentos anti-papais enquanto pintava a Capela Sistina.


O livro é um «Código Michelangelo» do tipo, mas como o romance de Dan Brown, ele não oferece uma evidência documentária e nem uma nota de rodapé para sustentar suas afirmações.
Como alguém que guiou muitas visitas à Capela Sistina, a primeira coisa que me estarrece sobre o livro foi como as afirmações de Blech e Doliner giram em torno das perguntas mais freqüentes dos visitantes da capela.


Por que existem muitas imagens do Antigo Testamento em uma capela cristã?, muitos perguntam quando vêem o ciclo de Moisés nas paredes e o Gênesis, pintado por Michelangelo no teto.
Os autores declaram que Michelangelo mudou seu encargo original dos Doze Apóstolos pedido pelo Papa Júlio II para o Gênesis por causa de uma secreta simpatia pelos Judeus. Mas o Papa Sisto IV, tio de Júlio, havia contratado os melhores pintores de Florença 25 anos antes para decorar os painéis mais baixos com histórias de Moisés em paralelo com a vida de Cristo.
Como os historiadores da arte e teólogos sabem, o foco dessas imagens foi representar o fluxo contínuo do Antigo Testamento para o Novo Testamento, o cumprimento da aliança de Deus com o homem através da vinda de Cristo. Como uma capela consagrada onde o Papa celebraria a Eucaristia 40 vezes ao ano, o tema do plano de Deus para a salvação do homem começando da origem de nossa necessidade de sermos salvos foi uma escolha apta para o teto.
Mas para Michelangelo, o tema do Gênesis ofereceu a possibilidade de cumprir algo nunca feito antes: pintar uma narrativa a 18 metros do chão e fazê-la visível do solo através de sua exclusiva pintura escultural.


Doliner e Blench insistem que Michelangelo aprendeu sobre a Cabala, uma forma de Gnosticismo Judaico, nos jardins de Lorenzo de Medici, em Florença, quando foi estudar escultura aí aos 15 anos de idade.


Eles sugerem que Pico della Mirandola foi a origem do interesse de Michelangelo na Cabala.
Pico, um filósofo e humanista, formou uma teoria sincretista com o antigo ensinamento de Platão aos escritos árabes de Averróis, da Cabala à Bíblia. Como as «Sententiae» de Tomás de Aquino, Pico sonhava em defender sua teses diante de um congresso internacional de eruditos, mas muitas de suas teses foram condenadas como heréticas e fizeram Pico retirar-se para Florença.
Pico, no tempo em que Michelangelo o encontra, estava proximamente ligado a Giacomo Savonarola, o famoso pregador Dominicano de Florença. Por isso, Pico já tinha abjurado suas teses heterodoxas.


Os autores passaram por alto que Michelangelo pertencia à terceira ordem franciscana, como seu herói Dante, bem como o fato de que enquanto Michelangelo nunca tenha mencionado Pico, ele sempre mencionava os sermões de Savonarola através de sua vida.


Mas o que eles visivelmente negligenciam é que Michelangelo pegou um martelo e um cinzel em suas mãos pela primeira vez e embarcou no maior amor de sua vida, a arte pela escultura. A mensagem de Michelangelo não seria interessante para nós se sua arte não fosse poderosa, e que a riqueza de seus trabalhos viessem da prática incessante de sua arte. Nós o consideramos hoje por seu extraordinário talento, o qual ele reconhecia como recebido de Deus.


Então como Doliner e Blench transformam-no em um propagandista com sentimentos judaicos secretos e uma agenda anti-papal?


Baseando-se em um artigo de 1990 do Dr. Frank Meshberger no Journal of American Medicine, onde ele propõe que o envoltório de Deus na criação do Homem foi desenhado como um corte do cérebro humano, os autores tomam a idéia, especulando que é o lado direito do cérebro que, de acordo com a Cabala, contém o conhecimento secreto dado por Deus.


Mesmo se a teoria de Meshberg fosse correta, uma pessoa poderia simplesmente dar uma olhada no Evangelho de João 1:1, «No início era o Verbo», uma fonte na qual Michelangelo certamente estava mais familiarizado, para encontrar a idéia de Deus como Logos.
Muitos turistas através dos anos imaginaram porque Deus, na criação do sol e da lua, é tão proeminentemente mostrado pelas costas.


Nas mãos desses autores, o velho e cansado guia brinca que isto foi a origem do termo «mooning» (abaixar as calças e mostrar as nádegas em sinal de desprezo, N.d.T.), tornando-se a base de sua teoria anti-papal. Eles afirmam que Michelangelo fez Deus «moon» o Papa, porque ele estava tão irado com o fato de ter de pintar a capela ao invés do trabalho de escultura que lhe tinha sido prometido.


Daqui eles extrapolam que Michelangelo estava chateado com a corrupção da corte papal, bem como com o tratamento que a Igreja dava aos judeus e adicionou outras figuras fazendo gestos obscenos para o Papa. Além do fato de que estes outros gestos não estejam em lugar nenhum para serem vistos, é irônico que dois escritores que se dizem estar familiarizados com as Escrituras Hebraicas tenha esquecido a mais óbvia referência bíblica às «costas» de Deus, quando Moisés, no Êxodo, cap. 33, pede para ver Deus em sua glória e lhe é negado porque ninguém pode ver a face de Deus e viver.


Deus, para mostrar sua preferência a Moisés, permite-lhe ver somente Suas «costas». O entendimento cristão desse evento é que no Antigo Testamento o homem não podia ver a Deus, mas com o Verbo feito carne, todos podem finalmente olhar a face de Deus.
Este ponto teológico, que justifica a arte Cristã, explica porque os cristãos possuem uma cultura visual e porque Michelangelo poderia se atrever a pintar Deus.


A razão porque Doliner e Blech têm uma capela para estudar é porque as pessoas que se reuniram nesse espaço e o homem que a pintou acreditavam que Deus se tornou homem em Jesus Cristo, o Verbo feito carne, e nesse espaço durante a Missa, nós podemos reviver o encontro com o Deus vivo.


Por fim, os autores afirmam que Michelangelo, vantajosamente empregado e grandemente respeitado entre os muros do Vaticano, estava traindo a confiança depositada pelo Papa e pelos teólogos da Cúria, para divulgar seus próprios interesses nas paredes da Capela Sistina.
Talvez não seja surpreendente que esta idéia ocorresse ao co-autor Roy Doliner, que a despeito da falta de qualquer educação formal em história da arte ou teologia estava habilitado a ganhar visitas com acesso livre aos Museus Vaticanos. Ele firma sua própria agenda em imagens isoladas da capela sem nenhuma consideração pelo significado e função da capela como um todo.
O livro está repleto de sentimento anti-papal, apesar do que Blech fala de João Paulo II e do «bom Papa João XXIII».


De acordo com estes autores, o Papa, sua Cúria e corrente sem fim de teólogos, historiadores, santos e filósofos que meditaram na capela, estavam cegos para este «código»; somente a sabedoria de Doliner e Blech poderia ver a mente e o coração de Michelangelo. Gnosticismo no que há de melhor.


Enfim, a interpretação de Doliner e Blech da capela espelha outros que vêem a capela como um tipo de manifesto Protestante, e é ligeiramente mais plausível que outra recente teoria que diz que a capela contém mensagens secretas de alienígenas.


Estudiosos de gênero, psicólogos, ativistas gays e milhares de outros viram a si mesmos refletidos no teto e colocaram Michelangelo em sua própria linha de pensamento ao longo dos anos.


Linha final: Se alguém pode se ver refletido no teto da capela, isso faz Michelangelo bem mais universal. E esta não é a definição de Católico?