Trecho do livro - VIDA , PAIXÃO E GLORIFICAÇÃO DO CORDEIRO DE DEUS - Beata Anna Catharina Emmerich + comentários

O CORDEIRO DE DEUS - Parte 1

Sob este título, com a graça de Deus, nos colocamos diante de uma bela tarefa: Pretendemos trazer aos leitores partes de um livro da maior importância para todos os cristãos, não só católicos. Trata-se do livro da grande mística alemã, Ana Catarina Emmerich, aqui no Brasil intitulado "Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus", publicado pela Editora Mir de São Paulo – que pode ser adquirido pelo telefone nº 11-3865-4340, ou pela internet em: mireditora@uol.com.br com atendimento especial. E tão especial é o carinho do Fernando, que não só nos forneceu gentilmente e de forma gratuita os originais, como ainda nos incentivou ao trabalho. Ele assim, realmente cumpre esta missão grandiosa de fim dos tempos, onde não se pode mais ficar preso à esta história de direitos autorais, enquanto "o povo morre por falta de conhecimento". Aconselho a todos os que puderem ler este livro na íntegra, que não percam a chance. Todas as famílias católicas da terra o deveriam ter. Colocamos aqui, apenas as partes mais importantes.

Como não poderia deixar de ser, primeiro trazemos a parte relativa à vida da própria mística, para que os leitores compreendam a dignidade superior de seu ministério. Isso só vem edificar a sua obra e dar valor ao seu conteúdo de fé. Talvez nenhuma outra pessoa na terra, jamais tenha tido a graça de ver, com os próprios olhos, e com tão perfeita ordem, tudo aquilo que aconteceu com nosso Senhor, Jesus Cristo, desde os dias de Seu nascimento, até Sua morte dolorosa na Cruz. De fato, o Calvário fica real diante dos olhos do leitor, a medida que as palavras forem fluindo diante de nossas vistas.

Como sempre, se houver observações, as faremos ao final, indicando sempre por um número (1). Os tipos diferentes de máquina indicarão as nossas colocações, em especial no início e no fim de cada texto, para melhor esclarecimento. Segue então os escritos de Ana Catarina Emmerich. Na verdade, como ela não tinha escolaridade, os escritos foram passados ao papel pelo escritor Clemente Brentano, que ouvia seus relatos, e os transcrevia com fidelidade. E como a mística diz, ele próprio era conduzido pelo Espírito Santo, de modo que soam falsos todos os acusadores de Ana Catarina, que atribuem à imaginação do escritor, a maioria destas revelações fantásticas e minuciosas. Vamos aos textos!

QUEM FOI ESTA GRANDE MÍSTICA?

Anna Catharina Emmerich, filha de camponeses pobres, mas piedosos, nasceu na aldeia de Flamske, perto de Coesfeld, na Westfália, no dia 8 de Setembro de 1774 e foi batizada no mesmo dia. Desde a primeira infância, não cessou de receber do céu uma direção superior. Via freqüentemente o Anjo da Guarda e brincava com o Menino Jesus, nos prados e no jardim. A Mãe de Deus, a Rainha do Céu, apresentava-se-lhe muitas vezes e também os Santos lhe eram bons e afetuosos amigos.
Quando era criança, falava com toda a simplicidade dessas visões e fatos íntimos, pensando que as outras crianças vissem e experimentassem o mesmo; vendo, porém, que se admiravam das suas narrações, começou a guardar silêncio, pensando que era contra a modéstia falar dessas coisas.
Anna Catharina tinha um gênio alegre e amável; andava, porém, quase sempre calada e recolhida. Os pais, julgando que fosse por teimosia, tratavam-na com bastante rigor. Ela conta mais tarde: "Meus pais muitas vezes me censuravam, mas nunca me elogiavam; como, porém, eu ouvisse outros pais louvarem os filhos, julgava-me a pior criança do mundo". Era, contudo, de uma grande delicadeza de consciência; a menor transgressão afligia-a tanto, que lhe perturbava a saúde. Quando fez a primeira confissão, sentia tanta contrição, que chorou alto e foi preciso levá-la para fora do confessionário. Na Primeira Comunhão, cheia de ardente amor, ofereceu-se de novo, sem reservas, ao seu Deus e Senhor.
No verdor da mocidade, dos 12 aos 15 anos, Catharina trabalhou, como criada, em casa de um parente camponês, pastoreando rebanhos; depois voltou à casa paterna. Certa vez, trabalhando no campo, ouviu ao longe o toque lento e, sonoro do sino do Convento das Anunciadas, em Coesfeld. Contava então 16 anos apenas. Sentiu-se tão fortemente enlevada com a voz daqueles sinos, que lhe pareciam mensageiros do Céu, convidando-a para a vida religiosa e tão grande lhe foi a comoção, que caiu desmaiada e foi levada para casa, onde esteve, por muito tempo, adoentada.
Para conseguir mais facilmente admissão num convento, foi durante três anos trabalhar em casa de uma costureira, em Coesfeld, economizando assim 20 thalers (cerca de 3 libras Inglesas). Depois se mudou para a casa do piedoso organista Soentgen, esperando que, aprendendo a tocar órgão, se lhe facilitasse a entrada para um Convento. Mas a pobreza da família de Soentgen inspirou-lhe tanta compaixão, que, renunciando a tocar órgão, trabalhava na casa como criada, dando até as suas economias para aliviar a miséria do lar. "Deus deve ajudar agora", disse depois à mãe, "dei-lhe tudo, Ele saberá socorrer-nos a todos".
O bom Deus não deixou de ajudá-la, ainda que Anna Catharina só com 29 anos visse realizado o seu desejo de entrar para um convento. Quatro anos antes recebeu da bondade de Deus uma graça especial. Estava de joelhos na igreja dos padres Jesuítas, em Coesfeld, meditando e rezando diante de um crucifixo. "Então vi, conta ela mesma, vindo do Tabernáculo, onde se guardava o SS. Sacramento, o meu Esposo celeste em forma de um jovem resplandecente. Na mão esquerda trazia uma grinalda de flores, na direita uma coroa de espinhos; apresentou-mas, ambas, para eu escolher. Tomei a coroa de espinhos, Ele a pôs na minha cabeça e eu a apertei com ambas as mãos; depois desapareceu e voltei a mim, sentindo uma dor veemente em torno da cabeça. No dia seguinte a minha testa e as fontes, até as faces estavam muito inchadas e sofria horrivelmente. Essas dores e a inflamação voltaram muitas vezes. Não notei sangue em volta da cabeça, até que as minhas companheiras me induziram a vestir outra touca, porque a minha já estava cheia de manchas vermelhas, ferrugentas".
Como Anna Catharina não tinha mais dote, ficaram-lhe fechadas as portas dos Conventos, segundo o pensamento dos homens. Mas Deus ajudou-a, como esperava. Clara Soentgen, a filha do organista, sendo também organista perfeita, foi de boa vontade recebida no convento das Agostinhas, em Duelmen. Soentgen, porém declarou então que deixava entrar a filha somente sob a condição de que admitissem também Anna Catharina. Em conseqüência disso, entraram as duas jovens para o Convento, em 18 de Setembro de 1802.
O tempo do noviciado foi para Anna Catharina uma verdadeira escola da cruz, porque ninguém lhe compreendia o estado d’alma. Sofria, porém, tudo com paciência e amor, observando conscienciosamente a regra da Ordem. No dia 13 de Novembro de 1803, um ano depois de começar o noviciado, fez os votos solenes, tornando-se esposa de Jesus. O Esposo divino cumulou-a de novas e abundantes graças. "Apesar de todas as dores e sofrimentos", disse ela, "nunca estive tão rica no coração; minh’alma transbordava de felicidade. Eu vivia em paz, com Deus e com todas as criaturas. Quando trabalhava no jardim, vinham as avezinhas pousar sobre minha cabeça e meus ombros e cantávamos juntas os louvores de Deus. Via sempre o meu Anjo da Guarda ao meu lado e, ainda que o mau espírito me assustasse e agredisse, não me podia fazer mal. O meu desejo do SS. Sacramento era tão irresistível, que muitas vezes deixava de noite a minha cela, para ir rezar na igreja, quando estava aberta; se não, ficava ajoelhada diante da porta ou perto do muro, mesmo no inverno ou prostrada no chão, com os braços estendidos e em êxtase. Assim me encontrava o capelão do convento, Abbé Lambert (sacerdote francês, exilado da pátria, por não prestar juramento exigido pela constituição atéia), que tinha a caridade de vir mais cedo, para dar-me a sagrada Comunhão. Mas, logo que se aproximava para abrir a igreja, eu voltava a mim, indo depressa à mesa da Comunhão, onde achava o meu Deus e Senhor".
Como tantos Conventos, no princípio do século 19, também o Convento de Agnetenberg foi fechado a 3 de Dezembro de 1811. As piedosas freiras foram obrigadas a abandonar, uma após outra, o querido mosteiro. Anna Catharina, doente e pobre, ficou até a primavera seguinte, quando se mudou para uma pequena casa em Duelmen. No outono do mesmo ano (1812), lhe apareceu de novo o Divino Salvador, como um jovem resplandecente e entregou-lhe um crucifixo, que ela apertou com fervor de encontro ao coração. Desde então lhe ficou gravado no peito um sinal da cruz, do tamanho de cerca de três polegadas, o qual sangrava muito, a princípio todas as quartas-feiras, depois nas sextas-feiras, mais tarde menos freqüentemente.
A estigmatização deu-se-lhe poucos dias depois, a 29 de Dezembro. Nesse dia, às 3 horas da tarde, estava deitada, com os braços estendidos, em êxtase, meditando na Sagrada Paixão de Jesus. Viu então, numa luz brilhante, o Salvador crucificado e sentiu um veemente desejo de sofrer com Ele. Satisfez-se-lhe esse desejo, pois saíram logo das mãos, dos pés e do lado do Senhor raios luzidos cor de sangue, que penetraram nas mãos, nos pés e no lado da Serva de Deus, surgindo logo gotas de sangue nos lugares das chagas. Abbé Lambert e o confessor da vidente, Pe. Limberg, viram-nas sangrar dois dias depois, mas com sábio propósito fingiram não dar importância ao fato, na presença da Serva de Deus. Ela mesma procurava esconder os sinais das chagas, o que lhe era fácil, porque desde o dia 2 de Novembro de 1812 estava de cama, adoentada.
Desde então não pôde mais tomar alimento, a não ser água, misturada com um pouco de vinho, mais tarde só água ou, raras vezes, o suco de uma cereja ou ameixa. Assim vivia só da sagrada Comunhão. Esse estado e a estigmatização tornaram-se públicos na cidade, em Março de 1813. O Vigário de Duelmen, Pe. Rensing, encarregou dois médicos, os Drs. Wesener e Krauthausen, como também o confessor, de fazerem um exame das chagas, que freqüentemente sangravam., Os autos foram mandados à autoridade diocesana de Muenster, a qual enviou o Rev. Pe. Clemente Augusto de Droste Vischering, mais tarde Arcebispo de Colônia, o deão Overberg e o conselheiro medicinal Dr. von Drueffel a Duelmen, para fazerem outra investigação, que durou três meses. O resultado foi a confirmação da verdade das chagas, da virtude e também o reconhecimento do caráter sobrenatural do estado da jovem religiosa.
Também a autoridade secular, querendo examinar e "desmascarar a embusteira", mandou, em 1819, uma comissão de médicos e naturalistas; isolaram-na por isso em outra casa, rigorosamente observada, do dia 7 a 29 de Agosto, o que lhe causou muita humilhação e sofrimento; também o resultado desse exame lhe foi favorável.
No ano anterior, viera visitá-la pela primeira vez o poeta Clemente Brentano, recomendado pelo deão Overberg; a 17 de Setembro ele a viu pela primeira vez. Ela, porém, já o tinha visto muito antes, nas visões e recebido ordem do Céu para comunicar-lhe tudo. "0 Peregrino", como o chamava, ficou até Janeiro de 1819, mas voltou de novo, para ficar com ela, no mês de Maio. Foi para Catharina um amigo fiel até a morte, mas fê-la sofrer também às vezes, com seu gênio veemente.
Reconheceu a tarefa que lhe fora dada por Deus, de escrever as visões desta mártir privilegiada e dedicou-se a isso com cuidado consciencioso. "O Peregrino" escrevia durante as narrações, em tiras de papel, os pontos principais, que imediatamente depois copiava, completando-os de memória. A cópia, a limpo, lia à Serva de Deus, corrigindo, acrescentando, riscando sob a direção de Catharina, não deixando nada que não tivesse recebido a confirmação expressa de fiel interpretação.
Pode-se imaginar a grande facilidade que a prática diária, através de alguns anos, trouxe ao "Peregrino", para esse trabalho, dada a sua extraordinária inteligência e perseverança, como também o fato de ver nesse serviço uma obra santa, para a qual costumava preparar-se com orações e exercícios piedosos; assim podemos confiar que não lhe tenha faltado aos esforços o auxílio de Deus. O escrúpulo e a consciência com que procedia nesse trabalho, nunca lhe permitiram, durante tantos anos, resposta alguma aos que atribuíam grande parte das visões à imaginação do poeta, o que equivale a dizer que, homem sério que era, na tarde da vida se teria dado a esse incrível trabalho, para enganar conscientemente a si mesmo e aos outros".
"Ela falava geralmente baixo-alemão, no êxtase, também o idioma mais puro; a sua narração era, ora de grande singeleza, ora cheia de elevação e entusiasmo. Tudo que ouvi e que, nas dadas condições, só raras vezes e apenas em poucas palavras podia anotar, escrevia eu mais extensamente em casa, imediatamente depois. O Doador de todos os bens deu-me a memória, a aplicação e elevação da alma acima dos sofrimentos, que tornaram possível a obra, como está. O escritor fez tudo que era possível e pede, nesta convicção, ao benévolo leitor a esmola da oração". Anna Catharina deu também a este trabalho plena aprovação.
Quando estava num profundo êxtase, a 18 de Dezembro de 1819 e Brentano lhe apresentou uma folha, com as anotações, disse ela: "Estes são papéis de letras luminosas. O homem (isto é, o Peregrino) não escreve de si mesmo; tem para isto a graça de Deus. Nenhum outro pode fazê-lo; é como se ele mesmo visse".
Anna Catharina viu no êxtase toda a vida e paixão do Divino Salvador e de sua Santíssima Mãe; viu os trabalhos dos Apóstolos e a propagação da Santa Igreja, muitos fatos do Velho Testamento, como também eventos futuros. Tocando em relíquias, geralmente via a vida, as obras e os sofrimentos dos respectivos Santos. Com certeza reconhecia e determinava as relíquias dos Santos, distinguindo em geral facilmente objetos sagrados de profanos.
Adversários da Serva de Deus querem negar-lhe o caráter sobrenatural das informações recebidas durante os êxtases, alegando que Anna Catharina tirava a maior parte dos conhecimentos de livros, que antes teria lido. Mas isso não está de conformidade com o que Peregrino escreveu, em 8 de Maio de 1819 . Ela me disse que nunca fora capaz de aproveitar coisas de livros e que sempre pensava: - Ora, tal livro não há de fazer pecar. Também não pôde guardar na memória coisas da Escritura Sagrada; mas tem da vida do Senhor a graça de tal intuição, que a consciência e certeza, que disso tenho, às vezes me fazem tremer, por manter um trato tão familiar e simples com uma criatura de Deus tão maravilhosa e privilegiada, como talvez não haja outra".
Em outra ocasião ela disse ao Peregrino: "Nunca tive lembrança viva de histórias do Antigo Testamento ou dos Evangelhos, pois vi tudo com os meus próprios olhos, durante a minha vida inteira; o mesmo vejo cada ano de novo e nas mesmas circunstâncias, ainda que às vezes em outras cenas. Umas vezes estive naqueles lugares, no meio dos espectadores, assistindo aos acontecimentos, acompanhando-os e mudando de lugar; mas não estive sempre no mesmo lugar, pois às vezes fui levada para cima da cena, olhando deste modo para baixo.
Outras coisas, principalmente os mistérios, vi-os mais com a vista interior da alma, outras em figuras separadas da cena: em todos os casos se me apresentava tudo transparente, de modo que nenhum corpo cobria o outro, nem havia confusão".
Com todas estas grandes graças, Anna Catharina permanecia humilde, simples e singela como uma criança. Mostrava-se sempre obediente aos pais e às superioras religiosas, como também ao confessor e diretor espiritual. Se lhe mandavam tomar remédio, consentia, apesar de prever-lhe o mau efeito. Mesmo em êxtase, obedecia imediatamente à chamada do confessor.
Era à dolorosa Paixão de Nosso Senhor que tinha uma devoção especial e rezava por isso muitas vezes, enquanto lhe era possível, a Via Sacra erigida ao longo de um caminho de quase duas léguas, nos arredores de Coesfeld. Nos domingos fazia essa devoção em companhia de algumas jovens piedosas, nos dias úteis a fazia muitas vezes de noite. Clara Soentgen, sua amiga, conta: "Muitas vezes ela se levantava de noite, saindo furtivamente de casa e rezava descalça a Via Sacra. Se a porta da cidade estava fechada, pulava os altos muros, para poder ir à Via Sacra; às vezes caia dos muros abaixo, mas nunca se machucava".
Além dos muitos padecimentos que sofria com paciência e perseverança, exercitava-se constantemente nas mortificações voluntárias. Já na infância costumava privar-se de parte do sono e da comida. Muitas horas da noite passava velando e rezando; comia e bebia o que os outros recusavam, levando as comidas melhores aos doentes e pobres, dos quais tinha muita compaixão. O amor ao próximo impelia-a a pedir a Deus que, por favor, lhe desse a sofrer as doenças e dores dos outros ou que a deixasse cumprir os castigos merecidos pelos pecadores. Já o fizera na infância e fazia-o depois de um modo muito mais intenso. "A tarefa principal da sua vida, escreve Clemente Brentano, era sofrer pela Igreja ou por alguns membros da mesma, cuja necessidade lhe era dada a conhecer em espírito ou que lhe pediam a intercessão". Anna Catharina aceitava de boa vontade tais sofrimentos e trabalhos. Muitas vezes, porém, se tornavam estes tão grandes e pesados, que parecia prestes a morrer.
Quando um dia, quase sucumbindo ao peso das dores, pediu ao Senhor que não a deixasse sofrer mais do que podia suportar, apareceu-lhe o Esposo Celeste e disse: "Coloquei-te no meu leito nupcial das dores, com as graças dos sofrimentos, adornada com os tesouros da reconciliação e com as jóias das boas ações. Deves sofrer. Não te abandono; estás amarrada à videira, não perecerás".
Também as almas do purgatório se lhe dirigiam muitas vezes, pedindo-lhe socorro; e ela provava de boa vontade sua compaixão ativa. "Fiz um contrato com meu doce Esposo do Céu", conta ela, que cada gota de sangue, cada pulsar do coração, toda a minha vida e todos os meus atos devem sempre clamar: "Almas queridas do purgatório, saúdo-vos pelo doce Coração de Jesus". Isso faz bem a essas infelizes e alivia-as, pois são tão pacientes!"
Depois de muitos e indizíveis sofrimentos, chegou o dia da sua morte a 9 de Fevereiro de 1824.
A 15 de Janeiro desse ano dissera a Serva de Deus: "Na festa de Natal o Menino Jesus me trouxe muitos sofrimentos, hoje me deu ainda maiores, dizendo: "Tu me pertences, és minha esposa: sofre como eu sofri; não perguntes porque, é para a vida e para a morte".
Ela jaz com febre, com dores reumáticas e convulsões, escreve o Peregrino, mas sempre em atividade espiritual, em prol da santa Igreja e dos moribundos. O confessor pensa que ela em pouco terminará, porque disse no êxtase, com grande serenidade "Não posso aceitar outro trabalho, já estou próxima do fim". Ela pronuncia, com voz de moribunda, só o nome de "Jesus".
A 27 de Janeiro recebeu a Extrema-Unção. Aumentaram-lhe as dores; mas repetia de vez em quando: "Ai, meu Jesus, mil vezes vos agradeço toda a minha vida; não a minha vontade, mas a Vossa seja feita". Na véspera da morte rezou: "Jesus, para Vós morro; Senhor, dou-Vos graças, não ouço nem enxergo mais". Quiseram mudar-lhe a posição, para aliviá-la, mas Anna Catharina disse: Estou deitada na cruz; deixem-me, em pouco acabarei". Recebeu mais uma vez a sagrada Comunhão, a 9 de Fevereiro. Suspirando pelo Divino Esposo, rezou diversas vezes: "Oh! Senhor, socorrei-me; vinde, meu Jesus".
O confessor assistiu à moribunda, dando-lhe muitas vezes o crucifixo para beijar e rezando preces pelos moribundos. Ela ainda lhe disse: "Agora estou tão sossegada; tenho tanta confiança, como se nunca tivesse cometido pecado". Deram justamente 8 horas da noite, quando exclamou três vezes, gemendo: "Oh! Senhor, socorrei-me, vinde, oh! meu Senhor!" E a alma pura voou-lhe ao encontro do Esposo Celeste, para permanecer, como esperamos confiadamente, eternamente unida com Ele, na infinita felicidade do Céu.
Com grande concorrência do povo foi sepultado o corpo da Serva de Deus, no cemitério de Duelmen, onde jaz ainda. Na noite de 21 a 22 de Março de 1824 foram abertos o sepulcro e o caixão, em presença do prefeito da cidade e do delegado de polícia. Viu-se que a decomposição ainda não tinha começado. Uma segunda abertura do sepulcro foi feita, no dia 6 de Outubro de 1858, pela autoridade eclesiástica.
Anna Catharina achou muitos veneradores na Alemanha e longe, além das fronteiras, que se alegraram pela abertura do processo chamado de informação, feito pela autoridade diocesana de Muenster, no ano de 1892. Encerrou-se esse processo no ano de 1899, sendo os documentos enviados à Santa Sé em Roma, para pedir a beatificação da piedosa sofredora. Oxalá que essa honra seja dada pelo chefe da Igreja, para a glória de Deus, que é "admirável nos seus Santos!"
Grande número de homens doutíssimos examinaram as visões da piedosa Anna Catharina Emmerich e reconheceram-lhe a credibilidade, com palavras calorosas. Citamos apenas algumas sentenças da opinião de Frederico Windischmann, professor tão piedoso como douto, mais tarde Vigário geral do arcebispado de Muenchen Freising: "A Providência Divina escolheu em Anna Catharina um Instrumento que - preparado com os poucos conhecimentos da instrução rural, familiarizada, como se achava, somente com livros de devoção ordinários, não versada na Escritura Sagrada, privada até propriamente de uma direção espiritual, - não podia apresentar ao divino assunto um vaso humanamente tão bem formado como S. Teresa, Maria de Agreda e outras; por isso mesmo era muito menos capaz de fazer impostura, querendo imitar aqueles grandes exemplos.
Pelo contrário, para provar claramente a verdade do dom divino, deviam as visões da jovem camponesa, despidas quase inteiramente da parte subjetiva e mística, no sentido comum desta palavra, referir-se somente ao objetivo da vida real de Jesus Cristo. Mas, justamente por isso lhe foi dado um assunto, em que não há lugar para fantasia puramente humana e para os sonhos de falsa contemplação, os quais, se quisessem imiscuir-se-lhe, deveriam causar erros e enganos à cada passo; numa palavra: a inimitável objetividade da visão, sem reflexões místicas da vidente, é uma prova evidente da veracidade.
Assim a descrição, às vezes quase fatigante, de pessoas, do respectivo aspecto, vestuário, costumes de vida; a enumeração de cidades e povoações, de caminhos e viagens, de regiões, montanhas, rios e lagos: todos estes detalhes arqueológicos tem o fim providencial: primeiro, de provar a impossibilidade de invenção, por parte da vidente ou do seu secretário; segundo, de dar à pessoa de Jesus, aparecendo e agindo com verdade histórica, um fundo histórico, do mesmo modo verdadeiro.
Dissemos antes que nenhuma reflexão mística e contemplação subjetiva da vidente escurecia a objetividade das visões; mas isso não impede que, de vez em quando, resplandeça, através das pessoas e dos acontecimentos, uma luz maravilhosa de um mundo superior e que a vidente, como criança singela, nos deixe contemplar os mistérios mais profundos da Escritura Sagrada e da doutrina cristã".

Eis aí um pouco da vida desta grande santa. Há mais textos a respeito dela, porém cremos que o essencial está aqui retratado. Infelizmente, ainda não feita santa pela Igreja, mas com certeza esta glória ela tem no Céu. Vejam o ódio de satanás contra ela, tal que o seu processo de beatificação teve início em 1892, portanto há 111 anos, sem ter andado quase nada. Só agora, recentemente, foi aceito um milagre atribuído a ela, que deverá agilizar o processo. Somente este fato deveria acender o coração dos homens da Igreja, para que se debruçassem sobre seus escritos, porque certamente eles são da maior importância.

Nós, porém, vamos fazer a nossa parte. Com a colaboração de todos, editor, leitores e divulgadores, poderemos fazer chegar a muitos, pelo menos as partes mais importantes destas preciosas revelações. Este primeiro texto termina aqui, mas em breve os outros chegarão, certamente para o bem e a edificação de muitos.

Aarão!

Os que quiserem adquirir o livro original,
Podem dirigir-se à Editora Mir – São Paulo.
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PS. Hoje, quando reviso o texto, leio as matérias relativas ao filme A PAIXÃO, do ator Mel Gibson, que é baseado nas visões desta grande mística da nossa Igreja Católica. Também fico sabendo que tudo isso está impulsionando, finalmente, o processo de canonização dela, o que já não é sem tempo.

O CORDEIRO DE DEUS - Parte 2

Continuando nosso pequeno trabalho de trazer à luz fatos importantes da vida de Jesus, vamos aqui apresentar o resumo do livro já citado, de Ana Catarina Emmerich desta vez apresentando um resumo da vida de Nossa Senhora, em especial a partir do momento em que aos três anos e meio, despediu-se do pai e da mãe e tornou-se uma das virgens consagradas do Templo de Jerusalém. O texto não carece de informações adicionais, mas certamente é uma doçura para aqueles que amam a Mãe do Filho de Deus. Eis as visões de Ana Catarina, sobre a:

Infância de Nossa Senhora e seu casamento com São José

Maria tinha três anos e três meses, quando fez o voto de associar-se às virgens santas, que se dedicavam ao serviço do Templo. Antes da partida fizeram na casa paterna uma grande festa, à qual estiveram presentes cinco sacerdotes, que sujeitaram Maria à uma espécie de exame, para ver se já chegara à idade de juízo e madureza de espírito, para, ser admitida no Templo. Disseram-lhe que os pais tinham feito por ela o voto, que não devia beber vinho ou vinagre, nem comer uvas ou figos. Maria ainda acrescentou que não comeria nem peixe, nem especiarias, nem frutas, senão uma espécie de pequenas bagas amarelas, que não beberia leite, dormiria na terra e se levantaria três vezes durante a noite para rezar.
Os pais de Maria ficaram muito comovidos com estas palavras. Joaquim abraçou a filha, exclamando, entre lágrimas: "Oh, minha querida filha, isto é duro demais; se assim queres viver, teu velho pai não te verá mais". - Foi um momento de profunda comoção. Os sacerdotes, porém, disseram que se devia levantar só uma vez para a oração, como as outras virgens, juntando ainda outras circunstâncias atenuantes, como, por exemplo, que devia comer peixe nas grandes festas".
Maria ofereceu-se também para lavar as vestes dos sacerdotes e outras roupas grossas. No fim da solenidade, vi que Maria foi abençoada pelos sacerdotes. Ela estava em pé, num pequeno trono, entre dois sacerdotes; aquele que a abençoou, estava-lhe em frente, os outros atrás. Os sacerdotes rezaram alternadamente, em rolos de pergaminho e o primeiro abençoou-a, estendendo as mãos sobre ela.
Tive nessa ocasião uma maravilhosa visão do estado íntimo da santa Menina. Vi-a como que iluminada e transparente pela bênção do sacerdote e sob seu Coração, em glória indizível, vi a mesma imagem que na contemplação do santo Mistério na Arca da Aliança.
Numa forma luminosa, igual à do cálice de Melquisedec, vi figuras brilhantes, indescritíveis, da bênção da promissão. Era como trigo e vinho, carne e sangue, que tendiam a unir-se. Vi, ao mesmo tempo, que sobre essa aparição o Coração da Virgem se abriu, como a porta de um templo e o mistério da promissão, cercado como de um dossel, guarnecido de misteriosas pedras preciosas, lhe entrou no Coração aberto; era como se a Arca da Aliança entrasse no templo. Depois disso, encerrava o coração da Virgem o maior bem que naquele tempo havia no mundo. Desaparecendo essa imagem, vi apenas a santa Menina cheia de ardente devoção e amor. Vi-a como que extasiada e elevada acima da terra".
Joaquim e Ana viajaram com Maria para Jerusalém. Em procissão solene foi a Menina introduzida no Templo; depois de oferecido um sacrifício, erigiu-se um altar por baixo de um portal. Maria ajoelhou-se nos degraus, enquanto Joaquim e Ana lhe puseram as mãos na cabeça, proferindo orações de oferecimento. Um sacerdote cortou-lhe então um anel do cabelo queimou-o num braseiro e vestiu-a de um véu pardo. Dois sacerdotes conduziram Maria muitos degraus para cima, à parede divisória que separa o Santo do resto do Templo e colocaram-na num nicho, do qual se via o Templo, em baixo. Depois um sacerdote ofereceu incenso no altar próprio.
"Vi brilhar sob o Coração de Maria uma auréola de glória e soube que continha a promissão, a bênção santíssima de Deus. Essa auréola aparecia como que cercada pela arca de Noé, de modo que a cabeça da Santíssima Virgem sobressaia acima da Arca. Depois vi a figura da arca de Noé transformar-se na da Arca da Aliança, cercada pela aparição do Templo. Então vi desaparecer essas formas e sair da auréola brilhante a figura do cálice da última ceia, diante do peito de Maria. Aparecendo-lhe diante da boca um pão assinalado com uma cruz.
Dos lados lhe emanavam numerosos raios de luz, em cujas extremidades apareciam muitos mistérios e símbolos da SS. Virgem, como, por exemplo, os nomes da Ladainha de N. Senhora, em figuras. Do ombro direito e do esquerdo cruzavam-se dois ramos de oliveira e cipreste sobre uma palmeira pequena, que vi aparecer atrás de Maria. Entre esses ramos vi as formas de todos os instrumentos da paixão de Jesus. O Espírito Santo, com asas luminosas, parecendo mais figura de homem do que de pomba, pairou sobre a aparição. No alto vi o céu aberto, com a Jerusalém celeste no centro, com todos os palácios, jardins e habitações dos futuros Santos; tudo estava cheio de Anjos; também a auréola de glória que cercava Maria, estava cheia de cabeças de Anjos.
Então desapareceu a visão gradualmente, como aparecera. Por fim vi somente o esplendor sob o Coração de Maria e luzir nele a bênção da promissão. Depois desapareceu também essa visão e vi apenas a Santa Menina, consagrada ao Templo, guarnecida de seus adornos, sozinha entre os sacerdotes".
Maria despediu-se dos pais e foi entregue às mestras: Noemi, Irmã da mãe de Lázaro e a profetisa Ana, outra matrona. Então vi uma festa das virgens do Templo. Maria tinha de perguntar às mestras e às meninas, uma a uma, se queriam deixá-la ficar junto delas. Era o costume adotado. Depois fizeram uma refeição e no fim houve uma dança; estavam umas em frente às outras, duas a duas e dançando formavam figuras: cruzes, etc.
De noite Noemi conduziu Maria ao seu quartinho, de onde se podia ver o interior do Templo. O quarto não formava um quadrângulo regular; as paredes estavam marchetadas de triângulos, que formavam várias figuras. Havia no quarto um banquinho, mezinha e estantes nos cantos, com diversos repartimentos para guardar objetos. Diante desse quartinho havia um quarto de dormir e um guarda-roupa, como também a cela de Noemi.
As virgens do Templo usavam vestido branco, comprido e largo, com cinta e mangas muito largas, que arregaçavam para o trabalho. Estavam sempre veladas.
Maria, era, para sua idade, muito hábil; vi-a trabalhar, fazendo já pequenos lenços brancos, para o serviço do Templo.
Vi a Santa Virgem passar o tempo parte na morada das matronas (com as outras meninas), parte na solidão do quarto, em estudo, oração e trabalho. Trabalhava em ponto de malha e tecia, sobre varas compridas, panos estreitos, para o serviço do Templo. Lavava as toalhas e limpava os vasos do Templo. Vi-a muitas vezes em oração e meditação.
Além das orações prescritas no Templo, Maria SS. tinha como devoção especial o desejo contínuo da Redenção, que lhe constituía uma ininterrupta oração da alma. Guardava esse desejo como um segredo e fazia as devoções às escondidas. Quando todas dormiam, levantava-se do leito, para orar a Deus. Vi-a muitas vezes se desfazer em lágrimas e rodeada de celestial esplendor, durante a oração.
A alma da Virgem parecia não estar na terra e gozava muitas vezes de consolações celestes. Tinha um desejo indizível da vinda do Messias e na sua humildade, apenas se atrevia a desejar ser a serva mais humilde da Mãe do Salvador.
Tendo as virgens do Templo alcançado certa idade, casavam-se e deixavam o serviço do mesmo. Quando chegou, porém, o tempo de Maria, ela não quis deixar o Templo; mas disseram-lhe que devia casar".
"Eu vi, conta Catharina Emmerich, que um sacerdote muito idoso, que não podia mais andar (provavelmente o Sumo Sacerdote), foi transportado por alguns outros, numa cadeira, para diante do Santíssimo e rezou, lendo num rolo de pergaminho que lhe estava em frente, sobre uma estante, enquanto se queimava um sacrifício de incenso. Extasiado em espírito, teve uma aparição, sendo-lhe a mão colocada sobre o rolo, onde o dedo indicador mostrava a palavra do Profeta Isaías: E sairá uma vara do tronco de Jessé o uma flor brotar-lhe-á da raiz. (Is. 11, 1). Quando o ancião voltou a si, leu esse verso e conheceu-lhe a significação ensinada na visão".
Enviaram, portanto, mensageiros por todo o país, convocando todos os homens solteiros da estirpe de Davi ao Templo. Reuniram-se muitos deles no Templo, em vestes de gala, e foi-lhes apresentada a Virgem Santíssima. Vi ali um jovem muito piedoso da região de Belém; tinha também implorado sempre, com ardente devoção, a vinda do Salvador prometido e vi-lhe no coração o grande desejo de ser o esposo de Maria. Esta, porém, se recolheu à cela, derramando lágrimas abundantes e não podia conformar-se com o pensamento de ter de renunciar à virgindade.
Então vi que o Sumo Sacerdote (segundo a inspiração recebida do Céu) distribuiu ramos a todos os homens presentes, com ordem de marcar cada um o seu ramo com o respectivo nome e segurá-lo nas mãos, durante a oração e o sacrifício. Feito Isso, todos entregaram os seus ramos, que foram colocados sobre um altar, diante do Santíssimo; anunciou-lhes o Sumo Sacerdote que aquele cujo ramo florescesse, seria destinado por Deus a desposar a Virgem Maria de Nazaré. Enquanto os ramos estavam diante do Santíssimo, continuaram os homens a oferecer sacrifícios, a rezar; vi que aquele jovem clamava instantemente a Deus, com os braços estendidos, num dos átrios do Templo e rompeu em lágrimas, quando todos receberam os seus ramos e foram informados que nenhum florescera e, portanto, nenhum dentre os presentes fora destinado a ser o esposo dessa Virgem.
Vi depois que os sacerdotes do Templo procuraram de novo, nos registros das gerações, se havia ainda um descendente de Davi, que antes tivessem saltado. Como, porém, fossem marcados seis irmãos de Belém, de um dos quais já há muito tempo não havia notícias, procuraram o domicílio de José e acharam-no, num lugar não muito longe de Samaria, situado num ribeiro, onde morava sozinho, perto do ribeiro, trabalhando em serviço de outros mestres. Estaria talvez na Idade de 33 anos.
À ordem do Sumo Sacerdote, veio José com o seu melhor traje ao Templo de Jerusalém. Teve também de segurar um ramo, durante o sacrifício e as orações; quando quis pô-lo sobre o altar, diante do Santíssimo, brotou uma flor branca, como uma açucena, na ponta do ramo e vi descer sobre ele uma aparição luminosa, como o Espírito Santo. Então reconheceram José como esposo de Maria, escolhido por Deus e apresentaram-no à Maria, em presença de sua mãe e dos sacerdotes. Maria, conformada com a vontade de Deus, aceitou-o humildemente por noivo.
As núpcias foram celebradas em Jerusalém. Depois seguiu Maria com a mãe para Nazaré; José, porém, foi primeiro a Belém, a negócios de família. À sua chegada em Nazaré, fizeram uma festa. Na casa que Ana montara para eles, tinha José um quarto separado, na frente. Ambos estavam muito acanhados. Viviam em oração e muito recolhidos".

Anunciação e Visitação de Nossa Senhora

Depois do casamento de Maria SS. com S. José, estavam preparadas pela Divina Providência todas as condições, de modo que o santíssimo e eternamente adorável mistério da Encarnação podia realizar-se. Deu-se esse fato numa noite santa, na silenciosa casa de Nazaré. Inspirada pelo Espírito Santo, que queria operar nela o grandioso milagre, velou Maria toda a noite em ardente oração. Então sucedeu que, pela meia noite, entrou na casa de Nazaré um dos mais augustos Anjos do Céu, como mensageiro de Deus e, pelo consentimento da SS. Virgem, revestiu-se nela o Filho Unigênito de Deus da natureza humana. Assim se uniu a eternamente adorável Divindade, por um misterioso matrimônio e amor santo, com a humanidade pecaminosa, a qual o Pai de misericórdia quis elevar de novo pelo Homem-Deus, para estabelecer a nova Aliança de graça e amor.
Ouçamos a singela descrição desse mistério pela vidente privilegiada de Dülmen:
"Vi a Santíssima Virgem, pouco depois do casamento, em casa de José, em Nazaré. José saíra da cidade, com dois jumentos, para buscar alguma coisa; parecia estar voltando. Além da SS. Virgem e duas moças da mesma idade, vi ainda Sant’Ana e aquela parenta viúva, que lhe servia de criada. Pela noite rezaram, comendo depois alguma hortaliça. Maria recolheu-se então ao quarto de dormir e preparou-se para a oração, pondo um vestido comprido, de lã branca, com cinto largo e cobrindo a cabeça com um véu branco-amarelo. Tirou uma mezinha baixa encostada na parede e colocou-a no meio do quarto; tendo posto ainda uma almofada diante dessa mezinha, pôs-se de joelhos e cruzou os braços. Assim a vi rezar muito tempo, em ardente súplica, elevados os olhos ao céu, pedindo a redenção e a vinda do Rei prometido".
Então se derramou do teto do quarto uma torrente de luz sobre o lugar à direita de Maria; nessa luz vi um jovem resplandecente descer para junto dela: era o Arcanjo S. Gabriel, que lhe disse:
"Ave, cheia de graça. O Senhor é convosco, bendita sois entre as mulheres". Ao ouvir estas palavras, a Virgem perturbou-se e cogitava das razões daquela saudação. Mas o Anjo observou-lhe: "Não vos perturbeis, Maria, porque merecestes graça diante de Deus; pois concebereis e dareis à luz um filho, ao qual poreis o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á o Filho do Altíssimo; e Deus Nosso senhor dar-lhe-á o trono de Davi, seu pai, e reinará eternamente sobre a casa de Jacó e o seu reino não terá fim". (Lc. 1, 28-33).
Vi-lhe sair as palavras da boca como letras. Maria virou um pouco a cabeça velada para o lado direito, mas, cheia de temor, não levantou os olhos. O Anjo, porém, continuou a falar e Maria levantou um pouco o véu e respondeu:
"Como se fará isso, pois não conheço homem?" (Luc. 1, 34)
E o Anjo disse: "O Espírito Santo virá sobre Vós e a virtude do Altíssimo cobrir-vos-á com sua sombra. E por isso o Santo que nascerá de Vós, será chamado Filho de Deus. Já vossa prima Isabel concebeu um filho na velhice e este é o sexto mês da que se diz estéril; pois nada para Deus é impossível".
Maria levantou o véu e, olhando para o Anjo, respondeu as santas palavras: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a vossa palavra". A Santíssima Virgem estava em profundo êxtase. O quarto estava cheio de luz, o Céu parecia aberto e um rasto luminoso permitia-me ver por cima do Anjo, no fim da torrente de luz, a Santíssima Trindade. Quando Maria disse: "Faça-se em mim segundo a vossa palavra", vi a aparição do Espírito Santo; do peito e das mãos derramaram-se-lhe três raios de luz para o lado direito da Santíssima Virgem, unindo-se-lhe. Maria estava nesse momento toda luminosa e como transparente.
Vi depois o Anjo desaparecer e do rasto luminoso que se retirava para o Céu, caíram sobre a Santíssima Virgem muitas rosas brancas fechadas, todas com uma folhinha verde. Nesse momento vi também uma serpente asquerosa arrastar-se pela casa e pelos degraus acima. O Anjo, ao sair do quarto da SS. Virgem, pisou diante da porta a cabeça desse monstro, que uivou tão horrivelmente, que tremi de medo.
Apareceram, porém, três espíritos e expulsaram o monstro a pontapés e pancadas, para fora de casa. A Virgem Santíssima, toda absorta em extática contemplação, reconheceu e viu em si o Filho de Deus, feito homem, como uma pequena forma humana luminosa, com todos os membros já desenvolvidos, até os dedinhos e humildemente o adorou. Foi pela meia noite, que vi esse mistério. Depois de algum tempo, Maria se levantou, colocou-se diante do pequeno altar de oração e rezou em pé. Foi pela manhã que se deitou para dormir. Ana teve, por uma revelação de Deus, conhecimento de tudo".
Para a preparação completa da vida pública e das obras de Jesus era preciso também a santificação e a ação pública do Precursor. Esta devia efetuar-se, segundo a vontade de Deus, pela aproximação de Maria e de seu Filho milagrosamente concebido, da mãe do precursor. Por isso inspirou o Espírito Santo à Virgem Santíssima o desejo de visitar a prima Isabel. Esta morava em Hebron, no sul do país, Maria em Nazaré, no norte; mas essa distância não desanimou Maria. Pôs-se a caminho, em contínua adoração e contemplação do Filho de Deus, que trazia sob o Coração, acompanhada por S. José, evitando, quanto era possível, as cidades e vilas tumultuosas. Anna Catharina Emmerich narra:
"Isabel (a prima de Maria e esposa de Zacarias) soube, por uma visão, que uma virgem da sua tribo se tornara mãe, do Messias prometido. Tinha pensado, durante essa visão, em Maria, com grande saudade e vira-a em espírito, em caminho para sua casa. Mas Zacarias deu-lhe a entender ser inverossímil que a recém-casada fizesse tal viagem. Isabel, porém, cheia de saudade, foi-lhe ao encontro.
Maria Santíssima, vendo Isabel de longe e reconhecendo-a correu adiante de José, ao encontro dela. Cumprimentaram-se afetuosamente com um aperto de mão. Nisto vi um esplendor em Maria e um raio de luz passando dela para Isabel, que se sentiu milagrosamente comovida. Abraçando-se, atravessaram, o pátio em direção à porta da casa. José entrou, por uma porta lateral, no átrio da casa, onde humildemente cumprimentou o velho sacerdote venerável; este o abraçou cordialmente e expandiu-se com ele, escrevendo numa lousa, pois ficara mudo desde a aparição do Anjo no Templo".
Maria e Isabel entraram pela porta da casa no átrio. Ali se cumprimentaram de novo muito afetuosamente, pondo as mãos nos braços uma da outra e encostando face a face. Nisso vi de novo como que um esplendor em Maria, radiando para Isabel, pelo que esta ficou toda luminosa, comovida por uma alegria santa. Recuando com as mãos levantadas, exclamou, cheia de humildade, alegria e entusiasmo: "Bendita sois entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre! Donde me vem a felicidade de ser visitada pela Mãe do meu Senhor? Porque assim que chegou a voz da saudação aos meus ouvidos, logo o menino deu um salto de prazer no meu ventre".
Então conduziu Maria ao quartinho preparado para ela. Maria, porém, na elevação da sua alma, proferiu o cântico do "Magnificat": Minha alma engrandece o Senhor, etc.
Depois de alguns dias, voltou José a Nazaré, acompanhado, parte do caminho, por Zacarias. Maria Santíssima, porém, ficou três meses com Isabel, até o nascimento de João e já antes da circuncisão do menino voltou para Nazaré. José veio-lhe ao encontro até meio caminho e foi então que notou que estava grávida. Não tendo conhecimento da anunciação do Anjo à SS. Virgem, foi acometido de dúvidas e desassossego. Maria guardara consigo o mistério, por humildade e modéstia. José nada disse, mas lutou em silêncio com as dúvidas que lhe torturavam o coração. Em Nazaré lhe cresceu o desassossego, a ponto de resolver abandoná-la e fugir secretamente. Então lhe apareceu um Anjo em sonho e consolou-o".
Nas últimas linhas, que não fazem mais que repetir o que já consta da Escritura Sagrada, se revela a profunda humildade de Maria Santíssima. Ela compreendia que José devia saber o que se tinha passado. Sentiu profundamente a dor do piedoso esposo, mas, por modéstia, não teve a coragem de revelar-lhe o santo mistério e o extraordinário privilégio, que lhe fora dado.
Humildemente confiou que Deus a ajudasse e foi-lhe recompensada essa confiança e ouvida a piedosa oração. Quanto tempo teve de pedir, não sabemos; em todo caso, porém, vemos que Deus não atende imediatamente às súplicas nem das pessoas mais santas, mas só quando chega o tempo previamente determinado pela divina sabedoria.

A viagem a Belém e o nascimento de Nosso Senhor

"Vi a Santíssima Virgem, com sua mãe Sant’Ana, fazendo trabalhos de malha, preparando tapetes, ligaduras e panos, conta Anna Catharina. José estava a caminho, voltando de Jerusalém, para onde tinha levado animais para o sacrifício. Passando pela meia-noite pelo campo de Chimki, a seis léguas de Nazaré, apareceu-lhe um Anjo, com o aviso de partir imediatamente com Maria para Belém, pois era ali que ela devia dar à luz o filho. Ordenou-lhe também que levasse, além do jumento, em que Maria devia viajar, uma jumentinha de um ano; que deixasse esta correr livre e seguisse o caminho que ela tomasse".
José comunicou à Maria e Ana o que lhe fora dito; então se prepararam para a partida imediata. Ana ficou muito aflita. A Virgem Santíssima, porém, já sabia antes que devia dar à luz o filho em Belém, mas na sua humildade calara-se".
A vida dos filhos de Deus é uma mistura de alegria e de dor. Maria Santíssima tinha-o experimentado já em Nazaré; verificou-o por toda a vida e também então, na viagem ao lugar abençoado, onde o Filho de Deus ia descer à terra. A piedosa Emmerich narra:
"Vi José e Maria partirem, acompanhados por Ana, Maria Cleophae e alguns criados, até o campo de Ginim, onde se separaram, despedindo-se comovidos".
Vi a Sagrada Família continuar a viagem, subindo a serra de Gilboa. Na noite seguinte passaram por um vale muito frio, dirigindo-se a um monte. Caíra geada. Maria, sentindo frio, disse: "Devemos descansar, não posso ir mais adiante". José arranjou-lhe um assento, debaixo de um terebinto; ela, porém, pediu instantemente a Deus que não a deixasse sofrer qualquer mal, por causa do frio. Então a penetrou tanto calor, que ela deu as mãos a José, para aquecer as dele. José falou-lhe muito carinhosamente; ele era tão bom e sentia tanto que a viagem fosse tão penosa! Falou também da boa recepção que esperava achar em Belém.
Celebraram o Sábado numa estalagem. Na manhã seguinte continuaram o caminho, passando por Samaria. A Santíssima Virgem andava a pé; às vezes paravam em lugares convenientes e descansavam.
A jumenta ora ficava atrás, ora corria muito para a frente; mas onde os caminhos divergiam, apresentava-se e tomava o caminho bom e onde deviam descansar, parava.
A primeira coisa que S. José fazia, em cada lugar de descanso e em cada estalagem, era arranjar um lugar cômodo para a Santíssima Virgem sentar-se e descansar.
Quando a sagrada família chegou a dez léguas de Jerusalém, encontrou de noite uma casa solitária. José bateu à porta, pedindo agasalho para a noite; mas o dono da casa tratou-os grosseiramente e negou-lhes o abrigo. Então andaram um pouco adiante e, entrando num rancho, encontraram ali a jumenta esperando.
Abandonaram esse abrigo já antes de amanhecer. Em outra casa foram também tratados asperamente. José tomou pousada mais vezes pelo fim da viagem, pois esta se tornava cada vez mais penosa para a SS. Virgem. Seguindo sempre a jumenta, fizeram deste modo uma volta de quase um dia e meio, para leste de Jerusalém. Rodeando Belém, passaram pelo norte da cidade e aproximaram-se pelo lado oeste. Pararam e pousaram afastados do caminho, sob uma árvore. Maria apeou-se e concertou o vestido.
Depois José a conduziu a um grande edifício, que estava a alguns minutos fora de Belém; era a casa paterna de José, o antigo solar de Davi, mas naquele tempo servia de recebedoria do imposto romano. José entrou na casa; os amanuenses perguntaram quem era e depois lhe leram a genealogia, como também a de Maria. Aparentemente ele não sabia que Maria descendia também por Joaquim, em linha direta, de Davi. Maria foi também chamada perante os escrivões.
José entrou então com ela em Belém, procurando em vão pousada logo nas primeiras casas; pois havia muitos forasteiros na cidade. Continuaram assim, indo de rua em rua. Chegando à entrada de uma rua, Maria esperava com os jumentos, enquanto José ia de casa em casa, pedindo agasalho, mas em vão. Maria tinha de esperá-lo às vezes muito e sempre com o mesmo resultado; tudo já ocupado, não havia mais lugar para eles. Então disse José à Maria que era melhor ir à outra parte de Belém; mas também lá procurou em vão. Conduziu-a então e ao jumento, para debaixo de uma árvore grande, a fim de descansar, enquanto ele ia à procura de hospedagem.
Muita gente passou pela árvore, olhando para Maria. Julgo que alguns também se lhe dirigiram, perguntando quem era. Maria era tão paciente, tão humilde e ainda tinha esperança. Mas, depois de esperar muito, voltou José triste e abatido, pois nada arranjara. Os amigos, dos quais tinha falado à SS. Virgem, não quiseram reconhecê-lo. Lamentou-o com lágrimas nos olhos, mas Maria consolou-o. Mais uma vez começou ele a procurar de casa em casa, voltando finalmente tão abatido, que só se aproximou hesitante. Disse que conhecia um lugar fora da cidade pertencente aos pastores; ali, com certeza, achariam abrigo.
Assim saíram de Belém, para uma colina situada no lado oriental da cidade, na qual havia uma gruta ou adega. A jumentinha, que já da casa paterna de José tinha corrido para lá, fazendo a volta da cidade, veio-lhes ao encontro, pulando e brincando alegremente em roda. Então disse a SS. Virgem a José: "Vê, de certo é vontade de Deus que aqui fiquemos".
José acendeu uma luz e, entrando na caverna, tirou algumas coisas de lá, a fim de arranjar um lugar de descanso para a SS.Virgem. Depois a levou para dentro e ela se assentou no leito feito de mantas e fardéis de viagem. José pediu-lhe humildemente desculpa pela pobre hospedagem; mas Maria, cheia de piedosa esperança e amor estava contente e feliz.
José buscou água num odre e da cidade trouxe pratinhos, algumas frutas e feixes de lenha miúda; buscou também brasas, para acender fogo e preparar a refeição. Depois de ter comido e feito as orações, deitou-se Maria no leito; José, porém, arranjou o seu leito à entrada da gruta.
Maria Santíssima passou o dia seguinte, o Sábado, na gruta, rezando e meditando com grande devoção. De tarde José a levou, através do vale, à gruta que servira de sepulcro a Marabá, ama de Abraão. Depois, terminado o Sábado, veio reconduzi-la à primeira gruta. Maria disse a S. José que à meia noite desse dia chegaria a hora do nascimento de seu Filho, pois teriam passado nove meses desde a anunciação pelo Anjo: José ofereceu-se para chamar algumas mulheres piedosas de Belém para assisti-la, mas Maria recusou.
Desse modo chegaram os santos Pais de Jesus, guiados pela Divina Providência, ao lugar determinado pelo Pai Eterno, em união com o Filho Unigênito e o Espírito Santo, para o nascimento daquele divino Menino, cheio de graça, que havia de tirar da terra a maldição, abrir o Céu e criar um novo Éden de Deus cá na terra. Lúcifer e os seus sequazes perderam o reino do Céu pelo orgulho, querendo ser iguais a Deus e assim perderam os primeiros homens também o paraíso, porque o mesmo sedutor os enganou com vãos desejos de serem iguais a Deus.
Por isso, a santa humildade havia de abrir de novo o caminho do Céu. O Filho de Deus veio a este mundo ensinar, pelo exemplo, essa e todas as outras virtudes. Eis porque Ele, o Rei da eternidade, quis nascer homem num lugar onde os animais se abrigavam. Para primeiro berço escolheu uma miserável manjedoura, na qual o gado costumava comer. Assim não lhe faltou nada da pobreza humana, mas uniu-se-lhe o esplendor da majestade divina. - A piedosa vidente continua:
"Quando Maria disse ao esposo que o tempo estava próximo e que a deixasse e fosse orar, José saiu, recolhendo-se ao leito, para rezar. Ao sair, voltou-se mais uma vez, para fitar a SS. Virgem e viu-a como rodeada de chamas; toda a gruta estava iluminada como por uma luz sobrenatural. Então entrou com santo respeito na sua cela e prostrou-se por terra, para orar".
Vi o esplendor em volta da SS.Virgem crescer mais e mais. Ela estava de joelhos, coberta de um vestido largo, estendido em redor, sem cinto. A meia noite ficou extasiada e levantada acima do solo; tinha os braços cruzados sobre o peito. Não vi mais o teto da gruta; uma estrada de luz abria-se-lhe por cima, até o mais alto Céu, com crescente esplendor.
Maria, porém, levantada da terra em êxtase, olhava para baixo, adorando o seu Deus, cuja Mãe se tornara e que jazia deitado por terra, diante dela, qual criancinha nova e desamparada. Vi o nosso Salvador qual criancinha pequenina, resplandecente, cujo brilho excedia à toda a luz na gruta, deitado no tapete, diante dos joelhos de Maria. Parecia-me que era muito pequeno e crescia cada vez mais, diante dos meus olhos.
Depois de algum tempo vi o Menino Jesus mover-se e ouvi-o chorar. Então foi que Maria voltou a si. Tomou a criancinha e, cobrindo-a com um pano, apertou-a ao peito. Assim se sentou, envolvendo-se, com o Filhinho, no véu. Então vi em redor Anjos em forma humana, prostrados em adoração diante do Menino.
Cerca de uma hora após o nascimento, Maria chamou S. José, que ainda estava rezando. Chegando-se-lhe perto, prostrou-se-lhe o esposo em frente, em adoração, cheio de humildade e alegria. Só depois que Maria lhe pediu que apertasse de encontro ao coração o santo dom de Deus, foi que se levantou, recebendo o Menino Jesus nos braços e louvando a Deus, com lágrimas de alegria.
A SS. Virgem envolveu então o Menino em panos e deitou-o na manjedoura, cheio de junco e ervas finas e coberta com uma manta. A manjedoura estava ao lado direito, na entrada da gruta. Os santos Pais, tendo deitado o menino no presepe, ficaram-lhe ao lado, cantando salmos".
O tempo chegara à consumação: O Verbo fizera-se carne, - o Verbo Eterno e Divino do Pai Celestial Todo-Poderoso. A profecia de Isaías cumprira-se: A Virgem concebera e dera à luz um filho, cujo nome é Emanuel, "Deus Conosco". (Is. 7, 14). Apareceu entre nós o Messias, prometido já no paraíso e por todos os povos tão ardentemente anelado. Está deitado numa manjedoura, qual criança pobre e desamparada. Será reconhecido em tão humildes condições? A quem se revelará primeiro o Rei da glória? Não aos grandes e soberbos da terra! Pastores, pobres e simples, são os primeiros convidados por mensageiros celestiais à manjedoura, para adorar o Menino divino. Conta Catharina Emmerich:
"Vi três pastores, que estavam juntos, diante do rancho, admirando a maravilhosa noite; no céu vi uma nuvem luminosa, descendo para eles. Ouvi um doce canto. A princípio se assustaram os pastores, mas de repente lhes surgiu um Anjo, dizendo: "Não temais, anuncio-vos uma grande alegria, que é dada a todo o povo, pois nasceu hoje, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, nosso Senhor... Eis o sinal para conhecê-lo: achareis uma criança envolta em panos e deitada num presépio". Enquanto o Anjo assim falava, aumentava o esplendor em redor e vi então cinco ou sete Anjos, grandes, luminosos e graciosos, diante dos pastores; seguravam nas mãos uma fita, como de papel, na qual estava escrita uma coisa, em letras do tamanho de um palmo: ouvi-os louvar a Deus e cantar: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade".
Os pastores na torre de vigia tiveram a mesma aparição, apenas um pouco depois. Do mesmo modo apareceram os Anjos a um terceiro grupo de pastores, perto de uma fonte, a três léguas de Belém, a leste da torre dos pastores. Vi que os pastores não foram imediatamente à gruta; para lá chegar, os três pastores tinham um caminho de uma hora e meia e os da torre o dobro. Vi também que deliberaram sobre o que deviam levar, como presente, ao Messias recém-nascido; depois buscaram as dádivas o mais depressa possível.
Ao crepúsculo da manhã chegaram os pastores, com os presentes, à gruta. Contaram a S. José o que lhes anunciara o Anjo e que vinham para adorar o Messias. José aceitou os presentes, com humildes agradecimentos e conduziu os pastores à SS. Virgem, que estava sentada ao pé do presépio, com o Filho ao colo. Os recém-chegados prostraram-se de joelhos diante de Jesus, segurando os cajados nos braços; choraram de alegria e permaneceram assim muito tempo, sentindo grande felicidade e doçura. Quando se despediram, deu-lhes a SS. Virgem o Menino a abraçar. De tarde vieram outros pastores, com mulheres e crianças, trazendo presentes.
Alguns dias depois do nascimento de Jesus, estando José e Maria ao lado do presépio e olhando com grande e íntima felicidade para o divino Menino, aproximou-se de súbito o jumento, e, caindo de joelhos, baixou a cabeça até o chão. Maria e José derramaram lágrimas à vista disso.
Depois do Sábado, José chamou três sacerdotes de Belém, para a circuncisão do Menino. Estes trouxeram a cadeira da circuncisão e uma laje de pedra octogonal, na qual se encontravam os instrumentos necessários. Ao nascer do dia teve lugar a circuncisão. Oito dias depois do nascimento do Senhor, vi que um anjo apareceu ao sacerdote, apresentando-lhe o nome de Jesus, escrito numa lousa. O Menino Jesus chorou alto, depois da santa cerimônia. José recebeu-o do sacerdote e depositou-o nos braços da SS. Virgem.
Na tarde do dia seguinte, chegou Isabel, com um velho criado, à gruta. Houve grande regozijo. Isabel apertou o Menino ao coração. Veio também Ana, com o segundo marido e Maria Helí. Maria pôs o Menino nos braços da velha mãe, que estava muito comovida. Maria contou-lhe também, cheia de íntima felicidade, todas as circunstâncias do nascimento. Ana chorou com Maria, acariciando durante todo o tempo o Menino Jesus".

Eis aqui um pouquinho do mistério do nascimento de Jesus. Quem leu as escrituras, com apenas aqueles detalhes absolutamente necessários, certamente já mil vezes ficou a imaginar como de fato as coisas aconteceram. Mistério de uma Virgem que dá a Luz ao Filho de Deus. Mistério de um Deus que faz homem, para remir a humanidade caída pelo pecado, e abrir para ela as portas do céu. E aqui fica registrada uma terna alegria, que expressa nas visões desta grande mística são como bálsamo para nossas almas.

Logo, porém, adiante, esta alegria esfuziante dará lugar ao sofrimento e à dor. Maria, a Mãe Santíssima, verá a espada de dor atravessar sua alma conforme profecia de Simeão. Jesus passará pelo sofrimento da Cruz, esmagado pela ignomínia do pecado humano. Tudo para que tivéssemos a graça de, um dia, abraçar ao Pai Celeste, nosso Criador e Deus. Mistério de fé, que nunca seremos capazes de decifrar!

Fiquem com Deus, e até nosso novo encontro!

Aarão!

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Podem dirigir-se à Editora Mir – São Paulo.
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O CORDEIRO DE DEUS - Parte 3

Neste novo texto, apresentaremos parte da chamada vida oculta de Jesus. De fato, os Evangelhos citam as passagens do nascimento Dele, depois falam da passagem da perda no Templo de Jerusalém, aos 12 anos, e depois vão retomar apenas nas passagens do início da vida pública, aos 30 anos de idade. E milhões de pessoas sempre tiveram a curiosidade de saber o que aconteceu com Ele durante aqueles anos.

Na verdade Jesus jamais ficou parado. Desde a mais tenra infância, pela vida inteira, Ele sempre esteve trabalhando ciosamente na missão que Lhe foi confiada pelo Pai. Não sendo somente exemplo de vida, mas também doutrinando a todos aqueles que viviam ao seu redor, também visitando escolas, mas, sobretudo, rezando e meditando para fortalecer sua parte homem, preparando-o para o imenso sacrifício da cruz. Nesse tempo Ele fez grandes viagens, retornando inclusive ao Egito onde a família de Nazaré vivera por alguns anos, e depois visitando os três reis magos, em seus países de origem. Todas estas visões, teve a privilegiada serva Ana Catarina, conforme relata a seguir.

Família, amigos, infância e mocidade de Jesus – A Vida Oculta de Jesus!

A Escritura Sagrada diz: "Quando veio a plenitude dos tempos, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, sujeito à lei, a fim de remir os que estavam debaixo da lei, para que recebêssemos a adoção de filhos". (Gal. 4, 4-5).
Essas palavras nos ensinam que, com a vinda do Redentor a este mundo, começou uma era nova, a qual a Escritura Sagrada chama a plenitude e consumação de todos os tempos.
A era de Jesus Cristo foi a plenitude dos tempos, porque nele se cumpriram todas as predições dos profetas. Foi-o também, porque em Jesus Cristo começou a última e perfeita era.
Quantos períodos já tinham passado antes de começar esta última e mais sublime era! Segundo o que nos ensinam as ciências, tanto as profanas como as sagradas, já a haviam precedido muitos e, em parte, longos espaços de tempo. Assim a era sideral, em que foram criados por Deus, os astros, com o respectivo movimento e desenvolvimento; depois a era telúrica, em que a terra, até então uma massa ígnea em fusão, começou a formar em si uma crista firme, mais e mais espessa.
Depois a era orgânica, em que Deus ornou e encheu a terra de plantas e animais; afinal a era histórica, que teve princípio com a criação dos primeiros homens. Mas esta última teve ainda diversos períodos; pois no princípio ficaram os homens sob o império da lei natural, que Deus lhes gravou em letras indeléveis na consciência; com ela todos os homens conhecem o que devem fazer ou deixar de fazer e por isso Deus exige a observação dessa lei de todos os homens, mesmo dos pagãos que não o conhecem. Mas Deus não se contentou com isso; quis entrar em relações com os homens, pela graça e assim conduzir aqueles que Lhe obedecessem, a uma união mais íntima consigo.
Mas também nesse desígnio procedeu gradualmente. A primeira aliança foi a que começou pela escolha de Abraão para ser pai do povo de Israel e acabou com a promulgação da lei, no monte Sinai. Em conseqüência dessa aliança, entrou o povo de Israel em relações mais estreitas com Deus. Recebeu d´Ele um culto novo, novas leis e a promessa consoladora de que do seu seio proviria o Salvador.
Para esse fim, serviam todas as leis especiais, cerimônias e preceitos do Velho Testamento; até dos pecados e das desgraças do povo israelita sabia o Senhor, pela sua Divina Providência, dirigir os efeitos, de modo que lhe serviam aos divinos desígnios. Sob esse ponto de vista encara a Serva de Deus especialmente a formação daquela família, da qual devia nascer o divino Salvador.
Quando o Redentor apareceu neste mundo, terminou a velha Aliança, porque estava realizado o seu fim: os bons, entre os judeus e também entre os gentios, reconheceram o seu estado pecaminoso e a necessidade da salvação, anelando ansiosos pelo Messias.
Começou então uma segunda Aliança, abundante em graças, a qual foi confirmada no monte Sião, em Jerusalém, pela vinda do Espírito Santo, no dia de Pentecostes. Com essa Nova Aliança, que durará até o fim do mundo, principiou a consumação dos tempos, na qual foi proporcionada aos homens pecadores a salvação abundante em Jesus Cristo e pela qual somos elevados do estado de servidão ao estado de liberdade e à dignidade de filhos de Deus.

Da família altamente privilegiada de Nosso Senhor

O evangelista S. Mateus começa a genealogia do Divino Salvador, segundo a sua humanidade, com as seguintes palavras "Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão". Reduz assim a linhagem do Salvador a Abraão, o pai do povo de Israel. Jesus descendeu dele por Judá e Davi; era, portanto, da tribo de Judá e da família real de Davi.

Catharina Emmerich narra a seguinte visão:

"Vi a linhagem do messias dividir-se em Davi em dois ramos. A direita passou a linha através de Salomão, acabando em Jacó, pai de José, esposo de Maria. Essa linha corria em direção mais alta; partia em geral da boca e era inteiramente branca, sem cores. As pessoas ao lado da linha eram todas mais altas do que as da linha oposta. Todas seguravam na mão uma haste de flor, do tamanho de um braço, com folhas semelhantes às da palmeira, que se dependuravam em volta do ramo.
Na ponta da haste havia uma flor campanada, branca, com 5 estames amarelos, que espalhavam um pó fino. Três membros desta linha, antes do meio, contados de cima, estavam eliminados, enegrecidos e ressequidos. As flores variavam em tamanho, beleza e vigor; a de José era de grande pureza, com as pétalas frescas e brancas, era mais bela. Vi esta linha unir-se pelo fim com a linha oposta, por um raio luzido; a significação sobrenatural e misteriosa desse raio me foi revelada: referia-se mais à alma e menos à carne; tinha algo da significação de Salomão; não sei explicá-lo bem.
A linha da esquerda passou de Davi por Natan até Helí, que é o verdadeiro nome de Joaquim, pois recebeu este nome só mais tarde, como Abrão o de Abraão. Eu sabia o motivo desta troca e sabê-lo-ei talvez de novo. José foi chamado muitas vezes nas minhas visões "filho de Helí". Toda essa linha vi passar mais baixo; tinha diversas cores e manchas cá e lá, mas saía depois mais clara. Era vermelha, amarela e branca; não havia azul. As pessoas ao lado eram menos altas do que as do lado oposto; tinham ramos mais curtos, pendentes para o lado, com folhas verde-amarelas e dentadas, os quais rematavam em um botão avermelhado, da cor da rosa silvestre; em parte estavam vigorosos, em outra parte murchos; o botão não era tanto um botão de flor, mas um ovário e sempre fechado.
Sant’Ana descendeu, pelo pai, da tribo de Leví, pela mãe, da de Benjamin. Vi alguns de seus avós carregarem a Arca da Aliança, mui piedosos e devotos e notei que receberam nessa ocasião raios do mistério, os quais se lhe referiam à descendência: Ana e Maria. Vi sempre muitos sacerdotes freqüentarem a casa paterna de Ana, como também a de Joaquim; daí o parentesco com Isabel e Zacarias.
No ramo de Salomão havia diversas lacunas; os frutos, estavam mais separados, mas as figuras eram maiores e mais espirituais. As duas linhas tocaram-se várias vezes; três ou quatro membros, talvez, antes de Helí, se cruzaram, acabando afinal em cima, com a SS.Virgem Maria. Creio que nesses cruzamentos já vi principiar o sangue da SS. Virgem."
Os membros eliminados significam provavelmente ascendentes pecaminosos do Salvador. Se bem que Ele mesmo seja o "Santo dos Santos" e também tenha por Mãe uma Virgem Imaculada e por pai nutrício S. José, houve, todavia, pecadores e pecadoras entre os seus antepassados, por exemplo, o rei Salomão, Asa, Joram, Achaz, Manasses, Tamar e Betsabé; até duas pagãs: Racháb e Rut. Com certeza Jesus assim o permitiu, para manifestar a sua misericórdia e o seu amor para com os pecadores e também a intenção que tinha, de fazer participar da Redenção os gentios e conduzi-los à eterna bem-aventurança.
Segundo as narrações de Anna Catharina Emmerich, eram os avós de Maria Santíssima piedosos Israelitas, que estavam em íntimas relações com os Essenos, os quais formavam uma espécie de ordem religiosa.
"Vi os avós da SS.Virgem, conta Anna Catharina, gente extraordinariamente piedosa e simples, que alimentava secretamente o vivo desejo da vinda do Messias prometido. Vi-os levar uma vida mortificada; os casados muitas vezes fizeram a promessa de mútua continência durante certo tempo. Eram tão piedosos, tão cheios de amor a Deus, que os vi freqüentemente sozinhos no campo deserto, de dia e também de noite, clamando por Deus com um desejo tão veemente, que arrancavam as vestes do peito, como para deixar que Deus entrasse pelos raios do sol, ou como para saciar com o brilho da lua e das estrelas a sede que os devorava, do cumprimento da promissão."
Segundo Anna Catharina, chamava-se Emorun a avó de Sant’Ana e teve do matrimônio com Stolanus três filhas, uma das quais Isméria, foi mais tarde a mãe de Sant’Ana. Ana tinha uma irmã mais velha, chamada Sobe e uma mais moça, com o nome de Maharha e uma terceira, que era casada com um pastor.
O pai de Ana, de nome Eliud, era da tribo de Leví, ao passo que a mãe pertencia à tribo de Benjamin. Ana nasceu em Belém, mas os pais foram depois viver em Seforis, perto de Nazaré. Após a morte de Isméria, Eliud morava no vale de Zabulon. Ali se encontraram Ana e Joaquim e travaram conhecimento. O pai de Joaquim, Matthat, era o segundo irmão de Jacó, pai de S. José. Joaquim, cujo nome legítimo era Helí, e José eram descendentes, pelo lado paterno, da estirpe real de Davi (1). Joaquim e Ana, depois de casados, levaram uma vida piedosa e benfazeja, primeiro em casa do pai, Eliud, depois em Nazaré.
A filha mais velha recebeu o nome de Maria Helí; conheceram, porém, que esta não era a filha da promissão. Ana e Joaquim rezavam muitas vezes com grande devoção e davam muitas esmolas. Assim viveram 19 anos depois do nascimento da primeira filha, em contínuo desejo da filha prometida e em crescente tristeza. Além disso ainda eram insultados pelo povo. Quando um dia Joaquim quis oferecer um sacrifício no Templo, recusou-o o sacerdote, repreendendo-o por sua esterilidade. Joaquim, muito abatido, não voltou a Nazaré, mas viveu cinco semanas escondido, com os rebanhos, ao pé do monte Hermon.
Com isso aumentou ainda a tristeza de Ana, que chorou e rezou muito. Um dia, quando rezava com grande aflição, eis que lhe apareceu um Anjo, anunciando-lhe que Deus lhe ouvira a oração. Mandou-a ir a Jerusalém, onde se encontraria com Joaquim na Porta Áurea.
Na noite seguinte lhe apareceu de novo um Anjo, dizendo que conceberia uma filha santa; e escreveu o nome de Maria na parede.
Joaquim teve também a aparição de um Anjo; foi por isso ao Templo, ofereceu um sacrifício e recebeu nessa ocasião a bênção da promissão ou o santo da Arca da Aliança.
Ana e Joaquim encontraram-se na Porta Áurea, transbordando de alegria e felicidade. Ali, diz Catharina Emmerich, lhes veio aquela abundância da divina graça, pela qual Maria recebeu a existência, somente pela santa obediência e pelo puro amor de Deus, sem qualquer impureza dos pais."
Desse modo, após muitos anos de oração fervorosa, alcançou esse santo casal, Joaquim e Ana, aquela pureza e santidade, que os tornou aptos para receberem, sem o fomento da concupiscência, a santa filha, que foi escolhida por Deus para ser a Mãe do Redentor.

Os discípulos do Senhor e outras pessoas bíblicas

Para facilitar a leitura e a compreensão do livro, damos algumas informações sobre os discípulos de Jesus e outras pessoas mencionadas freqüentemente durante a narração, informações colhidas das comunicações de Anna Catharina Emmerich.
Zacarias e Isabel, os santos pais de S. João Batista, moravam em Juta, perto de Hebron. Por sua conhecida virtude e descendência reta de Aarão, gozavam ambos de alta estima do povo; Zacarias figurava como chefe de todos os sacerdotes que moravam em Juta.
Isabel era filha de Emerenciana, irmã de Isméria, que era a mãe de Sant’Ana. Por isso chama a Escritura Sagrada a Isabel prima de Maria.
Maria, Mãe de Jesus, tinha uma irmã mais velha, de nome Maria Helí, cujos filhos eram Tiago, Sadah e Heliachim.
Uma filha de Maria Helí era chamada pelo nome do pai - Maria Cleophas, que quer dizer Maria filha de Cleophas. Esta teve do primeiro marido, Alfeu, três filhos: Judas Tadeu, Simão e Tiago o Menor e uma filha, Suzana. Alfeu, que era viúvo, trouxe para esse matrimônio um filho, de nome Mateus, antes chamado Leví, que mais tarde tinha uma aduana perto de Betsaida, no lago Genezaré. Do segundo matrimônio, com Sabás, teve Maria Cleophas um filho, de nome José Barsabas, chamado na Escritura Sagrada "Joseph". Depois da ascensão de Jesus, foi ele, junto com Matias, escolhido para um deles ocupar entre os Apóstolos o lugar de Judas; a sorte designou Matias. Do terceiro matrimônio de Maria Cleophas, com Jonas, irmão mais moço do sogro de São Pedro, nasceu Simeão, que, depois do martírio de seu irmão Tiago o Menor, lhe sucedeu na cadeira de Bispo de Jerusalém.
Todos esses filhos de Maria Helí e Maria Cleophas se tornaram discípulos de Jesus, alguns até Apóstolos (Judas, Simão, Tiago e Mateus). Quatro filhos de Maria Cleophas são chamados no Evangelho "irmãos (isto é, parentes) de Jesus". (Mat. 13, 55)
Pedro e André eram irmãos germanos; eram filhos de Jonas. Ambos viviam de pescaria e moravam no lago Genezaré; Pedro em Cafarnaum, André em Betsaida. Pedro casou com a viúva de um pescador, a qual lhe trouxe do primeiro matrimônio dois filhos e uma filha; esta será provavelmente a Santa Petronila, muitas vezes mencionada como filha de S. Pedro. Pedro, porém, não teve filhos; tinha quase a idade de Judas Tadeu, cinco anos mais que Jesus. André tinha dois anos mais do que Pedro. Era pai de dois filhos e duas filhas; depois da sua vocação ao apostolado, viveu em perfeita continência.
Tiago o Maior e S. João Evangelista eram também irmãos, filhos de Zebedeu; a mãe chamava-se Maria Salomé e era filha de Sobe, irmã de Sant’Ana e, portanto, tia da Mãe de Deus. Foi ela que um dia apresentou os filhos ao Salvador, pedindo-lhe que os colocasse um à sua direita e o outro à sua esquerda, no reino do céu. S. Tiago tornou-se o Apóstolo da Espanha; seu sepulcro, em Compostela, é um lugar célebre de romaria. São João pregou em Éfeso, na Ásia Menor, onde morreu, na idade de mais de 100 anos, sendo o único dos Apóstolos que teve morte natural. Era o discípulo predileto do Salvador, não somente por sua fidelidade, singeleza e amor, mas também por causa de sua vida casta e pura.
O Apóstolo S. Filipe morava em Betsaida e foi conduzido a Jesus por André.
Bartolomeu era Esseno. O pai, Tolmai, era descendente do rei Tolmai de Gessur, cuja filha era casada com o rei Davi. Como escrivão, Bartolomeu era conhecido de Tomé, que tinha a mesma profissão e vivia em Arimatéia.
De Judas Iscariotes falaremos por extenso no número 20 deste capítulo.
O santo Apóstolo Matias era natural de Belém e pregou o Evangelho na Palestina.
O Apóstolo S. Paulo pertencia à tribo de Benjamin e era natural de Gischala, a três léguas do monte Tabor. Os pais mudaram-se mais tarde para Tarso. Em Jerusalém teve Paulo como mestre o célebre e douto Gamaliel. Antes da conversão era partidário zeloso da lei de Moisés e por isso adversário encarniçado dos cristãos.
O santo evangelista Marcos era pescador perto de Betsaida e tornou-se um dos primeiros discípulos de Jesus.
S. Lucas Evangelista era natural de Antioquia; estudou pintura na Grécia e depois medicina e astronomia numa cidade do Egito. Durante a vida de Jesus, não se lhe associou, nem aos Apóstolos, ficando muito tempo indeciso, até que foi confirmado na fé pelo próprio Senhor, no domingo da Páscoa, em Emaús.
Cleophas, que junto com Lucas foi favorecido com a aparição de Jesus, era neto do tio paterno de Maria Cleophae.
José de Arimatéia (assim chamado porque era natural de Arimatéia) e Nicodemos eram escultores. Ambos moravam em Jerusalém e eram membros do Conselho do Templo
Menção especial merece-nos a família de Lázaro, que tinha íntimas relações com Jesus e sua SS. Mãe. Vindo Jesus a Betânia, onde morava Lázaro, ou a Jerusalém, hospedava-se geralmente em casa de Lázaro, um edifício em forma de castelo, rodeado de jardins e plantações. A irmã de Lázaro, Marta, tinha dois anos menos e Madalena nove anos menos do que ele. Uma terceira irmã, chamada Maria, a silenciosa, que era considerada como mentecapta, não é mencionada nos Evangelhos. Depois da morte dos pais coube a Madalena por sorte o castelo de Mágdala, na banda oriental do lago Genezaré. Na idade de onze anos ali se instalou com grande pompa e começou a levar uma vida suntuosa. Ainda muito moça, deixou-se arrastar à aventuras amorosas, tornando-se assim um escândalo para os irmãos, que viviam muito simples e recolhidos em Betânia.
No começo do segundo ano da vida pública de Jesus, Madalena assistiu a um dos sermões do Divino Mestre e ficou inteiramente perturbada e arrependida; pouco depois ungiu os pés do Salvador, em casa de Simão Zabulon e recebeu nessa ocasião a consoladora certeza de que os pecados lhe foram perdoados. Mas pouco tempo depois recaiu nos mesmos vícios. Pelos insistentes rogos de Marta, deixou-se levar a assistir mais uma vez à pregação de Jesus. Enquanto o Salvador falava, saíram os maus espíritos de Madalena que, muito contrita, se juntou às santas mulheres.
Lázaro recebeu uma prova especial do amor de Jesus na milagrosa ressurreição, depois do corpo já lhe haver estado quatro dias no sepulcro. Outros pormenores sobre Lázaro, Marta e Madalena se encontram nos números 14 e 15 deste capítulo.
O Evangelho e também a vidente mencionam muitas vezes as "santas mulheres"; além das já conhecidas, Maria Helí, Maria Cleophae, Marta, Madalena, Maria Salomé, mulher de Zebedeu e Suzana, filha de Alfeu, pertenciam ao grupo das santas mulheres ainda as seguintes:

1. Verônica, (propriamente: Seráfia) prima de São João Batista e cujo marido, de nome Sirach, era membro do Conselho do Templo.
2. Maria Marcos, mãe de João Marcos, que morava fora dos muros de Jerusalém, defronte do monte das Oliveiras.
3. Joana Chusa, viúva sem filhos, natural de Jerusalém.
4. Salomé, também viúva; morava em casa de Marta, em Betânia; era parenta da família por um irmão de José.
5. Suzana, de Jerusalém, filha do irmão mais velho de José, Cleophas e deste modo parente da família, como Salomé.
6. Dina, a Samaritana, que falara com Jesus no poço de Jacó e que se juntara às santas mulheres, depois da conversão.
7. Maroni, a viúva de Naim, cujo filho, Martialis, Jesus ressuscitara dos mortos.
8. Maria Sufanitis, Moabita, que Jesus livrara de um mau espírito.

Os ascendentes dos três Reis Magos e a viagem destes a Belém

Um dos fatos mais maravilhosos da vida do Divino Salvador é a vinda dos três Reis Magos ao presépio. Surge a pergunta: Como foi possível que três homens de alta posição, com numerosa comitiva, vindos de terras longínquas, chegassem guiados por uma estrela ao presépio de Belém?
Para explicação cita-se geralmente o trecho do livro Números 24, 17; "Uma estrela sai de Jacó, um cetro levanta-se de Israel, que esmagará os príncipes de Moab." Certamente é este trecho de importância e sem dúvida o conheceram os pontífices dos judeus, melhor do que os chefes das tribos longínquas dos gentios. Contudo, não vieram aqueles ao presépio, mas estes últimos. Logo, não bastava só a estrela, para levá-los lá, faziam-se precisas outras previdências divinas, milagrosas. Quais foram estas, conta-nos a pobre camponesa de Flamske:
"Os antepassados dos três Reis Magos descendiam de Jó, que outrora vivera no Cáucaso. Um discípulo de Balaão anunciara ali a profecia deste, de que apareceria uma estrela de Jacó. Essa profecia achou larga aceitação. Construiu-se uma torre alta, numa montanha. Muitos sábios e astrônomos viveram ali alternadamente; tudo que notavam nos astros, escreviam e ensinavam a todos.
Os chefes de uma tribo da terra de Jó, numa viagem ao Egito, na região de Heliópolis, receberam por um Anjo a revelação de que o Salvador nasceria de uma Virgem e seria adorado pelos seus descendentes. Eles mesmos deviam voltar e estudar os astros. Esses Médos começaram então a observar as estrelas. Diversas vezes, porém, caiu esse estudo em esquecimento, por causa de vários acontecimentos. Depois começou o abominável abuso de sacrificarem crianças, para que a criança prometida viesse mais depressa.
Cerca de 500 anos antes do nascimento de Jesus, estava esse estudo dos astros também em decadência. Existia, porém, a descendência daqueles chefes, constituída por três irmãos, que viviam separados, cada um com sua tribo. Tiveram três filhas, às quais Deus deu o dom de profecia, de modo que ao mesmo tempo percorreram o país e as três tribos, profetizando e ensinando sobre a estrela de Jacó. Então se renovou nessas três tribos o estudo das estrelas e renasceu o desejo da vinda do Menino prometido.
Desses três irmãos descenderam os Reis Magos em linha direta, por 15 gerações, após 500 anos; mas, pela mistura com outras raças, eram de cores diferentes. Desde o princípio desses 500 anos, ficavam sempre alguns dos antepassados dos Reis num edifício comum, para estudarem os astros; conforme as diversas revelações que recebiam, mudavam certas coisas nos templos e no culto divino. Infelizmente continuou ainda entre eles, por muito tempo, o sacrifício de homens e crianças.
Todas as épocas que se referiam à vinda do Messias, conheciam-nas em visões milagrosas, ao observar as estrelas. Desde a Conceição de Nossa Senhora, portanto há 15 anos, essas visões mostravam, cada vez mais distintamente, a vinda da criança. Por fim viram até muitas coisas que se referiam à paixão de Jesus.
Podiam calcular bem o tempo da estrela de Jacó, que Balaão predissera. (Núm. 24, 17); pois viram a escada de Jacó e, segundo o número dos degraus e a sucessão das imagens que nestes apareciam, podiam calcular, como num calendário, a proximidade da Salvação; pois o cume da escada deixava ver a estrela ou a estrela era a última imagem dela. Viam a escada de Jacó como um tronco, que tinha três séries de escalões cravados em roda; nestes aparecia uma série de imagens, que viam também nas estrelas, no tempo da sua realização. Dessa maneira sabiam exatamente que a imagem havia de aparecer e conheciam, pelos intervalos, quanto tempo haviam de esperá-la.
Lembro-me de ter visto, na noite do nascimento de Jesus, dois dos Reis na torre. O terceiro, que vivia a leste do Mar Cáspio, não estava com eles; viu, porém, a mesma visão, à mesma hora, na sua terra.
A imagem que reconheceram, apareceu em diversas variações; não foi numa estrela que a viram, mas numa figura composta de um certo número de estrelas. Divisaram, porém, sobre a lua um arco-íris, sobre o qual estava sentada uma virgem; à esquerda desta, aparecia no arco uma videira, à direita um molho de espigas de trigo.
Vi aparecer diante da Virgem a figura de um cálice ou, melhor, subir ou sair-lhe do esplendor; saindo desse cálice, apareceu uma criancinha e, sobre esta, um disco luminoso, como um ostensório vazio, do qual emanavam raios semelhantes à espigas. Tive nisso a impressão do SS. Sacramento.
Do lado direito da criancinha, que subia do cálice, brotou um ramo, no qual desabrochou, como uma flor, uma igreja octogonal, que tinha um portão grande e duas portas laterais. A Virgem moveu com a mão o cálice, a criança e a hóstia para cima, colocando-as dentro da Igreja e a torre da Igreja levantou-se-lhe por cima e tornou-se por fim uma cidade brilhante, assim como representamos a Jerusalém celeste. Vi nessa imagem muitas coisas, como procedendo e desenvolvendo-se umas das outras.
Os Reis viram Belém como um belo palácio, como uma casa na qual se junta e se distribui muita bênção. Lá viram a Virgem SS., com o Menino, rodeada de muito esplendor e muitos reis se inclinarem diante dele, oferecendo-lhe sacrifícios. Tomaram tudo como realidade, pensando que o rei tinha nascido em tal esplendor e que todos os povos se lhe haviam submetido; por isso foram também lhe oferecer os seus dons. Havia um grande número de imagens naquela escada de Jacó. Vi-as todas aparecer nas estrelas, no tempo do seu cumprimento.
Naquelas três noites, os três Reis Magos viram continuamente essas imagens. O mais nobre entre eles mandou então mensageiros aos outros e, quando viram a imagem dos reis que ofereceram presentes ao Rei recém-nascido, puseram-se também a caminho, com riquíssimas dádivas, para não serem os últimos. Todas as tribos dos astrônomos viram a estrela, mas só aqueles a seguiram.
Alguns dias depois da partida dos reis, vi Theokenos, com o seu séquito, juntar-se aos grupos de Mensor e Sair; Theokenos não tinha estado antes com estes últimos. Cada um dos Reis tinha no séquito quatro parentes próximos da tribo, como companheiros. A tribo de Mensor era de cor agradável, pardacenta; a de Sair parda e a de Theokenos de cor amarela, brilhante.
Mensor era Caldeu; depois da morte de Jesus, foi batizado por S. Tomé e recebeu o nome de Leandro. Sair teve o batismo de desejo; não vivia mais, quando Jesus foi à terra dos Reis Magos. Theokenos veio da Média e era o mais rico; foi batizado e chamado Leão por S. Tomé. Deram-se aos Reis Magos os nomes de Gaspar, Melchior e Baltasar, porque estes nomes lhes designam o caráter: Gaspar - Vai com amor. Melchior - Aproxima-se humildemente. Baltasar - Age prontamente, conformando a sua vontade com a de Deus.
O caminho para Belém era de mais de 700 léguas: fizeram-no em 33 dias, viajando muitas vezes dia e noite. A estrela que os guiava, era como um globo brilhante. Um jorro de luz emanava dela sobre a terra. Vi finalmente chegarem os Reis à primeira vila judaica. Ficaram, porém, muito acabrunhados, porque ninguém sabia coisa alguma do Rei recém-nascido.
Quanto mais se aproximavam de Jerusalém, tanto mais tristes ficavam, pois a estrela se tornava muito menos clara e brilhante e na Judéia a viram raras vezes. Quando pararam, fora de Jerusalém, desaparecera totalmente. Falaram da estrela e da criança recém-nascida, ninguém quis compreendê-los; por isso, tornaram-se ainda mais tristes, pensando que se tinham enganado".
Anna Catharina descreve ainda a admiração e sensação que a caravana dos Reis Magos causou na cidade; como Herodes, alta noite, mandou chamar Theokenos ao palácio e convidou os Reis a virem apresentar-se na manhã seguinte. Herodes enviou alguns criados a chamarem os sacerdotes e escribas, que se esforçaram por sossegá-lo. Ao nascer do dia, se apresentaram os Reis a Herodes e perguntaram-lhe onde estava o novo rei dos judeus, cuja estrela tinham visto e ao qual tinham vindo adorar. Herodes ficou muito inquieto, informou-se mais sobre a estrela e disse-lhes que a profecia se referia a Belém Ephrata; aconselhou-os a irem silenciosamente a Belém e voltarem depois a informar-lhe, pois que também queria adorar o Menino.
Vi sair de Jerusalém a caravana dos Reis. Vendo de novo a estrela, deram um grito de alegria. Ao cair da noite, chegaram a Belém; então desapareceu a estrela. Muito tempo ficaram diante das portas, duvidando e hesitando, até que viram uma luz brilhante, ao lado de Belém. Então tomaram o caminho para o vale da gruta, onde acamparam. No entanto, apareceu a estrela por cima do outeiro da gruta e uma torrente de luz caiu verticalmente sobre este. De repente se lhes encheram os corações de grande alegria, pois viram na estrela a figura luminosa da criança. Os três Reis Magos aproximaram-se da colina; abrindo a porta da gruta, Mensor viu-a cheia de luz celeste e a Virgem sentada lá dentro, com a criança, como a tinham visto nas visões. Anunciou-o aos outros dois.
S. José saiu-lhes ao encontro, cumprimentando-os e dando-lhes as boas vindas. Então se prepararam para o ato solene que queriam fazer e seguiram S. José. Dois jovens estenderam primeiro um tapete de pano no chão, até a manjedoura. Mensor e os companheiros entraram, caíram de joelhos e Mensor colocou aos pés de Maria e José os presentes; com a cabeça inclinada e os braços cruzados, proferiu palavras comoventes de adoração. Depois tirou do bolso uma mão cheia de barras do tamanho de um dedo, grossas e pesadas, com um brilho de ouro e pô-las ao lado da criança, nas vestes de Maria. Tendo se retirado, com os companheiros, entrou Sair com os seus, prostrando-se, com profunda humildade, com os dois joelhos por terra. Ofereceu com palavras tocantes os presentes, colocando diante do Menino Jesus uma naveta de incenso, feita de ouro puro, cheia de pequenos grãos esverdeados de incenso. Ficou muito tempo de joelhos, com grande devoção e amor. Depois dele se aproximou Theokenos, o mais velho. Ficando em pé, inclinou-se profundamente e apresentou um vaso de ouro cheio de uma erva verde; ofereceu mirra e ficou muito tempo diante do Menino Jesus, em profunda comoção.
Os Reis Magos estavam encantados e repassados de amor e humilde adoração. Lágrimas de alegria caiam-lhes dos olhos; também Maria e José derramaram lágrimas de felicidade. Aceitaram tudo, humildes e gratos; finalmente dirigiu Maria a cada um algumas palavras afáveis.
Após os Reis, entraram também os criados, aproximando-se, cinco a cinco, do presépio; ajoelharam-se em roda do Menino e adoraram-no em silêncio; finalmente entraram também os pajens. Os Reis Magos voltaram mais uma vez ao presépio, vestidos de amplos mantos, trazendo turíbulos nas mãos; incensaram o Menino, Maria e José e toda a gruta, retirando-se depois, com profunda inclinação. Era esta a cerimônia de adoração entre aqueles povos.
No outro dia visitaram os Reis mais uma vez o Menino e de noite vieram despedir-se. Mensor entrou primeiro. Maria pôs-lhe o Menino nos braços; ele chorou, radiante de alegria. Depois vieram também os outros. Maria deu-lhes o seu véu de presente.
Pela meia noite viram no sono a aparição de um Anjo, avisando-lhes que partissem imediatamente, não tomando o caminho de Jerusalém, mas o do Mar Morto. Com incrível rapidez desapareceram as tendas; e, enquanto os Reis Magos se despediam de S. José, já o séquito estava caminhando a toda a pressa, em três turmas, para leste, com rumo ao deserto de Engadi, ao longo do Mar Morto. Vi o Anjo com eles na campina, mostrando-lhes a direção do caminho; de súbito não se avistaram mais.
O Anjo tinha avisado os Reis bem a tempo; pois a autoridade de Belém, não sei se por ordem de Herodes ou por próprio zelo, tinha a intenção de prender os Reis, que dormiam na estalagem, fechá-los, sob a sinagoga, onde havia adegas profundas e acusá-los perante o rei Herodes de desordens públicas. Mas de manhã, quando se soube da partida dos Magos, estes já estavam perto de Engaddi, e o vale onde haviam acampado estava quieto e deserto como dantes, nada restando do acampamento, fora algumas estacas de tendas e os rastos do capim pisado".
Em memória da visita dos três Reis Magos ao presépio é que se celebra, todos os anos, a festa de Reis. A Escritura Sagrada chama-os apenas os "Magos", mas o povo deu-lhes, desde os primeiros tempos, o título de "Reis", talvez induzido pela profecia de Davi: "Os reis de Tharsis e das ilhas oferecer-Lhe-ão dons; os reis da Arábia e de Sabá trar-Lhe-ão presentes". (S. 71, 10).
A festa de Reis é uma das mais antigas da Igreja cristã, mais antiga do que a de Natal. É prova de que esse acontecimento fez grande impressão aos amigos de Jesus. Em verdade era um fato maravilhosíssimo virem três príncipes do Oriente, com numeroso séquito, guiados por uma estrela, prestar adoração ao Menino Jesus no presépio, ao passo que Israel não conheceu o seu Senhor.
Só Deus pode criar estrelas e, sobretudo uma estrela que guia homens e pára por cima do presépio: é um milagre grandioso, que só Deus, o Senhor da natureza, pode operar. Foi, pois, esse acontecimento uma prova de que tinha chegado verdadeiramente o cumprimento dos tempos e de que Jesus era mais do que um homem comum.
A vinda dessa caravana numerosa e estranha devia dirigir os olhares de todo o povo para Belém; tinha todo o cabimento a pergunta: Então chegou o tempo em que deve vir o Messias? Desse modo foram preparadas todas as almas que amavam a Deus, ao reconhecimento de Jesus como Messias; os infiéis, porém, tornaram-se mais culpados.

Apresentação de Jesus no Templo e fuga para o Egito

A santa vontade de Deus exigia a apresentação de Jesus no Templo, tanto mais necessária, quanto é certo que o nosso Divino Salvador tinha a vocação de oferecer-se ao Pai celeste como sacrifício de expiação pelos pecados dos homens. Sacrificou-se em espírito, desde o começo da vida, como lemos na Escritura Sagrada. Mas esse oferecimento havia de fazer-se também publicamente, tanto por seus santos pais, como por ele mesmo, ao ser apresentado no Templo.
"Na madrugada do dia seguinte, conta a Serva de Deus, vi a Sagrada Família dirigir-se ao Templo. Entraram num pátio do Templo, que era cercado de muros. Maria, com o Menino, foi recebida por uma matrona idosa, que a conduziu por um corredor ao Templo. Nesse corredor veio o velho Simeão, cheio de santa esperança, ao encontro da SS. Virgem. Ele vira, no dia anterior, um Anjo que lhe aparecera e avisara de que prestasse atenção ao Menino que no dia seguinte seria apresentado em primeiro lugar: era o Messias. Simeão dirigiu algumas palavras à Maria, cheio de júbilo e, tomando o Menino nos braços, apertou-o ao coração. A SS. Virgem foi depois conduzida aos átrios do Templo, onde a receberam Ana, que também tivera uma visão e Noemi, sua antiga mestra.
Simeão levou Maria à mesa do Sacrifício, sobre a qual ela colocou o Menino Jesus, num bercinho de vime. Nesse momento, vi que o Templo se encheu de uma luz inefável. Vi que Deus estava nessa luz e, por cima do Menino, vi o céu aberto, até ao trono da SS. Trindade. Simeão reconduziu então Maria ao lugar das mulheres. Ele e três outros sacerdotes tomaram as vestes sacerdotais. Um deles colocou-se atrás e outro diante da mesa do sacrifício; os outros dois, nos lados estreitos da mesa, orando sobre o Menino.
Maria, conduzida de novo à mesa do sacrifício, ofereceu frutas, algumas moedas e um par de rolas. O sacerdote, porém, de trás da mesa, tomando o Menino nos braços, levantou-o e moveu-o para diversos lados do Templo, orando por muito tempo. Entregou depois o Infante a Simeão, que o depositou nos braços de Maria, orando sobre esta e o Menino. A SS.Virgem retirou-se depois ao lugar das mulheres, ao qual, entretanto, cerca de vinte mães já haviam chegado, com os primogênitos para os apresentar. José ficou mais para trás, no lugar dos homens.
Então começaram os sacerdotes diante do altar uma cerimônia com incenso e orações. Tendo acabado esse ato, dirigiu-se Simeão à Nossa Senhora, e, tendo recebido a criança nos braços, falou muito a respeito do Menino, com entusiasmo, alegria e em alta voz. Louvando a Deus, por ter cumprido a sua promessa, exclamou: "Agora, Senhor, deixai partir o vosso servo em paz, conforme Vossa palavra. Pois meus olhos viram a Vossa salvação, que preparastes diante dos olhos das nações: luz para aclarar os gentios e glória de Israel, vosso povo."
José aproximara-se depois do sacrifício, escutando respeitosamente, juntamente com Maria, as palavras entusiasmadas de Simeão, que abençoou a ambos, dizendo depois a Maria: "Este menino veio ao mundo para a ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser um sinal de contradição. Vós mesma tereis a alma varada por uma aguda espada e assim serão patenteados os corações de muitos".
Tendo Simeão acabado de falar, começou também a profetisa Ana, inspirada pelo Espírito Santo, a glorificar o Menino Jesus, felicitando à SS. Virgem. Esta luzia, como uma rosa celeste. Oferecera o sacrifício mais pobre, exteriormente; mas José deu secretamente a Simeão e à Ana muitas barras pequenas amarelas, para serem empregadas em beneficio das Virgens pobres do Templo. Depois do sacrifício, partiu a Sagrada Família, seguindo logo, através de Jerusalém, para Nazaré.
Maria, a Virgem Puríssima, Imaculada, sujeitou-se humildemente à lei da purificação, escondendo deste modo também o seu alto privilégio. Apesar de tão belo ato de humildade, devia o gládio da dor atravessar-lhe a alma. Dor e sofrimento, considerados à luz da fé, não são males, mas uma fonte de bênção e graça. A profecia de Simeão atravessou dolorosamente o brando Coração materno de Maria, mas em pouco, esse Coração havia de sofrer uma nova dor veemente, quando se viu forçada a fugir de Nazaré para o Egito, a fim de salvar o Menino Jesus, das garras dos assassinos, enviados por Herodes. Ouçamos o que Anna Catharina nos narra a respeito:
"Vi um jovem resplandecente aproximar-se da cama de José e falar-lhe. José acendeu uma luz e, batendo à porta do quarto de Maria, pediu licença para entrar. Vi-o entrar e falar-lhe. Depois, foi à estrebaria dos jumentos e a um quarto. Aprontou tudo para a viagem. Maria vestiu-se imediatamente para a fuga e foi à casa de sua mãe, Sant’Ana, anunciando-lhe a ordem de Deus. Ana abraçou à SS. Virgem diversas vezes, chorando. Maria Helí prostrou-se no chão, desfazendo-se em lágrimas. Ambas apertaram, mais uma vez, o Menino Jesus de encontro ao coração. Ainda não era meia noite, quando abandonaram a casa. Maria levava o Menino Jesus, em uma faixa, diante de si; vestia um manto largo, que a envolvia e ao Menino".
Vi a Sagrada Família passar, ainda de noite, por alguns lugarejos e descansar, pela manhã, em um rancho. Só três vezes acharam, durante a fuga, uma estalagem para pernoitar. Nos outros dias, com os freqüentes e penosos desvios, dormiam sempre em barrancos, cavernas e lugares desertos, longe da estrada. Viajavam sempre à distância de uma milha da estrada real, sofrendo falta de tudo. Vi-os chegar cansados e abatidos a uma gruta, perto de Efraim. Mas, para os refrescar, brotou uma fonte da terra e aproximou-se-lhes uma cabra selvagem, que deixou ordenhar-se por eles; apareceu-lhes também um Anjo, que os consolou.
Tendo passado o território de Herodes e entrado num vasto deserto arenoso, não viram mais caminho, nem sabiam a direção; diante de si, viram serras inviáveis. A Sagrada Família estava muito angustiada; ajoelharam-se, pedindo a Deus socorro. Então vieram algumas feras enormes, que olharam para as serras, correram para frente e voltaram para trás, como cães que querem conduzir alguém a certo caminho.
A Família Sagrada seguiu finalmente às feras, atravessou a montanha (Séir?) e entrou numa região deserta e inóspita. Vi-a cercada por uma quadrilha de salteadores: o chefe, com cinco ou seis homens. A princípio estes se mostraram malévolos; mas à vista do Menino Jesus, tocou um raio de graça o coração do chefe, que proibiu à sua gente fazer mal aos viajantes.
Conduziu a santa Família à sua cabana, na qual a mulher lhes ofereceu alimentos; trouxe também uma gamela com água, para que Maria nela banhasse a Jesus. Nossa Senhora aconselhou-lhe que banhasse na mesma água o filho morfético. Esse menino estava cheio de lepra, mas, apenas mergulhado na água, caíram-lhe as crostas da enfermidade e tornou-se são e limpo. A mulher ficou fora de si, de alegria. Tive uma visão, na qual conheci que o menino curado se tornou, mais tarde, o bom ladrão.(São Dimas)
Pela madrugada, a Sagrada Família continuou a viagem pelo deserto e, tendo perdido de novo o rumo, vieram animais rasteiros mostrar-lhe o caminho. Mais tarde viam sempre brotar uma rosa de Jericó, ao alcance da vista.
Havendo chegado já às terras do Egito, vi a Família Sagrada lânguida de sede, passar por um mato, em cuja orla havia uma tamareira. As frutas pendiam do alto da árvore. Maria aproximou-se com o Menino Jesus e, levantando-o, rezou; então se inclinou a tamareira com a copa, de modo que lhe puderam colher todos os frutos.
A Sagrada Família tomou o caminho de Heliópolis, cidade do Egito. Em frente às portas dessa cidade havia um grande ídolo, uma cabeça de touro sobre uma coluna, como pedestal. Sentaram-se os viajantes não longe dela, debaixo de uma árvore, para descansar. Pouco tempo depois se deu um abalo da terra; o ídolo vacilou e caiu do pedestal. Houve por isso na cidade grande alvoroço entre o povo.
A Sagrada Família entrou pela cidade e foi morar sob um baixo alpendre. José construiu, diante dessa morada, uma sacada, de madeira. Vi-o trabalhar muito em casa, como também fora e vi a Virgem Santíssima tecendo tapetes ou fazendo outros trabalhos. Moraram perto de ano e meio em Heliópolis; tiveram, porém, de sofrer muitas perseguições, depois de terem caído ainda outros ídolos, num templo vizinho. Pouco antes de deixar a cidade, teve a Santíssima Virgem, por um amigo, notícias da matança das crianças de Belém, Maria e José ficaram muito tristes; o Menino Jesus, que já podia andar, chorou durante todo o dia.
Por causa da perseguição e por falta de trabalho, saiu a Sagrada Família de Heliópolis e, indo ao interior do país, em direção a Mênfis, veio para Mataréia, onde José executou muitos trabalhos de construção. À chegada, caiu também o ídolo de um pequeno templo e, mais tarde, todos os ídolos.
Vi como o Menino Jesus, pela primeira vez, buscou água da fonte para sua Mãe. Maria estava rezando, quando o Menino Jesus, saindo furtivamente, foi ao poço com um odre, para buscar água. Maria ficou muito comovida quando Jesus voltou e pediu-lhe de joelhos que não o fizesse mais, com medo de que caísse no poço. Jesus, porém, disse-lhe que teria muito cuidado e queria sempre ir buscar água, quando ela precisasse.
Ainda pequenino, Nosso Senhor prestava muitos serviços aos pais, era muito atencioso e ajuizado: notava tudo. Ia também comprar pão no próximo bairro dos judeus, em troca dos trabalhos de Maria. Quando o Menino Jesus foi lá pela primeira vez tinha seis ou sete anos. Vestiu, também pela primeira vez, aquela túnica parda, tecida pela Virgem Santíssima e bordada em baixo com florões amarelos. No caminho, lhe apareceram dois anjos, que lhe anunciaram a morte de Herodes, o Grande.
Vi que S. José estava muito abatido uma noite; não lhe pagaram o salário e, assim, não pôde trazer nada para casa, onde tanto precisavam. Cheio de angústia, ajoelhou-se no campo deserto, queixando a Deus sua mágoa. Na noite seguinte lhe apareceu um Anjo, que lhe trouxe a ordem de partir do Egito e voltar à sua terra, pela estrada real.
A viagem correu sem maior perigo para a Santa Família. Mas Maria Santíssima muitas vezes ficou aflita por causa de Jesus, que sofreu muito com a caminhada através da areia quente. José quis ir primeiro a Belém e não para Nazaré; estava, porém, indeciso. Finalmente lhe apareceu um Anjo, que lhe ordenou voltar para Nazaré, o que fez imediatamente. Ana ainda estava viva. Jesus tinha oito anos, menos três semanas".

Da mocidade de Jesus. Sua permanência em Jerusalém onde ensina aos doutores da lei e é encontrado pelos pais no Templo

Visto que a Escritura Sagrada pouco relata da infância de Jesus, deve ser de grande interesse para nós o que Anna Catharina Emmerich nos conta dessa época, descrevendo como o nosso Divino Salvador passou a infância e mocidade.
Vi a Sagrada Família, constituída pelas três pessoas Jesus, Maria e José, desde o décimo até o vigésimo ano de Jesus, morar duas vezes em casa alugada, com outras famílias; do vigésimo ao trigésimo ano de Cristo, vi-a morar sozinha numa casa.
Havia na casa três quartos separados: o da Mãe de Deus era o mais espaçoso e agradável e nesse se reuniam também os três membros da Família para a oração; fora disso, raramente os vi juntos. Durante a oração ficavam em pé, as mãos cruzadas sobre o peito; pareciam rezar alto. Vi-os rezar muitas vezes de noite, à luz do candeeiro. Todos dormiam separados nos respectivos quartos. Jesus passava a maior parte do tempo no seu quarto. José carpintejava no seu local de trabalho; vi-o talhar varas e ripas, polir peças de madeira ou, de vez em quando, trazer uma viga. Jesus ajudava-o no trabalho. Maria ocupava-se muito com trabalhos de costura ou certa espécie de ponto de malha, com varinhas. Vi Jesus cada vez mais recolhido, entregue à meditação, à proporção que se lhe aproximava o tempo da vida pública.
Até os dez anos prestava aos pais todos os serviços que podia; era também amável, serviçal e obsequiador para com todos na rua e onde quer que se lhe oferecesse ocasião. Como menino, era modelo para todas as crianças de Nazaré. Amavam-no e receavam desagradar-lhe. Os pais dos companheiros, censurando os maus costumes e as faltas dos filhos, costumavam dizer-lhes: "Que dirá o filho de José, se lhe contar isso? Como ficará triste!" Às vezes se Lhe queixavam dos filhos, na presença destes, pedindo: "Dize-lhe que não façam mais isso ou aquilo!" E Jesus aceitava-o de maneira infantil, como brincadeira, rogando aos amigos carinhosamente que procedessem de tal ou tal modo; rezava também com eles pedindo ao Pai Celeste força para se corrigirem, persuadia-os a confessarem sem demora as faltas e a pedirem perdão.
Jesus tinha figura esbelta e delicada, rosto oval e alegre, a tez sadia, mas pálida. O cabelo liso, de um louro arruivado, repartido no alto da cabeça, pendia-lhe da testa, franca e alta, sobre os ombros. Vestia uma túnica comprida, de cor parda acinzentada, inteiramente tecida, que lhe chegava até os pés; as mangas eram um pouco mais largas nas mãos.
Aos oito anos foi Jesus pela primeira vez a Jerusalém, para a festa da Páscoa e depois ia todos os anos. Quando Ele veio a Jerusalém, na idade de doze anos, possuía já muitos conhecidos na cidade. Os progenitores costumavam andar com os conterrâneos nessas viagens e, como fosse já a quinta romaria de Jesus, sabiam que sempre andava em companhia dos jovens de Nazaré. Desta vez, porém, na volta, se separara dos companheiros, perto do monte das Oliveiras, pensando estes que fosse juntar-se aos pais. Mas, quando chegaram a Gophna, notaram Maria e José a ausência de Jesus e tornaram-se muito inquietos. Voltaram imediatamente, procurando-o pelo caminho e em Jerusalém; mas não o acharam logo.
Nosso Senhor se havia dirigido, com alguns rapazes, à duas escolas da cidade; no primeiro dia, à uma; no segundo, à outra. No terceiro dia, fora de manhã à uma terceira escola, e de tarde ao Templo, onde o acharam os pais. Jesus pôs os doutores e rabinos de todas as escolas, em tal estado de admiração e de embaraço, pelas suas perguntas e respostas, que resolveram humilhar o Menino, por intermédio dos rabinos mais doutos, na tarde do terceiro dia, em auditório público, interrogando-o sobre diversas matérias.
Vi Jesus sentado numa cadeira grande, rodeado de numerosos judeus velhos, vestidos como sacerdotes. Escutavam atentamente e parecia estarem furiosos. Como o Senhor houvesse alegado, nas escolas, muitos exemplos da natureza, das artes e ciências, para demonstrar as suas respostas, reuniram-se conhecedores de todas essas matérias. Começando estes, pois, a discutir com Jesus, entrando em pormenores, objetou-lhes que tais coisas não se deviam discutir no Templo; queria, porém, lhes responder por ser isso vontade de Deus.
Falou então sobre medicina, descrevendo todo o corpo humano, como ainda não o conheciam os sábios; discorreu sobre astronomia, arquitetura, agricultura, geometria, matemática, jurisprudência e sobre tudo que lhe foi proposto. Deduziu tudo isso tão claramente da Lei e da promissão, das profecias do Templo, dos mistérios do culto e dos sacrifícios, que uns não se fartavam de admirar e outros ficavam, ora envergonhados, ora zangados e afinal todos se tornaram furiosos, porque lhes dissera Nosso Senhor, coisas de que nunca haviam tido conhecimento, nem tão clara compreensão.
Já havia ensinado desse modo algumas horas, quando José e Maria chegaram ao Templo, para se informarem, com Levitas conhecidos, a respeito do Filho. Então souberam que se achava com os doutores da lei no auditório. Como fosse um lugar em que não lhes era permitido entrar, mandaram um dos levitas chamar Jesus. Este, porém, lhes mandou dizer que primeiro queria acabar o trabalho. Magoou muito à Maria o não vir Ele logo.
Era a primeira vez que fazia saber aos pais que as ordens destes não eram as únicas que tinha a cumprir. Ensinou ainda uma boa hora e, só depois de todos estarem refutados, envergonhados e em parte zangados, foi que saiu do auditório e se dirigiu ao átrio de Israel e das mulheres, para se encontrar com os progenitores. José, retraído e admirado, nada disse; Maria, porém, encaminhou-se para Ele, dizendo: "Filho, porque nos fizeste isso? Olha que teu pai e eu te andávamos procurando, cheios de aflição." Mas Jesus, ainda muito sério, disse: Por que me procuráveis? Não sabeis que me devo ocupar das coisas de meu Pai?" Eles, porém, não compreenderam essas palavras e partiram com Ele, sem demora, de volta a Nazaré.
A doutrina de Jesus produziu grande sensação entre os doutores da lei; mas estes guardaram silêncio sobre o acontecimento, falando só de um menino presunçoso, a quem haviam repreendido, que possuía bom talento, mas precisava ainda ser educado e polido."
Jesus, ficando em Jerusalém, não teve nenhuma intenção de afligir os pais; teve em mira só a vontade do Pai Celeste, que lhe inspirou ficar, para revelar a divina sabedoria. Por isso, mostrou nas escolas e no Templo um saber maior que o natural. Como menino de doze anos, ainda não freqüentara nenhuma escola, mas já se apresentava como mestre dos doutores. Oxalá tivessem ouvido e recebido a doutrina com coração suscetível! Mas, vaidosos de seu saber, não queriam ser ensinados; antes quiseram humilhá-lo, propondo-Lhe perguntas difíceis, às quais, como supunham, não poderia responder. Mas foram eles mesmos que ficaram humilhados pelas sábias respostas de Jesus e por isso se enraiveceram contra Ele. Recusaram-se a ver a luz que os iluminava.
Uma estrela milagrosa anunciara o nascimento do Messias; mas o povo escolhido não se importara com tal fato, nem recebera o Salvador. O Menino Jesus fez brilhar a sua luz no Templo; mas as autoridades do povo, os sacerdotes e doutores fecharam propositadamente os olhos à essa luz. Por isso lhes será tirada: cada ano voltará o Salvador ao Templo; mas não ensinará mais publicamente, até que, chegado à idade madura, percorrerá todas as regiões da Palestina, pregando sua doutrina divina a todo o povo. Então se apresentará de novo no Templo, exclamando, em alta voz: "Eu sou a luz do mundo". Jerusalém, se ao menos nesse dia o conhecesses!

A vida do Senhor, até o começo de suas viagens apostólicas

Depois de voltar de Jerusalém, viveu Jesus, até a idade de trinta anos, com Maria e José, em paz e recolhimento, na pequena casa de Nazaré. Nem a Escritura Sagrada, nem a tradição nos transmitem pormenores dessa época; o Evangelho diz apenas: "E era-lhes (aos pais) submisso." (Luc. 2, 51). Também Anna Catharina Emmerich conta pouco dessa fase da vida de Jesus. Ouçamos os fatos principais:
"Depois de Jesus ter voltado a Nazaré, vi preparar-se uma festa, em casa de Sant’Ana, onde todos os moços e moças, parentes, e amigos de Jesus, se reuniram. Nosso Senhor era a pessoa principal dessa festa, à qual estiveram presentes 33 meninos, todos futuros discípulos do Salvador. Ele os ensinou e contou-lhes uma belíssima parábola de núpcias nas quais a água seria mudada em vinho e os convidados indiferentes em amigos fiéis; depois lhes falou de outras bodas, nas quais o vinho seria mudado em sangue e o pão em carne; e esta boda permaneceria, com os convidados, até o fim do mundo, como consolação e conforto e como vínculo vivo de união. Disse também a Natanael, jovem parente seu: "Estarei presente às tuas bodas."
Desde esse tempo, Jesus sempre foi como que o mestre dos companheiros. Sentava-se-lhes no meio, contando ou ensinando, ou passeava com eles pelos campos.
Aos 18 anos, começou a ajudar a S. José na profissão. Dos vinte aos trinta anos, teve muito que sofrer, por secretas intrigas dos judeus. Estes não podiam suportá-lo, dizendo, com inveja, que o filho do carpinteiro queria saber tudo melhor.
Na época em que começou a vida pública, tornou-se cada vez mais solitário e meditativo. Quando Jesus se aproximava dos trinta anos, tornou-se José cada vez mais fraco. Vi Jesus e Maria mais vezes em companhia dele. Maria sentava-se-lhe ao lado do leito, de quando em quando. Quando José morreu, estava Maria sentada à cabeceira da cama, segurando-o nos braços; Jesus se achava em frente, junto ao peito do moribundo. Vi o quarto cheio de luz e de Anjos. O corpo de José foi envolvido num largo pano branco, com as mãos postas abaixo do peito, deitado num caixão estreito e depositado numa bela gruta sepulcral, perto de Nazaré, gruta a qual recebera como doação de um homem bom. Além de Jesus e Maria, foram poucos os que acompanharam o caixão; vi-o, porém, acompanhado de Anjos e rodeado de luz. O corpo de José foi levado mais tarde pelos cristãos para um sepulcro perto de Belém. Julgo vê-lo jazer ali, ainda hoje, em estado Incorrupto.
José teve de morrer antes de Jesus, pois, sendo muito fraco e amoroso, não lhe teria sobrevivido à crucificação. Já sentira profundamente as perseguições que o Salvador teve de sofrer, dos vinte aos trinta anos, pelas repetidas maldades secretas dos judeus. Também Maria havia sofrido muito com essas perseguições. É indizível com que amor o jovem Jesus suportava as tribulações e intrigas dos judeus.
Depois da morte de José, Jesus e Maria se mudaram para uma aldeia situada entre Cafarnaum e Betsaida, em que um homem chamado Leví ofereceu uma casa a Jesus. Maria Cleophae, que, com o terceiro marido, vivia na casa de Sant’Ana, perto de Nazaré, mudou-se para a casa de Maria, em Nazaré. Vi Jesus e Maria irem de Cafarnaum para lá e creio que Maria ficou ali, pois havia acompanhado Jesus a Cafarnaum.
Entre os moços de Nazaré Jesus já tinha muitos adeptos; mas sempre o abandonavam de novo. Andava com eles pelas regiões marginais do lago e também em Jerusalém, pelas festas. A família de Lázaro, em Betânia, era também já conhecida de Jesus".

São estas as visões de Ana Catarina, e nos dão uma noção mais aproximada do que Jesus fez neste tempo oculto de sua vida. Tudo Nele impressiona a gente. Mas o que mais me deixou pasmo, foi saber que a grande arrogância dos homens daquele tempo, foi incapaz de perceber naquele jovem o Messias esperado. De fato, um homem que tinha uma tão vasta cultura, sem ter nunca freqüentado uma escola, deveria ser visto por todos com olhos muito diferentes, pois a sabedoria manda assim, somente os orgulhosos não a obedecem.

Hoje, ainda, se Jesus viesse à terra, incógnito, e se pusesse entre os cientistas a discutir sobre astros e ciências, certamente encontraria nuvens de cépticos, que ligados a conceitos próprios e errôneos, haveriam de O combater ferozmente.Sempre pensei na questão da pena de morte e na crucificação que hoje não existe mais. Penso, entretanto, que se Jesus tivesse escolhido o nosso tempo para nascer, certamente os homens reinventariam a pena de morte na Cruz, apenas para se cumprirem as escrituras. De fato, não tenho dúvidas de que Ele teria tão tenebrosos opositores, que sua vida de pregador seria impossível. Não é à toa que, para cada ser humano que – depois de 2.000 anos fala em Jesus – existem cinco outros querendo matá-lo!

Que o Senhor guie nossos passos, até nosso próximo texto.

Aarão!


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O CORDEIRO DE DEUS - Parte 4

No texto que segue, trazemos algumas passagens sobre os últimos dias do tempo de Jesus, imediatamente antes de começar sua vida pública. Na verdade tudo o que Jesus fazia, tinha um sentido profundo de preparação para a grande missão. Penso que muita gente sempre imaginou que Jesus passou dos 12 anos até os 30, tipo "na flauta", ou seja, apenas ajudando a São José e Nossa Senhora, sem nada fazer no sentido da missão. Na verdade, como já vimos, até nos dias da perda no Templo, Jesus aproveitou para fazer amigos – em especial os dois filhos de Verônica – que mais tarde estavam entre os 72 discípulos. E já ali, ele visitava escolas, instruía as crianças em especial, e falava sobre o Pai e o Reino.

As viagens apostólicas de Jesus, antes do seu Batismo no Jordão

Segundo as narrações de Anna Catharina Emmerich, o Divino Salvador já fizera, antes do seu Batismo, diversas viagens longas através da Palestina começando a pregar em público sua doutrina. Essas viagens tinham um fim preparativo.
Por toda parte exortava os homens a que recebessem o Batismo de João, em espírito de penitência e ensinava que o Messias devia aparecer por aqueles dias. Que Ele mesmo era o Messias, não o dizia por enquanto.
Admiravam-no como homem sábio e por suas qualidades espirituais e corporais; ficavam surpreendidos pelos seus feitos milagrosos... mas não chegavam a conhecer-lhe a divindade, pois os judeus tinham opinião muito errada, a respeito do Messias e do seu reino. Julgavam-no um rei vitorioso, que fundaria um poderoso reino; Jesus, porém, aos seus olhos, era apenas o "filho do carpinteiro".
Anna Catharina viu Jesus primeiro indo de Cafarnaum a Hebron, por Nazaré e Betânia, onde se hospedou em casa de Lázaro.
Visitou o deserto, onde Isabel escondera o menino João e, voltando a Hebron, começou a visitar os enfermos, consolando-os e aliviando-os. Os possessos tornavam-se sossegados perto dele.
De Hebron, foi Jesus à foz do Jordão, no Mar Morto, atravessou-o, para a outra banda, dirigindo-se à Galiléia. Passou por Dathaim, cerca de quatro léguas distante de Samaria, onde, numa casa grande, viviam muitos possessos, que ficaram furiosos à aproximação de Nosso Senhor; quando, porém, lhes falou, tornaram-se inteiramente calmos e voltaram para a sua terra.
Em Nazaré, Jesus visitou os conhecidos de seus pais, mas foi, em toda parte, recebido com frieza e, querendo ensinar na sinagoga, não Lho permitiram. Falou, porém, na praça pública, diante de grande multidão de povo, sobre o Messias e João Batista. Depois foi com Maria a Cafarnaum e dali novamente, de aldeia em aldeia, passando pelas sinagogas, para ensinar, consolando e socorrendo os enfermos. Esteve em Caná, depois à beira do Mar da Galiléia, onde expulsou o demônio de um possesso. Pedro pescava ali, Jesus falou com André e outros.
Partindo do lago, com seis a doze companheiros, tomou o caminho de Sidônia, à beira-mar, passando pela montanha do Líbano; nessa cidade deixou os companheiros e foi a Sarepta e ensinou as crianças e muitas vezes se retirava à uma pequena floresta, perto da cidade, para rezar sozinho. Depois de voltar a Nazaré, ensinou também na sinagoga: como, porém, surgisse descontentamento e murmuração contra Ele, declarou aos amigos que ia a Betsaida. Ali ensinou e, do mesmo modo, em Cafarnaum, percorrendo assim toda a Baixa-Galiléia.
Em Séforis, curou cerca de cinqüenta lunáticos e possessos; por causa disso se deu um tumulto na cidade, de maneira que Jesus teve de fugir, escondendo-se numa casa para abandonar a cidade de noite. Maria que com outras piedosas mulheres, estava presente, afligiu-se muito vendo-O, pela primeira vez, perseguido à viva força.
Em Betúlia, Jesus foi recebido e tratado amistosamente, como também em Kedes e Kision. Celebrou o Sábado em Jezrael, com os Nazarenos, que faziam votos e viviam uma vida de mortificações e austeridades. Tendo depois exortado os publicanos de um lugar, na estrada real de Nazaré, a que não exigissem mais do que os direitos justos, ensinou em Kisloth, ao pé do monte Tabor, sobre o Batismo de João. Os fariseus deram-lhe um banquete, para espiá-lo e examinar-lhe a doutrina.
Havia, porém, na cidade um costume e direito antigo, segundo o qual os pobres deviam ser convidados aos banquetes que fossem oferecidos a forasteiros. Sentando-se, pois, à mesa, Jesus perguntou logo aos fariseus onde estavam os pobres e mandou os discípulos chamá-los, pelo que ficaram os fariseus muito zangados. Ainda na mesma noite partiu de Kisloth e chegou, pela tarde do dia seguinte, a Kimki, aldeia de pastores.
Quando ensinou na sinagoga, levantaram-se contra Ele os fariseus, provocando um tumulto, Jesus continuou seu caminho, de noite, indo pela estrada real, até um lugarejo perto de Nazaré, habitado por pastores. Ali curou dois leprosos, mandando-os lavar-se com a água na qual Ele havia banhado os pés.
Cerca de um quarto de légua antes de chegar a Nazaré, entrou Jesus na casa de um Esseno, chamado Eliud, com o qual rezou e conversou com grande intimidade, sobre a sua missão e o mistério da Arca da Aliança. Explicou-lhe como aceitara um corpo humano do germe da bênção, que Deus tirara de Adão, antes do primeiro pecado; que viera para salvar os homens, os quais se lhe mostrariam muito ingratos.
A Virgem Santíssima veio com Maria Cleophae a Jesus, suplicando-lhe que não fosse a Nazaré, pois o povo estava irritado. Ele respondeu que esperaria só os companheiros que com Ele queriam ir a João Batista e depois passaria por Nazaré. Maria voltou a Cafarnaum. Jesus, porém, encaminhou-se com Eliud, pelo vale de Esdrelon, à cidade de Endor, pregando aí na praça pública sobre o Batismo de João e sobre o Messias.
Os habitantes de Endor não eram propriamente judeus, mas antes escravos refugiados. Na tarde do terceiro dia voltou com Eliud e foi a Nazaré, onde ensinou na escola e sinagoga, falando de Moisés e explicando profecias sobre o Messias. Mas, como falasse de tal modo que os fariseus puderam concluir que se referia a eles mesmos, enraiveceram-se contra Ele, censurando-lhe as relações com publicanos e pecadores, como também o fato de abençoar muitas crianças, a pedido das mães.
Na escola, lhe propuseram muitas perguntas intrincadas, mas Jesus reduziu todos os doutores ao silêncio. Ao legisperito respondeu com a lei de Moisés; ao médico, falou das doenças e do corpo humano, revelando conhecimentos por aquele inteiramente ignorados; aos astrônomos, ensinou o curso dos astros; discorreu também sobre comércio e indústria. Três jovens ricos pediram para ser recebidos como discípulos, Ele, porém, os recusou com tristeza, porque não pediram com intenção sincera.
O Senhor enviou os discípulos, que então eram nove, a João, a quem mandou anunciar a sua vinda. Ele próprio, porém, acompanhado por Eliud, foi de Nazaré primeiro a Chim, curou aí um morfético e continuou depois o caminho pelo vale de Esdrelon. Nessa noite, no caminho, Jesus se mostrou a Eliud em gloriosa transfiguração e na manhã seguinte, o Senhor o mandou voltar para casa.
Jesus continuou o caminho; passando ao pé do monte Garizim, perto de Samaria, chegou à cidade de Gofna, onde o receberam com respeito. Entrando na sinagoga, explicou o livro de um profeta e provou que o tempo do Messias devia haver chegado. Depois veio à uma aldeia de pastores e lhe falaram do matrimônio ilícito de Herodes; Jesus censurou severamente o procedimento do rei, com o mesmo rigor condenou, em geral, os pecados da vida matrimonial. Repreendeu, também alguns em particular, pela vida de adultério que levavam; a muitos disse os pecados mais ocultos, de modo que prometeram, com profunda contrição, fazer penitência.
De noite chegou Jesus a Betânia e hospedou-se em casa de Lázaro, onde Nicodemos, João, Marcos, Verônica e outros estavam reunidos. Durante a refeição, disse Jesus que lhe ia chegar um tempo muito sério; que Ele estava para entrar em um caminho cheio de contrariedades e perseguições; que lhe ficassem fiéis, se queriam ser-lhe verdadeiros amigos.
No dia seguinte, Marta apresentou Jesus à irmã, chamada Maria Silenciosa. Jesus falou-lhe; conversaram sobre coisas divinas, Marta falou-lhe também, com grande tristeza, a respeito de Madalena; Jesus consolou-a.
A Mãe de Nosso Senhor veio também a Betânia, com algumas das santas mulheres. O divino Mestre falou-lhe carinhoso e sério, dizendo-lhe que ia agora procurar João, para ser batizado e que depois teria de cumprir a sua missão; havia de amá-la como sempre, mas, daquele tempo em diante, devia viver e trabalhar para todos os homens.
Jesus seguiu então com Lázaro em direção a Jericó, para serem batizados; andou descalço pelo caminho pedregoso; até o lugar do Batismo, contavam-se cerca de nove léguas.

Vida pública de João Batista

Antes de o Salvador começar a pregar publicamente a sua doutrina, enviou a divina Providência um homem que, pelo aspecto extraordinário e pelas exortações à penitência e ao Batismo, devia atrair a atenção de todo o povo. Era João, filho de Zacarias e Isabel, de Hebron. Para salvar o mesmo, dos sicários de Herodes, por ocasião da carnificina das inocentes crianças de Belém, a mãe levara-o para o deserto, em que permaneceu até o princípio da sua vida pública.
A tarefa de João Batista, como o último e maior profeta do Velho Testamento, era preparar o caminho do Salvador e, estando já no limiar do Novo Testamento, apresentar Jesus, o Cordeiro de Deus que, carregado dos pecados de todo o mundo, devia realizar a salvação do gênero humano, por seu amor e Paixão. Como João cumpriu essa difícil tarefa, conta-nos intuitivamente a religiosa de Dülmen:
Pouco antes de deixar o deserto do Líbano, teve João uma revelação a respeito do Batismo. Voltou depois do deserto para junto dos homens, produzindo em todos uma impressão maravilhosa. Alto, emagrecido pelo jejum e pelas mortificações, mas forte, era uma figura extraordinariamente nobre, pura, simples e dominante. Pelo meio do corpo, trazia cingido um pano, que lhe caia até aos joelhos. Vestia um manto áspero, pardo; braços e peito descobertos.
Vindo do deserto, começou a construir uma ponte sobre um ribeiro. Falava só de penitência e da próxima vinda do Senhor. Tinha a voz aguda como uma espada, forte e severa; mas sempre agradável. Passava, por toda a parte, em caminho reto; vi-o correndo, através de matos e desertos, tirando pedras e árvores do caminho, preparando lugares de descanso, reunindo os homens que o admiravam, buscando-os até nas cabanas, para auxiliá-lo. Caminhou ao longo do Mar de Galiléia e, seguindo o vale do rio Jordão, passou perto de Jerusalém, para a qual olhou com tristeza; de lá foi à sua terra e a Betsaida.
Nos três meses antes de começar o batismo, percorreu duas vezes o país,