Trecho do livro - VIDA , PAIXÃO E GLORIFICAÇÃO DO CORDEIRO DE DEUS - Beata Anna Catharina Emmerich + comentários

O CORDEIRO DE DEUS - Parte 1

Sob este título, com a graça de Deus, nos colocamos diante de uma bela tarefa: Pretendemos trazer aos leitores partes de um livro da maior importância para todos os cristãos, não só católicos. Trata-se do livro da grande mística alemã, Ana Catarina Emmerich, aqui no Brasil intitulado "Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus", publicado pela Editora Mir de São Paulo – que pode ser adquirido pelo telefone nº 11-3865-4340, ou pela internet em: [email protected] com atendimento especial. E tão especial é o carinho do Fernando, que não só nos forneceu gentilmente e de forma gratuita os originais, como ainda nos incentivou ao trabalho. Ele assim, realmente cumpre esta missão grandiosa de fim dos tempos, onde não se pode mais ficar preso à esta história de direitos autorais, enquanto "o povo morre por falta de conhecimento". Aconselho a todos os que puderem ler este livro na íntegra, que não percam a chance. Todas as famílias católicas da terra o deveriam ter. Colocamos aqui, apenas as partes mais importantes.

Como não poderia deixar de ser, primeiro trazemos a parte relativa à vida da própria mística, para que os leitores compreendam a dignidade superior de seu ministério. Isso só vem edificar a sua obra e dar valor ao seu conteúdo de fé. Talvez nenhuma outra pessoa na terra, jamais tenha tido a graça de ver, com os próprios olhos, e com tão perfeita ordem, tudo aquilo que aconteceu com nosso Senhor, Jesus Cristo, desde os dias de Seu nascimento, até Sua morte dolorosa na Cruz. De fato, o Calvário fica real diante dos olhos do leitor, a medida que as palavras forem fluindo diante de nossas vistas.

Como sempre, se houver observações, as faremos ao final, indicando sempre por um número (1). Os tipos diferentes de máquina indicarão as nossas colocações, em especial no início e no fim de cada texto, para melhor esclarecimento. Segue então os escritos de Ana Catarina Emmerich. Na verdade, como ela não tinha escolaridade, os escritos foram passados ao papel pelo escritor Clemente Brentano, que ouvia seus relatos, e os transcrevia com fidelidade. E como a mística diz, ele próprio era conduzido pelo Espírito Santo, de modo que soam falsos todos os acusadores de Ana Catarina, que atribuem à imaginação do escritor, a maioria destas revelações fantásticas e minuciosas. Vamos aos textos!

QUEM FOI ESTA GRANDE MÍSTICA?

Anna Catharina Emmerich, filha de camponeses pobres, mas piedosos, nasceu na aldeia de Flamske, perto de Coesfeld, na Westfália, no dia 8 de Setembro de 1774 e foi batizada no mesmo dia. Desde a primeira infância, não cessou de receber do céu uma direção superior. Via freqüentemente o Anjo da Guarda e brincava com o Menino Jesus, nos prados e no jardim. A Mãe de Deus, a Rainha do Céu, apresentava-se-lhe muitas vezes e também os Santos lhe eram bons e afetuosos amigos.
Quando era criança, falava com toda a simplicidade dessas visões e fatos íntimos, pensando que as outras crianças vissem e experimentassem o mesmo; vendo, porém, que se admiravam das suas narrações, começou a guardar silêncio, pensando que era contra a modéstia falar dessas coisas.
Anna Catharina tinha um gênio alegre e amável; andava, porém, quase sempre calada e recolhida. Os pais, julgando que fosse por teimosia, tratavam-na com bastante rigor. Ela conta mais tarde: "Meus pais muitas vezes me censuravam, mas nunca me elogiavam; como, porém, eu ouvisse outros pais louvarem os filhos, julgava-me a pior criança do mundo". Era, contudo, de uma grande delicadeza de consciência; a menor transgressão afligia-a tanto, que lhe perturbava a saúde. Quando fez a primeira confissão, sentia tanta contrição, que chorou alto e foi preciso levá-la para fora do confessionário. Na Primeira Comunhão, cheia de ardente amor, ofereceu-se de novo, sem reservas, ao seu Deus e Senhor.
No verdor da mocidade, dos 12 aos 15 anos, Catharina trabalhou, como criada, em casa de um parente camponês, pastoreando rebanhos; depois voltou à casa paterna. Certa vez, trabalhando no campo, ouviu ao longe o toque lento e, sonoro do sino do Convento das Anunciadas, em Coesfeld. Contava então 16 anos apenas. Sentiu-se tão fortemente enlevada com a voz daqueles sinos, que lhe pareciam mensageiros do Céu, convidando-a para a vida religiosa e tão grande lhe foi a comoção, que caiu desmaiada e foi levada para casa, onde esteve, por muito tempo, adoentada.
Para conseguir mais facilmente admissão num convento, foi durante três anos trabalhar em casa de uma costureira, em Coesfeld, economizando assim 20 thalers (cerca de 3 libras Inglesas). Depois se mudou para a casa do piedoso organista Soentgen, esperando que, aprendendo a tocar órgão, se lhe facilitasse a entrada para um Convento. Mas a pobreza da família de Soentgen inspirou-lhe tanta compaixão, que, renunciando a tocar órgão, trabalhava na casa como criada, dando até as suas economias para aliviar a miséria do lar. "Deus deve ajudar agora", disse depois à mãe, "dei-lhe tudo, Ele saberá socorrer-nos a todos".
O bom Deus não deixou de ajudá-la, ainda que Anna Catharina só com 29 anos visse realizado o seu desejo de entrar para um convento. Quatro anos antes recebeu da bondade de Deus uma graça especial. Estava de joelhos na igreja dos padres Jesuítas, em Coesfeld, meditando e rezando diante de um crucifixo. "Então vi, conta ela mesma, vindo do Tabernáculo, onde se guardava o SS. Sacramento, o meu Esposo celeste em forma de um jovem resplandecente. Na mão esquerda trazia uma grinalda de flores, na direita uma coroa de espinhos; apresentou-mas, ambas, para eu escolher. Tomei a coroa de espinhos, Ele a pôs na minha cabeça e eu a apertei com ambas as mãos; depois desapareceu e voltei a mim, sentindo uma dor veemente em torno da cabeça. No dia seguinte a minha testa e as fontes, até as faces estavam muito inchadas e sofria horrivelmente. Essas dores e a inflamação voltaram muitas vezes. Não notei sangue em volta da cabeça, até que as minhas companheiras me induziram a vestir outra touca, porque a minha já estava cheia de manchas vermelhas, ferrugentas".
Como Anna Catharina não tinha mais dote, ficaram-lhe fechadas as portas dos Conventos, segundo o pensamento dos homens. Mas Deus ajudou-a, como esperava. Clara Soentgen, a filha do organista, sendo também organista perfeita, foi de boa vontade recebida no convento das Agostinhas, em Duelmen. Soentgen, porém declarou então que deixava entrar a filha somente sob a condição de que admitissem também Anna Catharina. Em conseqüência disso, entraram as duas jovens para o Convento, em 18 de Setembro de 1802.
O tempo do noviciado foi para Anna Catharina uma verdadeira escola da cruz, porque ninguém lhe compreendia o estado d’alma. Sofria, porém, tudo com paciência e amor, observando conscienciosamente a regra da Ordem. No dia 13 de Novembro de 1803, um ano depois de começar o noviciado, fez os votos solenes, tornando-se esposa de Jesus. O Esposo divino cumulou-a de novas e abundantes graças. "Apesar de todas as dores e sofrimentos", disse ela, "nunca estive tão rica no coração; minh’alma transbordava de felicidade. Eu vivia em paz, com Deus e com todas as criaturas. Quando trabalhava no jardim, vinham as avezinhas pousar sobre minha cabeça e meus ombros e cantávamos juntas os louvores de Deus. Via sempre o meu Anjo da Guarda ao meu lado e, ainda que o mau espírito me assustasse e agredisse, não me podia fazer mal. O meu desejo do SS. Sacramento era tão irresistível, que muitas vezes deixava de noite a minha cela, para ir rezar na igreja, quando estava aberta; se não, ficava ajoelhada diante da porta ou perto do muro, mesmo no inverno ou prostrada no chão, com os braços estendidos e em êxtase. Assim me encontrava o capelão do convento, Abbé Lambert (sacerdote francês, exilado da pátria, por não prestar juramento exigido pela constituição atéia), que tinha a caridade de vir mais cedo, para dar-me a sagrada Comunhão. Mas, logo que se aproximava para abrir a igreja, eu voltava a mim, indo depressa à mesa da Comunhão, onde achava o meu Deus e Senhor".
Como tantos Conventos, no princípio do século 19, também o Convento de Agnetenberg foi fechado a 3 de Dezembro de 1811. As piedosas freiras foram obrigadas a abandonar, uma após outra, o querido mosteiro. Anna Catharina, doente e pobre, ficou até a primavera seguinte, quando se mudou para uma pequena casa em Duelmen. No outono do mesmo ano (1812), lhe apareceu de novo o Divino Salvador, como um jovem resplandecente e entregou-lhe um crucifixo, que ela apertou com fervor de encontro ao coração. Desde então lhe ficou gravado no peito um sinal da cruz, do tamanho de cerca de três polegadas, o qual sangrava muito, a princípio todas as quartas-feiras, depois nas sextas-feiras, mais tarde menos freqüentemente.
A estigmatização deu-se-lhe poucos dias depois, a 29 de Dezembro. Nesse dia, às 3 horas da tarde, estava deitada, com os braços estendidos, em êxtase, meditando na Sagrada Paixão de Jesus. Viu então, numa luz brilhante, o Salvador crucificado e sentiu um veemente desejo de sofrer com Ele. Satisfez-se-lhe esse desejo, pois saíram logo das mãos, dos pés e do lado do Senhor raios luzidos cor de sangue, que penetraram nas mãos, nos pés e no lado da Serva de Deus, surgindo logo gotas de sangue nos lugares das chagas. Abbé Lambert e o confessor da vidente, Pe. Limberg, viram-nas sangrar dois dias depois, mas com sábio propósito fingiram não dar importância ao fato, na presença da Serva de Deus. Ela mesma procurava esconder os sinais das chagas, o que lhe era fácil, porque desde o dia 2 de Novembro de 1812 estava de cama, adoentada.
Desde então não pôde mais tomar alimento, a não ser água, misturada com um pouco de vinho, mais tarde só água ou, raras vezes, o suco de uma cereja ou ameixa. Assim vivia só da sagrada Comunhão. Esse estado e a estigmatização tornaram-se públicos na cidade, em Março de 1813. O Vigário de Duelmen, Pe. Rensing, encarregou dois médicos, os Drs. Wesener e Krauthausen, como também o confessor, de fazerem um exame das chagas, que freqüentemente sangravam., Os autos foram mandados à autoridade diocesana de Muenster, a qual enviou o Rev. Pe. Clemente Augusto de Droste Vischering, mais tarde Arcebispo de Colônia, o deão Overberg e o conselheiro medicinal Dr. von Drueffel a Duelmen, para fazerem outra investigação, que durou três meses. O resultado foi a confirmação da verdade das chagas, da virtude e também o reconhecimento do caráter sobrenatural do estado da jovem religiosa.
Também a autoridade secular, querendo examinar e "desmascarar a embusteira", mandou, em 1819, uma comissão de médicos e naturalistas; isolaram-na por isso em outra casa, rigorosamente observada, do dia 7 a 29 de Agosto, o que lhe causou muita humilhação e sofrimento; também o resultado desse exame lhe foi favorável.
No ano anterior, viera visitá-la pela primeira vez o poeta Clemente Brentano, recomendado pelo deão Overberg; a 17 de Setembro ele a viu pela primeira vez. Ela, porém, já o tinha visto muito antes, nas visões e recebido ordem do Céu para comunicar-lhe tudo. "0 Peregrino", como o chamava, ficou até Janeiro de 1819, mas voltou de novo, para ficar com ela, no mês de Maio. Foi para Catharina um amigo fiel até a morte, mas fê-la sofrer também às vezes, com seu gênio veemente.
Reconheceu a tarefa que lhe fora dada por Deus, de escrever as visões desta mártir privilegiada e dedicou-se a isso com cuidado consciencioso. "O Peregrino" escrevia durante as narrações, em tiras de papel, os pontos principais, que imediatamente depois copiava, completando-os de memória. A cópia, a limpo, lia à Serva de Deus, corrigindo, acrescentando, riscando sob a direção de Catharina, não deixando nada que não tivesse recebido a confirmação expressa de fiel interpretação.
Pode-se imaginar a grande facilidade que a prática diária, através de alguns anos, trouxe ao "Peregrino", para esse trabalho, dada a sua extraordinária inteligência e perseverança, como também o fato de ver nesse serviço uma obra santa, para a qual costumava preparar-se com orações e exercícios piedosos; assim podemos confiar que não lhe tenha faltado aos esforços o auxílio de Deus. O escrúpulo e a consciência com que procedia nesse trabalho, nunca lhe permitiram, durante tantos anos, resposta alguma aos que atribuíam grande parte das visões à imaginação do poeta, o que equivale a dizer que, homem sério que era, na tarde da vida se teria dado a esse incrível trabalho, para enganar conscientemente a si mesmo e aos outros".
"Ela falava geralmente baixo-alemão, no êxtase, também o idioma mais puro; a sua narração era, ora de grande singeleza, ora cheia de elevação e entusiasmo. Tudo que ouvi e que, nas dadas condições, só raras vezes e apenas em poucas palavras podia anotar, escrevia eu mais extensamente em casa, imediatamente depois. O Doador de todos os bens deu-me a memória, a aplicação e elevação da alma acima dos sofrimentos, que tornaram possível a obra, como está. O escritor fez tudo que era possível e pede, nesta convicção, ao benévolo leitor a esmola da oração". Anna Catharina deu também a este trabalho plena aprovação.
Quando estava num profundo êxtase, a 18 de Dezembro de 1819 e Brentano lhe apresentou uma folha, com as anotações, disse ela: "Estes são papéis de letras luminosas. O homem (isto é, o Peregrino) não escreve de si mesmo; tem para isto a graça de Deus. Nenhum outro pode fazê-lo; é como se ele mesmo visse".
Anna Catharina viu no êxtase toda a vida e paixão do Divino Salvador e de sua Santíssima Mãe; viu os trabalhos dos Apóstolos e a propagação da Santa Igreja, muitos fatos do Velho Testamento, como também eventos futuros. Tocando em relíquias, geralmente via a vida, as obras e os sofrimentos dos respectivos Santos. Com certeza reconhecia e determinava as relíquias dos Santos, distinguindo em geral facilmente objetos sagrados de profanos.
Adversários da Serva de Deus querem negar-lhe o caráter sobrenatural das informações recebidas durante os êxtases, alegando que Anna Catharina tirava a maior parte dos conhecimentos de livros, que antes teria lido. Mas isso não está de conformidade com o que Peregrino escreveu, em 8 de Maio de 1819 . Ela me disse que nunca fora capaz de aproveitar coisas de livros e que sempre pensava: - Ora, tal livro não há de fazer pecar. Também não pôde guardar na memória coisas da Escritura Sagrada; mas tem da vida do Senhor a graça de tal intuição, que a consciência e certeza, que disso tenho, às vezes me fazem tremer, por manter um trato tão familiar e simples com uma criatura de Deus tão maravilhosa e privilegiada, como talvez não haja outra".
Em outra ocasião ela disse ao Peregrino: "Nunca tive lembrança viva de histórias do Antigo Testamento ou dos Evangelhos, pois vi tudo com os meus próprios olhos, durante a minha vida inteira; o mesmo vejo cada ano de novo e nas mesmas circunstâncias, ainda que às vezes em outras cenas. Umas vezes estive naqueles lugares, no meio dos espectadores, assistindo aos acontecimentos, acompanhando-os e mudando de lugar; mas não estive sempre no mesmo lugar, pois às vezes fui levada para cima da cena, olhando deste modo para baixo.
Outras coisas, principalmente os mistérios, vi-os mais com a vista interior da alma, outras em figuras separadas da cena: em todos os casos se me apresentava tudo transparente, de modo que nenhum corpo cobria o outro, nem havia confusão".
Com todas estas grandes graças, Anna Catharina permanecia humilde, simples e singela como uma criança. Mostrava-se sempre obediente aos pais e às superioras religiosas, como também ao confessor e diretor espiritual. Se lhe mandavam tomar remédio, consentia, apesar de prever-lhe o mau efeito. Mesmo em êxtase, obedecia imediatamente à chamada do confessor.
Era à dolorosa Paixão de Nosso Senhor que tinha uma devoção especial e rezava por isso muitas vezes, enquanto lhe era possível, a Via Sacra erigida ao longo de um caminho de quase duas léguas, nos arredores de Coesfeld. Nos domingos fazia essa devoção em companhia de algumas jovens piedosas, nos dias úteis a fazia muitas vezes de noite. Clara Soentgen, sua amiga, conta: "Muitas vezes ela se levantava de noite, saindo furtivamente de casa e rezava descalça a Via Sacra. Se a porta da cidade estava fechada, pulava os altos muros, para poder ir à Via Sacra; às vezes caia dos muros abaixo, mas nunca se machucava".
Além dos muitos padecimentos que sofria com paciência e perseverança, exercitava-se constantemente nas mortificações voluntárias. Já na infância costumava privar-se de parte do sono e da comida. Muitas horas da noite passava velando e rezando; comia e bebia o que os outros recusavam, levando as comidas melhores aos doentes e pobres, dos quais tinha muita compaixão. O amor ao próximo impelia-a a pedir a Deus que, por favor, lhe desse a sofrer as doenças e dores dos outros ou que a deixasse cumprir os castigos merecidos pelos pecadores. Já o fizera na infância e fazia-o depois de um modo muito mais intenso. "A tarefa principal da sua vida, escreve Clemente Brentano, era sofrer pela Igreja ou por alguns membros da mesma, cuja necessidade lhe era dada a conhecer em espírito ou que lhe pediam a intercessão". Anna Catharina aceitava de boa vontade tais sofrimentos e trabalhos. Muitas vezes, porém, se tornavam estes tão grandes e pesados, que parecia prestes a morrer.
Quando um dia, quase sucumbindo ao peso das dores, pediu ao Senhor que não a deixasse sofrer mais do que podia suportar, apareceu-lhe o Esposo Celeste e disse: "Coloquei-te no meu leito nupcial das dores, com as graças dos sofrimentos, adornada com os tesouros da reconciliação e com as jóias das boas ações. Deves sofrer. Não te abandono; estás amarrada à videira, não perecerás".
Também as almas do purgatório se lhe dirigiam muitas vezes, pedindo-lhe socorro; e ela provava de boa vontade sua compaixão ativa. "Fiz um contrato com meu doce Esposo do Céu", conta ela, que cada gota de sangue, cada pulsar do coração, toda a minha vida e todos os meus atos devem sempre clamar: "Almas queridas do purgatório, saúdo-vos pelo doce Coração de Jesus". Isso faz bem a essas infelizes e alivia-as, pois são tão pacientes!"
Depois de muitos e indizíveis sofrimentos, chegou o dia da sua morte a 9 de Fevereiro de 1824.
A 15 de Janeiro desse ano dissera a Serva de Deus: "Na festa de Natal o Menino Jesus me trouxe muitos sofrimentos, hoje me deu ainda maiores, dizendo: "Tu me pertences, és minha esposa: sofre como eu sofri; não perguntes porque, é para a vida e para a morte".
Ela jaz com febre, com dores reumáticas e convulsões, escreve o Peregrino, mas sempre em atividade espiritual, em prol da santa Igreja e dos moribundos. O confessor pensa que ela em pouco terminará, porque disse no êxtase, com grande serenidade "Não posso aceitar outro trabalho, já estou próxima do fim". Ela pronuncia, com voz de moribunda, só o nome de "Jesus".
A 27 de Janeiro recebeu a Extrema-Unção. Aumentaram-lhe as dores; mas repetia de vez em quando: "Ai, meu Jesus, mil vezes vos agradeço toda a minha vida; não a minha vontade, mas a Vossa seja feita". Na véspera da morte rezou: "Jesus, para Vós morro; Senhor, dou-Vos graças, não ouço nem enxergo mais". Quiseram mudar-lhe a posição, para aliviá-la, mas Anna Catharina disse: Estou deitada na cruz; deixem-me, em pouco acabarei". Recebeu mais uma vez a sagrada Comunhão, a 9 de Fevereiro. Suspirando pelo Divino Esposo, rezou diversas vezes: "Oh! Senhor, socorrei-me; vinde, meu Jesus".
O confessor assistiu à moribunda, dando-lhe muitas vezes o crucifixo para beijar e rezando preces pelos moribundos. Ela ainda lhe disse: "Agora estou tão sossegada; tenho tanta confiança, como se nunca tivesse cometido pecado". Deram justamente 8 horas da noite, quando exclamou três vezes, gemendo: "Oh! Senhor, socorrei-me, vinde, oh! meu Senhor!" E a alma pura voou-lhe ao encontro do Esposo Celeste, para permanecer, como esperamos confiadamente, eternamente unida com Ele, na infinita felicidade do Céu.
Com grande concorrência do povo foi sepultado o corpo da Serva de Deus, no cemitério de Duelmen, onde jaz ainda. Na noite de 21 a 22 de Março de 1824 foram abertos o sepulcro e o caixão, em presença do prefeito da cidade e do delegado de polícia. Viu-se que a decomposição ainda não tinha começado. Uma segunda abertura do sepulcro foi feita, no dia 6 de Outubro de 1858, pela autoridade eclesiástica.
Anna Catharina achou muitos veneradores na Alemanha e longe, além das fronteiras, que se alegraram pela abertura do processo chamado de informação, feito pela autoridade diocesana de Muenster, no ano de 1892. Encerrou-se esse processo no ano de 1899, sendo os documentos enviados à Santa Sé em Roma, para pedir a beatificação da piedosa sofredora. Oxalá que essa honra seja dada pelo chefe da Igreja, para a glória de Deus, que é "admirável nos seus Santos!"
Grande número de homens doutíssimos examinaram as visões da piedosa Anna Catharina Emmerich e reconheceram-lhe a credibilidade, com palavras calorosas. Citamos apenas algumas sentenças da opinião de Frederico Windischmann, professor tão piedoso como douto, mais tarde Vigário geral do arcebispado de Muenchen Freising: "A Providência Divina escolheu em Anna Catharina um Instrumento que - preparado com os poucos conhecimentos da instrução rural, familiarizada, como se achava, somente com livros de devoção ordinários, não versada na Escritura Sagrada, privada até propriamente de uma direção espiritual, - não podia apresentar ao divino assunto um vaso humanamente tão bem formado como S. Teresa, Maria de Agreda e outras; por isso mesmo era muito menos capaz de fazer impostura, querendo imitar aqueles grandes exemplos.
Pelo contrário, para provar claramente a verdade do dom divino, deviam as visões da jovem camponesa, despidas quase inteiramente da parte subjetiva e mística, no sentido comum desta palavra, referir-se somente ao objetivo da vida real de Jesus Cristo. Mas, justamente por isso lhe foi dado um assunto, em que não há lugar para fantasia puramente humana e para os sonhos de falsa contemplação, os quais, se quisessem imiscuir-se-lhe, deveriam causar erros e enganos à cada passo; numa palavra: a inimitável objetividade da visão, sem reflexões místicas da vidente, é uma prova evidente da veracidade.
Assim a descrição, às vezes quase fatigante, de pessoas, do respectivo aspecto, vestuário, costumes de vida; a enumeração de cidades e povoações, de caminhos e viagens, de regiões, montanhas, rios e lagos: todos estes detalhes arqueológicos tem o fim providencial: primeiro, de provar a impossibilidade de invenção, por parte da vidente ou do seu secretário; segundo, de dar à pessoa de Jesus, aparecendo e agindo com verdade histórica, um fundo histórico, do mesmo modo verdadeiro.
Dissemos antes que nenhuma reflexão mística e contemplação subjetiva da vidente escurecia a objetividade das visões; mas isso não impede que, de vez em quando, resplandeça, através das pessoas e dos acontecimentos, uma luz maravilhosa de um mundo superior e que a vidente, como criança singela, nos deixe contemplar os mistérios mais profundos da Escritura Sagrada e da doutrina cristã".

Eis aí um pouco da vida desta grande santa. Há mais textos a respeito dela, porém cremos que o essencial está aqui retratado. Infelizmente, ainda não feita santa pela Igreja, mas com certeza esta glória ela tem no Céu. Vejam o ódio de satanás contra ela, tal que o seu processo de beatificação teve início em 1892, portanto há 111 anos, sem ter andado quase nada. Só agora, recentemente, foi aceito um milagre atribuído a ela, que deverá agilizar o processo. Somente este fato deveria acender o coração dos homens da Igreja, para que se debruçassem sobre seus escritos, porque certamente eles são da maior importância.

Nós, porém, vamos fazer a nossa parte. Com a colaboração de todos, editor, leitores e divulgadores, poderemos fazer chegar a muitos, pelo menos as partes mais importantes destas preciosas revelações. Este primeiro texto termina aqui, mas em breve os outros chegarão, certamente para o bem e a edificação de muitos.

Aarão!

Os que quiserem adquirir o livro original,
Podem dirigir-se à Editora Mir – São Paulo.
Caixa Postal 70.507 – CEP 05013-990 - SP
Fone/fax: 11-3865-4340
e-mail:
[email protected]
site:
http://sites.uol.com.br/mireditora/

PS. Hoje, quando reviso o texto, leio as matérias relativas ao filme A PAIXÃO, do ator Mel Gibson, que é baseado nas visões desta grande mística da nossa Igreja Católica. Também fico sabendo que tudo isso está impulsionando, finalmente, o processo de canonização dela, o que já não é sem tempo.

O CORDEIRO DE DEUS - Parte 2

Continuando nosso pequeno trabalho de trazer à luz fatos importantes da vida de Jesus, vamos aqui apresentar o resumo do livro já citado, de Ana Catarina Emmerich desta vez apresentando um resumo da vida de Nossa Senhora, em especial a partir do momento em que aos três anos e meio, despediu-se do pai e da mãe e tornou-se uma das virgens consagradas do Templo de Jerusalém. O texto não carece de informações adicionais, mas certamente é uma doçura para aqueles que amam a Mãe do Filho de Deus. Eis as visões de Ana Catarina, sobre a:

Infância de Nossa Senhora e seu casamento com São José

Maria tinha três anos e três meses, quando fez o voto de associar-se às virgens santas, que se dedicavam ao serviço do Templo. Antes da partida fizeram na casa paterna uma grande festa, à qual estiveram presentes cinco sacerdotes, que sujeitaram Maria à uma espécie de exame, para ver se já chegara à idade de juízo e madureza de espírito, para, ser admitida no Templo. Disseram-lhe que os pais tinham feito por ela o voto, que não devia beber vinho ou vinagre, nem comer uvas ou figos. Maria ainda acrescentou que não comeria nem peixe, nem especiarias, nem frutas, senão uma espécie de pequenas bagas amarelas, que não beberia leite, dormiria na terra e se levantaria três vezes durante a noite para rezar.
Os pais de Maria ficaram muito comovidos com estas palavras. Joaquim abraçou a filha, exclamando, entre lágrimas: "Oh, minha querida filha, isto é duro demais; se assim queres viver, teu velho pai não te verá mais". - Foi um momento de profunda comoção. Os sacerdotes, porém, disseram que se devia levantar só uma vez para a oração, como as outras virgens, juntando ainda outras circunstâncias atenuantes, como, por exemplo, que devia comer peixe nas grandes festas".
Maria ofereceu-se também para lavar as vestes dos sacerdotes e outras roupas grossas. No fim da solenidade, vi que Maria foi abençoada pelos sacerdotes. Ela estava em pé, num pequeno trono, entre dois sacerdotes; aquele que a abençoou, estava-lhe em frente, os outros atrás. Os sacerdotes rezaram alternadamente, em rolos de pergaminho e o primeiro abençoou-a, estendendo as mãos sobre ela.
Tive nessa ocasião uma maravilhosa visão do estado íntimo da santa Menina. Vi-a como que iluminada e transparente pela bênção do sacerdote e sob seu Coração, em glória indizível, vi a mesma imagem que na contemplação do santo Mistério na Arca da Aliança.
Numa forma luminosa, igual à do cálice de Melquisedec, vi figuras brilhantes, indescritíveis, da bênção da promissão. Era como trigo e vinho, carne e sangue, que tendiam a unir-se. Vi, ao mesmo tempo, que sobre essa aparição o Coração da Virgem se abriu, como a porta de um templo e o mistério da promissão, cercado como de um dossel, guarnecido de misteriosas pedras preciosas, lhe entrou no Coração aberto; era como se a Arca da Aliança entrasse no templo. Depois disso, encerrava o coração da Virgem o maior bem que naquele tempo havia no mundo. Desaparecendo essa imagem, vi apenas a santa Menina cheia de ardente devoção e amor. Vi-a como que extasiada e elevada acima da terra".
Joaquim e Ana viajaram com Maria para Jerusalém. Em procissão solene foi a Menina introduzida no Templo; depois de oferecido um sacrifício, erigiu-se um altar por baixo de um portal. Maria ajoelhou-se nos degraus, enquanto Joaquim e Ana lhe puseram as mãos na cabeça, proferindo orações de oferecimento. Um sacerdote cortou-lhe então um anel do cabelo queimou-o num braseiro e vestiu-a de um véu pardo. Dois sacerdotes conduziram Maria muitos degraus para cima, à parede divisória que separa o Santo do resto do Templo e colocaram-na num nicho, do qual se via o Templo, em baixo. Depois um sacerdote ofereceu incenso no altar próprio.
"Vi brilhar sob o Coração de Maria uma auréola de glória e soube que continha a promissão, a bênção santíssima de Deus. Essa auréola aparecia como que cercada pela arca de Noé, de modo que a cabeça da Santíssima Virgem sobressaia acima da Arca. Depois vi a figura da arca de Noé transformar-se na da Arca da Aliança, cercada pela aparição do Templo. Então vi desaparecer essas formas e sair da auréola brilhante a figura do cálice da última ceia, diante do peito de Maria. Aparecendo-lhe diante da boca um pão assinalado com uma cruz.
Dos lados lhe emanavam numerosos raios de luz, em cujas extremidades apareciam muitos mistérios e símbolos da SS. Virgem, como, por exemplo, os nomes da Ladainha de N. Senhora, em figuras. Do ombro direito e do esquerdo cruzavam-se dois ramos de oliveira e cipreste sobre uma palmeira pequena, que vi aparecer atrás de Maria. Entre esses ramos vi as formas de todos os instrumentos da paixão de Jesus. O Espírito Santo, com asas luminosas, parecendo mais figura de homem do que de pomba, pairou sobre a aparição. No alto vi o céu aberto, com a Jerusalém celeste no centro, com todos os palácios, jardins e habitações dos futuros Santos; tudo estava cheio de Anjos; também a auréola de glória que cercava Maria, estava cheia de cabeças de Anjos.
Então desapareceu a visão gradualmente, como aparecera. Por fim vi somente o esplendor sob o Coração de Maria e luzir nele a bênção da promissão. Depois desapareceu também essa visão e vi apenas a Santa Menina, consagrada ao Templo, guarnecida de seus adornos, sozinha entre os sacerdotes".
Maria despediu-se dos pais e foi entregue às mestras: Noemi, Irmã da mãe de Lázaro e a profetisa Ana, outra matrona. Então vi uma festa das virgens do Templo. Maria tinha de perguntar às mestras e às meninas, uma a uma, se queriam deixá-la ficar junto delas. Era o costume adotado. Depois fizeram uma refeição e no fim houve uma dança; estavam umas em frente às outras, duas a duas e dançando formavam figuras: cruzes, etc.
De noite Noemi conduziu Maria ao seu quartinho, de onde se podia ver o interior do Templo. O quarto não formava um quadrângulo regular; as paredes estavam marchetadas de triângulos, que formavam várias figuras. Havia no quarto um banquinho, mezinha e estantes nos cantos, com diversos repartimentos para guardar objetos. Diante desse quartinho havia um quarto de dormir e um guarda-roupa, como também a cela de Noemi.
As virgens do Templo usavam vestido branco, comprido e largo, com cinta e mangas muito largas, que arregaçavam para o trabalho. Estavam sempre veladas.
Maria, era, para sua idade, muito hábil; vi-a trabalhar, fazendo já pequenos lenços brancos, para o serviço do Templo.
Vi a Santa Virgem passar o tempo parte na morada das matronas (com as outras meninas), parte na solidão do quarto, em estudo, oração e trabalho. Trabalhava em ponto de malha e tecia, sobre varas compridas, panos estreitos, para o serviço do Templo. Lavava as toalhas e limpava os vasos do Templo. Vi-a muitas vezes em oração e meditação.
Além das orações prescritas no Templo, Maria SS. tinha como devoção especial o desejo contínuo da Redenção, que lhe constituía uma ininterrupta oração da alma. Guardava esse desejo como um segredo e fazia as devoções às escondidas. Quando todas dormiam, levantava-se do leito, para orar a Deus. Vi-a muitas vezes se desfazer em lágrimas e rodeada de celestial esplendor, durante a oração.
A alma da Virgem parecia não estar na terra e gozava muitas vezes de consolações celestes. Tinha um desejo indizível da vinda do Messias e na sua humildade, apenas se atrevia a desejar ser a serva mais humilde da Mãe do Salvador.
Tendo as virgens do Templo alcançado certa idade, casavam-se e deixavam o serviço do mesmo. Quando chegou, porém, o tempo de Maria, ela não quis deixar o Templo; mas disseram-lhe que devia casar".
"Eu vi, conta Catharina Emmerich, que um sacerdote muito idoso, que não podia mais andar (provavelmente o Sumo Sacerdote), foi transportado por alguns outros, numa cadeira, para diante do Santíssimo e rezou, lendo num rolo de pergaminho que lhe estava em frente, sobre uma estante, enquanto se queimava um sacrifício de incenso. Extasiado em espírito, teve uma aparição, sendo-lhe a mão colocada sobre o rolo, onde o dedo indicador mostrava a palavra do Profeta Isaías: E sairá uma vara do tronco de Jessé o uma flor brotar-lhe-á da raiz. (Is. 11, 1). Quando o ancião voltou a si, leu esse verso e conheceu-lhe a significação ensinada na visão".
Enviaram, portanto, mensageiros por todo o país, convocando todos os homens solteiros da estirpe de Davi ao Templo. Reuniram-se muitos deles no Templo, em vestes de gala, e foi-lhes apresentada a Virgem Santíssima. Vi ali um jovem muito piedoso da região de Belém; tinha também implorado sempre, com ardente devoção, a vinda do Salvador prometido e vi-lhe no coração o grande desejo de ser o esposo de Maria. Esta, porém, se recolheu à cela, derramando lágrimas abundantes e não podia conformar-se com o pensamento de ter de renunciar à virgindade.
Então vi que o Sumo Sacerdote (segundo a inspiração recebida do Céu) distribuiu ramos a todos os homens presentes, com ordem de marcar cada um o seu ramo com o respectivo nome e segurá-lo nas mãos, durante a oração e o sacrifício. Feito Isso, todos entregaram os seus ramos, que foram colocados sobre um altar, diante do Santíssimo; anunciou-lhes o Sumo Sacerdote que aquele cujo ramo florescesse, seria destinado por Deus a desposar a Virgem Maria de Nazaré. Enquanto os ramos estavam diante do Santíssimo, continuaram os homens a oferecer sacrifícios, a rezar; vi que aquele jovem clamava instantemente a Deus, com os braços estendidos, num dos átrios do Templo e rompeu em lágrimas, quando todos receberam os seus ramos e foram informados que nenhum florescera e, portanto, nenhum dentre os presentes fora destinado a ser o esposo dessa Virgem.
Vi depois que os sacerdotes do Templo procuraram de novo, nos registros das gerações, se havia ainda um descendente de Davi, que antes tivessem saltado. Como, porém, fossem marcados seis irmãos de Belém, de um dos quais já há muito tempo não havia notícias, procuraram o domicílio de José e acharam-no, num lugar não muito longe de Samaria, situado num ribeiro, onde morava sozinho, perto do ribeiro, trabalhando em serviço de outros mestres. Estaria talvez na Idade de 33 anos.
À ordem do Sumo Sacerdote, veio José com o seu melhor traje ao Templo de Jerusalém. Teve também de segurar um ramo, durante o sacrifício e as orações; quando quis pô-lo sobre o altar, diante do Santíssimo, brotou uma flor branca, como uma açucena, na ponta do ramo e vi descer sobre ele uma aparição luminosa, como o Espírito Santo. Então reconheceram José como esposo de Maria, escolhido por Deus e apresentaram-no à Maria, em presença de sua mãe e dos sacerdotes. Maria, conformada com a vontade de Deus, aceitou-o humildemente por noivo.
As núpcias foram celebradas em Jerusalém. Depois seguiu Maria com a mãe para Nazaré; José, porém, foi primeiro a Belém, a negócios de família. À sua chegada em Nazaré, fizeram uma festa. Na casa que Ana montara para eles, tinha José um quarto separado, na frente. Ambos estavam muito acanhados. Viviam em oração e muito recolhidos".

Anunciação e Visitação de Nossa Senhora

Depois do casamento de Maria SS. com S. José, estavam preparadas pela Divina Providência todas as condições, de modo que o santíssimo e eternamente adorável mistério da Encarnação podia realizar-se. Deu-se esse fato numa noite santa, na silenciosa casa de Nazaré. Inspirada pelo Espírito Santo, que queria operar nela o grandioso milagre, velou Maria toda a noite em ardente oração. Então sucedeu que, pela meia noite, entrou na casa de Nazaré um dos mais augustos Anjos do Céu, como mensageiro de Deus e, pelo consentimento da SS. Virgem, revestiu-se nela o Filho Unigênito de Deus da natureza humana. Assim se uniu a eternamente adorável Divindade, por um misterioso matrimônio e amor santo, com a humanidade pecaminosa, a qual o Pai de misericórdia quis elevar de novo pelo Homem-Deus, para estabelecer a nova Aliança de graça e amor.
Ouçamos a singela descrição desse mistério pela vidente privilegiada de Dülmen:
"Vi a Santíssima Virgem, pouco depois do casamento, em casa de José, em Nazaré. José saíra da cidade, com dois jumentos, para buscar alguma coisa; parecia estar voltando. Além da SS. Virgem e duas moças da mesma idade, vi ainda Sant’Ana e aquela parenta viúva, que lhe servia de criada. Pela noite rezaram, comendo depois alguma hortaliça. Maria recolheu-se então ao quarto de dormir e preparou-se para a oração, pondo um vestido comprido, de lã branca, com cinto largo e cobrindo a cabeça com um véu branco-amarelo. Tirou uma mezinha baixa encostada na parede e colocou-a no meio do quarto; tendo posto ainda uma almofada diante dessa mezinha, pôs-se de joelhos e cruzou os braços. Assim a vi rezar muito tempo, em ardente súplica, elevados os olhos ao céu, pedindo a redenção e a vinda do Rei prometido".
Então se derramou do teto do quarto uma torrente de luz sobre o lugar à direita de Maria; nessa luz vi um jovem resplandecente descer para junto dela: era o Arcanjo S. Gabriel, que lhe disse:
"Ave, cheia de graça. O Senhor é convosco, bendita sois entre as mulheres". Ao ouvir estas palavras, a Virgem perturbou-se e cogitava das razões daquela saudação. Mas o Anjo observou-lhe: "Não vos perturbeis, Maria, porque merecestes graça diante de Deus; pois concebereis e dareis à luz um filho, ao qual poreis o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á o Filho do Altíssimo; e Deus Nosso senhor dar-lhe-á o trono de Davi, seu pai, e reinará eternamente sobre a casa de Jacó e o seu reino não terá fim". (Lc. 1, 28-33).
Vi-lhe sair as palavras da boca como letras. Maria virou um pouco a cabeça velada para o lado direito, mas, cheia de temor, não levantou os olhos. O Anjo, porém, continuou a falar e Maria levantou um pouco o véu e respondeu:
"Como se fará isso, pois não conheço homem?" (Luc. 1, 34)
E o Anjo disse: "O Espírito Santo virá sobre Vós e a virtude do Altíssimo cobrir-vos-á com sua sombra. E por isso o Santo que nascerá de Vós, será chamado Filho de Deus. Já vossa prima Isabel concebeu um filho na velhice e este é o sexto mês da que se diz estéril; pois nada para Deus é impossível".
Maria levantou o véu e, olhando para o Anjo, respondeu as santas palavras: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a vossa palavra". A Santíssima Virgem estava em profundo êxtase. O quarto estava cheio de luz, o Céu parecia aberto e um rasto luminoso permitia-me ver por cima do Anjo, no fim da torrente de luz, a Santíssima Trindade. Quando Maria disse: "Faça-se em mim segundo a vossa palavra", vi a aparição do Espírito Santo; do peito e das mãos derramaram-se-lhe três raios de luz para o lado direito da Santíssima Virgem, unindo-se-lhe. Maria estava nesse momento toda luminosa e como transparente.
Vi depois o Anjo desaparecer e do rasto luminoso que se retirava para o Céu, caíram sobre a Santíssima Virgem muitas rosas brancas fechadas, todas com uma folhinha verde. Nesse momento vi também uma serpente asquerosa arrastar-se pela casa e pelos degraus acima. O Anjo, ao sair do quarto da SS. Virgem, pisou diante da porta a cabeça desse monstro, que uivou tão horrivelmente, que tremi de medo.
Apareceram, porém, três espíritos e expulsaram o monstro a pontapés e pancadas, para fora de casa. A Virgem Santíssima, toda absorta em extática contemplação, reconheceu e viu em si o Filho de Deus, feito homem, como uma pequena forma humana luminosa, com todos os membros já desenvolvidos, até os dedinhos e humildemente o adorou. Foi pela meia noite, que vi esse mistério. Depois de algum tempo, Maria se levantou, colocou-se diante do pequeno altar de oração e rezou em pé. Foi pela manhã que se deitou para dormir. Ana teve, por uma revelação de Deus, conhecimento de tudo".
Para a preparação completa da vida pública e das obras de Jesus era preciso também a santificação e a ação pública do Precursor. Esta devia efetuar-se, segundo a vontade de Deus, pela aproximação de Maria e de seu Filho milagrosamente concebido, da mãe do precursor. Por isso inspirou o Espírito Santo à Virgem Santíssima o desejo de visitar a prima Isabel. Esta morava em Hebron, no sul do país, Maria em Nazaré, no norte; mas essa distância não desanimou Maria. Pôs-se a caminho, em contínua adoração e contemplação do Filho de Deus, que trazia sob o Coração, acompanhada por S. José, evitando, quanto era possível, as cidades e vilas tumultuosas. Anna Catharina Emmerich narra:
"Isabel (a prima de Maria e esposa de Zacarias) soube, por uma visão, que uma virgem da sua tribo se tornara mãe, do Messias prometido. Tinha pensado, durante essa visão, em Maria, com grande saudade e vira-a em espírito, em caminho para sua casa. Mas Zacarias deu-lhe a entender ser inverossímil que a recém-casada fizesse tal viagem. Isabel, porém, cheia de saudade, foi-lhe ao encontro.
Maria Santíssima, vendo Isabel de longe e reconhecendo-a correu adiante de José, ao encontro dela. Cumprimentaram-se afetuosamente com um aperto de mão. Nisto vi um esplendor em Maria e um raio de luz passando dela para Isabel, que se sentiu milagrosamente comovida. Abraçando-se, atravessaram, o pátio em direção à porta da casa. José entrou, por uma porta lateral, no átrio da casa, onde humildemente cumprimentou o velho sacerdote venerável; este o abraçou cordialmente e expandiu-se com ele, escrevendo numa lousa, pois ficara mudo desde a aparição do Anjo no Templo".
Maria e Isabel entraram pela porta da casa no átrio. Ali se cumprimentaram de novo muito afetuosamente, pondo as mãos nos braços uma da outra e encostando face a face. Nisso vi de novo como que um esplendor em Maria, radiando para Isabel, pelo que esta ficou toda luminosa, comovida por uma alegria santa. Recuando com as mãos levantadas, exclamou, cheia de humildade, alegria e entusiasmo: "Bendita sois entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre! Donde me vem a felicidade de ser visitada pela Mãe do meu Senhor? Porque assim que chegou a voz da saudação aos meus ouvidos, logo o menino deu um salto de prazer no meu ventre".
Então conduziu Maria ao quartinho preparado para ela. Maria, porém, na elevação da sua alma, proferiu o cântico do "Magnificat": Minha alma engrandece o Senhor, etc.
Depois de alguns dias, voltou José a Nazaré, acompanhado, parte do caminho, por Zacarias. Maria Santíssima, porém, ficou três meses com Isabel, até o nascimento de João e já antes da circuncisão do menino voltou para Nazaré. José veio-lhe ao encontro até meio caminho e foi então que notou que estava grávida. Não tendo conhecimento da anunciação do Anjo à SS. Virgem, foi acometido de dúvidas e desassossego. Maria guardara consigo o mistério, por humildade e modéstia. José nada disse, mas lutou em silêncio com as dúvidas que lhe torturavam o coração. Em Nazaré lhe cresceu o desassossego, a ponto de resolver abandoná-la e fugir secretamente. Então lhe apareceu um Anjo em sonho e consolou-o".
Nas últimas linhas, que não fazem mais que repetir o que já consta da Escritura Sagrada, se revela a profunda humildade de Maria Santíssima. Ela compreendia que José devia saber o que se tinha passado. Sentiu profundamente a dor do piedoso esposo, mas, por modéstia, não teve a coragem de revelar-lhe o santo mistério e o extraordinário privilégio, que lhe fora dado.
Humildemente confiou que Deus a ajudasse e foi-lhe recompensada essa confiança e ouvida a piedosa oração. Quanto tempo teve de pedir, não sabemos; em todo caso, porém, vemos que Deus não atende imediatamente às súplicas nem das pessoas mais santas, mas só quando chega o tempo previamente determinado pela divina sabedoria.

A viagem a Belém e o nascimento de Nosso Senhor

"Vi a Santíssima Virgem, com sua mãe Sant’Ana, fazendo trabalhos de malha, preparando tapetes, ligaduras e panos, conta Anna Catharina. José estava a caminho, voltando de Jerusalém, para onde tinha levado animais para o sacrifício. Passando pela meia-noite pelo campo de Chimki, a seis léguas de Nazaré, apareceu-lhe um Anjo, com o aviso de partir imediatamente com Maria para Belém, pois era ali que ela devia dar à luz o filho. Ordenou-lhe também que levasse, além do jumento, em que Maria devia viajar, uma jumentinha de um ano; que deixasse esta correr livre e seguisse o caminho que ela tomasse".
José comunicou à Maria e Ana o que lhe fora dito; então se prepararam para a partida imediata. Ana ficou muito aflita. A Virgem Santíssima, porém, já sabia antes que devia dar à luz o filho em Belém, mas na sua humildade calara-se".
A vida dos filhos de Deus é uma mistura de alegria e de dor. Maria Santíssima tinha-o experimentado já em Nazaré; verificou-o por toda a vida e também então, na viagem ao lugar abençoado, onde o Filho de Deus ia descer à terra. A piedosa Emmerich narra:
"Vi José e Maria partirem, acompanhados por Ana, Maria Cleophae e alguns criados, até o campo de Ginim, onde se separaram, despedindo-se comovidos".
Vi a Sagrada Família continuar a viagem, subindo a serra de Gilboa. Na noite seguinte passaram por um vale muito frio, dirigindo-se a um monte. Caíra geada. Maria, sentindo frio, disse: "Devemos descansar, não posso ir mais adiante". José arranjou-lhe um assento, debaixo de um terebinto; ela, porém, pediu instantemente a Deus que não a deixasse sofrer qualquer mal, por causa do frio. Então a penetrou tanto calor, que ela deu as mãos a José, para aquecer as dele. José falou-lhe muito carinhosamente; ele era tão bom e sentia tanto que a viagem fosse tão penosa! Falou também da boa recepção que esperava achar em Belém.
Celebraram o Sábado numa estalagem. Na manhã seguinte continuaram o caminho, passando por Samaria. A Santíssima Virgem andava a pé; às vezes paravam em lugares convenientes e descansavam.
A jumenta ora ficava atrás, ora corria muito para a frente; mas onde os caminhos divergiam, apresentava-se e tomava o caminho bom e onde deviam descansar, parava.
A primeira coisa que S. José fazia, em cada lugar de descanso e em cada estalagem, era arranjar um lugar cômodo para a Santíssima Virgem sentar-se e descansar.
Quando a sagrada família chegou a dez léguas de Jerusalém, encontrou de noite uma casa solitária. José bateu à porta, pedindo agasalho para a noite; mas o dono da casa tratou-os grosseiramente e negou-lhes o abrigo. Então andaram um pouco adiante e, entrando num rancho, encontraram ali a jumenta esperando.
Abandonaram esse abrigo já antes de amanhecer. Em outra casa foram também tratados asperamente. José tomou pousada mais vezes pelo fim da viagem, pois esta se tornava cada vez mais penosa para a SS. Virgem. Seguindo sempre a jumenta, fizeram deste modo uma volta de quase um dia e meio, para leste de Jerusalém. Rodeando Belém, passaram pelo norte da cidade e aproximaram-se pelo lado oeste. Pararam e pousaram afastados do caminho, sob uma árvore. Maria apeou-se e concertou o vestido.
Depois José a conduziu a um grande edifício, que estava a alguns minutos fora de Belém; era a casa paterna de José, o antigo solar de Davi, mas naquele tempo servia de recebedoria do imposto romano. José entrou na casa; os amanuenses perguntaram quem era e depois lhe leram a genealogia, como também a de Maria. Aparentemente ele não sabia que Maria descendia também por Joaquim, em linha direta, de Davi. Maria foi também chamada perante os escrivões.
José entrou então com ela em Belém, procurando em vão pousada logo nas primeiras casas; pois havia muitos forasteiros na cidade. Continuaram assim, indo de rua em rua. Chegando à entrada de uma rua, Maria esperava com os jumentos, enquanto José ia de casa em casa, pedindo agasalho, mas em vão. Maria tinha de esperá-lo às vezes muito e sempre com o mesmo resultado; tudo já ocupado, não havia mais lugar para eles. Então disse José à Maria que era melhor ir à outra parte de Belém; mas também lá procurou em vão. Conduziu-a então e ao jumento, para debaixo de uma árvore grande, a fim de descansar, enquanto ele ia à procura de hospedagem.
Muita gente passou pela árvore, olhando para Maria. Julgo que alguns também se lhe dirigiram, perguntando quem era. Maria era tão paciente, tão humilde e ainda tinha esperança. Mas, depois de esperar muito, voltou José triste e abatido, pois nada arranjara. Os amigos, dos quais tinha falado à SS. Virgem, não quiseram reconhecê-lo. Lamentou-o com lágrimas nos olhos, mas Maria consolou-o. Mais uma vez começou ele a procurar de casa em casa, voltando finalmente tão abatido, que só se aproximou hesitante. Disse que conhecia um lugar fora da cidade pertencente aos pastores; ali, com certeza, achariam abrigo.
Assim saíram de Belém, para uma colina situada no lado oriental da cidade, na qual havia uma gruta ou adega. A jumentinha, que já da casa paterna de José tinha corrido para lá, fazendo a volta da cidade, veio-lhes ao encontro, pulando e brincando alegremente em roda. Então disse a SS. Virgem a José: "Vê, de certo é vontade de Deus que aqui fiquemos".
José acendeu uma luz e, entrando na caverna, tirou algumas coisas de lá, a fim de arranjar um lugar de descanso para a SS.Virgem. Depois a levou para dentro e ela se assentou no leito feito de mantas e fardéis de viagem. José pediu-lhe humildemente desculpa pela pobre hospedagem; mas Maria, cheia de piedosa esperança e amor estava contente e feliz.
José buscou água num odre e da cidade trouxe pratinhos, algumas frutas e feixes de lenha miúda; buscou também brasas, para acender fogo e preparar a refeição. Depois de ter comido e feito as orações, deitou-se Maria no leito; José, porém, arranjou o seu leito à entrada da gruta.
Maria Santíssima passou o dia seguinte, o Sábado, na gruta, rezando e meditando com grande devoção. De tarde José a levou, através do vale, à gruta que servira de sepulcro a Marabá, ama de Abraão. Depois, terminado o Sábado, veio reconduzi-la à primeira gruta. Maria disse a S. José que à meia noite desse dia chegaria a hora do nascimento de seu Filho, pois teriam passado nove meses desde a anunciação pelo Anjo: José ofereceu-se para chamar algumas mulheres piedosas de Belém para assisti-la, mas Maria recusou.
Desse modo chegaram os santos Pais de Jesus, guiados pela Divina Providência, ao lugar determinado pelo Pai Eterno, em união com o Filho Unigênito e o Espírito Santo, para o nascimento daquele divino Menino, cheio de graça, que havia de tirar da terra a maldição, abrir o Céu e criar um novo Éden de Deus cá na terra. Lúcifer e os seus sequazes perderam o reino do Céu pelo orgulho, querendo ser iguais a Deus e assim perderam os primeiros homens também o paraíso, porque o mesmo sedutor os enganou com vãos desejos de serem iguais a Deus.
Por isso, a santa humildade havia de abrir de novo o caminho do Céu. O Filho de Deus veio a este mundo ensinar, pelo exemplo, essa e todas as outras virtudes. Eis porque Ele, o Rei da eternidade, quis nascer homem num lugar onde os animais se abrigavam. Para primeiro berço escolheu uma miserável manjedoura, na qual o gado costumava comer. Assim não lhe faltou nada da pobreza humana, mas uniu-se-lhe o esplendor da majestade divina. - A piedosa vidente continua:
"Quando Maria disse ao esposo que o tempo estava próximo e que a deixasse e fosse orar, José saiu, recolhendo-se ao leito, para rezar. Ao sair, voltou-se mais uma vez, para fitar a SS. Virgem e viu-a como rodeada de chamas; toda a gruta estava iluminada como por uma luz sobrenatural. Então entrou com santo respeito na sua cela e prostrou-se por terra, para orar".
Vi o esplendor em volta da SS.Virgem crescer mais e mais. Ela estava de joelhos, coberta de um vestido largo, estendido em redor, sem cinto. A meia noite ficou extasiada e levantada acima do solo; tinha os braços cruzados sobre o peito. Não vi mais o teto da gruta; uma estrada de luz abria-se-lhe por cima, até o mais alto Céu, com crescente esplendor.
Maria, porém, levantada da terra em êxtase, olhava para baixo, adorando o seu Deus, cuja Mãe se tornara e que jazia deitado por terra, diante dela, qual criancinha nova e desamparada. Vi o nosso Salvador qual criancinha pequenina, resplandecente, cujo brilho excedia à toda a luz na gruta, deitado no tapete, diante dos joelhos de Maria. Parecia-me que era muito pequeno e crescia cada vez mais, diante dos meus olhos.
Depois de algum tempo vi o Menino Jesus mover-se e ouvi-o chorar. Então foi que Maria voltou a si. Tomou a criancinha e, cobrindo-a com um pano, apertou-a ao peito. Assim se sentou, envolvendo-se, com o Filhinho, no véu. Então vi em redor Anjos em forma humana, prostrados em adoração diante do Menino.
Cerca de uma hora após o nascimento, Maria chamou S. José, que ainda estava rezando. Chegando-se-lhe perto, prostrou-se-lhe o esposo em frente, em adoração, cheio de humildade e alegria. Só depois que Maria lhe pediu que apertasse de encontro ao coração o santo dom de Deus, foi que se levantou, recebendo o Menino Jesus nos braços e louvando a Deus, com lágrimas de alegria.
A SS. Virgem envolveu então o Menino em panos e deitou-o na manjedoura, cheio de junco e ervas finas e coberta com uma manta. A manjedoura estava ao lado direito, na entrada da gruta. Os santos Pais, tendo deitado o menino no presepe, ficaram-lhe ao lado, cantando salmos".
O tempo chegara à consumação: O Verbo fizera-se carne, - o Verbo Eterno e Divino do Pai Celestial Todo-Poderoso. A profecia de Isaías cumprira-se: A Virgem concebera e dera à luz um filho, cujo nome é Emanuel, "Deus Conosco". (Is. 7, 14). Apareceu entre nós o Messias, prometido já no paraíso e por todos os povos tão ardentemente anelado. Está deitado numa manjedoura, qual criança pobre e desamparada. Será reconhecido em tão humildes condições? A quem se revelará primeiro o Rei da glória? Não aos grandes e soberbos da terra! Pastores, pobres e simples, são os primeiros convidados por mensageiros celestiais à manjedoura, para adorar o Menino divino. Conta Catharina Emmerich:
"Vi três pastores, que estavam juntos, diante do rancho, admirando a maravilhosa noite; no céu vi uma nuvem luminosa, descendo para eles. Ouvi um doce canto. A princípio se assustaram os pastores, mas de repente lhes surgiu um Anjo, dizendo: "Não temais, anuncio-vos uma grande alegria, que é dada a todo o povo, pois nasceu hoje, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, nosso Senhor... Eis o sinal para conhecê-lo: achareis uma criança envolta em panos e deitada num presépio". Enquanto o Anjo assim falava, aumentava o esplendor em redor e vi então cinco ou sete Anjos, grandes, luminosos e graciosos, diante dos pastores; seguravam nas mãos uma fita, como de papel, na qual estava escrita uma coisa, em letras do tamanho de um palmo: ouvi-os louvar a Deus e cantar: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade".
Os pastores na torre de vigia tiveram a mesma aparição, apenas um pouco depois. Do mesmo modo apareceram os Anjos a um terceiro grupo de pastores, perto de uma fonte, a três léguas de Belém, a leste da torre dos pastores. Vi que os pastores não foram imediatamente à gruta; para lá chegar, os três pastores tinham um caminho de uma hora e meia e os da torre o dobro. Vi também que deliberaram sobre o que deviam levar, como presente, ao Messias recém-nascido; depois buscaram as dádivas o mais depressa possível.
Ao crepúsculo da manhã chegaram os pastores, com os presentes, à gruta. Contaram a S. José o que lhes anunciara o Anjo e que vinham para adorar o Messias. José aceitou os presentes, com humildes agradecimentos e conduziu os pastores à SS. Virgem, que estava sentada ao pé do presépio, com o Filho ao colo. Os recém-chegados prostraram-se de joelhos diante de Jesus, segurando os cajados nos braços; choraram de alegria e permaneceram assim muito tempo, sentindo grande felicidade e doçura. Quando se despediram, deu-lhes a SS. Virgem o Menino a abraçar. De tarde vieram outros pastores, com mulheres e crianças, trazendo presentes.
Alguns dias depois do nascimento de Jesus, estando José e Maria ao lado do presépio e olhando com grande e íntima felicidade para o divino Menino, aproximou-se de súbito o jumento, e, caindo de joelhos, baixou a cabeça até o chão. Maria e José derramaram lágrimas à vista disso.
Depois do Sábado, José chamou três sacerdotes de Belém, para a circuncisão do Menino. Estes trouxeram a cadeira da circuncisão e uma laje de pedra octogonal, na qual se encontravam os instrumentos necessários. Ao nascer do dia teve lugar a circuncisão. Oito dias depois do nascimento do Senhor, vi que um anjo apareceu ao sacerdote, apresentando-lhe o nome de Jesus, escrito numa lousa. O Menino Jesus chorou alto, depois da santa cerimônia. José recebeu-o do sacerdote e depositou-o nos braços da SS. Virgem.
Na tarde do dia seguinte, chegou Isabel, com um velho criado, à gruta. Houve grande regozijo. Isabel apertou o Menino ao coração. Veio também Ana, com o segundo marido e Maria Helí. Maria pôs o Menino nos braços da velha mãe, que estava muito comovida. Maria contou-lhe também, cheia de íntima felicidade, todas as circunstâncias do nascimento. Ana chorou com Maria, acariciando durante todo o tempo o Menino Jesus".

Eis aqui um pouquinho do mistério do nascimento de Jesus. Quem leu as escrituras, com apenas aqueles detalhes absolutamente necessários, certamente já mil vezes ficou a imaginar como de fato as coisas aconteceram. Mistério de uma Virgem que dá a Luz ao Filho de Deus. Mistério de um Deus que faz homem, para remir a humanidade caída pelo pecado, e abrir para ela as portas do céu. E aqui fica registrada uma terna alegria, que expressa nas visões desta grande mística são como bálsamo para nossas almas.

Logo, porém, adiante, esta alegria esfuziante dará lugar ao sofrimento e à dor. Maria, a Mãe Santíssima, verá a espada de dor atravessar sua alma conforme profecia de Simeão. Jesus passará pelo sofrimento da Cruz, esmagado pela ignomínia do pecado humano. Tudo para que tivéssemos a graça de, um dia, abraçar ao Pai Celeste, nosso Criador e Deus. Mistério de fé, que nunca seremos capazes de decifrar!

Fiquem com Deus, e até nosso novo encontro!

Aarão!

Os que quiserem adquirir o livro original,
Podem dirigir-se à Editora Mir – São Paulo.
Caixa Postal 70.507 – CEP 05013-990 - SP
Fone/fax: 11-3865-4340
e-mail:
[email protected]
site:
http://sites.uol.com.br/mireditora/

 

 

O CORDEIRO DE DEUS - Parte 3

Neste novo texto, apresentaremos parte da chamada vida oculta de Jesus. De fato, os Evangelhos citam as passagens do nascimento Dele, depois falam da passagem da perda no Templo de Jerusalém, aos 12 anos, e depois vão retomar apenas nas passagens do início da vida pública, aos 30 anos de idade. E milhões de pessoas sempre tiveram a curiosidade de saber o que aconteceu com Ele durante aqueles anos.

Na verdade Jesus jamais ficou parado. Desde a mais tenra infância, pela vida inteira, Ele sempre esteve trabalhando ciosamente na missão que Lhe foi confiada pelo Pai. Não sendo somente exemplo de vida, mas também doutrinando a todos aqueles que viviam ao seu redor, também visitando escolas, mas, sobretudo, rezando e meditando para fortalecer sua parte homem, preparando-o para o imenso sacrifício da cruz. Nesse tempo Ele fez grandes viagens, retornando inclusive ao Egito onde a família de Nazaré vivera por alguns anos, e depois visitando os três reis magos, em seus países de origem. Todas estas visões, teve a privilegiada serva Ana Catarina, conforme relata a seguir.

Família, amigos, infância e mocidade de Jesus – A Vida Oculta de Jesus!

A Escritura Sagrada diz: "Quando veio a plenitude dos tempos, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, sujeito à lei, a fim de remir os que estavam debaixo da lei, para que recebêssemos a adoção de filhos". (Gal. 4, 4-5).
Essas palavras nos ensinam que, com a vinda do Redentor a este mundo, começou uma era nova, a qual a Escritura Sagrada chama a plenitude e consumação de todos os tempos.
A era de Jesus Cristo foi a plenitude dos tempos, porque nele se cumpriram todas as predições dos profetas. Foi-o também, porque em Jesus Cristo começou a última e perfeita era.
Quantos períodos já tinham passado antes de começar esta última e mais sublime era! Segundo o que nos ensinam as ciências, tanto as profanas como as sagradas, já a haviam precedido muitos e, em parte, longos espaços de tempo. Assim a era sideral, em que foram criados por Deus, os astros, com o respectivo movimento e desenvolvimento; depois a era telúrica, em que a terra, até então uma massa ígnea em fusão, começou a formar em si uma crista firme, mais e mais espessa.
Depois a era orgânica, em que Deus ornou e encheu a terra de plantas e animais; afinal a era histórica, que teve princípio com a criação dos primeiros homens. Mas esta última teve ainda diversos períodos; pois no princípio ficaram os homens sob o império da lei natural, que Deus lhes gravou em letras indeléveis na consciência; com ela todos os homens conhecem o que devem fazer ou deixar de fazer e por isso Deus exige a observação dessa lei de todos os homens, mesmo dos pagãos que não o conhecem. Mas Deus não se contentou com isso; quis entrar em relações com os homens, pela graça e assim conduzir aqueles que Lhe obedecessem, a uma união mais íntima consigo.
Mas também nesse desígnio procedeu gradualmente. A primeira aliança foi a que começou pela escolha de Abraão para ser pai do povo de Israel e acabou com a promulgação da lei, no monte Sinai. Em conseqüência dessa aliança, entrou o povo de Israel em relações mais estreitas com Deus. Recebeu d´Ele um culto novo, novas leis e a promessa consoladora de que do seu seio proviria o Salvador.
Para esse fim, serviam todas as leis especiais, cerimônias e preceitos do Velho Testamento; até dos pecados e das desgraças do povo israelita sabia o Senhor, pela sua Divina Providência, dirigir os efeitos, de modo que lhe serviam aos divinos desígnios. Sob esse ponto de vista encara a Serva de Deus especialmente a formação daquela família, da qual devia nascer o divino Salvador.
Quando o Redentor apareceu neste mundo, terminou a velha Aliança, porque estava realizado o seu fim: os bons, entre os judeus e também entre os gentios, reconheceram o seu estado pecaminoso e a necessidade da salvação, anelando ansiosos pelo Messias.
Começou então uma segunda Aliança, abundante em graças, a qual foi confirmada no monte Sião, em Jerusalém, pela vinda do Espírito Santo, no dia de Pentecostes. Com essa Nova Aliança, que durará até o fim do mundo, principiou a consumação dos tempos, na qual foi proporcionada aos homens pecadores a salvação abundante em Jesus Cristo e pela qual somos elevados do estado de servidão ao estado de liberdade e à dignidade de filhos de Deus.

Da família altamente privilegiada de Nosso Senhor

O evangelista S. Mateus começa a genealogia do Divino Salvador, segundo a sua humanidade, com as seguintes palavras "Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão". Reduz assim a linhagem do Salvador a Abraão, o pai do povo de Israel. Jesus descendeu dele por Judá e Davi; era, portanto, da tribo de Judá e da família real de Davi.

Catharina Emmerich narra a seguinte visão:

"Vi a linhagem do messias dividir-se em Davi em dois ramos. A direita passou a linha através de Salomão, acabando em Jacó, pai de José, esposo de Maria. Essa linha corria em direção mais alta; partia em geral da boca e era inteiramente branca, sem cores. As pessoas ao lado da linha eram todas mais altas do que as da linha oposta. Todas seguravam na mão uma haste de flor, do tamanho de um braço, com folhas semelhantes às da palmeira, que se dependuravam em volta do ramo.
Na ponta da haste havia uma flor campanada, branca, com 5 estames amarelos, que espalhavam um pó fino. Três membros desta linha, antes do meio, contados de cima, estavam eliminados, enegrecidos e ressequidos. As flores variavam em tamanho, beleza e vigor; a de José era de grande pureza, com as pétalas frescas e brancas, era mais bela. Vi esta linha unir-se pelo fim com a linha oposta, por um raio luzido; a significação sobrenatural e misteriosa desse raio me foi revelada: referia-se mais à alma e menos à carne; tinha algo da significação de Salomão; não sei explicá-lo bem.
A linha da esquerda passou de Davi por Natan até Helí, que é o verdadeiro nome de Joaquim, pois recebeu este nome só mais tarde, como Abrão o de Abraão. Eu sabia o motivo desta troca e sabê-lo-ei talvez de novo. José foi chamado muitas vezes nas minhas visões "filho de Helí". Toda essa linha vi passar mais baixo; tinha diversas cores e manchas cá e lá, mas saía depois mais clara. Era vermelha, amarela e branca; não havia azul. As pessoas ao lado eram menos altas do que as do lado oposto; tinham ramos mais curtos, pendentes para o lado, com folhas verde-amarelas e dentadas, os quais rematavam em um botão avermelhado, da cor da rosa silvestre; em parte estavam vigorosos, em outra parte murchos; o botão não era tanto um botão de flor, mas um ovário e sempre fechado.
Sant’Ana descendeu, pelo pai, da tribo de Leví, pela mãe, da de Benjamin. Vi alguns de seus avós carregarem a Arca da Aliança, mui piedosos e devotos e notei que receberam nessa ocasião raios do mistério, os quais se lhe referiam à descendência: Ana e Maria. Vi sempre muitos sacerdotes freqüentarem a casa paterna de Ana, como também a de Joaquim; daí o parentesco com Isabel e Zacarias.
No ramo de Salomão havia diversas lacunas; os frutos, estavam mais separados, mas as figuras eram maiores e mais espirituais. As duas linhas tocaram-se várias vezes; três ou quatro membros, talvez, antes de Helí, se cruzaram, acabando afinal em cima, com a SS.Virgem Maria. Creio que nesses cruzamentos já vi principiar o sangue da SS. Virgem."
Os membros eliminados significam provavelmente ascendentes pecaminosos do Salvador. Se bem que Ele mesmo seja o "Santo dos Santos" e também tenha por Mãe uma Virgem Imaculada e por pai nutrício S. José, houve, todavia, pecadores e pecadoras entre os seus antepassados, por exemplo, o rei Salomão, Asa, Joram, Achaz, Manasses, Tamar e Betsabé; até duas pagãs: Racháb e Rut. Com certeza Jesus assim o permitiu, para manifestar a sua misericórdia e o seu amor para com os pecadores e também a intenção que tinha, de fazer participar da Redenção os gentios e conduzi-los à eterna bem-aventurança.
Segundo as narrações de Anna Catharina Emmerich, eram os avós de Maria Santíssima piedosos Israelitas, que estavam em íntimas relações com os Essenos, os quais formavam uma espécie de ordem religiosa.
"Vi os avós da SS.Virgem, conta Anna Catharina, gente extraordinariamente piedosa e simples, que alimentava secretamente o vivo desejo da vinda do Messias prometido. Vi-os levar uma vida mortificada; os casados muitas vezes fizeram a promessa de mútua continência durante certo tempo. Eram tão piedosos, tão cheios de amor a Deus, que os vi freqüentemente sozinhos no campo deserto, de dia e também de noite, clamando por Deus com um desejo tão veemente, que arrancavam as vestes do peito, como para deixar que Deus entrasse pelos raios do sol, ou como para saciar com o brilho da lua e das estrelas a sede que os devorava, do cumprimento da promissão."
Segundo Anna Catharina, chamava-se Emorun a avó de Sant’Ana e teve do matrimônio com Stolanus três filhas, uma das quais Isméria, foi mais tarde a mãe de Sant’Ana. Ana tinha uma irmã mais velha, chamada Sobe e uma mais moça, com o nome de Maharha e uma terceira, que era casada com um pastor.
O pai de Ana, de nome Eliud, era da tribo de Leví, ao passo que a mãe pertencia à tribo de Benjamin. Ana nasceu em Belém, mas os pais foram depois viver em Seforis, perto de Nazaré. Após a morte de Isméria, Eliud morava no vale de Zabulon. Ali se encontraram Ana e Joaquim e travaram conhecimento. O pai de Joaquim, Matthat, era o segundo irmão de Jacó, pai de S. José. Joaquim, cujo nome legítimo era Helí, e José eram descendentes, pelo lado paterno, da estirpe real de Davi (1). Joaquim e Ana, depois de casados, levaram uma vida piedosa e benfazeja, primeiro em casa do pai, Eliud, depois em Nazaré.
A filha mais velha recebeu o nome de Maria Helí; conheceram, porém, que esta não era a filha da promissão. Ana e Joaquim rezavam muitas vezes com grande devoção e davam muitas esmolas. Assim viveram 19 anos depois do nascimento da primeira filha, em contínuo desejo da filha prometida e em crescente tristeza. Além disso ainda eram insultados pelo povo. Quando um dia Joaquim quis oferecer um sacrifício no Templo, recusou-o o sacerdote, repreendendo-o por sua esterilidade. Joaquim, muito abatido, não voltou a Nazaré, mas viveu cinco semanas escondido, com os rebanhos, ao pé do monte Hermon.
Com isso aumentou ainda a tristeza de Ana, que chorou e rezou muito. Um dia, quando rezava com grande aflição, eis que lhe apareceu um Anjo, anunciando-lhe que Deus lhe ouvira a oração. Mandou-a ir a Jerusalém, onde se encontraria com Joaquim na Porta Áurea.
Na noite seguinte lhe apareceu de novo um Anjo, dizendo que conceberia uma filha santa; e escreveu o nome de Maria na parede.
Joaquim teve também a aparição de um Anjo; foi por isso ao Templo, ofereceu um sacrifício e recebeu nessa ocasião a bênção da promissão ou o santo da Arca da Aliança.
Ana e Joaquim encontraram-se na Porta Áurea, transbordando de alegria e felicidade. Ali, diz Catharina Emmerich, lhes veio aquela abundância da divina graça, pela qual Maria recebeu a existência, somente pela santa obediência e pelo puro amor de Deus, sem qualquer impureza dos pais."
Desse modo, após muitos anos de oração fervorosa, alcançou esse santo casal, Joaquim e Ana, aquela pureza e santidade, que os tornou aptos para receberem, sem o fomento da concupiscência, a santa filha, que foi escolhida por Deus para ser a Mãe do Redentor.

Os discípulos do Senhor e outras pessoas bíblicas

Para facilitar a leitura e a compreensão do livro, damos algumas informações sobre os discípulos de Jesus e outras pessoas mencionadas freqüentemente durante a narração, informações colhidas das comunicações de Anna Catharina Emmerich.
Zacarias e Isabel, os santos pais de S. João Batista, moravam em Juta, perto de Hebron. Por sua conhecida virtude e descendência reta de Aarão, gozavam ambos de alta estima do povo; Zacarias figurava como chefe de todos os sacerdotes que moravam em Juta.
Isabel era filha de Emerenciana, irmã de Isméria, que era a mãe de Sant’Ana. Por isso chama a Escritura Sagrada a Isabel prima de Maria.
Maria, Mãe de Jesus, tinha uma irmã mais velha, de nome Maria Helí, cujos filhos eram Tiago, Sadah e Heliachim.
Uma filha de Maria Helí era chamada pelo nome do pai - Maria Cleophas, que quer dizer Maria filha de Cleophas. Esta teve do primeiro marido, Alfeu, três filhos: Judas Tadeu, Simão e Tiago o Menor e uma filha, Suzana. Alfeu, que era viúvo, trouxe para esse matrimônio um filho, de nome Mateus, antes chamado Leví, que mais tarde tinha uma aduana perto de Betsaida, no lago Genezaré. Do segundo matrimônio, com Sabás, teve Maria Cleophas um filho, de nome José Barsabas, chamado na Escritura Sagrada "Joseph". Depois da ascensão de Jesus, foi ele, junto com Matias, escolhido para um deles ocupar entre os Apóstolos o lugar de Judas; a sorte designou Matias. Do terceiro matrimônio de Maria Cleophas, com Jonas, irmão mais moço do sogro de São Pedro, nasceu Simeão, que, depois do martírio de seu irmão Tiago o Menor, lhe sucedeu na cadeira de Bispo de Jerusalém.
Todos esses filhos de Maria Helí e Maria Cleophas se tornaram discípulos de Jesus, alguns até Apóstolos (Judas, Simão, Tiago e Mateus). Quatro filhos de Maria Cleophas são chamados no Evangelho "irmãos (isto é, parentes) de Jesus". (Mat. 13, 55)
Pedro e André eram irmãos germanos; eram filhos de Jonas. Ambos viviam de pescaria e moravam no lago Genezaré; Pedro em Cafarnaum, André em Betsaida. Pedro casou com a viúva de um pescador, a qual lhe trouxe do primeiro matrimônio dois filhos e uma filha; esta será provavelmente a Santa Petronila, muitas vezes mencionada como filha de S. Pedro. Pedro, porém, não teve filhos; tinha quase a idade de Judas Tadeu, cinco anos mais que Jesus. André tinha dois anos mais do que Pedro. Era pai de dois filhos e duas filhas; depois da sua vocação ao apostolado, viveu em perfeita continência.
Tiago o Maior e S. João Evangelista eram também irmãos, filhos de Zebedeu; a mãe chamava-se Maria Salomé e era filha de Sobe, irmã de Sant’Ana e, portanto, tia da Mãe de Deus. Foi ela que um dia apresentou os filhos ao Salvador, pedindo-lhe que os colocasse um à sua direita e o outro à sua esquerda, no reino do céu. S. Tiago tornou-se o Apóstolo da Espanha; seu sepulcro, em Compostela, é um lugar célebre de romaria. São João pregou em Éfeso, na Ásia Menor, onde morreu, na idade de mais de 100 anos, sendo o único dos Apóstolos que teve morte natural. Era o discípulo predileto do Salvador, não somente por sua fidelidade, singeleza e amor, mas também por causa de sua vida casta e pura.
O Apóstolo S. Filipe morava em Betsaida e foi conduzido a Jesus por André.
Bartolomeu era Esseno. O pai, Tolmai, era descendente do rei Tolmai de Gessur, cuja filha era casada com o rei Davi. Como escrivão, Bartolomeu era conhecido de Tomé, que tinha a mesma profissão e vivia em Arimatéia.
De Judas Iscariotes falaremos por extenso no número 20 deste capítulo.
O santo Apóstolo Matias era natural de Belém e pregou o Evangelho na Palestina.
O Apóstolo S. Paulo pertencia à tribo de Benjamin e era natural de Gischala, a três léguas do monte Tabor. Os pais mudaram-se mais tarde para Tarso. Em Jerusalém teve Paulo como mestre o célebre e douto Gamaliel. Antes da conversão era partidário zeloso da lei de Moisés e por isso adversário encarniçado dos cristãos.
O santo evangelista Marcos era pescador perto de Betsaida e tornou-se um dos primeiros discípulos de Jesus.
S. Lucas Evangelista era natural de Antioquia; estudou pintura na Grécia e depois medicina e astronomia numa cidade do Egito. Durante a vida de Jesus, não se lhe associou, nem aos Apóstolos, ficando muito tempo indeciso, até que foi confirmado na fé pelo próprio Senhor, no domingo da Páscoa, em Emaús.
Cleophas, que junto com Lucas foi favorecido com a aparição de Jesus, era neto do tio paterno de Maria Cleophae.
José de Arimatéia (assim chamado porque era natural de Arimatéia) e Nicodemos eram escultores. Ambos moravam em Jerusalém e eram membros do Conselho do Templo
Menção especial merece-nos a família de Lázaro, que tinha íntimas relações com Jesus e sua SS. Mãe. Vindo Jesus a Betânia, onde morava Lázaro, ou a Jerusalém, hospedava-se geralmente em casa de Lázaro, um edifício em forma de castelo, rodeado de jardins e plantações. A irmã de Lázaro, Marta, tinha dois anos menos e Madalena nove anos menos do que ele. Uma terceira irmã, chamada Maria, a silenciosa, que era considerada como mentecapta, não é mencionada nos Evangelhos. Depois da morte dos pais coube a Madalena por sorte o castelo de Mágdala, na banda oriental do lago Genezaré. Na idade de onze anos ali se instalou com grande pompa e começou a levar uma vida suntuosa. Ainda muito moça, deixou-se arrastar à aventuras amorosas, tornando-se assim um escândalo para os irmãos, que viviam muito simples e recolhidos em Betânia.
No começo do segundo ano da vida pública de Jesus, Madalena assistiu a um dos sermões do Divino Mestre e ficou inteiramente perturbada e arrependida; pouco depois ungiu os pés do Salvador, em casa de Simão Zabulon e recebeu nessa ocasião a consoladora certeza de que os pecados lhe foram perdoados. Mas pouco tempo depois recaiu nos mesmos vícios. Pelos insistentes rogos de Marta, deixou-se levar a assistir mais uma vez à pregação de Jesus. Enquanto o Salvador falava, saíram os maus espíritos de Madalena que, muito contrita, se juntou às santas mulheres.
Lázaro recebeu uma prova especial do amor de Jesus na milagrosa ressurreição, depois do corpo já lhe haver estado quatro dias no sepulcro. Outros pormenores sobre Lázaro, Marta e Madalena se encontram nos números 14 e 15 deste capítulo.
O Evangelho e também a vidente mencionam muitas vezes as "santas mulheres"; além das já conhecidas, Maria Helí, Maria Cleophae, Marta, Madalena, Maria Salomé, mulher de Zebedeu e Suzana, filha de Alfeu, pertenciam ao grupo das santas mulheres ainda as seguintes:

1. Verônica, (propriamente: Seráfia) prima de São João Batista e cujo marido, de nome Sirach, era membro do Conselho do Templo.
2. Maria Marcos, mãe de João Marcos, que morava fora dos muros de Jerusalém, defronte do monte das Oliveiras.
3. Joana Chusa, viúva sem filhos, natural de Jerusalém.
4. Salomé, também viúva; morava em casa de Marta, em Betânia; era parenta da família por um irmão de José.
5. Suzana, de Jerusalém, filha do irmão mais velho de José, Cleophas e deste modo parente da família, como Salomé.
6. Dina, a Samaritana, que falara com Jesus no poço de Jacó e que se juntara às santas mulheres, depois da conversão.
7. Maroni, a viúva de Naim, cujo filho, Martialis, Jesus ressuscitara dos mortos.
8. Maria Sufanitis, Moabita, que Jesus livrara de um mau espírito.

Os ascendentes dos três Reis Magos e a viagem destes a Belém

Um dos fatos mais maravilhosos da vida do Divino Salvador é a vinda dos três Reis Magos ao presépio. Surge a pergunta: Como foi possível que três homens de alta posição, com numerosa comitiva, vindos de terras longínquas, chegassem guiados por uma estrela ao presépio de Belém?
Para explicação cita-se geralmente o trecho do livro Números 24, 17; "Uma estrela sai de Jacó, um cetro levanta-se de Israel, que esmagará os príncipes de Moab." Certamente é este trecho de importância e sem dúvida o conheceram os pontífices dos judeus, melhor do que os chefes das tribos longínquas dos gentios. Contudo, não vieram aqueles ao presépio, mas estes últimos. Logo, não bastava só a estrela, para levá-los lá, faziam-se precisas outras previdências divinas, milagrosas. Quais foram estas, conta-nos a pobre camponesa de Flamske:
"Os antepassados dos três Reis Magos descendiam de Jó, que outrora vivera no Cáucaso. Um discípulo de Balaão anunciara ali a profecia deste, de que apareceria uma estrela de Jacó. Essa profecia achou larga aceitação. Construiu-se uma torre alta, numa montanha. Muitos sábios e astrônomos viveram ali alternadamente; tudo que notavam nos astros, escreviam e ensinavam a todos.
Os chefes de uma tribo da terra de Jó, numa viagem ao Egito, na região de Heliópolis, receberam por um Anjo a revelação de que o Salvador nasceria de uma Virgem e seria adorado pelos seus descendentes. Eles mesmos deviam voltar e estudar os astros. Esses Médos começaram então a observar as estrelas. Diversas vezes, porém, caiu esse estudo em esquecimento, por causa de vários acontecimentos. Depois começou o abominável abuso de sacrificarem crianças, para que a criança prometida viesse mais depressa.
Cerca de 500 anos antes do nascimento de Jesus, estava esse estudo dos astros também em decadência. Existia, porém, a descendência daqueles chefes, constituída por três irmãos, que viviam separados, cada um com sua tribo. Tiveram três filhas, às quais Deus deu o dom de profecia, de modo que ao mesmo tempo percorreram o país e as três tribos, profetizando e ensinando sobre a estrela de Jacó. Então se renovou nessas três tribos o estudo das estrelas e renasceu o desejo da vinda do Menino prometido.
Desses três irmãos descenderam os Reis Magos em linha direta, por 15 gerações, após 500 anos; mas, pela mistura com outras raças, eram de cores diferentes. Desde o princípio desses 500 anos, ficavam sempre alguns dos antepassados dos Reis num edifício comum, para estudarem os astros; conforme as diversas revelações que recebiam, mudavam certas coisas nos templos e no culto divino. Infelizmente continuou ainda entre eles, por muito tempo, o sacrifício de homens e crianças.
Todas as épocas que se referiam à vinda do Messias, conheciam-nas em visões milagrosas, ao observar as estrelas. Desde a Conceição de Nossa Senhora, portanto há 15 anos, essas visões mostravam, cada vez mais distintamente, a vinda da criança. Por fim viram até muitas coisas que se referiam à paixão de Jesus.
Podiam calcular bem o tempo da estrela de Jacó, que Balaão predissera. (Núm. 24, 17); pois viram a escada de Jacó e, segundo o número dos degraus e a sucessão das imagens que nestes apareciam, podiam calcular, como num calendário, a proximidade da Salvação; pois o cume da escada deixava ver a estrela ou a estrela era a última imagem dela. Viam a escada de Jacó como um tronco, que tinha três séries de escalões cravados em roda; nestes aparecia uma série de imagens, que viam também nas estrelas, no tempo da sua realização. Dessa maneira sabiam exatamente que a imagem havia de aparecer e conheciam, pelos intervalos, quanto tempo haviam de esperá-la.
Lembro-me de ter visto, na noite do nascimento de Jesus, dois dos Reis na torre. O terceiro, que vivia a leste do Mar Cáspio, não estava com eles; viu, porém, a mesma visão, à mesma hora, na sua terra.
A imagem que reconheceram, apareceu em diversas variações; não foi numa estrela que a viram, mas numa figura composta de um certo número de estrelas. Divisaram, porém, sobre a lua um arco-íris, sobre o qual estava sentada uma virgem; à esquerda desta, aparecia no arco uma videira, à direita um molho de espigas de trigo.
Vi aparecer diante da Virgem a figura de um cálice ou, melhor, subir ou sair-lhe do esplendor; saindo desse cálice, apareceu uma criancinha e, sobre esta, um disco luminoso, como um ostensório vazio, do qual emanavam raios semelhantes à espigas. Tive nisso a impressão do SS. Sacramento.
Do lado direito da criancinha, que subia do cálice, brotou um ramo, no qual desabrochou, como uma flor, uma igreja octogonal, que tinha um portão grande e duas portas laterais. A Virgem moveu com a mão o cálice, a criança e a hóstia para cima, colocando-as dentro da Igreja e a torre da Igreja levantou-se-lhe por cima e tornou-se por fim uma cidade brilhante, assim como representamos a Jerusalém celeste. Vi nessa imagem muitas coisas, como procedendo e desenvolvendo-se umas das outras.
Os Reis viram Belém como um belo palácio, como uma casa na qual se junta e se distribui muita bênção. Lá viram a Virgem SS., com o Menino, rodeada de muito esplendor e muitos reis se inclinarem diante dele, oferecendo-lhe sacrifícios. Tomaram tudo como realidade, pensando que o rei tinha nascido em tal esplendor e que todos os povos se lhe haviam submetido; por isso foram também lhe oferecer os seus dons. Havia um grande número de imagens naquela escada de Jacó. Vi-as todas aparecer nas estrelas, no tempo do seu cumprimento.
Naquelas três noites, os três Reis Magos viram continuamente essas imagens. O mais nobre entre eles mandou então mensageiros aos outros e, quando viram a imagem dos reis que ofereceram presentes ao Rei recém-nascido, puseram-se também a caminho, com riquíssimas dádivas, para não serem os últimos. Todas as tribos dos astrônomos viram a estrela, mas só aqueles a seguiram.
Alguns dias depois da partida dos reis, vi Theokenos, com o seu séquito, juntar-se aos grupos de Mensor e Sair; Theokenos não tinha estado antes com estes últimos. Cada um dos Reis tinha no séquito quatro parentes próximos da tribo, como companheiros. A tribo de Mensor era de cor agradável, pardacenta; a de Sair parda e a de Theokenos de cor amarela, brilhante.
Mensor era Caldeu; depois da morte de Jesus, foi batizado por S. Tomé e recebeu o nome de Leandro. Sair teve o batismo de desejo; não vivia mais, quando Jesus foi à terra dos Reis Magos. Theokenos veio da Média e era o mais rico; foi batizado e chamado Leão por S. Tomé. Deram-se aos Reis Magos os nomes de Gaspar, Melchior e Baltasar, porque estes nomes lhes designam o caráter: Gaspar - Vai com amor. Melchior - Aproxima-se humildemente. Baltasar - Age prontamente, conformando a sua vontade com a de Deus.
O caminho para Belém era de mais de 700 léguas: fizeram-no em 33 dias, viajando muitas vezes dia e noite. A estrela que os guiava, era como um globo brilhante. Um jorro de luz emanava dela sobre a terra. Vi finalmente chegarem os Reis à primeira vila judaica. Ficaram, porém, muito acabrunhados, porque ninguém sabia coisa alguma do Rei recém-nascido.
Quanto mais se aproximavam de Jerusalém, tanto mais tristes ficavam, pois a estrela se tornava muito menos clara e brilhante e na Judéia a viram raras vezes. Quando pararam, fora de Jerusalém, desaparecera totalmente. Falaram da estrela e da criança recém-nascida, ninguém quis compreendê-los; por isso, tornaram-se ainda mais tristes, pensando que se tinham enganado".
Anna Catharina descreve ainda a admiração e sensação que a caravana dos Reis Magos causou na cidade; como Herodes, alta noite, mandou chamar Theokenos ao palácio e convidou os Reis a virem apresentar-se na manhã seguinte. Herodes enviou alguns criados a chamarem os sacerdotes e escribas, que se esforçaram por sossegá-lo. Ao nascer do dia, se apresentaram os Reis a Herodes e perguntaram-lhe onde estava o novo rei dos judeus, cuja estrela tinham visto e ao qual tinham vindo adorar. Herodes ficou muito inquieto, informou-se mais sobre a estrela e disse-lhes que a profecia se referia a Belém Ephrata; aconselhou-os a irem silenciosamente a Belém e voltarem depois a informar-lhe, pois que também queria adorar o Menino.
Vi sair de Jerusalém a caravana dos Reis. Vendo de novo a estrela, deram um grito de alegria. Ao cair da noite, chegaram a Belém; então desapareceu a estrela. Muito tempo ficaram diante das portas, duvidando e hesitando, até que viram uma luz brilhante, ao lado de Belém. Então tomaram o caminho para o vale da gruta, onde acamparam. No entanto, apareceu a estrela por cima do outeiro da gruta e uma torrente de luz caiu verticalmente sobre este. De repente se lhes encheram os corações de grande alegria, pois viram na estrela a figura luminosa da criança. Os três Reis Magos aproximaram-se da colina; abrindo a porta da gruta, Mensor viu-a cheia de luz celeste e a Virgem sentada lá dentro, com a criança, como a tinham visto nas visões. Anunciou-o aos outros dois.
S. José saiu-lhes ao encontro, cumprimentando-os e dando-lhes as boas vindas. Então se prepararam para o ato solene que queriam fazer e seguiram S. José. Dois jovens estenderam primeiro um tapete de pano no chão, até a manjedoura. Mensor e os companheiros entraram, caíram de joelhos e Mensor colocou aos pés de Maria e José os presentes; com a cabeça inclinada e os braços cruzados, proferiu palavras comoventes de adoração. Depois tirou do bolso uma mão cheia de barras do tamanho de um dedo, grossas e pesadas, com um brilho de ouro e pô-las ao lado da criança, nas vestes de Maria. Tendo se retirado, com os companheiros, entrou Sair com os seus, prostrando-se, com profunda humildade, com os dois joelhos por terra. Ofereceu com palavras tocantes os presentes, colocando diante do Menino Jesus uma naveta de incenso, feita de ouro puro, cheia de pequenos grãos esverdeados de incenso. Ficou muito tempo de joelhos, com grande devoção e amor. Depois dele se aproximou Theokenos, o mais velho. Ficando em pé, inclinou-se profundamente e apresentou um vaso de ouro cheio de uma erva verde; ofereceu mirra e ficou muito tempo diante do Menino Jesus, em profunda comoção.
Os Reis Magos estavam encantados e repassados de amor e humilde adoração. Lágrimas de alegria caiam-lhes dos olhos; também Maria e José derramaram lágrimas de felicidade. Aceitaram tudo, humildes e gratos; finalmente dirigiu Maria a cada um algumas palavras afáveis.
Após os Reis, entraram também os criados, aproximando-se, cinco a cinco, do presépio; ajoelharam-se em roda do Menino e adoraram-no em silêncio; finalmente entraram também os pajens. Os Reis Magos voltaram mais uma vez ao presépio, vestidos de amplos mantos, trazendo turíbulos nas mãos; incensaram o Menino, Maria e José e toda a gruta, retirando-se depois, com profunda inclinação. Era esta a cerimônia de adoração entre aqueles povos.
No outro dia visitaram os Reis mais uma vez o Menino e de noite vieram despedir-se. Mensor entrou primeiro. Maria pôs-lhe o Menino nos braços; ele chorou, radiante de alegria. Depois vieram também os outros. Maria deu-lhes o seu véu de presente.
Pela meia noite viram no sono a aparição de um Anjo, avisando-lhes que partissem imediatamente, não tomando o caminho de Jerusalém, mas o do Mar Morto. Com incrível rapidez desapareceram as tendas; e, enquanto os Reis Magos se despediam de S. José, já o séquito estava caminhando a toda a pressa, em três turmas, para leste, com rumo ao deserto de Engadi, ao longo do Mar Morto. Vi o Anjo com eles na campina, mostrando-lhes a direção do caminho; de súbito não se avistaram mais.
O Anjo tinha avisado os Reis bem a tempo; pois a autoridade de Belém, não sei se por ordem de Herodes ou por próprio zelo, tinha a intenção de prender os Reis, que dormiam na estalagem, fechá-los, sob a sinagoga, onde havia adegas profundas e acusá-los perante o rei Herodes de desordens públicas. Mas de manhã, quando se soube da partida dos Magos, estes já estavam perto de Engaddi, e o vale onde haviam acampado estava quieto e deserto como dantes, nada restando do acampamento, fora algumas estacas de tendas e os rastos do capim pisado".
Em memória da visita dos três Reis Magos ao presépio é que se celebra, todos os anos, a festa de Reis. A Escritura Sagrada chama-os apenas os "Magos", mas o povo deu-lhes, desde os primeiros tempos, o título de "Reis", talvez induzido pela profecia de Davi: "Os reis de Tharsis e das ilhas oferecer-Lhe-ão dons; os reis da Arábia e de Sabá trar-Lhe-ão presentes". (S. 71, 10).
A festa de Reis é uma das mais antigas da Igreja cristã, mais antiga do que a de Natal. É prova de que esse acontecimento fez grande impressão aos amigos de Jesus. Em verdade era um fato maravilhosíssimo virem três príncipes do Oriente, com numeroso séquito, guiados por uma estrela, prestar adoração ao Menino Jesus no presépio, ao passo que Israel não conheceu o seu Senhor.
Só Deus pode criar estrelas e, sobretudo uma estrela que guia homens e pára por cima do presépio: é um milagre grandioso, que só Deus, o Senhor da natureza, pode operar. Foi, pois, esse acontecimento uma prova de que tinha chegado verdadeiramente o cumprimento dos tempos e de que Jesus era mais do que um homem comum.
A vinda dessa caravana numerosa e estranha devia dirigir os olhares de todo o povo para Belém; tinha todo o cabimento a pergunta: Então chegou o tempo em que deve vir o Messias? Desse modo foram preparadas todas as almas que amavam a Deus, ao reconhecimento de Jesus como Messias; os infiéis, porém, tornaram-se mais culpados.

Apresentação de Jesus no Templo e fuga para o Egito

A santa vontade de Deus exigia a apresentação de Jesus no Templo, tanto mais necessária, quanto é certo que o nosso Divino Salvador tinha a vocação de oferecer-se ao Pai celeste como sacrifício de expiação pelos pecados dos homens. Sacrificou-se em espírito, desde o começo da vida, como lemos na Escritura Sagrada. Mas esse oferecimento havia de fazer-se também publicamente, tanto por seus santos pais, como por ele mesmo, ao ser apresentado no Templo.
"Na madrugada do dia seguinte, conta a Serva de Deus, vi a Sagrada Família dirigir-se ao Templo. Entraram num pátio do Templo, que era cercado de muros. Maria, com o Menino, foi recebida por uma matrona idosa, que a conduziu por um corredor ao Templo. Nesse corredor veio o velho Simeão, cheio de santa esperança, ao encontro da SS. Virgem. Ele vira, no dia anterior, um Anjo que lhe aparecera e avisara de que prestasse atenção ao Menino que no dia seguinte seria apresentado em primeiro lugar: era o Messias. Simeão dirigiu algumas palavras à Maria, cheio de júbilo e, tomando o Menino nos braços, apertou-o ao coração. A SS. Virgem foi depois conduzida aos átrios do Templo, onde a receberam Ana, que também tivera uma visão e Noemi, sua antiga mestra.
Simeão levou Maria à mesa do Sacrifício, sobre a qual ela colocou o Menino Jesus, num bercinho de vime. Nesse momento, vi que o Templo se encheu de uma luz inefável. Vi que Deus estava nessa luz e, por cima do Menino, vi o céu aberto, até ao trono da SS. Trindade. Simeão reconduziu então Maria ao lugar das mulheres. Ele e três outros sacerdotes tomaram as vestes sacerdotais. Um deles colocou-se atrás e outro diante da mesa do sacrifício; os outros dois, nos lados estreitos da mesa, orando sobre o Menino.
Maria, conduzida de novo à mesa do sacrifício, ofereceu frutas, algumas moedas e um par de rolas. O sacerdote, porém, de trás da mesa, tomando o Menino nos braços, levantou-o e moveu-o para diversos lados do Templo, orando por muito tempo. Entregou depois o Infante a Simeão, que o depositou nos braços de Maria, orando sobre esta e o Menino. A SS.Virgem retirou-se depois ao lugar das mulheres, ao qual, entretanto, cerca de vinte mães já haviam chegado, com os primogênitos para os apresentar. José ficou mais para trás, no lugar dos homens.
Então começaram os sacerdotes diante do altar uma cerimônia com incenso e orações. Tendo acabado esse ato, dirigiu-se Simeão à Nossa Senhora, e, tendo recebido a criança nos braços, falou muito a respeito do Menino, com entusiasmo, alegria e em alta voz. Louvando a Deus, por ter cumprido a sua promessa, exclamou: "Agora, Senhor, deixai partir o vosso servo em paz, conforme Vossa palavra. Pois meus olhos viram a Vossa salvação, que preparastes diante dos olhos das nações: luz para aclarar os gentios e glória de Israel, vosso povo."
José aproximara-se depois do sacrifício, escutando respeitosamente, juntamente com Maria, as palavras entusiasmadas de Simeão, que abençoou a ambos, dizendo depois a Maria: "Este menino veio ao mundo para a ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser um sinal de contradição. Vós mesma tereis a alma varada por uma aguda espada e assim serão patenteados os corações de muitos".
Tendo Simeão acabado de falar, começou também a profetisa Ana, inspirada pelo Espírito Santo, a glorificar o Menino Jesus, felicitando à SS. Virgem. Esta luzia, como uma rosa celeste. Oferecera o sacrifício mais pobre, exteriormente; mas José deu secretamente a Simeão e à Ana muitas barras pequenas amarelas, para serem empregadas em beneficio das Virgens pobres do Templo. Depois do sacrifício, partiu a Sagrada Família, seguindo logo, através de Jerusalém, para Nazaré.
Maria, a Virgem Puríssima, Imaculada, sujeitou-se humildemente à lei da purificação, escondendo deste modo também o seu alto privilégio. Apesar de tão belo ato de humildade, devia o gládio da dor atravessar-lhe a alma. Dor e sofrimento, considerados à luz da fé, não são males, mas uma fonte de bênção e graça. A profecia de Simeão atravessou dolorosamente o brando Coração materno de Maria, mas em pouco, esse Coração havia de sofrer uma nova dor veemente, quando se viu forçada a fugir de Nazaré para o Egito, a fim de salvar o Menino Jesus, das garras dos assassinos, enviados por Herodes. Ouçamos o que Anna Catharina nos narra a respeito:
"Vi um jovem resplandecente aproximar-se da cama de José e falar-lhe. José acendeu uma luz e, batendo à porta do quarto de Maria, pediu licença para entrar. Vi-o entrar e falar-lhe. Depois, foi à estrebaria dos jumentos e a um quarto. Aprontou tudo para a viagem. Maria vestiu-se imediatamente para a fuga e foi à casa de sua mãe, Sant’Ana, anunciando-lhe a ordem de Deus. Ana abraçou à SS. Virgem diversas vezes, chorando. Maria Helí prostrou-se no chão, desfazendo-se em lágrimas. Ambas apertaram, mais uma vez, o Menino Jesus de encontro ao coração. Ainda não era meia noite, quando abandonaram a casa. Maria levava o Menino Jesus, em uma faixa, diante de si; vestia um manto largo, que a envolvia e ao Menino".
Vi a Sagrada Família passar, ainda de noite, por alguns lugarejos e descansar, pela manhã, em um rancho. Só três vezes acharam, durante a fuga, uma estalagem para pernoitar. Nos outros dias, com os freqüentes e penosos desvios, dormiam sempre em barrancos, cavernas e lugares desertos, longe da estrada. Viajavam sempre à distância de uma milha da estrada real, sofrendo falta de tudo. Vi-os chegar cansados e abatidos a uma gruta, perto de Efraim. Mas, para os refrescar, brotou uma fonte da terra e aproximou-se-lhes uma cabra selvagem, que deixou ordenhar-se por eles; apareceu-lhes também um Anjo, que os consolou.
Tendo passado o território de Herodes e entrado num vasto deserto arenoso, não viram mais caminho, nem sabiam a direção; diante de si, viram serras inviáveis. A Sagrada Família estava muito angustiada; ajoelharam-se, pedindo a Deus socorro. Então vieram algumas feras enormes, que olharam para as serras, correram para frente e voltaram para trás, como cães que querem conduzir alguém a certo caminho.
A Família Sagrada seguiu finalmente às feras, atravessou a montanha (Séir?) e entrou numa região deserta e inóspita. Vi-a cercada por uma quadrilha de salteadores: o chefe, com cinco ou seis homens. A princípio estes se mostraram malévolos; mas à vista do Menino Jesus, tocou um raio de graça o coração do chefe, que proibiu à sua gente fazer mal aos viajantes.
Conduziu a santa Família à sua cabana, na qual a mulher lhes ofereceu alimentos; trouxe também uma gamela com água, para que Maria nela banhasse a Jesus. Nossa Senhora aconselhou-lhe que banhasse na mesma água o filho morfético. Esse menino estava cheio de lepra, mas, apenas mergulhado na água, caíram-lhe as crostas da enfermidade e tornou-se são e limpo. A mulher ficou fora de si, de alegria. Tive uma visão, na qual conheci que o menino curado se tornou, mais tarde, o bom ladrão.(São Dimas)
Pela madrugada, a Sagrada Família continuou a viagem pelo deserto e, tendo perdido de novo o rumo, vieram animais rasteiros mostrar-lhe o caminho. Mais tarde viam sempre brotar uma rosa de Jericó, ao alcance da vista.
Havendo chegado já às terras do Egito, vi a Família Sagrada lânguida de sede, passar por um mato, em cuja orla havia uma tamareira. As frutas pendiam do alto da árvore. Maria aproximou-se com o Menino Jesus e, levantando-o, rezou; então se inclinou a tamareira com a copa, de modo que lhe puderam colher todos os frutos.
A Sagrada Família tomou o caminho de Heliópolis, cidade do Egito. Em frente às portas dessa cidade havia um grande ídolo, uma cabeça de touro sobre uma coluna, como pedestal. Sentaram-se os viajantes não longe dela, debaixo de uma árvore, para descansar. Pouco tempo depois se deu um abalo da terra; o ídolo vacilou e caiu do pedestal. Houve por isso na cidade grande alvoroço entre o povo.
A Sagrada Família entrou pela cidade e foi morar sob um baixo alpendre. José construiu, diante dessa morada, uma sacada, de madeira. Vi-o trabalhar muito em casa, como também fora e vi a Virgem Santíssima tecendo tapetes ou fazendo outros trabalhos. Moraram perto de ano e meio em Heliópolis; tiveram, porém, de sofrer muitas perseguições, depois de terem caído ainda outros ídolos, num templo vizinho. Pouco antes de deixar a cidade, teve a Santíssima Virgem, por um amigo, notícias da matança das crianças de Belém, Maria e José ficaram muito tristes; o Menino Jesus, que já podia andar, chorou durante todo o dia.
Por causa da perseguição e por falta de trabalho, saiu a Sagrada Família de Heliópolis e, indo ao interior do país, em direção a Mênfis, veio para Mataréia, onde José executou muitos trabalhos de construção. À chegada, caiu também o ídolo de um pequeno templo e, mais tarde, todos os ídolos.
Vi como o Menino Jesus, pela primeira vez, buscou água da fonte para sua Mãe. Maria estava rezando, quando o Menino Jesus, saindo furtivamente, foi ao poço com um odre, para buscar água. Maria ficou muito comovida quando Jesus voltou e pediu-lhe de joelhos que não o fizesse mais, com medo de que caísse no poço. Jesus, porém, disse-lhe que teria muito cuidado e queria sempre ir buscar água, quando ela precisasse.
Ainda pequenino, Nosso Senhor prestava muitos serviços aos pais, era muito atencioso e ajuizado: notava tudo. Ia também comprar pão no próximo bairro dos judeus, em troca dos trabalhos de Maria. Quando o Menino Jesus foi lá pela primeira vez tinha seis ou sete anos. Vestiu, também pela primeira vez, aquela túnica parda, tecida pela Virgem Santíssima e bordada em baixo com florões amarelos. No caminho, lhe apareceram dois anjos, que lhe anunciaram a morte de Herodes, o Grande.
Vi que S. José estava muito abatido uma noite; não lhe pagaram o salário e, assim, não pôde trazer nada para casa, onde tanto precisavam. Cheio de angústia, ajoelhou-se no campo deserto, queixando a Deus sua mágoa. Na noite seguinte lhe apareceu um Anjo, que lhe trouxe a ordem de partir do Egito e voltar à sua terra, pela estrada real.
A viagem correu sem maior perigo para a Santa Família. Mas Maria Santíssima muitas vezes ficou aflita por causa de Jesus, que sofreu muito com a caminhada através da areia quente. José quis ir primeiro a Belém e não para Nazaré; estava, porém, indeciso. Finalmente lhe apareceu um Anjo, que lhe ordenou voltar para Nazaré, o que fez imediatamente. Ana ainda estava viva. Jesus tinha oito anos, menos três semanas".

Da mocidade de Jesus. Sua permanência em Jerusalém onde ensina aos doutores da lei e é encontrado pelos pais no Templo

Visto que a Escritura Sagrada pouco relata da infância de Jesus, deve ser de grande interesse para nós o que Anna Catharina Emmerich nos conta dessa época, descrevendo como o nosso Divino Salvador passou a infância e mocidade.
Vi a Sagrada Família, constituída pelas três pessoas Jesus, Maria e José, desde o décimo até o vigésimo ano de Jesus, morar duas vezes em casa alugada, com outras famílias; do vigésimo ao trigésimo ano de Cristo, vi-a morar sozinha numa casa.
Havia na casa três quartos separados: o da Mãe de Deus era o mais espaçoso e agradável e nesse se reuniam também os três membros da Família para a oração; fora disso, raramente os vi juntos. Durante a oração ficavam em pé, as mãos cruzadas sobre o peito; pareciam rezar alto. Vi-os rezar muitas vezes de noite, à luz do candeeiro. Todos dormiam separados nos respectivos quartos. Jesus passava a maior parte do tempo no seu quarto. José carpintejava no seu local de trabalho; vi-o talhar varas e ripas, polir peças de madeira ou, de vez em quando, trazer uma viga. Jesus ajudava-o no trabalho. Maria ocupava-se muito com trabalhos de costura ou certa espécie de ponto de malha, com varinhas. Vi Jesus cada vez mais recolhido, entregue à meditação, à proporção que se lhe aproximava o tempo da vida pública.
Até os dez anos prestava aos pais todos os serviços que podia; era também amável, serviçal e obsequiador para com todos na rua e onde quer que se lhe oferecesse ocasião. Como menino, era modelo para todas as crianças de Nazaré. Amavam-no e receavam desagradar-lhe. Os pais dos companheiros, censurando os maus costumes e as faltas dos filhos, costumavam dizer-lhes: "Que dirá o filho de José, se lhe contar isso? Como ficará triste!" Às vezes se Lhe queixavam dos filhos, na presença destes, pedindo: "Dize-lhe que não façam mais isso ou aquilo!" E Jesus aceitava-o de maneira infantil, como brincadeira, rogando aos amigos carinhosamente que procedessem de tal ou tal modo; rezava também com eles pedindo ao Pai Celeste força para se corrigirem, persuadia-os a confessarem sem demora as faltas e a pedirem perdão.
Jesus tinha figura esbelta e delicada, rosto oval e alegre, a tez sadia, mas pálida. O cabelo liso, de um louro arruivado, repartido no alto da cabeça, pendia-lhe da testa, franca e alta, sobre os ombros. Vestia uma túnica comprida, de cor parda acinzentada, inteiramente tecida, que lhe chegava até os pés; as mangas eram um pouco mais largas nas mãos.
Aos oito anos foi Jesus pela primeira vez a Jerusalém, para a festa da Páscoa e depois ia todos os anos. Quando Ele veio a Jerusalém, na idade de doze anos, possuía já muitos conhecidos na cidade. Os progenitores costumavam andar com os conterrâneos nessas viagens e, como fosse já a quinta romaria de Jesus, sabiam que sempre andava em companhia dos jovens de Nazaré. Desta vez, porém, na volta, se separara dos companheiros, perto do monte das Oliveiras, pensando estes que fosse juntar-se aos pais. Mas, quando chegaram a Gophna, notaram Maria e José a ausência de Jesus e tornaram-se muito inquietos. Voltaram imediatamente, procurando-o pelo caminho e em Jerusalém; mas não o acharam logo.
Nosso Senhor se havia dirigido, com alguns rapazes, à duas escolas da cidade; no primeiro dia, à uma; no segundo, à outra. No terceiro dia, fora de manhã à uma terceira escola, e de tarde ao Templo, onde o acharam os pais. Jesus pôs os doutores e rabinos de todas as escolas, em tal estado de admiração e de embaraço, pelas suas perguntas e respostas, que resolveram humilhar o Menino, por intermédio dos rabinos mais doutos, na tarde do terceiro dia, em auditório público, interrogando-o sobre diversas matérias.
Vi Jesus sentado numa cadeira grande, rodeado de numerosos judeus velhos, vestidos como sacerdotes. Escutavam atentamente e parecia estarem furiosos. Como o Senhor houvesse alegado, nas escolas, muitos exemplos da natureza, das artes e ciências, para demonstrar as suas respostas, reuniram-se conhecedores de todas essas matérias. Começando estes, pois, a discutir com Jesus, entrando em pormenores, objetou-lhes que tais coisas não se deviam discutir no Templo; queria, porém, lhes responder por ser isso vontade de Deus.
Falou então sobre medicina, descrevendo todo o corpo humano, como ainda não o conheciam os sábios; discorreu sobre astronomia, arquitetura, agricultura, geometria, matemática, jurisprudência e sobre tudo que lhe foi proposto. Deduziu tudo isso tão claramente da Lei e da promissão, das profecias do Templo, dos mistérios do culto e dos sacrifícios, que uns não se fartavam de admirar e outros ficavam, ora envergonhados, ora zangados e afinal todos se tornaram furiosos, porque lhes dissera Nosso Senhor, coisas de que nunca haviam tido conhecimento, nem tão clara compreensão.
Já havia ensinado desse modo algumas horas, quando José e Maria chegaram ao Templo, para se informarem, com Levitas conhecidos, a respeito do Filho. Então souberam que se achava com os doutores da lei no auditório. Como fosse um lugar em que não lhes era permitido entrar, mandaram um dos levitas chamar Jesus. Este, porém, lhes mandou dizer que primeiro queria acabar o trabalho. Magoou muito à Maria o não vir Ele logo.
Era a primeira vez que fazia saber aos pais que as ordens destes não eram as únicas que tinha a cumprir. Ensinou ainda uma boa hora e, só depois de todos estarem refutados, envergonhados e em parte zangados, foi que saiu do auditório e se dirigiu ao átrio de Israel e das mulheres, para se encontrar com os progenitores. José, retraído e admirado, nada disse; Maria, porém, encaminhou-se para Ele, dizendo: "Filho, porque nos fizeste isso? Olha que teu pai e eu te andávamos procurando, cheios de aflição." Mas Jesus, ainda muito sério, disse: Por que me procuráveis? Não sabeis que me devo ocupar das coisas de meu Pai?" Eles, porém, não compreenderam essas palavras e partiram com Ele, sem demora, de volta a Nazaré.
A doutrina de Jesus produziu grande sensação entre os doutores da lei; mas estes guardaram silêncio sobre o acontecimento, falando só de um menino presunçoso, a quem haviam repreendido, que possuía bom talento, mas precisava ainda ser educado e polido."
Jesus, ficando em Jerusalém, não teve nenhuma intenção de afligir os pais; teve em mira só a vontade do Pai Celeste, que lhe inspirou ficar, para revelar a divina sabedoria. Por isso, mostrou nas escolas e no Templo um saber maior que o natural. Como menino de doze anos, ainda não freqüentara nenhuma escola, mas já se apresentava como mestre dos doutores. Oxalá tivessem ouvido e recebido a doutrina com coração suscetível! Mas, vaidosos de seu saber, não queriam ser ensinados; antes quiseram humilhá-lo, propondo-Lhe perguntas difíceis, às quais, como supunham, não poderia responder. Mas foram eles mesmos que ficaram humilhados pelas sábias respostas de Jesus e por isso se enraiveceram contra Ele. Recusaram-se a ver a luz que os iluminava.
Uma estrela milagrosa anunciara o nascimento do Messias; mas o povo escolhido não se importara com tal fato, nem recebera o Salvador. O Menino Jesus fez brilhar a sua luz no Templo; mas as autoridades do povo, os sacerdotes e doutores fecharam propositadamente os olhos à essa luz. Por isso lhes será tirada: cada ano voltará o Salvador ao Templo; mas não ensinará mais publicamente, até que, chegado à idade madura, percorrerá todas as regiões da Palestina, pregando sua doutrina divina a todo o povo. Então se apresentará de novo no Templo, exclamando, em alta voz: "Eu sou a luz do mundo". Jerusalém, se ao menos nesse dia o conhecesses!

A vida do Senhor, até o começo de suas viagens apostólicas

Depois de voltar de Jerusalém, viveu Jesus, até a idade de trinta anos, com Maria e José, em paz e recolhimento, na pequena casa de Nazaré. Nem a Escritura Sagrada, nem a tradição nos transmitem pormenores dessa época; o Evangelho diz apenas: "E era-lhes (aos pais) submisso." (Luc. 2, 51). Também Anna Catharina Emmerich conta pouco dessa fase da vida de Jesus. Ouçamos os fatos principais:
"Depois de Jesus ter voltado a Nazaré, vi preparar-se uma festa, em casa de Sant’Ana, onde todos os moços e moças, parentes, e amigos de Jesus, se reuniram. Nosso Senhor era a pessoa principal dessa festa, à qual estiveram presentes 33 meninos, todos futuros discípulos do Salvador. Ele os ensinou e contou-lhes uma belíssima parábola de núpcias nas quais a água seria mudada em vinho e os convidados indiferentes em amigos fiéis; depois lhes falou de outras bodas, nas quais o vinho seria mudado em sangue e o pão em carne; e esta boda permaneceria, com os convidados, até o fim do mundo, como consolação e conforto e como vínculo vivo de união. Disse também a Natanael, jovem parente seu: "Estarei presente às tuas bodas."
Desde esse tempo, Jesus sempre foi como que o mestre dos companheiros. Sentava-se-lhes no meio, contando ou ensinando, ou passeava com eles pelos campos.
Aos 18 anos, começou a ajudar a S. José na profissão. Dos vinte aos trinta anos, teve muito que sofrer, por secretas intrigas dos judeus. Estes não podiam suportá-lo, dizendo, com inveja, que o filho do carpinteiro queria saber tudo melhor.
Na época em que começou a vida pública, tornou-se cada vez mais solitário e meditativo. Quando Jesus se aproximava dos trinta anos, tornou-se José cada vez mais fraco. Vi Jesus e Maria mais vezes em companhia dele. Maria sentava-se-lhe ao lado do leito, de quando em quando. Quando José morreu, estava Maria sentada à cabeceira da cama, segurando-o nos braços; Jesus se achava em frente, junto ao peito do moribundo. Vi o quarto cheio de luz e de Anjos. O corpo de José foi envolvido num largo pano branco, com as mãos postas abaixo do peito, deitado num caixão estreito e depositado numa bela gruta sepulcral, perto de Nazaré, gruta a qual recebera como doação de um homem bom. Além de Jesus e Maria, foram poucos os que acompanharam o caixão; vi-o, porém, acompanhado de Anjos e rodeado de luz. O corpo de José foi levado mais tarde pelos cristãos para um sepulcro perto de Belém. Julgo vê-lo jazer ali, ainda hoje, em estado Incorrupto.
José teve de morrer antes de Jesus, pois, sendo muito fraco e amoroso, não lhe teria sobrevivido à crucificação. Já sentira profundamente as perseguições que o Salvador teve de sofrer, dos vinte aos trinta anos, pelas repetidas maldades secretas dos judeus. Também Maria havia sofrido muito com essas perseguições. É indizível com que amor o jovem Jesus suportava as tribulações e intrigas dos judeus.
Depois da morte de José, Jesus e Maria se mudaram para uma aldeia situada entre Cafarnaum e Betsaida, em que um homem chamado Leví ofereceu uma casa a Jesus. Maria Cleophae, que, com o terceiro marido, vivia na casa de Sant’Ana, perto de Nazaré, mudou-se para a casa de Maria, em Nazaré. Vi Jesus e Maria irem de Cafarnaum para lá e creio que Maria ficou ali, pois havia acompanhado Jesus a Cafarnaum.
Entre os moços de Nazaré Jesus já tinha muitos adeptos; mas sempre o abandonavam de novo. Andava com eles pelas regiões marginais do lago e também em Jerusalém, pelas festas. A família de Lázaro, em Betânia, era também já conhecida de Jesus".

São estas as visões de Ana Catarina, e nos dão uma noção mais aproximada do que Jesus fez neste tempo oculto de sua vida. Tudo Nele impressiona a gente. Mas o que mais me deixou pasmo, foi saber que a grande arrogância dos homens daquele tempo, foi incapaz de perceber naquele jovem o Messias esperado. De fato, um homem que tinha uma tão vasta cultura, sem ter nunca freqüentado uma escola, deveria ser visto por todos com olhos muito diferentes, pois a sabedoria manda assim, somente os orgulhosos não a obedecem.

Hoje, ainda, se Jesus viesse à terra, incógnito, e se pusesse entre os cientistas a discutir sobre astros e ciências, certamente encontraria nuvens de cépticos, que ligados a conceitos próprios e errôneos, haveriam de O combater ferozmente.Sempre pensei na questão da pena de morte e na crucificação que hoje não existe mais. Penso, entretanto, que se Jesus tivesse escolhido o nosso tempo para nascer, certamente os homens reinventariam a pena de morte na Cruz, apenas para se cumprirem as escrituras. De fato, não tenho dúvidas de que Ele teria tão tenebrosos opositores, que sua vida de pregador seria impossível. Não é à toa que, para cada ser humano que – depois de 2.000 anos fala em Jesus – existem cinco outros querendo matá-lo!

Que o Senhor guie nossos passos, até nosso próximo texto.

Aarão!


Os que quiserem adquirir o livro original,
Podem dirigir-se à Editora Mir – São Paulo.
Caixa Postal 70.507 – CEP 05013-990 - SP
Fone/fax: 11-3865-4340
e-mail:
[email protected]
site:
http://sites.uol.com.br/mireditora/

O CORDEIRO DE DEUS - Parte 4

No texto que segue, trazemos algumas passagens sobre os últimos dias do tempo de Jesus, imediatamente antes de começar sua vida pública. Na verdade tudo o que Jesus fazia, tinha um sentido profundo de preparação para a grande missão. Penso que muita gente sempre imaginou que Jesus passou dos 12 anos até os 30, tipo "na flauta", ou seja, apenas ajudando a São José e Nossa Senhora, sem nada fazer no sentido da missão. Na verdade, como já vimos, até nos dias da perda no Templo, Jesus aproveitou para fazer amigos – em especial os dois filhos de Verônica – que mais tarde estavam entre os 72 discípulos. E já ali, ele visitava escolas, instruía as crianças em especial, e falava sobre o Pai e o Reino.

As viagens apostólicas de Jesus, antes do seu Batismo no Jordão

Segundo as narrações de Anna Catharina Emmerich, o Divino Salvador já fizera, antes do seu Batismo, diversas viagens longas através da Palestina começando a pregar em público sua doutrina. Essas viagens tinham um fim preparativo.
Por toda parte exortava os homens a que recebessem o Batismo de João, em espírito de penitência e ensinava que o Messias devia aparecer por aqueles dias. Que Ele mesmo era o Messias, não o dizia por enquanto.
Admiravam-no como homem sábio e por suas qualidades espirituais e corporais; ficavam surpreendidos pelos seus feitos milagrosos... mas não chegavam a conhecer-lhe a divindade, pois os judeus tinham opinião muito errada, a respeito do Messias e do seu reino. Julgavam-no um rei vitorioso, que fundaria um poderoso reino; Jesus, porém, aos seus olhos, era apenas o "filho do carpinteiro".
Anna Catharina viu Jesus primeiro indo de Cafarnaum a Hebron, por Nazaré e Betânia, onde se hospedou em casa de Lázaro.
Visitou o deserto, onde Isabel escondera o menino João e, voltando a Hebron, começou a visitar os enfermos, consolando-os e aliviando-os. Os possessos tornavam-se sossegados perto dele.
De Hebron, foi Jesus à foz do Jordão, no Mar Morto, atravessou-o, para a outra banda, dirigindo-se à Galiléia. Passou por Dathaim, cerca de quatro léguas distante de Samaria, onde, numa casa grande, viviam muitos possessos, que ficaram furiosos à aproximação de Nosso Senhor; quando, porém, lhes falou, tornaram-se inteiramente calmos e voltaram para a sua terra.
Em Nazaré, Jesus visitou os conhecidos de seus pais, mas foi, em toda parte, recebido com frieza e, querendo ensinar na sinagoga, não Lho permitiram. Falou, porém, na praça pública, diante de grande multidão de povo, sobre o Messias e João Batista. Depois foi com Maria a Cafarnaum e dali novamente, de aldeia em aldeia, passando pelas sinagogas, para ensinar, consolando e socorrendo os enfermos. Esteve em Caná, depois à beira do Mar da Galiléia, onde expulsou o demônio de um possesso. Pedro pescava ali, Jesus falou com André e outros.
Partindo do lago, com seis a doze companheiros, tomou o caminho de Sidônia, à beira-mar, passando pela montanha do Líbano; nessa cidade deixou os companheiros e foi a Sarepta e ensinou as crianças e muitas vezes se retirava à uma pequena floresta, perto da cidade, para rezar sozinho. Depois de voltar a Nazaré, ensinou também na sinagoga: como, porém, surgisse descontentamento e murmuração contra Ele, declarou aos amigos que ia a Betsaida. Ali ensinou e, do mesmo modo, em Cafarnaum, percorrendo assim toda a Baixa-Galiléia.
Em Séforis, curou cerca de cinqüenta lunáticos e possessos; por causa disso se deu um tumulto na cidade, de maneira que Jesus teve de fugir, escondendo-se numa casa para abandonar a cidade de noite. Maria que com outras piedosas mulheres, estava presente, afligiu-se muito vendo-O, pela primeira vez, perseguido à viva força.
Em Betúlia, Jesus foi recebido e tratado amistosamente, como também em Kedes e Kision. Celebrou o Sábado em Jezrael, com os Nazarenos, que faziam votos e viviam uma vida de mortificações e austeridades. Tendo depois exortado os publicanos de um lugar, na estrada real de Nazaré, a que não exigissem mais do que os direitos justos, ensinou em Kisloth, ao pé do monte Tabor, sobre o Batismo de João. Os fariseus deram-lhe um banquete, para espiá-lo e examinar-lhe a doutrina.
Havia, porém, na cidade um costume e direito antigo, segundo o qual os pobres deviam ser convidados aos banquetes que fossem oferecidos a forasteiros. Sentando-se, pois, à mesa, Jesus perguntou logo aos fariseus onde estavam os pobres e mandou os discípulos chamá-los, pelo que ficaram os fariseus muito zangados. Ainda na mesma noite partiu de Kisloth e chegou, pela tarde do dia seguinte, a Kimki, aldeia de pastores.
Quando ensinou na sinagoga, levantaram-se contra Ele os fariseus, provocando um tumulto, Jesus continuou seu caminho, de noite, indo pela estrada real, até um lugarejo perto de Nazaré, habitado por pastores. Ali curou dois leprosos, mandando-os lavar-se com a água na qual Ele havia banhado os pés.
Cerca de um quarto de légua antes de chegar a Nazaré, entrou Jesus na casa de um Esseno, chamado Eliud, com o qual rezou e conversou com grande intimidade, sobre a sua missão e o mistério da Arca da Aliança. Explicou-lhe como aceitara um corpo humano do germe da bênção, que Deus tirara de Adão, antes do primeiro pecado; que viera para salvar os homens, os quais se lhe mostrariam muito ingratos.
A Virgem Santíssima veio com Maria Cleophae a Jesus, suplicando-lhe que não fosse a Nazaré, pois o povo estava irritado. Ele respondeu que esperaria só os companheiros que com Ele queriam ir a João Batista e depois passaria por Nazaré. Maria voltou a Cafarnaum. Jesus, porém, encaminhou-se com Eliud, pelo vale de Esdrelon, à cidade de Endor, pregando aí na praça pública sobre o Batismo de João e sobre o Messias.
Os habitantes de Endor não eram propriamente judeus, mas antes escravos refugiados. Na tarde do terceiro dia voltou com Eliud e foi a Nazaré, onde ensinou na escola e sinagoga, falando de Moisés e explicando profecias sobre o Messias. Mas, como falasse de tal modo que os fariseus puderam concluir que se referia a eles mesmos, enraiveceram-se contra Ele, censurando-lhe as relações com publicanos e pecadores, como também o fato de abençoar muitas crianças, a pedido das mães.
Na escola, lhe propuseram muitas perguntas intrincadas, mas Jesus reduziu todos os doutores ao silêncio. Ao legisperito respondeu com a lei de Moisés; ao médico, falou das doenças e do corpo humano, revelando conhecimentos por aquele inteiramente ignorados; aos astrônomos, ensinou o curso dos astros; discorreu também sobre comércio e indústria. Três jovens ricos pediram para ser recebidos como discípulos, Ele, porém, os recusou com tristeza, porque não pediram com intenção sincera.
O Senhor enviou os discípulos, que então eram nove, a João, a quem mandou anunciar a sua vinda. Ele próprio, porém, acompanhado por Eliud, foi de Nazaré primeiro a Chim, curou aí um morfético e continuou depois o caminho pelo vale de Esdrelon. Nessa noite, no caminho, Jesus se mostrou a Eliud em gloriosa transfiguração e na manhã seguinte, o Senhor o mandou voltar para casa.
Jesus continuou o caminho; passando ao pé do monte Garizim, perto de Samaria, chegou à cidade de Gofna, onde o receberam com respeito. Entrando na sinagoga, explicou o livro de um profeta e provou que o tempo do Messias devia haver chegado. Depois veio à uma aldeia de pastores e lhe falaram do matrimônio ilícito de Herodes; Jesus censurou severamente o procedimento do rei, com o mesmo rigor condenou, em geral, os pecados da vida matrimonial. Repreendeu, também alguns em particular, pela vida de adultério que levavam; a muitos disse os pecados mais ocultos, de modo que prometeram, com profunda contrição, fazer penitência.
De noite chegou Jesus a Betânia e hospedou-se em casa de Lázaro, onde Nicodemos, João, Marcos, Verônica e outros estavam reunidos. Durante a refeição, disse Jesus que lhe ia chegar um tempo muito sério; que Ele estava para entrar em um caminho cheio de contrariedades e perseguições; que lhe ficassem fiéis, se queriam ser-lhe verdadeiros amigos.
No dia seguinte, Marta apresentou Jesus à irmã, chamada Maria Silenciosa. Jesus falou-lhe; conversaram sobre coisas divinas, Marta falou-lhe também, com grande tristeza, a respeito de Madalena; Jesus consolou-a.
A Mãe de Nosso Senhor veio também a Betânia, com algumas das santas mulheres. O divino Mestre falou-lhe carinhoso e sério, dizendo-lhe que ia agora procurar João, para ser batizado e que depois teria de cumprir a sua missão; havia de amá-la como sempre, mas, daquele tempo em diante, devia viver e trabalhar para todos os homens.
Jesus seguiu então com Lázaro em direção a Jericó, para serem batizados; andou descalço pelo caminho pedregoso; até o lugar do Batismo, contavam-se cerca de nove léguas.

Vida pública de João Batista

Antes de o Salvador começar a pregar publicamente a sua doutrina, enviou a divina Providência um homem que, pelo aspecto extraordinário e pelas exortações à penitência e ao Batismo, devia atrair a atenção de todo o povo. Era João, filho de Zacarias e Isabel, de Hebron. Para salvar o mesmo, dos sicários de Herodes, por ocasião da carnificina das inocentes crianças de Belém, a mãe levara-o para o deserto, em que permaneceu até o princípio da sua vida pública.
A tarefa de João Batista, como o último e maior profeta do Velho Testamento, era preparar o caminho do Salvador e, estando já no limiar do Novo Testamento, apresentar Jesus, o Cordeiro de Deus que, carregado dos pecados de todo o mundo, devia realizar a salvação do gênero humano, por seu amor e Paixão. Como João cumpriu essa difícil tarefa, conta-nos intuitivamente a religiosa de Dülmen:
Pouco antes de deixar o deserto do Líbano, teve João uma revelação a respeito do Batismo. Voltou depois do deserto para junto dos homens, produzindo em todos uma impressão maravilhosa. Alto, emagrecido pelo jejum e pelas mortificações, mas forte, era uma figura extraordinariamente nobre, pura, simples e dominante. Pelo meio do corpo, trazia cingido um pano, que lhe caia até aos joelhos. Vestia um manto áspero, pardo; braços e peito descobertos.
Vindo do deserto, começou a construir uma ponte sobre um ribeiro. Falava só de penitência e da próxima vinda do Senhor. Tinha a voz aguda como uma espada, forte e severa; mas sempre agradável. Passava, por toda a parte, em caminho reto; vi-o correndo, através de matos e desertos, tirando pedras e árvores do caminho, preparando lugares de descanso, reunindo os homens que o admiravam, buscando-os até nas cabanas, para auxiliá-lo. Caminhou ao longo do Mar de Galiléia e, seguindo o vale do rio Jordão, passou perto de Jerusalém, para a qual olhou com tristeza; de lá foi à sua terra e a Betsaida.
Nos três meses antes de começar o batismo, percorreu duas vezes o país, anunciando Aquele que havia de vir. Em lugares onde não havia nada que fazer, vi-o correr de campo em campo. Entrava pelas casas e escolas; para ensinar, reunia o povo em redor de si, nas ruas e praças públicas.
Muitas vezes o vi indicar a região onde Jesus naquele momento se achava.
João batizou em diversos lugares: primeiro, perto de Ainon, na região de Salem; depois em On, à margem ocidental do Jordão, não muito longe de Jericó; em seguida, a leste do Jordão, algumas léguas mais para o norte do segundo lugar; por fim voltou a Ainon. A água de que João usava ali em Ainon, para batizar, era de uma lagoazinha, separada de um braço do Jordão por um pequeno dique.
A pessoa que se batizava, ficava entre duas línguas de terra, com a água até à cintura; punha-se São João numa dessas línguas, tirando água com uma taça e derramando-a sobre a cabeça do neófito; na outra, se achava um homem já batizado, que colocava a mão sobre o ombro do que estava sendo batizado; ao primeiro, João mesmo impusera a mão.
Tendo-se João tornado afamado, no correr de algumas semanas, pela sua doutrina e pelo batismo, Herodes enviou-lhe um mensageiro, com a ordem de apresentar-se-lhe. João, porém, respondeu que tinha muito que fazer e se Herodes quisesse falar-lhe podia vir pessoalmente. Herodes veio, de fato, a um lugar cerca de cinco léguas distante de Ainon. Chegando lá, falou-lhe João longamente, em tom muito sério e severo.
Vi que Simão, Tiago o Menor, Tadeu e também André, Filipe e Levi, chamado depois Mateus, foram batizados por João.
De Nazaré, Jerusalém e Hebron mandaram grupos inteiros de fariseus e chefes das sinagogas como mensageiros a João, para interrogá-lo a respeito de sua missão. Vieram também cerca de trinta soldados a João, que os repreendeu severamente, por não terem a intenção de arrepender-se. A multidão dos homens era enorme; centenas achavam-se sentados por ali e outras centenas chegavam continuamente, para ouvir-lhe a doutrina e receber o Batismo.
Em Jerusalém houve uma grande sessão do Sinédrio por causa de João. Por três autoridades foram enviados nove homens, entre os quais José de Arimatéia. Deviam perguntar a João quem era ele e mandá-lo vir e ordenar que viesse a Jerusalém, pois se a sua missão fosse justa e legal, ter-se-ia apresentado primeiro no Templo. João deu apenas uma resposta curta e áspera. José de Arimatéia recebeu o Batismo.
Vi João atravessar o Jordão e batizar enfermos; depois voltou à banda oriental do rio, a Ainon. Ali apareceu um Anjo, que o mandou ir para o outro lado do Jordão, a um lugar perto de Jericó, pois que se aproximava Aquele que havia de vir. Então levantaram João e os discípulos as tendas e cabanas do lugar de Batismo em Ainon e atravessaram o rio; o segundo lugar de Batismo dista cerca de cinco léguas de Jerusalém. Vieram de novo, duas vezes, emissários do Templo, fariseus, saduceus e sacerdotes a João. Disse-lhes que se levantaria entre eles um homem, o qual não conheciam, que esperassem, pois em pouco viria Aquele que o mandara.
"Eu, na verdade, vos batizo em água, mas virá outro, mais forte do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia dos sapatos; Ele vos batizará na virtude do Espírito Santo e no fogo". (Luc. 3, 16).
O lugar onde João pregava, era situado à distância de menos de meia légua, do lugar do Batismo. Ali estava ensinando, quando Herodes veio, pela segunda vez; João não se incomodou. Herodes tinha o desejo ilícito de casar-se com a mulher de seu irmão. Propusera, em vão, ao Sinédrio declarar lícito esse matrimônio; temendo também a voz pública, quis apaziguá-la por uma sentença de João.
Este ensinou, diante dos discípulos, com grande franqueza, sobre o assunto a respeito do qual Herodes queria informar-se. Este mandou entregar-lhe um rolo, que continha escrita a sua causa. O rolo foi posto aos pés de João, pois este não quis contaminar-se, tocando-o com a mão com que batizava. Então vi Herodes, indignado, deixar o lugar com o séquito.
João ensinou sobre o próximo Batismo do Messias e disse que nunca o tinha visto, mas acrescentou: "Para vos dar testemunho dEle mostrar-vos-ei o lugar onde será batizado. Eis que as águas do Jordão se dividirão e surgirá uma ilha". No mesmo instante vi que as ondas do rio se dividiram e avistou-se uma ilhota branca.
Era esse o lugar onde os filhos de Israel atravessaram o Jordão, com a Arca da Aliança. João e os discípulos fizeram uma ponte, até à ilhota. Ao lado esquerdo desta, havia uma fossa, da qual subia água clara. Alguns degraus conduziam para baixo e, perto da superfície d’água, jazia uma pedra sobre a qual Jesus devia permanecer durante o seu batismo.
Mais uma vez vi chegar uma comissão de cerca de vinte pessoas, enviadas pelas autoridades de Jerusalém, para pedir contas a João. Respondeu-lhes como dantes, apelando para Aquele, que viria em pouco, para ser batizado.
Depois vi Herodes chegar até perto do lugar de Batismo; discutiu com João, que o tinha excomungado.
Vieram então a João também os discípulos que Jesus despedira em Nazaré; falaram-lhe de Jesus. Ao batizá-los, João teve a íntima certeza de que Jesus estava perto, pois o viu também numa visão. Desde então, ficou João cheio de indescritível alegria e com saudade de Jesus".

O Batismo de Jesus e o jejum de quarenta dias

Os homens caíram pela soberba; pela humildade quis o Salvador levantá-los. Por isso, já no começo de sua tarefa difícil de ganhar os homens para o reino de Deus, pelo exemplo e pela Paixão, submeteu-se à uma profunda humilhação, deixando-se batizar por João.
Assim exortou o povo, pelo exemplo, a imitá-lo, ensinando-nos também ao mesmo tempo a implorar, em espírito de humildade e penitência, a bênção de Deus para nós e para os nossos trabalhos. Pois a penitência e humildade nos tornam dignos da bênção e do agrado de Deus. Por isso, era tão meritória a humilhação voluntária do Filho de Deus, recebendo o Batismo de João; mereceu a santificação da água e os efeitos sacramentais do santo Batismo. Catharina Emmerich narra assim o batismo de Jesus:
"Estava reunida uma extraordinária multidão de povo e João falou com grande alento sobre a próxima vinda do Messias e sobre a penitência; disse também que teria de desaparecer, para dar lugar Àquele. Jesus estava no meio do apinhado auditório. João, que O viu bem, ficou extremamente satisfeito e fervoroso. Já tinha batizado a muitos, quando Jesus, por sua vez, desceu ao tanque do Batismo.
Então disse João, inclinando-se diante dEle: "Sou eu que devo ser batizado por Vós e vindes a mim!" Jesus respondeu-lhe: "Deixa fazer por ora; convém que assim cumpramos toda a justiça, que me batizes e que eu seja batizado por ti". Também lhe disse: "Receberás o Batismo do Espírito Santo e de sangue".
O Salvador dirigiu-se então por cima da ponte, à ilhota, acompanhado por João o pelos discípulos André e Saturnino. Entrando numa tenda, despiu as vestes e veio para fora, coberto de uma túnica de um tecido pardo; desceu à margem do tanque, onde despiu também a túnica, tirando-a pela cabeça. Cingiu os rins com uma faixa, que lhe envolvia as pernas, até abaixo dos joelhos. Assim entrou na fonte. João estava de lado, ao sul do tanque; tinha na mão uma taça com aba larga e três biqueiras.
Abaixando-se, tirou água, com a taça e derramou-a, pelas três biqueiras, sobre a cabeça do Senhor, dizendo mais ou menos as seguintes palavras: "Javé derrame a sua bênção sobre ti, pelos Querubins e Serafins, com sabedoria, inteligência e fortaleza". Jesus subiu então e André e Saturnino cobriram-no com um pano, com o qual se enxugou; vestindo-o depois de uma comprida túnica branca de batismo, impuseram-Lhe as mãos aos ombros, enquanto João lhe pós a mão na cabeça.
Ouviu-se então um grande bramido, vindo do céu, como um trovão e todos que estavam presentes, olharam para cima, estremecendo. Desceu uma nuvem branca e luminosa e vi uma figura lúcida, com asas, pairar por cima de Jesus, derramando sobre Ele uma torrente de luz; vi também a aparição do Pai Celestial e ouvi as palavras: "Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição". (Mat. 3,17)
Jesus, porém, subiu os degraus, vestiu a túnica e dirigiu-se, cercado dos discípulos, ao largo da ilha. João falou com grande alegria ao povo, dando testemunho de que Jesus era o Messias prometido. Citou as promissões dos patriarcas e profetas, que nesse momento foram cumpridas; contou o que tinha visto e que era a voz de Deus, que todos tinham ouvido. Disse também que, daí a pouco, se retiraria, logo que Jesus voltasse. Exortou todos a seguirem Jesus.
Jesus confirmou simplesmente o que João dissera. Disse também que se retiraria por algum tempo; mas depois viessem a Ele todos os enfermos e aflitos, pois que lhes daria consolação e socorro.
Depois de batizado, Jesus partiu com os companheiros, primeiro para Belém, seguindo daí para o sul do Mar morto, pelo mesmo caminho que a Sagrada Família tomara, na fuga para o Egito. De lá, voltando, foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto, para jejuar quarenta dias. Começou o jejum na montanha de Jericó, onde subiu ao monte deserto e íngreme de Quarantania e rezou numa gruta. Descendo do monte, atravessou, numa embarcação, o rio Jordão e veio à uma montanha muito íngreme, distante cerca de nove léguas do Jordão. Jesus rezava numa gruta, ora prostrado por terra, ora de joelhos, ora em pé. Não comia nem bebia, mas era confortado pelos Anjos.
Cada dia, conta Anna Catharina Emmerich, a obra da oração de Jesus é diferente; cada dia nos alcança outras graças. Sem essa obra, não podia ser meritória a nossa resistência às tentações.
Outro dia o vi prostrado com o rosto em terra, quando vieram numerosos Anjos, que o adoraram e lhe perguntaram se podiam apresentar-lhe a sua missão e se ainda era a sua vontade sofrer como homem, para os homens. Tendo Jesus de novo confirmado sua vontade de aceitar os sofrimentos, erigiram-lhe em frente uma Cruz alta.
Três Anjos trouxeram uma escada, outro uma cesta, com cordas e ferramentas; outros, a lança, a haste de hissope, varas, chicotes, coroa de espinhos, pregos, tudo o que depois se empregou na Sagrada Paixão. A Cruz, porém, parecia oca; podia abrir-se, como um armário e estava cheia de inúmeros e diversíssimos instrumentos de tortura.
Todas as partes e lugares da cruz eram de cores diferentes, pelas quais se podia conhecer que tortura teria de sofrer. Havia também na Cruz muitas fitas de diversas cores, como que relatórios de muitas contrariedades e trabalhos que Jesus teria de suportar na sua vida e Paixão da parte dos discípulos e de outros homens. Quando, desse modo, toda a Paixão estava posta diante dEle, vi que Jesus e os Anjos choravam.
Satanás não sabia que Jesus era Deus, tomou-o por um profeta. Uma vez o vi à entrada da gruta, sob a figura de certo jovem, a quem Jesus muito amava. Fez barulho, pensando que Jesus se zangasse; mas este nem olhou para ele. Depois, enviou o demônio sete ou nove aparições de discípulos à gruta; disseram-lhe que o tinham procurado ansiosamente; não devia arruinar-se lá em cima e abandoná-los.
Jesus disse somente: "Afasta-te, Satanás, ainda não é tempo". Então desapareceram todos. Num dos dias seguintes vi Satanás querendo afigurar-se Anjo, trajando vestes resplandecentes. Chegou voando à entrada da gruta e disse: "Fui enviado por vosso Pai, para vos confortar". O Senhor, porém, não olhou para ele.
Jesus sofreu fome e sede. Ao cair da noite, Satanás, sob a forma de um homem alto e forte, subiu ao monte. Levava duas pedras que tirara em baixo, dando-lhes a forma de pães. Disse a Jesus: "Se sois o Filho de Deus, fazei que estas pedras se mudem em pão". Ouvi Jesus apenas dizer: "O homem não vive de pão". Satanás ficou furioso e desapareceu.
Ao cair da tarde do dia seguinte, vi Satanás aproximar-se de Jesus, em forma de um Anjo poderoso. Vangloriando-se, disse-lhe: "Mostrar-vos-ei quem sou e o que posso. Eis aí Jerusalém e o Templo. Vou colocar-vos no mais alto pináculo; mostrai então o vosso poder". Satanás segurou-o pelos ombros e, levando-o pelos ares a Jerusalém, colocou-o no cimo de uma torre.
Depois voou para baixo, à terra e disse: "Se sois o Filho de Deus, mostrai o vosso poder e atirai-vos à terra; pois está escrito: Ele mandará os seus Anjos, que vos sustentarão com as mãos, afim de que não machuqueis os pés de encontro às pedras". Jesus respondeu: "Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus".
Então voltou Satanás, cheio de raiva e Jesus lhe disse: "Usa do teu poder, do poder que te foi dado". Satanás, furioso, segurou-o de novo pelos ombros, e, levando-o por cima do deserto, em direção a Jericó, colocou-o no mesmo monte onde Jesus começara o jejum.
Era o ponto mais alto do monte, no qual o tinha posto; mostrou em redor de si e viram-se os mais maravilhosos panoramas, em todas as direções do mundo. Então disse Satanás a Jesus: "Sei que quereis propagar agora a vossa doutrina. Eis aí todas essas terras magníficas, esses povos poderosos e aqui a pequena Judéia. Ide lá! Dar-vos-ei todas essas terras, se, prostrado a meus pés, me adorardes". Jesus disse: "Adorarás o Senhor teu Deus e a Ele servirás. Afasta-te, Satanás!" Então vi Satanás, numa forma indescritivelmente hedionda, lançar-se para baixo e desaparecer.
Logo depois, vi um grupo de Anjos aproximar-se de Jesus e levá-lo à gruta, onde começara o jejum. Eram doze esses Anjos e numerosos outros, para o servirem. Celebrou-se, então, na gruta, uma festa em ação de graças e de júbilo e depois houve um banquete".
Jesus desceu do monte e veio ao Jordão, perto do lugar onde João estava batizando. Este se voltou logo para o Mestre, exclamando: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo". Podia-se perguntar: Por que fez Jesus um jejum tão rigoroso? Por que se sujeitou àquelas tentações?
Jesus está para começar sua vida pública; quer percorrer abertamente o país, repreender os pecadores, convidá-los a converter-se e fazer penitência; na sua doutrina, terá de fazer frente, muitas vezes, à opiniões errôneas a respeito da fé e da moral; terá de apresentar-se ao povo como o Messias prometido, como o Filho de Deus e de exigir humilde aceitação de sua doutrina. É uma tarefa dificílima, que traz consigo muitos trabalhos penosos, mortificações, sofrimentos, inimizades e perseguições. Por isso se prepara o Salvador para essa obra com jejum e meditação, na solidão do deserto.
Ali, no retiro absoluto, deixa tentar-se por Satanás, que parece não lhe conhecer a divindade. Por causa da inseparável união de sua alma com o Verbo Divino, não podia a tentação nascer-lhe da própria natureza, mas podia só provir do exterior.
O homem tentado, pela tríplice concupiscência, é logo inclinado a ceder à tentação e, desse modo, inúmeros homens caem na ruína temporal e eterna. Jesus, porém, quer salvar os homens dessa maior desgraça; por isso, oferece também o jejum e as tentações sofridas, como expiação dos pecados. Assim nos mostra como devemos vencer a tentação; pela vitória sobre a mesma nos merece a graça de vencê-la também. Em tudo se tornou igual a nós, com exceção do pecado.

Eleição dos primeiros discípulos e o milagre de Caná

A figura majestosa de Jesus, o seu trato sério, mas sempre amável e delicado, a força da sua palavra, juntamente com os prodígios extraordinários que operava, deviam fazer profunda impressão em todos. Uns, cheios de boa vontade, creram-lhe humildemente na doutrina e nos milagres; outros, malignos, invejosos e de coração endurecido, encheram-se de ódio contra Ele. Quem não se lembra, à vista desses fatos, da profecia do velho Simeão: "Este Menino está posto para a ruína e salvação de muitos, em Israel?"
Do número ainda pequeno dos aderentes só poucos se lhe tinham juntado, acompanhando-o nas viagens apostólicas. Quando, porém, saiu do deserto, depois do jejum de quarenta dias, aumentou o número dos discípulos; entre estes era André um dos primeiros. Ouvira, com Saturnino, João indicar a Jesus, dizendo: "Eis aí o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo". Ambos se reuniram a Jesus. André conduziu o irmão Simão ao Salvador, que lhe disse: "Tu és Simão, filho de Jonas; no futuro serás chamado Kephas (latim: Petrus)". Jesus encontrou-se depois com Filipe e convidou-o para discípulo, dizendo-lhe: "Segue-me". Filipe falou a Natanael do Messias; mas só o saber sobrenatural de Jesus o induziu a seguí-lo.
Com os discípulos e parentes, dirigiu-se Jesus a Caná, para assistir às bodas a que Ele e sua Mãe tinham sido convidados. O noivo chamava-se Natanael e tinha certo parentesco com Jesus; pois era sobrinho da filha de Sobe, a qual já conhecemos como irmã de Sant’Ana. Conta-nos Anna Catharina Emmerich o seguinte:
Estavam reunidos mais de cem convidados. Jesus dirigia a festa, presidia aos divertimentos, temperando-os com palavras de sabedoria. Foi também quem organizou todo o programa da festa.
Vi os convidados, homens e mulheres, divertirem-se separados num jardim, conversando ou brincando. Jesus também tomou parte num jogo de frutas, com amável seriedade. Dizia, às vezes, sorrindo, algumas palavras sábias, que todos admiravam ou escutavam comovidos. Nesses dias falou Jesus muito em particular com aqueles discípulos que, mais tarde, se lhe tornaram Apóstolos. Quis revelar-se, nessa festa a todos os parentes e amigos e desejou que todos até então por Ele eleitos se conhecessem uns aos outros, naquela reunião, em que havia maior franqueza.
No terceiro dia depois da chegada de Jesus, foi celebrada a cerimônia do casamento. Noivo e noiva foram conduzidos da casa da festa à sinagoga. No cortejo havia seis meninos e seis meninas, que levavam grinaldas; depois seguiam seis moços e moças, com flautas e outros instrumentos. Além desses, doze donzelas acompanhavam a noiva, como paraninfas e o noivo, doze mancebos.
A cerimônia do casamento foi feita pelos sacerdotes, diante da sinagoga. Os anéis que trocaram, foram um presente de Maria Santíssima e tinham sido bentos antes por Jesus.
Para o banquete nupcial reuniram-se todos de novo, no jardim. Vi um jogo preparado por Jesus mesmo, para os homens: a sorte que caía a cada um dos jogadores, indicava-lhe as qualidades, os defeitos e virtudes. Jesus interpretava a sorte de cada um, conforme a combinação das frutas que ganhavam. O noivo ganhou para si e a esposa duas frutas estranhas, num só pé, como já vi antes, no paraíso. Todos se admiravam muito e Jesus falou do matrimônio e do cêntuplo fruto da castidade. Depois dos noivos terem comido a fruta, vi que uma sombra escura deles se afastava. A fruta tinha relação com a castidade e a sombra que se apartava, era a concupiscência da carne.
Ao jogo no jardim seguiu-se o banquete nupcial. A sala estava dividida em três partes; na do meio estava Jesus sentado à cabeceira da mesa. A mesma mesa sentaram-se também Israel, o pai da noiva, os parentes masculinos de Jesus e da noiva e também Lázaro. As outras mesas laterais sentaram-se os outros convidados e os discípulos. O noivo serviu as mesas dos homens e a noiva as das mulheres.
Jesus encarregara-se das despesas do segundo prato do banquete. (Lazaro pagou as despesas, mas só Jesus e Maria o sabiam). Tudo estava bem arranjado pela Santíssima Virgem e Marta. Jesus lhes tinha dito que forneceria o vinho para esse prato. Depois de ter sido servido às mesas laterais o segundo prato, que constava de aves, peixe, iguarias de mel, frutas e uma espécie de pastéis, que Seráfia (Verônica) trouxera, Jesus aproximou-se e repartiu todas as iguarias; depois se sentou de novo à mesa. Serviram-se as iguarias, mas faltou o vinho. Jesus, porém, estava ensinando. Esta parte do banquete ficou aos cuidados da Santíssima Virgem e, como notasse que faltava vinho, aproximou-se de Jesus, lembrando-lhe ansiosamente essa falta, porque Ele tinha dito que o forneceria.
Jesus, que falava do Pai Celestial, disse-lhe então: "Mulher, não vos apoquenteis. Deixai de inquietar-vos e a mim, minha hora ainda não chegou". Assim falando, não manifestava falta de respeito à sua Mãe. Disse mulher e não mãe, porque quis nesse momento, como Messias e Filho de Deus, realizar uma ação misteriosa diante dos seus discípulos e parentes, mostrando que ali estava, presente na sua missão divina. Maria não se inquietou mais; disse, porém, aos criados: "Fazei tudo que Ele vos mandar".
Depois de algum tempo, mandou Jesus aos criados trazerem as ânforas vazias e virarem-nas. Trouxeram-nas; eram três ânforas de água e três de vinho. Os criados mostraram que estavam vazias, virando-as por cima de uma bacia. Jesus mandou que enchessem todas com água. As ânforas eram grandes e pesadas; eram precisos dois homens para transportarem cada uma.
Depois de estarem cheias de água, e postas ao lado do aparador, Jesus aproximou-se, benzeu as ânforas e, tendo-se sentado de novo à mesa. disse: "Enchei os cálices e levai um ao despenseiro". Este, tendo provado o vinho, aproximou-se do noivo e disse-lhe que sempre fora costume dar primeiro o bom vinho e depois dos convidados terem bebido bastante oferecer o vinho inferior, mas que ele tinha dado o melhor no fim.
Então beberam também o noivo e o pai da noiva, ficando ambos pasmos; os criados protestaram que haviam enchido de água as ânforas e tirado delas para encher os cálices e copos das mesas. Então beberam todos. Não houve, porém, nenhum barulho por causa do milagre, mas reinava silêncio respeitoso em toda a reunião e Jesus ensinou muito, a respeito do que se passara.
Todos os discípulos, parentes e convidados estavam agora convencidos do poder de Jesus e de sua dignidade e missão. Desse modo esteve Jesus a primeira vez na sua comunidade e foi o primeiro prodígio que nela e para ela operou, para confirmar-lhe a fé. Por isso é relatado na história da sua vida como o primeiro milagre e a última Ceia como o último milagre, quando já era firme a fé dos apóstolos.
Ao fim do banquete veio o noivo sozinho a Jesus e declarou-lhe, com muita humildade, que sentia extinta em si toda a concupiscência da carne e que desejava viver em santidade com a esposa, se ela consentisse. Também a noiva veio a Jesus, sozinha, dizendo-lhe o mesmo.
Chamou-os então Jesus a ambos e falou-lhes do matrimônio, da castidade, tão agradável a Deus e do fruto cêntuplo do espírito. Citou muitos profetas e santos, que viveram castos, sacrificando a carne, por amor do Pai Celestial, que tiveram como filhos espirituais muitos homens perdidos, reconduzindo-os ao caminho da virtude e que assim tinham grande e santa descendência.
Os noivos fizeram então voto de continência e de viverem como irmãos durante três anos. Ajoelharam-se diante de Jesus, que os abençoou.

Assim, acreditamos que todos os leitores tiveram satisfeita a sua curiosidade, assim como a tive ao ler o livro inteiro – lido não, "devorado" – em coisa de alguns dias. Alguns detalhes revelados, entretanto, nos fazem pensar mais profundamente na missão de Cristo. A maior perplexidade que estas revelações iniciais me causaram, foi certamente a extrema compenetração de Jesus. Na verdade, muito poucas vezes Ele ria. Isso prega frontalmente contra os promotores da Nova Era, que querem fazer de Jesus um cara alegre, extrovertido, tipo bem sucedido, coisa que é de fato uma afronta contra Ele, pois como poderá agir desta forma alguém que sabe, milímetro a milímetro, do pavoroso sofrimento que o espera.

Tudo isso serve para a gente ir se compenetrando da profundidade do mistério da nossa Redenção por Jesus Cristo, e serve também para muitos que querem fazer da Santa Missa – memorial da paixão Redentora – um espetáculo teatral, com risos e abraços de confraternização. Com palmas e saudações, quando só fazem aumentar os sofrimentos de nosso Senhor. Ó sublime mistério de Amor, como te afrontam os homens!

Que Jesus Redentor, nos guarde até o próximo encontro.

Aarão!

Os que quiserem adquirir o livro original,
Podem dirigir-se à Editora Mir – São Paulo.
Caixa Postal 70.507 – CEP 05013-990 - SP
Fone/fax: 11-3865-4340
e-mail:
[email protected]
site:
http://sites.uol.com.br/mireditora/

O CORDEIRO DE DEUS - Parte 5

Nos espaço entre o último texto e este, constam no livro de Ana Catarina algumas breves revelações sobre os três anos da vida pública de Jesus. Embora sempre haja ali fatos muito interessantes, por questão de coerência deixamos que falem os Evangelhos. De fato, tudo o que precisamos saber está ali contido. Por isso, vamos seguir nos temas finais, em especial nas horas que antecederam ao pavoroso momento da Cruz, exatamente porque aqui estão fatos que desconhecemos e que as revelações desta mística, únicas na Igreja, em uma tal profundidade, vêm nos esclarecer.

Aqui apresentamos o tema relativo à Santa Ceia, e fico feliz porque hoje é Corpus Christi, e assim uso o tempo desta tarde para caminhar junto com Jesus e os apóstolos. Penso, no entanto, que não são necessárias explicações, porque certamente o querido leitor terá saciado como eu, o desejo de conhecer em detalhes o que se passou com Jesus naquela Quinta-Feira Santa. Deixamos o texto completo e por isso o artigo ficará mais longo, isso para que observando os detalhes, nos compenetremos da importância dos pequenos detalhes, também, na Santa Missa. Vamos aos textos:

Preparativos para a ceia pascal:

(Quinta-feira Santa, 13 de Nisan ou 29 de Março; Jesus na idade de 33 anos, 18 semanas menos 1 dia)

Foi ontem à noite que se efetuou em Betânia a última e grande refeição de Nosso Senhor e dos seus amigos, em casa de Simão, curado da lepra por Jesus e durante a qual Maria Madalena ungiu Jesus pela última vez. Judas, indignado com isso, correu a Jerusalém, onde negociou ainda uma vez com os príncipes dos sacerdotes, para entregar-lhes Jesus. Depois da refeição, voltou Jesus à casa de Lázaro e uma parte dos discípulos dirigiram-se à albergaria, situada fora de Betânia. Nicodemos veio ainda de noite à casa de Lázaro, onde teve longa conversa com o Senhor; voltou a Jerusalém antes do amanhecer, acompanhado numa parte do caminho por Lázaro.
Os discípulos já tinham perguntado a Jesus onde queria comer o cordeiro pascal. Hoje, antes da madrugada, Nosso Senhor mandou vir Pedro e João e falou-lhes muito de tudo que deviam comprar e preparar em Jerusalém; disse-lhes que, subindo o monte Sião, encontrariam um homem com um jarro de água. (Eles já conheciam esse homem, pois fora quem já na última Páscoa, em Betânia, preparara a ceia de Jesus; por isso diz S. Mateus: um certo homem). Deviam seguí-lo até à casa em que morava e dizer-lhe: "O Mestre manda avisar-te que seu tempo está perto e que quer celebrar a Páscoa em tua casa". Deviam pedir que lhes mostrasse o Cenáculo, que já estaria preparado e fazer-lhe depois todos os preparativos necessários.
Vi os dois Apóstolos subirem a Jerusalém, seguindo um barranco ao Sul do Templo e subirem ao monte Sião pelo lado setentrional. Ao lado Sul do monte do Templo havia algumas fileiras de casas; seguiram um caminho que passava em frente destas casas, ao longo de um ribeiro, que corria no fundo do barranco e os separava das casas. Tendo chegado à altura de Sião, que é mais alto do que o monte do Templo, dirigiram-se a um largo um pouco em declive, na vizinhança de um velho edifício, cercado de pátios; ali, no largo, encontraram o homem que lhes fora indicado, seguiram-no e perto da casa lhe disseram o que Jesus lhes ordenara.
Ele se regozijou muito de os ver e, ouvindo o recado, respondeu-lhes que a refeição já lhe tinha sido encomendada (provavelmente por Nicodemos), sem que soubesse para quem era, mas que muito lhe agradava saber que era para Jesus. Esse homem era Elí, cunhado de Zacarias de Hebron, o mesmo em cuja casa Jesus anunciara, no ano anterior, em Hebron, a morte de S. João Batista.
Tinha só um filho, que era Levita e amigo de Lucas, antes deste se juntar a Jesus, e além desse, também 5 filhas solteiras. Todos os anos, ele ia com os criados à festa e, alugando uma sala, preparava a Páscoa para as pessoas que não tinham casa em Jerusalém. Nesse ano tinha alugado um cenáculo, pertencente a Nicodemos e José de Arimatéia. Mostrou aos dois Apóstolos a sala e o arranjo interior.

O cenáculo ou casa da Ceia

Ao lado sul do monte Sião, perto do castelo abandonado de Davi e do mercado situado na subida, à leste desse castelo, se acha um velho e sólido edifício, entre duas fileiras de árvores copadas e no meio de um pátio espaçoso, cercado de muros fortes. À direita e à esquerda da entrada há ainda outras construções encostadas ao muro: à direita a habitação do mordomo e, perto desta, outra, à qual Nossa Senhora e as santas mulheres às vezes se retiravam, depois da morte de Nosso Senhor.
O Cenáculo, antigamente mais espaçoso, servira de morada aos bravos capitães de Davi, que ali se exercitavam no manejo das armas; também estivera ali por algum tempo a Arca da Aliança antes da construção do Templo e ainda há indícios da sua estada num subterrâneo da casa.
Vi também uma vez o profeta Malaquias escondido nos mesmos subterrâneos, onde escreveu as profecias acerca da sagrada Eucaristia e do sacrifício do Novo Testamento. Salomão tinha também esta casa em muito respeito, por certa relação simbólica, a qual, porém, esqueci. Quando grande parte de Jerusalém foi destruída pelos Babilônios, ficou salva essa casa, a respeito da qual tenho visto muitas outras coisas, mas lembro-me só do que acabo de contar.
O edifício estava meio arruinado, quando se tornou propriedade de Nicodemos e José de Arimatéia, que restauraram a casa principal e acomodaram-na bem, para a celebração da festa da Páscoa, fim para o qual costumavam alugá-la a forasteiros, como fizeram também na última Páscoa do Senhor. Além disso, serviam-lhes a casa e os pátios de armazém para monumentos sepulcrais e pedras de construção, como também de oficina para os operários, pois José de Arimatéia possuía excelentes pedreiras nas suas terras e negociava em pedras sepulcrais e variadíssimas colunas e capitéis, esculpidos sob sua direção.
Nicodemos trabalhava muito como construtor e, nas horas vagas, gostava de ocupar-se também com a escultura; fora da época das festas, esculpia estátuas e monumentos de pedra, na sala ou no subterrâneo debaixo desta. Essa arte pusera-o em contato com José de Arimatéia; tornaram-se amigos e muitas vezes se associaram também nas empresas.
Nessa manhã, enquanto Pedro e João, enviados de Betânia por Jesus, conversavam com o homem que tinha alugado o Cenáculo para aquele ano, vi Nicodemos indo para além e para aquém das casas à esquerda do pátio, para onde tinham sido transportadas muitas pedras, que impediam as entradas da sala do Cenáculo. Havia uma semana, eu vira algumas pessoas ocupadas em pôr as pedras ao lado, em limpar o pátio e preparar o Cenáculo para a celebração da Páscoa; julgo até ter visto, entre outros, alguns discípulos de Jesus, talvez Aram e Temeni, sobrinhos de José de Arimatéia.
A casa principal, o Cenáculo propriamente dito, está quase no meio do pátio, um pouco para o fundo. É um quadrilátero comprido, cercado por uma arcada menos alta de colunas, a qual, afastados os biombos entre os pilares, pode ser unida à grande sala interior; pois todo o edifício é aberto de lado a lado e pousa sobre colunas e pilares; apenas estão as passagens fechadas ordinariamente por biombos. A luz entra por aberturas existentes no alto das paredes.
Na parte estreita da frente, há um vestíbulo, ao qual conduzem três entradas; depois se entra na grande sala interior, alta e com bom soalho lajeado; do teto pendem diversas lâmpadas; as paredes estão ornadas para a festa, até meia altura, com belas esteiras e tapetes e no teto há uma abertura coberta com um tecido brilhante, transparente, semelhante à gaze azul.
O fundo da sala está separado do resto por uma cortina igual. Essa divisão do Cenáculo em três partes dá-lhe uma semelhança com o Templo; há também um adro, o santo e o santo dos santos. Nesta última parte é que são guardados, à direita e à esquerda, as vestimentas e vários utensílios. No meio há uma espécie de altar. Sai da parede, um banco de pedra com a ponta cortada no meio das duas faces laterais; deve ser a parte superior do forno, no qual o cordeiro pascal é assado; pois hoje, durante a refeição, estavam os degraus em roda muito quentes.
Ao lado dessa parte do Cenáculo, há uma porta, que dá para o alpendre que fica atrás da pedra saliente; de lá é que se desce ao lugar onde se acende o fogo no forno; há ali ainda outros subterrâneos e adegas, debaixo da grande sala. Naquela pedra ou altar saliente da parede há várias divisões, semelhantes à caixas ou gavetas, que se podem tirar; em cima há também aberturas como de uma grelha, uma abertura também para fazer fogo e outra para apagá-lo.
Não sei mais descrever exatamente tudo que ali vi, parece ter sido um forno para cozer o pão ázimo da Páscoa e outros bolos ou também para queimar incenso ou certos restos das refeições da festa; é como uma cozinha pascal. Por cima desse forno ou altar há uma caixa de madeira, saliente, semelhante a um nicho, que tem em cima uma abertura, com uma válvula, provavelmente para deixar sair a fumaça.
Diante desse nicho ou pendente por cima dele, vi a figura de um cordeiro pascal; tinha cravado na garganta uma faca e o sangue parecia cair gota a gota sobre o altar; não sei mais exatamente como era feito. Dentro do nicho da parede há três armários de diversas cores, os quais se fazem girar como os nossos tabernáculos, para se abrirem e fecharem. Neles vi todas as espécies de vasos para a Páscoa, taças e mais tarde também o SS. Sacramento.
Nas salas laterais do Cenáculo há assentos ou leitos em plano inclinado, feitos de alvenaria, sobre os quais se acham mantas grossas enroladas; são leitos de dormir. Debaixo de todo o edifício há belas adegas; antigamente esteve ali no fundo a Arca da Aliança, onde, em seguida, foi construído o forno pascal. Debaixo da casa há cinco esgotos, que levam todas as águas e imundícies monte abaixo, pois a casa está situada no alto. Já antes vi Jesus curar e ensinar aqui; às vezes passavam alguns discípulos à noite nas salas laterais.

Disposições para a refeição pascal

Tendo os Apóstolos falado com Helí de Hebron, voltou este pelo pátio à casa; eles, porém, se dirigiram para a direita, a Sião, desceram pelo lado norte, passaram uma ponte e, seguindo por veredas ladeadas de sebes verdejantes, foram pelo outro lado do barranco, até às fileiras de casas ao sul do Templo. Ali era a casa do velho Simeão, que morrera depois da apresentação de Jesus no Templo. Moravam então lá os filhos do venerando ancião; alguns eram secretamente discípulos de Jesus.
Os Apóstolos falaram a um deles, que era empregado no Templo; era homem alto e muito moreno. Ele desceu com os Apóstolos, passando a leste do Templo, por aquela porta de Ophel pela qual Jesus entrara triunfalmente em Jerusalém, no domingo de Ramos; assim foram pela cidade, ao norte do Templo, até o Mercado de gado. Vi na parte meridional do mercado pequenos recintos, onde belos cordeiros saltavam como em pequenos jardins.
Na entrada triunfal de Jesus pensei que isso fora feito para abrilhantar a festa; mas eram cordeiros pascais, que se vendiam ali. Vi o filho de Simeão entrar num desses recintos; os cordeiros seguiram-no, saltando, e empurravam-no com as cabeças, como se o conhecessem. Ele escolheu quatro, que foram levados ao Cenáculo. Vi-o também de tarde no Cenáculo, ajudando na preparação do cordeiro pascal.
Vi como Pedro e João deram ainda vários recados na cidade, encomendando muitas coisas. Vi-os também fora de uma porta, ao norte do monte Calvário e a NO da cidade; entraram numa estalagem, onde ficaram nesses dias muitos discípulos. Era a estalagem construída em Jerusalém para os discípulos, a qual estava sob a administração de Seráfia, (conhecida pelo nome de Verônica). Pedro e João mandaram alguns discípulos de lá ao Cenáculo, para dar alguns recados, dos quais me esqueci.
Foram também à casa de Seráfia, à qual tinham de pedir diversas coisas; o marido desta, membro do conselho, estava a maior parte do tempo fora de casa, em negócios e, mesmo quando estava em casa, ela o via pouco. Seráfia era uma mulher quase da idade da SS. Virgem e há tempo estava em relações com a Sagrada Família; pois quando o Menino Jesus, depois da festa, ficara atrás, em Jerusalém, comera em casa dela.
Os dois Apóstolos receberam ali diversos objetos, em cestos cobertos, que foram levados ao Cenáculo, em parte pelos discípulos. Foi também ali que receberam o cálice de que Nosso Senhor se serviu, na instituição da sagrada Eucaristia.

Jesus vai a Jerusalém

Na manhã em que os dois Apóstolos andaram por Jerusalém, ocupados com os preparativos da Páscoa, Jesus se despediu muito comovido das santas mulheres, de Lázaro e de sua Mãe em Betânia, dando-lhes ainda algumas instruções e exortações.
Vi o Senhor conversar com a Virgem SS. separadamente; disse-lhe, entre outras coisas, que tinha mandado a Pedro, o representante da fé, e João, o representante do amor, para prepararem a Páscoa em Jerusalém. De Madalena, que estava desvairada de dor e tristeza, disse o Mestre que o seu amor era indizível, mas ainda arraigado na carne e que por isso ficava desatinada de dor. Falou também das intenções traiçoeiras de Judas e a Santíssima Virgem pediu por este.
Judas tinha ido novamente de Betânia a Jerusalém, sob pretexto de fazer várias compras e pagamentos. De manhã interrogou Jesus os nove Apóstolos a respeito, apesar de saber perfeitamente o que Judas estava fazendo. Este correu todo o dia pelas casas dos fariseus, combinando tudo com estes; mostraram-lhe até os soldados que deviam apoderar-se de Jesus. O traidor premeditou todos os passos que carecia dar, para que pudesse sempre explicar a sua ausência; não voltou para junto de Nosso Senhor, senão pouco antes de comerem o cordeiro pascal. Vi-lhe todas as conspirações e os pensamentos. Quando Jesus falou à Maria acerca de Judas, vi muitas coisas em relação ao caráter deste; era ativo e atencioso, mas cheio de avareza, ambição e inveja e não lutava contra as paixões. Fizera também milagres e curara doentes na ausência de Jesus.
Quando Nosso Senhor comunicou à SS. Virgem o que havia de suceder, pediu ela de modo tocante que a deixasse morrer com Ele. Mas Jesus exortou-a a que mostrasse mais calma na dor do que as outras mulheres; disse-lhe também que ressuscitaria e lhe indicou o lugar onde lhe, apareceria.
A Mãe SS. então não chorou muito, mas ficou tão profundamente triste e séria, que impressionou a todos. Nosso Senhor, como Filho piedoso, agradeceu-lhe todo o amor que lhe tinha mostrado; abraçou-a com o braço direito e apertou-a ao coração; disse-lhe também que faria a ceia com ela espiritualmente, indicando-lhe a hora em que a receberia. Ainda se despediu de todos, muito comovido, e instruiu-os sobre muitas coisas.
Cerca de meio dia partiu Jesus de Betânia, com os nove Apóstolos, tomando o caminho de Jerusalém; seguiram-no sete discípulos que, com exceção de Natanael e Silas, eram naturais de Jerusalém e arredores. Lembro-me que entre estes estavam João Marcos e o filho da viúva pobre, que na quinta-feira antecedente oferecera o denário no Templo, enquanto Jesus ensinava. Havia poucos dias Jesus admitira o último como discípulo. As santas mulheres seguiram mais tarde.
Jesus e a comitiva andaram por aqui e por ali, por diversos caminhos ao redor do monte das Oliveiras, no vale de Josafá e até o monte Calvário; durante todo o caminho, continuou a ensinar-lhes. Disse aos Apóstolos, entre outras coisas, que até agora lhes dera pão e vinho, mas hoje queria dar-lhes seu corpo e sangue, que lhes daria e deixaria tudo que tinha. Nosso Senhor disse-o de uma maneira tão tocante, que toda a alma parecia fundir-se-Lhe e languir de amor, com o desejo de se lhes dar.
Os discípulos não O compreenderam, julgaram que falava do cordeiro pascal. Não se pode exprimir quanto havia de amor e resignação nos últimos discursos que fez em Betânia e aqui. As santas mulheres foram mais tarde à casa de Maria, mãe de Marcos.
Os sete discípulos que seguiram Nosso Senhor a Jerusalém, não O acompanharam no caminho, mas levaram as vestimentas da cerimônia da Páscoa ao Cenáculo, puseram-nas no vestíbulo, voltando depois à casa de Maria, mãe de Marcos.
Quando Pedro e João vieram com o cálice(1) da casa de Seráfia ao Cenáculo, já encontraram todo o vestuário da cerimônia no vestíbulo, onde os discípulos e alguns outros o tinham colocado; também tinham coberto as paredes da sala com tapeçaria, desprendido as aberturas do teto e aprontado três candeeiros de suspensão. Pedro e João foram então ao vale de Josafá, para chamar a Jesus e aos nove Apóstolos. Os discípulos e amigos que comeram com eles o cordeiro pascal, vieram mais tarde.

(1) Este Cálice será o mesmo que está guardado em baixo de um prédio em Jerusalém, conforme mensagens ao Cláudio, devendo ser achado para que João Paulo II celebre com ele a grande Missa do Calvário, em ação de graças pelo fim da Terceira Grande Guerra.

A última ceia pascal

Jesus e os seus comeram o cordeiro pascal no Cenáculo, divididos em três grupos de doze, dos quais cada um era presidido por um chefe, que fazia às vezes de pai de família. Jesus tomou a refeição com os doze Apóstolos, na sala do Cenáculo. Natanael presidiu a outra mesa, numa das salas laterais e outros doze tinham como pai de família Eliaquim, filho de Cleofas e Maria Heli, irmão de Maria Cleofas e que fora antes discípulo de João Batista.
Três cordeiros tinham sido imolados para eles no Templo, com as cerimônias do costume. Mas havia lá um quarto cordeiro, que foi imolado no Cenáculo; foi o que Jesus comeu com os doze Apóstolos. Judas ignorava essa circunstância, pois estava ocupado com diversos negócios e com a traição e ainda não estava de volta, por ocasião da imolação do cordeiro; veio alguns instantes antes da refeição pascal. A imolação do cordeiro destinado a Jesus e aos Apóstolos foi uma cerimônia singularmente tocante; realizou-se no vestíbulo do Cenáculo; Simeão, que era levita, ajudou.
Os Apóstolos e os discípulos estavam também presentes, cantando o salmo 118. Jesus falou então de uma nova época, que começava; (veja n. 1 do primeiro capítulo) disse que então se devia cumprir o sacrifício de Moisés e a significação do cordeiro pascal simbólico; o cordeiro devia por isso ser imolado do mesmo modo que o do Egito, do qual só então o povo de Israel sairia verdadeiramente liberto.
Os vasos e tudo o que era mais precioso, estavam prontos; trouxeram um belo cordeirinho, ornado de uma grinalda, que foi tirada e enviada à SS. Virgem, que ficara com as santas mulheres em outra sala. O cordeiro foi amarrado pelo meio do corpo numa tábua, o que recordou Jesus preso à coluna da flagelação. O filho de Simeão segurou a cabeça do cordeiro para cima; Jesus cravou-lhe a faca no pescoço, entregando-a depois ao filho de Simeão, que continuou a preparação do cordeiro. Jesus parecia sentir dor e repugnância em feri-lo. Fê-lo rapidamente, mas com muita gravidade.
O sangue foi colhido numa bacia; trouxeram um ramo de hissope, que Jesus molhou no sangue. Em seguida avançou para a porta, tingiu com o sangue os dois portais e a fechadura, fixando depois em cima da porta, o ramo tinto de sangue. Durante esse ato, lhes ensinou solenemente e disse, entre outras coisas, que o Anjo exterminador passaria ali; que fizessem, porém, a adoração naquele lugar, sem medo e inquietação, depois dele, o verdadeiro Cordeiro pascal, ter sido imolado; começaria um tempo e um sacrifício novo, que duraria até o fim do mundo.
Dirigiram-se então ao fogão, no fundo da sala, onde outrora estivera a Arca da Aliança; já estava aceso o fogo. Jesus aspergiu o forno com o sangue e consagrou-o como altar; o resto do sangue e a gordura vazaram-nos no fogo, debaixo do altar. Todas as portas estavam fechadas durante essa cerimônia.
Entretanto, o filho de Simeão acabara de preparar o cordeiro pascal. Pusera-o numa estaca, as pernas dianteiras fixadas num pau transversal, as traseiras na estaca. Ai! parecia tanto com Jesus pregado na Cruz! Em seguida foi posto no forno, para ser assado, junto com os outros três, trazidos do Templo.
Os cordeiros pascais dos judeus eram todos imolados no átrio do Templo, em três lugares diversos: para as pessoas de distinção, para a gente pobre e para os forasteiros. O cordeiro pascal de Jesus não foi imolado no Templo, mas todo o resto da cerimônia foi feita rigorosamente conforme a lei. Jesus falou mais tarde a esse respeito; disse que o cordeiro era simplesmente um símbolo; que Ele mesmo, na manhã seguinte, devia ser o verdadeiro Cordeiro pascal. Não sei mais tudo quanto ensinou nessa ocasião.
Desse modo instruiu Jesus os Apóstolos sobre o cordeiro pascal e sua significação. Por fim veio também Judas. Tendo então chegado a hora, prepararam-se as mesas. Os convivas vestiram as vestes da cerimônia, que se achavam no vestíbulo; outro calçado, uma veste branca, à maneira de túnica ou camisa e por cima um manto, curto na frente e comprido atrás; arregaçaram as vestes com o cinto, sendo também as mangas largas arregaçadas. Era o traje de viagem, prescrito pela Lei mosaica.
Assim se dirigiu cada grupo à respectiva mesa; os dois grupos de discípulos para as salas laterais, o Senhor e os Apóstolos à sala do Cenáculo. Tomando todos um bastão na mão, caminharam, dois a dois, para a mesa, onde ficaram em pé diante dos respectivos lugares, os bastões encostados nos braços e as mãos levantadas. Jesus, que estava no meio da mesa, recebera do mordomo dois pequenos bastões, um pouco recurvados em cima, semelhantes a cajados curtos de pastores. Tinham em cima uma forqueta, a maneira de ramo cortado. Jesus pô-los à altura da cintura, em forma de cruz, diante do peito e durante a oração colocou os braços estendidos sobre as forquetas.
Nessa atitude tinham os movimentos do Mestre algo de singularmente tocante e parecia servir-lhe de apoio a cruz, que em pouco devia pesar-lhe sobre os ombros. Nessa posição cantaram: "Bendito seja o Senhor, Deus de Israel" e "Louvado seja o Senhor, etc".. Terminada a oração, Jesus deu um dos bastões a Pedro e o outro a João. Puseram-nos de lado ou fizeram-nos passar de mão a mão, entre os outros discípulos; já não me lembro mais exatamente.
A mesa era estreita e tão alta, que passava meio pé acima dos joelhos de um homem; tinha a forma de um segmento de círculo. Em frente de Jesus, na parte interior do semicírculo, havia um lugar livre, para servir os pratos. Se bem me lembro, estavam à direita de Jesus: João, Tiago o Maior e Tiago o Menor; no lado estreito, à direita, Bartolomeu; em seguida, no semicírculo interior, Tomé e Judas Iscariotes; à esquerda, Simeão e perto deste, no lado interior, Mateus e Filipe.
No meio da mesa, numa travessa, estava o cordeiro pascal. A cabeça repousava-lhe sobre os pés dianteiros, postos em forma de cruz, as pernas traseiras estavam estendidas; a margem da travessa, em roda do cordeiro, estava coberta de alho. Havia mais uma travessa com o assado da Páscoa, a cada lado desta um prato com ervas verdes, dispostas umas contra as outras, em pé e mais outro prato com tufos de ervas amargas, semelhantes à erva de bálsamo. Diante de Jesus havia um prato com ervas de cor verde-amarelada e outro com molho escuro. Pães redondos serviam de pratos para os convivas, que usavam facas de osso.
Depois da oração, o mordomo pôs na mesa, diante de Jesus, a faca para trinchar o cordeiro. Pôs também diante de Nosso Senhor um copo de vinho e encheu de um jarro seis copos, cada um para dois discípulos. Jesus benzeu o vinho e bebeu, os Apóstolos beberam, dois a dois em cada copo. O Senhor trinchou o cordeiro; os Apóstolos apresentaram cada um com o seu bolo redondo, com uma espécie de gancho, recebendo cada um a sua parte. Comeram-na apressadamente, separando a carne dos ossos com as facas de osso. Os ossos descarnados foram depois queimados. Comeram também às pressas, do alho e da verdura, que ensoparam no molho. Comeram o cordeiro pascal em pé, reclinados apenas um pouco aos encostos dos assentos.
Jesus partiu também um dos pães ázimos, recobrindo uma parte; o resto distribuiu. Comeram todos então os respectivos bolos. Trouxeram ainda um cálice de vinho, mas Jesus não bebeu mais. Disse: Tomai este vinho e reparti-o entre vós, pois não beberei mais vinho, até chegar o reino de Deus. Tendo bebido dois a dois, cantaram e em seguida Jesus ainda rezou e ensinou; finalmente todos lavaram as mãos. Só então se deitaram nos assentos. Tudo que precedeu, foi feito muito depressa, ficando os convivas em pé; somente ao fim se encostaram um pouco aos assentos.
O Senhor trinchara também outro cordeiro, que foi depois levado para as santas mulheres, a um dos edifícios laterais do pátio, onde tomaram a ceia. Comeram ainda ervas e alface com molho. Jesus estava extraordinariamente amável e sereno; nunca o tinha visto assim. Disse também aos Apóstolos que esquecessem tudo que os pudesse angustiar. A SS. Virgem, à mesa das mulheres, estava também muito serena. Comoveu-me profundamente ver como se virava com tanta simplicidade, quando as outras mulheres se lhe aproximavam, puxando-a pelo véu, para lhe falarem.
A princípio Jesus conversou muito amavelmente com os Apóstolos, enquanto ceavam; mas depois se tornou mais sério e triste. "Um de vós me atraiçoará, disse, cuja mão está comigo à mesma mesa". Jesus serviu alface, de que havia só um prato, àqueles que lhe estavam ao lado; encarregou a Judas, que lhe ficava quase em frente, de distribuí-la pelo outro lado. Os Apóstolos assustaram-se muito, quando Jesus falou do traidor, dizendo: "Um que está comigo à mesma mesa", ou "que mete a mão no mesmo prato comigo", o que quer dizer: "Um dos doze que comigo comem e bebem, um daqueles com os quais parto o meu pão".
Com essas palavras não indicou Judas aos outros; pois - "meter a mão no mesmo prato" - era uma alocução geral, indicando relações da maior intimidade. Contudo, quis também dar um aviso a Judas, que no mesmo momento de fato meteu com o Salvador a mão no mesmo prato, para distribuir alface. Jesus disse ainda: "O Filho do Homem vai certamente para a morte, como está escrito a respeito dele, mas ai do homem por quem será traído! Melhor fora nunca haver nascido".
Os Apóstolos ficaram muito perturbados e perguntaram um após outro: "Senhor, sou eu?" Pois todos bem sabiam que nenhum compreendera o sentido daquelas palavras. Pedro inclinou-se para João, por detrás de Jesus e fez-lhe um sinal, para perguntar ao Senhor quem era; pois tendo sido censurado tantas vezes por Jesus, receava que se referisse a ele. Ora, João estava deitado à direita do Senhor e, como todos comiam com a mão direita, encostando-se sobre o braço esquerdo, estava ele com a cabeça perto do peito de Jesus. Aproximou mais a cabeça do peito do Mestre e perguntou-lhe: Senhor, quem é?
Então lhe foi revelado que o Senhor se referia a Judas. Não vi Jesus pronunciar as palavras: "É aquele a quem dou o bocado de pão molhado"; não sei se o disse muito baixo a João; este, porém, o percebeu, quando Jesus molhou o pão envolvido em alface e afetuosamente o ofereceu a Judas, que justamente nesse momento perguntava também: "Senhor, sou eu?" Jesus olhou-o com muito amor e deu-lhe uma resposta concebida em termos gerais. Era entre os Judeus sinal de amizade e intimidade; Jesus fê-lo muito afetuosamente, para exortá-lo, sem o comprometer perante os outros. Judas, porém, estava com o coração cheio de raiva.
Vi, durante toda a ceia, uma pequena figura hedionda sentada aos seus pés, a qual algumas vezes lhe subiu até o coração. Não percebi se João repetiu a Pedro o que ouvira de Jesus; mas vi que o sossegou com um olhar.

O Lava-pés

Levantaram-se da mesa e, enquanto mudavam e arranjavam as vestes, como costumavam fazer antes da oração solene, entrou o mordomo, com dois criados, para levar a mesa, tirá-la do meio dos assentos que a cercavam e pô-la ao lado.
Tendo feito isso, recebeu ordem de Jesus para trazer água ao vestíbulo e saiu da sala, com os dois criados. Jesus, em pé no meio dos Apóstolos, falou-lhes muito tempo em tom solene. Mas tenho até agora visto e ouvido tantas coisas, que não é possível relatar com exatidão a matéria de todos os discursos. Lembro-me que falou do seu reino, de sua ida para o Pai, prometendo deixar-lhes tudo o que possuía, etc. Também pregou sobre a penitência, exame e confissão das faltas, arrependimento e purificação. Tive a impressão de que essa instrução se relacionava com o lava-pés e vi também que todos conheceram os seus pecados e se arrependeram, com exceção de Judas. Esse discurso foi longo e solene.
Tendo terminado, Jesus mandou João e Tiago o Menor trazerem a água do vestíbulo, ordenando aos Apóstolos que colocassem os assentos em semicírculo, Ele próprio foi ao vestíbulo, despiu o manto e arregaçando a túnica, cingiu-se com um pano de linho, cuja extremidade mais longa pendia para baixo.
Durante esse tempo tiveram os Apóstolos uma discussão, sobre qual deles devia ter o primeiro lugar; como o Senhor lhes anunciara claramente que os ia deixar e que o seu reino estava perto, surgiu de novo entre eles a opinião de que Jesus tinha aspirações secretas, um triunfo terrestre, que se realizaria no último momento.
Jesus, que estava no vestíbulo, deu ordem a João para tomar uma bacia e a Tiago o Menor para trazer um odre cheio de água, transportando-o diante do peito, de modo que o bocal pendesse sobre o braço. Depois de ter derramado água do odre na bacia, mandou que os dois O seguissem à sala, onde o mordomo tinha posto no meio outra bacia maior, vazia.
Entrando pela porta da sala, de forma humilde, Jesus censurou os Apóstolos em poucas palavras, por causa da discussão havida antes entre eles, dizendo, entre outras coisas, que Ele mesmo queria servir-lhes de criado, que tomassem os assentos, para que lhes lavasse os pés.
Então se sentaram, na mesma ordem em que foram colocados à mesa, tendo sido os assentos dispostos em semicírculo. Jesus, indo de um a outro, derramou-lhes sobre os pés água da bacia, que João sucessivamente colocava sob os pés de cada um. Depois tomava o Mestre a extremidade da toalha de linho, com que estava cingido e enxugava-lhes os pés, com ambas as mãos.
Em seguida se aproximava, com Tiago, do Apóstolo seguinte. João esvaziava de cada vez a água usada, na grande bacia que estava no meio da sala e Jesus enchia de novo a bacia, com água do odre que Tiago segurava, derramando-a sobre os pés do Apóstolo e enxugando-lhos.
O Senhor, que durante toda a ceia pascal se mostrara singularmente afetuoso, desempenhou-se também desta humilde função com o mais tocante amor. Não o fazia como uma cerimônia, mas como ato santo de caridade, exprimindo nele todo o seu amor.
Quando chegou a Pedro, este quis recusar, dizendo: "Senhor, Vós me quereis lavar os pés?". Disse, porém, o Senhor: "Agora não entendes o que faço, mas entendê-lo-ás no futuro". Pareceu-me que lhe disse em particular: "Simão, tens merecido aprender de meu Pai quem sou eu, donde venho e para onde vou; só tu o tens conhecido e confessado; por isso, construirei sobre ti a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. O meu poder há de ficar também com os teus sucessores, até o fim do mundo". Jesus indicou-o aos outros, dizendo-lhes que Pedro devia substituí-lo na administração e no governo da Igreja, quando Ele tivesse saído deste mundo.
Pedro, porém, disse: "Vós não me lavareis jamais os pés". O Senhor respondeu-lhe: "Se eu não os lavar, não terás parte em mim". Então lhe disse Pedro: "Senhor, não me lavareis somente os pés, mas também as mãos e a cabeça". Jesus respondeu: "Quem foi lavado, é puro no mais; não é preciso lavar senão os pés. Vós também estais limpos, mas não todos". Com estas palavras referiu-se a Judas.
Jesus, ensinando sobre o lava-pés, disse que era uma purificação das faltas quotidianas, porque os pés, caminhando descuidosamente na terra, se sujavam continuamente.
Esse banho dos pés era espiritual e uma espécie de absolvição. Pedro, porém, viu nele apenas uma humilhação muito grande para o Mestre; não sabia que Jesus, para salvá-lo e aos outros homens, se humilharia na manhã seguinte até à morte ignominiosa da Cruz.
Quando Jesus lavou os pés de Judas, mostrou-lhe uma afeição comovedora; aproximou o rosto dos pés do Apóstolo infiel, disse-lhe muito baixo que se arrependesse, pois que já por um ano pensava em tornar-se infiel e traidor. Judas, porém, parecia não querer perceber e falava com João. Pedro irritou-se com isso e disse-lhe: "Judas, o Mestre fala-te". Então disse Judas algumas palavras vagas e evasivas a Jesus, como: "Senhor, tal coisa nunca farei".
Os outros não perceberam as palavras que Jesus dissera a Judas, pois falara baixo e eles não prestaram atenção; estavam ocupados em calçar as sandálias. Nada, em toda a Paixão, afligiu tão profundamente o Senhor como a traição de Judas. Jesus lavou depois ainda os pés de João e Tiago. Primeiro, se sentou Tiago e Pedro segurou o odre de água, depois se sentou João e Tiago segurou a bacia.
Jesus ensinou ainda sobre a humildade, dizendo que aquele que servia aos outros, era o maior de todos e que dali em diante deviam lavar humildemente os pés uns aos outros; tocou ainda na discussão sobre qual deles havia de ser o maior, dizendo muitas coisas que se encontram também no Evangelho.
"Sabeis o que vos fiz? Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque o sou. Se eu, sendo vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, logo deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu fiz, assim façais vós também. Em verdade, em verdade, vos digo: não é o servo maior do que o seu Senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou. Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sereis se também as praticardes.
Não digo isto de todos vós; sei os que tenho escolhido; mas é necessário que se cumpra o que diz a Escritura: "O que come o pão comigo, levantará contra mim o calcanhar". Desde agora vos digo, antes que suceda; para que, quando suceder, creiais que sou eu. Em verdade, em verdade vos digo: O que recebe aquele que eu enviar, a mim me recebe; e o que me recebe a mim, recebe Aquele que me enviou". (Jo. 13, 12 - 20).
Jesus vestiu de novo as vestes. Os Apóstolos desenrolaram também as vestes, que antes tinham arregaçado, para comer o cordeiro pascal.

Instituição da Sagrada Eucaristia

Por ordem do Senhor, o mordomo pusera novamente a mesa e colocara-a um pouco mais alto e no meio, coberto de um tapete, sobre o qual estendera uma toalha vermelha e em cima desta, outra branca, bordada a crivo. Por baixo da mesa pôs um jarro de água e outro de vinho.
Pedro e João, indo à parte da sala onde era o forno do Cordeiro pascal, buscaram o cálice que haviam trazido da casa de Seráfia. Transportaram-no solenemente, dentro do invólucro; eu tinha a impressão de que carregavam um Tabernáculo. Colocaram-no sobre a mesa, diante de Jesus. Havia também um prato oval, com três pães ázimos, brancos e delgados, marcados com sulcos regulares; eram por estes divididos em três partes, no sentido da largura e no duplo de partes da largura, no sentido do comprimento.
Os pães estavam cobertos. Jesus já lhes fizera ligeiras incisões, durante a ceia pascal, para parti-los mais facilmente e pusera por baixo da toalha a metade do pão partido no banquete pascal. Estavam também sobre a mesa um cântaro de água e outro de vinho, como também três vasos, um com óleo grosso, outro com azeite, o terceiro vazio e mais uma espátula.
Desde os antigos tempos reinava o costume de partir o pão e beber do mesmo cálice no fim do banquete; era sinal de fraternidade e amor, usado por ocasião de boa vinda e despedida. Creio que há alguma coisa a este respeito também na Escritura Sagrada. Jesus, porém, elevou esse uso à dignidade do Santíssimo Sacramento. Até então tinha sido somente um rito simbólico e figurativo. Pela traição de Judas foi levado ao tribunal também a acusação de ter Jesus juntado alguma coisa nova às cerimônias da Páscoa; Nicodemos, porém, provou com trechos da Escritura Sagrada, que esse uso de despedida era muito antigo.
O lugar de Jesus era entre Pedro e João. As portas estavam fechadas; tudo se fez com solenidade misteriosa. Depois de se haver tirado do cálice o invólucro, e levado à parte separada da sala, rezou Jesus, falando num tom solene. Vi que lhes explicava todas as santas cerimônias da última ceia; era como se um sacerdote ensinasse aos outros a santa Missa.
Em seguida tirou da bandeja em que estavam os vasos, um tabuleiro corrediço, tomou o pano de linho que cobria o cálice e estendeu-o sobre o tabuleiro. Depois o vi tirar do cálice uma patena redonda e pô-la sobre o tabuleiro coberto. Tirou então os pães que estavam ao lado, num prato coberto com um pano de linho e colocou-os na patena, diante de si. Os pães, que tinham a forma de um quadrilátero oblongo, excediam dos dois lados a patena, cuja borda, porém, permanecia visível na largura.
Em seguida puxou para si o cálice, tirou dele um copinho, colocando também os seis copos pequenos à direita e esquerda do cálice. Depois benzeu o pão ázimo e, creio, também os óleos, que estavam ao lado, levantou a patena, em que estavam os pães ázimos, com ambas as mãos, olhou para o céu, rezou e ofereceu-o a Deus, pôs a patena no tabuleiro e cobriu-a. Depois tomou o cálice, mandou Pedro derramar vinho e João derramar água, que antes benzera e juntou ainda um pouco de água, que colheu com a colherzinha. Benzeu o cálice, levantou-o, ofereceu-o, rezando e colocou-o no tabuleiro.
Mandou a Pedro e João derramarem-Lhe água sobre as mãos, por cima do prato em que anteriormente foram postos o pães ázimos e, tirando a colherinha do pé do cálice, apanhou um pouco da água que lhe correra sobre as mãos e espargiu-a sobre as mãos dos dois Apóstolos. Depois passou o prato em redor da mesa e todos lavaram nele as mãos. Não me lembro bem se foi essa a ordem exata das cerimônias; mas tudo isso, que me lembrou muito o santo Sacrifício da Missa, comoveu-me profundamente.
Durante esse santo ato tornou-se Jesus cada vez mais afetuoso; disse-lhes que agora queria dar-lhes tudo que tinha: sua própria pessoa. Era como se derramasse sobre eles todo o seu amor e vi-O tornar-se transparente; parecia uma sombra luminosa.
Orando com esse amor, partiu o pão nas partes marcadas, as quais amontoou sobre a patena, em forma de pirâmide. Do primeiro bocado quebrou um pedacinho com a ponta dos dedos e deixou-o cair no cálice.
No momento em que o fez, tive a impressão de que a SS. Virgem recebeu o Santo Sacramento espiritualmente, apesar de não estar ali presente. Não sei agora como a vi; mas pensei vê-la entrar pela porta, sem tocar no chão e aproximar-se de Jesus, do lado desocupado da mesa e receber o santo Sacramento em frente d’Ele; depois não a vi mais. Jesus dissera-lhe de manhã, em Betânia, que celebraria a Páscoa junto com ela, marcando-lhe a hora em que, recolhida em oração, devia recebê-la espiritualmente.
O Senhor rezou ainda e ensinou; todas as palavras lhe saíram da boca como fogo e luz e entraram nos Apóstolos, com exceção de Judas. Depois tomou a patena com os bocados de pão (não sei, mais se a tinha posto sobre o cálice) e disse: "Tomai e comei, isto é o meu corpo, que será entregue por vós". Nisso estendeu a mão direita como para benzer e, enquanto assim fazia, saiu dEle um esplendor, suas palavras eram luminosas e também o era o pão que se precipitou na boca dos Apóstolos, como um corpo resplandecente; era como se Ele mesmo entrasse neles. Vi-os todos penetrados de luz; só Judas vi escuro.
O Senhor deu o Sacramento primeiro a Pedro, depois a João; em seguida fez sinal a Judas para aproximar-se; foi o terceiro, a quem deu o SS. Sacramento. Mas a palavra do Cristo parecia recuar da boca do traidor. Fiquei tão horrorizada, que não posso exprimir o que senti nesse momento. Jesus, porém, disse-lhe: "Faze já o que queres fazer" e continuou a dar o Santo Sacramento aos Apóstolos, que se aproximaram dois a dois, segurando alternadamente, em frente um do outro, um pequeno pano engomado, bordado nos lados, o qual cobria o cálice.
Jesus levantou o cálice pelas duas argolas até à altura do rosto e pronunciou as palavras da consagração sobre ele. Nesse ato ficou transfigurado e como transparente, parecendo passar tudo o que lhes deu. Fez Pedro e João beberem do cálice, que segurava nas mãos, colocando-o depois na mesa; João passou com a colherzinha o SS. Sangue do cálice para os copinhos, que Pedro ofereceu aos Apóstolos, os quais beberam dois a dois de um copo. Creio, mas não tenho absoluta certeza, que Judas também participou do cálice; não voltou, porém, ao seu lugar, mas saiu imediatamente do Cenáculo.
Como Jesus lhe tivesse feito um sinal, pensaram os outros que o tivesse encarregado de algum negócio. Retirou-se sem ter rezado e feito a ação de graças, por onde se vê como é mau retirar-se sem ação de graças, depois de tomar o pão quotidiano ou o Pão Eterno. Durante toda a refeição, eu tinha visto ao pé de Judas a figura de um pequeno monstro vermelho e hediondo, cujo pé era como um osso descarnado e que às vezes lhe subia até o coração. Quando saiu da casa, vi três demônios cercarem-no: um entrou-lhe na boca, outro empurrou-o para a frente e o terceiro correu-lhe à frente. Era noite e eles pareciam alumiá-lo; Judas corria como um louco.
O Senhor deitou o resto do Santíssimo Sangue, que ainda ficara no fundo do cálice, no copinho que antes estivera dentro do cálice; pondo depois os dedos por cima do cálice, mandou Pedro e João derramarem água e vinho sobre eles. Feito isso, fê-los beber ambos do cálice e o resto vazou-os nos outros copinhos, distribuindo-os pelos outros Apóstolos.
Em seguida Jesus enxugou o cálice, meteu nele o pequeno copo, contendo o resto do Santíssimo Sangue, colocou em cima a patena, com os restantes pães ázimos consagrados pôs a tampa e cobriu o cálice de novo com o pano, colocando-o depois sobre a bandeja, entre os seis copinhos. Vi os Apóstolos comungarem dos restos do Santíssimo Sacramento, depois da ressurreição de Jesus.
Não me lembro de ter visto o Senhor comer as espécies consagradas, a não ser que eu não reparasse. Dando o Santíssimo Sacramento, deu-se de modo que parecia sair de si mesmo e derramar-se nos Apóstolos, numa efusão de amor misericordioso. Não sei como posso exprimi-lo.
Também não vi Melquisedec, quando ofereceu pão e vinho, comê-lo e bebê-lo. Soube também porque os sacerdotes o consomem, apesar de Jesus não o ter feito.
Dizendo isso, Catharina Emmerich virou de repente a cabeça, como para escutar; recebeu uma explicação sobre esse ponto, da qual pôde comunicar somente o seguinte: "Se fosse administrado pelos Anjos, estes não o teriam recebido; se, porém, os sacerdotes não o recebessem, já se teria perdido há muito; por isso é que se conserva".
Todas as cerimônias, durante a instituição do SS. Sacramento, foram feitas por Jesus com muita calma e solenidade, para ao mesmo tempo ensinar e instruir os Apóstolos, os quais vi depois tomarem notas de certas coisas, nos pequenos rolos que tinham consigo. Todos os movimentos de Jesus, para a direita e para a esquerda, eram solenes, como sempre que estava rezando. Tudo mostrava em geral o santo Sacrifício da Missa. Durante a cerimônia e em outras ocasiões, vi também os Apóstolos se inclinarem uns diante dos outros ao aproximarem-se, como ainda fazem os sacerdotes de hoje.

Instruções secretas e consagrações

Jesus deu ainda instruções secretas. Disse aos Apóstolos que continuassem a consagrar e administrar o SS. Sacramento, até o fim do mundo. Ensinou-lhes as formas essenciais da administração e do uso do Sacramento e de que modo deviam gradualmente ensinar e publicar esse mistério; explicou-lhes quando deviam receber o resto das espécies consagradas e dá-lo à SS. Virgem e que deviam consagrar também o SS. Sacramento, depois de lhes ter enviado o Divino Consolador.
Instruiu-os em seguida sobre o sacerdócio, sobre a preparação do Crisma e dos santos óleos e sobre a unção. Estavam ao lado do cálice três urnas, duas das quais continham misturas de bálsamo e diversos óleos e algodão; as urnas podiam ser postas uma em cima da outra. Jesus ensinou-lhes muitos mistérios, como se devia preparar o santo Crisma, a que partes do corpo se devia aplicar e em que ocasiões.
Lembro-me, entre outras coisas, que mencionou um caso em que a sagrada Eucaristia não podia mais ser recebida; talvez se tenha referido à Extrema-Unção: mas as minhas lembranças a tal respeito não são muito claras. Falou ainda de diversas unções, inclusive a dos reis e disse que os reis sagrados com o Crisma, mesmo os injustos, possuíam uma força interna misteriosa, que não era dada aos outros. Derramou, pois, ungüento e óleo na urna vazia e misturou-os; não sei mais positivamente se foi nesse momento ou já por ocasião da consagração dos pães, que benzeu o óleo.
Vi depois Jesus ungir a Pedro e João; já por ocasião da instituição do SS. Sacramento lhes derramara sobre as mãos a água que sobre as suas lhe correra e os fizera também beber do cálice que Ele mesmo segurava.
Saindo do meio da mesa, um pouco para o lado, pousou as mãos primeiro sobre os ombros e depois sobre a cabeça de Pedro e João. Em seguida mandou que ficassem de mãos postas e colocassem os polegares em forma de cruz. Inclinaram-se os dois Apóstolos profundamente diante do Mestre (não sei se aí estavam de joelhos). O Senhor ungiu-lhes os polegares e indicadores com ungüento e fez-lhes com o mesmo também o sinal da cruz na cabeça.
Disse-lhes também que essa unção devia permanecer com eles até o fim do mundo. Tiago o Menor, André, Tiago o Maior e Bartolomeu receberam também ordens. Vi também o Senhor ajustar em forma de cruz, sobre o peito de Pedro, a faixa estreita de pano, que todos traziam ao pescoço; aos outros, porém, do ombro direito para debaixo do braço esquerdo. Não sei mais com certeza se isso se fez já por ocasião da instituição do SS. Sacramento ou só na hora da unção.
Vi, porém, que Jesus lhes comunicou com essa unção uma coisa real e também sobrenatural, não sei como exprimi-lo em palavras. Disse-lhes mais que, depois de terem recebido o Espírito Santo, deviam também consagrar pão e vinho e dar a unção aos outros Apóstolos. Nesse momento tive uma visão sobre Pedro e João que, no dia de Pentecostes, antes do grande batismo, impuseram as mãos aos outros Apóstolos, o que também fizeram, uma semana depois, a alguns outros discípulos.
Vi também João, depois da ressurreição de Jesus, dar pela primeira vez o SS. Sacramento a Nossa Senhora. Esse acontecimento foi celebrado pelos Apóstolos com grande solenidade; a Igreja militante não tem mais essa festa, mas vejo-a celebrada ainda na Igreja triunfante. Nos primeiros dias depois de Pentecostes vi só Pedro e João consagrarem a santa Eucaristia, mais tarde a consagraram também os outros.
O Senhor benzeu-lhes também fogo, num vaso de bronze; esse fogo desde então ardeu sempre, até depois de longas ausências era guardado junto ao lugar onde se conservava o SS. Sacramento, numa parte do antigo fogão pascal; ali sempre o buscavam para as cerimônias religiosas.
Tudo que Jesus fez por ocasião da instituição da sagrada Eucaristia e da unção dos Apóstolos, foi debaixo de grande segredo e era também ensinado só secretamente e tem se conservado, na sua essência, pela Igreja até os nossos tempos, aumentado, porém, sob a inspiração do Espírito Santo, conforme as necessidades.
Os Apóstolos ajudaram na preparação e bênção do santo Crisma; quando Jesus os ungiu e lhes impôs as mãos, fez tudo com grande solenidade.
Terminadas as santas cerimônias, o cálice, perto do qual estavam também os santos óleos, foi coberto com a capa e Pedro e João levaram assim o SS. Sacramento para o fundo da sala, separado do resto por uma cortina e ali era desde então o Santuário. O SS. Sacramento estava por cima do fogão pascal, não muito alto. José de Arimatéia e Nicodemos cuidavam do Santuário e do Cenáculo, na ausência dos Apóstolos.
Jesus ensinou ainda por muito tempo e disse algumas orações com grande fervor. Parecia às vezes conversar com o Pai celeste, cheio de entusiasmo e amor. Os Apóstolos também ficaram penetrados de zelo e ardor e fizeram-lhe várias perguntas, às quais respondeu. Creio que tudo isso está escrito em grande parte na Escritura Sagrada. Durante esses discursos, disse Jesus algumas coisas a Pedro e João separadamente, as quais estes depois deviam comunicar aos outros Apóstolos, como complemento de instruções anteriores e estes aos outros discípulos e às santas mulheres, quando chegassem ao tempo de receberem tais conhecimentos.
Pedro e João estavam sentados perto de Jesus. O Senhor teve também uma conversa particular com João, da qual me lembro agora apenas o prognóstico de que a vida deste Apóstolo seria mais longa que a dos outros; falou-lhe também de sete Igrejas, de coroas, Anjos e outras figuras simbólicas, com as quais designava, como me parece, certas épocas. Os outros Apóstolos sentiram, diante dessa confiança particular, um leve movimento de inveja.
O Mestre falou também diversas vezes do traidor, dizendo o que naquela hora este estava fazendo; vi sempre Judas fazer o que o Senhor dizia. Como Pedro lhe afirmasse, com grande ardor, que havia de permanecer fiel, disse-lhe Jesus: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclama com instância, para vos joeirar como o trigo; mas eu roguei por ti, afim de que tua fé não desfaleça; e tu enfim, depois de convertido, confirma na fé teus irmãos". Como, porém, Jesus dissesse que onde iria, não poderiam seguí-lo, exclamou Pedro que o seguiria até a morte. Replicou Jesus: "Em verdade, antes que o galo cante duas vezes, tu me negarás três vezes,"
Quando lhes anunciou os tempos duros que viriam, perguntou-lhes: "Quando vos enviei sem alforje, sem sapatos, faltou-lhes porventura alguma coisa?" Responderam: "Não". Disse, porém, que daquela hora em diante, quem tivesse bolsa, a tomasse e também alforje e o que nada tivesse, vendesse a túnica e comprasse espada, pois que se devia cumprir a palavra: "E foi reputado por um dos iníquos". Tudo que fora escrito sobre Ele, devia cumprir-se então.
Os Apóstolos entenderam-no no sentido natural e Pedro mostrou-Lhe duas espadas curtas e largas, como cutelos.
Jesus disse: "Basta, vamo-nos daqui". Rezaram então um cântico; a mesa foi posta ao lado e dirigiram-se todos ao vestíbulo.
Ali se aproximaram a mãe de Jesus, Maria de Cleofas e Madalena, que lhe pediram instantemente que não fosse ao monte das Oliveiras; pois se propagara o boato de que queriam apoderar-se dEle. Mas Jesus consolou-as com poucas palavras, continuando apressadamente o caminho; eram cerca de 9 horas da noite. Descendo a grandes passos pelo caminho pelo qual Pedro e João tinham vindo ao Cenáculo, dirigiram-se ao monte das Oliveiras.

Aqui terminam, no livro, as revelações referentes à Santíssima Eucaristia. Segue no texto a chamada oração de despedida, conforme foi relatada por São João no seu Evangelho nos capítulos 14 a 17. Como já temos este texto, embora maravilhoso, não o relataremos novamente, porque o intuito principal é mostrar as revelações novas.

Creio que ficou claro ao leitor, o imenso cuidado, também a profundidade e a extrema compenetração de Jesus, durante esta primeira Missa e a instituição do Sacramento da Eucaristia. Efetivamente Jesus já sentia os efeitos daquilo que viria a seguir. Já diante de seus olhos estavam os algozes, e a sua dor começara com as manobras sujas do traidor, Judas, em todas as suas tramas para trair o mestre. Quem de nós, num momento grave como aquele, teria forças para não dar uma surra ou pelo menos lhe dizer umas verdades e expulsá-lo dali? Com angústia dobrada o Senhor fez esta refeição, e isso nos serve também de duplo exemplo: Primeiro, para renovar em nós a absoluta necessidade do perdão, sem o qual não se pode ir à Eucaristia. Segundo, para nos compenetrarmos da imensidão dos sacrilégios que hoje se comete, como novos Judas, pois ele foi o primeiro sacrílego e maior. Ou seja, sacrilégio – comungar em pecado grave – é beber a própria condenação.

Que façamos, hoje, aqui, o propósito firme e inarredável, de jamais o cometermos.

Até nosso próximo texto, fiquem com Jesus Eucarístico!

Aarão!

O CORDEIRO DE DEUS - Parte 6

Este texto será certamente um dos mais longos de todos. Não a cruz, não o Calvário, não a Flagelação – embora tudo – foi com toda a certeza a agonia de Jesus no Horto das Oliveiras, a parte do livro de Ana Catarina que mais profundamente me abalou. Não porque os outros sofrimentos citados não fossem inauditos, mas sim porque aqui estava eu, e está cada um de nós, diante do tribunal de Deus. Aqui, no sangue derramado no Horto, está claro o motivo de todo o imenso sofrimento de Jesus. É aqui que descobriremos – nós dois, você e eu - miseráveis pecadores, que fomos nós os verdadeiros autores desta "tragédia". O Horto foi um verdadeiro palco de horrores, onde ninguém igual a Jesus, que era Deus, sentiu os efeitos dos pecados da humanidade. E tais foram, e tantos foram, e tão horrendos foram, que todos os sofrimentos dos homens juntos, não passam de uma simples gota de sangue, naquele cálice de horrores. Esta gota é o símbolo da miséria, e também da tragédia humana.

Por isso, preferimos deixar o texto das revelações na íntegra, uma vez que se tratam de matéria desconhecida, embora no total este capítulo contenha matéria de um pequeno livro.

Jesus, com os Apóstolos, a caminho do horto de Getsêmani

Quando Jesus, depois da instituição do SS. Sacramento, saiu do Cenáculo com os onze Apóstolos, já tinha a alma oprimida de aflição e crescente tristeza. Conduziu os onze, por um desvio, ao vale de Josafá, dirigindo-se ao monte das Oliveiras. Ao chegarem ao portão, vi a lua, ainda não inteiramente cheia, levantar-se por cima da montanha. Andando com os Apóstolos pelo vale, disse-lhes o Senhor que lá voltaria um dia, para julgar o mundo, mas não pobre e sem poder como hoje, e que então muitos, com grande medo, exclamariam: "Montes, cobri-nos".
Os discípulos não O compreenderam, pensando, como muitas vezes nessa noite, que a fraqueza e o esgotamento os faziam delirar. Ora andavam, ora paravam, conversando com o Mestre. Disse-lhes também Jesus: "Vós todos haveis de escandalizar-vos em mim esta noite; pois está escrito: "Tirarei o pastor, e as ovelhas serão dispersas. - Mas, quando tiver ressuscitado, preceder-vos-ei na Galiléia".
Os Apóstolos estavam ainda cheios de entusiasmo e amor, pela recepção do SS. Sacramento e pelas palavras solenes e afetuosas de Jesus. Comprimiam-se-Lhe em torno, exprimindo-Lhe de vários modos o seu amor e protestando que não O abandonariam nunca. Mas, como Jesus continuasse a falar no mesmo sentido, disse-lhe Pedro: "E, se todos se escandalizarem por vossa causa, eu nunca me escandalizarei". Respondeu-lhe o Senhor: "Em verdade te digo, tu mesmo três vezes me negarás esta noite, antes do galo cantar". Pedro, porém, não quis conformar-se de modo algum e disse: "Mesmo que tivesse de morrer convosco, não vos havia de negar".
Assim falaram também todos os outros. Continuavam andando e parando alternadamente e a tristeza de Jesus aumentava cada vez mais. Queriam os Apóstolos consolá-Lo de modo inteiramente humano, assegurando-lhe que não aconteceria tal. Nesses vãos esforços se cansaram, começaram a duvidar e veio-lhes a tentação.
Atravessaram a torrente Cedron, não pela ponte, sobre a qual Jesus foi depois conduzido preso, mas por outra, porque tinham tomado um desvio. Getsêmani, situado no monte das Oliveiras, para onde se dirigiram, fica a meia hora certa do Cenáculo, pois do Cenáculo à porta que dá para o vale de Josafá, se leva um quarto de hora e dali a Getsêmani outro tanto.
Este lugar, no qual Jesus ensinou algumas vezes aos discípulos, passando ali a noite com eles nos últimos dias, consta de algumas casas de pousada, abertas e desocupadas e de um largo jardim, cercado de sebe, no qual há somente plantas ornamentais e árvores frutíferas. Os Apóstolos e diversas outras pessoas tinham a chave desse jardim, que era um lugar de recreio e de oração. Gente que não tinha jardim próprio fazia às vezes festas e banquetes ali.
Havia também vários caramanchões de folhagem espessa, num dos quais ficaram naquele dia oito Apóstolos e alguns outros discípulos, que se lhes juntaram mais tarde. O horto das Oliveiras é separado do Jardim de Getsêmani por um caminho e estende-se mais para o alto do monte. É aberto, cercado apenas de um aterro e menor do que Getsêmani, um canto cheio de grutas e recantos, em que por toda a parte se vêem oliveiras. Um lado era mais bem tratado; havia nele assentos, bancos de relva bem cuidados e grutas espaçosas e sombrias. Quem quisesse, podia ali facilmente achar um lugar próprio para a oração e meditação. Era à parte mais sem cuidados que Jesus ia rezar.

Jesus atribulado pelos horrores do pecado

Eram quase 9 horas da noite, quando Jesus chegou, com os discípulos, a Getsêmani. Ainda reinava a escuridão na terra, mas no céu a lua já espargia a luz prateada. Jesus estava muito triste e anunciou-lhes a aproximação do perigo. Os discípulos assustaram-se e Ele disse a oito dos companheiros que ficassem no Jardim de Getsêmani, num lugar onde havia um caramanchão. "Ficai aqui, disse, enquanto vou ao meu lugar rezar".
Tomando consigo Pedro, João e Tiago o Maior, subiu mais para o alto e, cruzando um caminho, avançara, numa distância de alguns minutos, do horto das Oliveiras ao pé do monte. Ele estava numa indizível tristeza; pressentia a tribulação e tentação, que se aproximavam. João perguntou-lhe como podia agora estar tão abatido, quando sempre os tinha consolado. Então Jesus disse: "Minha alma está triste até a morte" e, olhando em redor de si, viu de todos os lados se aproximarem angústias e tentações, como nuvens cheias de figuras assustadoras.
Foi nessa ocasião que disse aos Apóstolos: "Ficai aqui e vigiai comigo; orai, para não serdes surpreendidos pela tentação". Eles ficaram então ali; Jesus, porém, adiantou-se ainda mais; mas as horrorosas visões assaltavam-no de tal modo, que, cheio de angústia, desceu um pouco à esquerda dos três Apóstolos, escondendo-se debaixo de um grande rochedo, numa gruta de talvez 7 pés de profundidade; os Apóstolos ficaram em cima desse rochedo, numa espécie de cavidade. O chão da gruta era suavemente inclinado e as plantas pendentes do rochedo, que sobressaía em frente, formavam uma cortina diante da entrada, de maneira que quem estivesse dentro da gruta, não podia ser visto de fora.
Quando Jesus se afastou dos discípulos, vi em redor dele um largo circulo de imagens horríveis, o qual se apertava mais e mais. Cresceu-lhe a tristeza e a tribulação e retirou-se tremendo para dentro da gruta, semelhante ao homem que, fugindo de uma repentina tempestade, procura abrigo para rezar, vi, porém, que as imagens assustadoras o perseguiram lá dentro da gruta, tornando-se cada vez mais distintas.
A estreita caverna parecia encerrar o horrível espetáculo de todos os pecados cometidos, desde a primeira queda do homem, até ao fim dos séculos, como também todos os castigos. Foi ali, no monte das Oliveiras, que Adão e Eva, expulsos do Paraíso, pisaram primeiro a terra e foi nessa caverna que choraram e gemeram.
Tive a clara impressão de que Jesus, entregando-se às dores da Paixão, que ia começar e sacrificando-se à justiça divina, em satisfação de todos os pecados do mundo, de certo modo retirou a sua divindade para o seio da SS. Trindade; impelido por amor infinito, quis entregar-se à fúria de todos os sofrimentos e angústias, na sua humanidade puríssima e inocente, verdadeira e profundamente sensível, para expiação dos pecados do mundo, armado somente do amor do seu coração humano.
Querendo satisfazer pela raiz e por todas as excrescências do pecado e da má concupiscência, tomou o misericordiosíssimo Jesus no coração a raiz de toda a expiação purificadora e de toda a dor santificante, por amor de nós, pecadores e, para satisfazer pelos pecados inumeráveis, deixou esse sofrimento infinito estender-se, como uma árvore de dores e penetrar-lhe com mil ramos todos os membros do corpo sagrado, todas as faculdades da alma santa.
Entregue assim inteiramente à sua humanidade, implorando a Deus com tristeza e angústia indizíveis, prostrou-se por terra. Viu em inumeráveis imagens todos os pecados do mundo, com toda a sua atrocidade, tomou todos sobre si, e ofereceu-se na sua oração, para dar satisfação à justiça do Pai Celestial, pagando com os sofrimentos toda essa dívida da humanidade para com Deus.
Satanás, porém, que se movia no meio de todos os horrores, em figura terrível e com um riso furioso, enraivecia-se cada vez mais contra Jesus e, fazendo passar-lhe diante da alma visões sempre mais horrorosas, gritou diversas vezes à humanidade de Jesus: "Que? Tomarás também isto sobre ti? Sofrerás também castigo por este crime? Como podes satisfazer por tudo isto?"
Veio, porém, um estreito feixe de luz, da região onde o sol está entre as dez e onze horas, descendo sobre Jesus e nela vi surgir uma fileira de Anjos, que Lhe transmitiram força e ânimo. A outra parte da gruta estava cheia de visões horrorosas dos nossos pecados e de maus espíritos, que O insultavam e agrediam; Jesus aceitou tudo; o seu Coração, O único que amava perfeitamente a Deus e aos homens, nesse deserto cheio de horrores, sentia com dilacerante tristeza e terror a atrocidade e o peso de todos esses pecados. Ai! vi tantas coisas ali! Nem um ano chegaria para contá-las!

Tentações da parte de Satanás

Quando essa multidão de culpas e pecados acabou de passar diante da alma de Jesus, como um mar de horrores e após se haver ele oferecido, como sacrifício de expiação por tudo e chamado sobre si toda a onda de penas e castigos, suscitou-lhe Satanás inumeráveis tentações, como outrora no deserto; apresentou até numerosas acusações contra o puríssimo Salvador. "Que?" disse ele, "Queres tomar tudo isto sobre ti e não és puro? Vê isto e aquilo e mais isto!" E então desenrolou, diante dos olhos imaculados da Divina Vítima, com impertinência infernal, uma multidão de acusações inventadas.
Acusou-O das faltas dos discípulos, dos escândalos que tinham dado, das perturbações que Ele trouxe ao mundo, renunciando aos costumes antigos. Satanás procedeu como o mais hábil e astuto fariseu. Acusou-O de ter sido a causa da matança dos inocentes por Herodes, dos perigos e sofrimentos de seus pais no Egito; acusou-O de não ter salvado da morte a João Batista, de ter desunido famílias, protegido pessoas de má fama, de não ter curado certos doentes, de ter causado prejuízo aos habitantes de Gergesa, porque permitiu aos possessos que entornassem a sua dorna de bebidas e porque causou a morte da manada de porcos no lago.
Imputou-Lhe as faltas de Maria Madalena, por não lhe ter impedido a recaída no pecado; acusou-O de ter abandonado a família e de ter dissipado o bem alheio; numa palavra, tudo de que Satanás podia ter acusado, na hora da morte, um homem comum, que tivesse feito tais ações externas, sem motivos sobrenaturais: tudo apresentou o tentador à alma abatida de Jesus, para amedrontá-la e desanimá-la; pois ignorava que Jesus era o Filho de Deus e tentou-O somente como ao mais justo dos homens. Nosso Salvador deixou predominar a sua humanidade de tal modo, que quis sofrer também aquelas tentações, que assaltam mesmo os homens que têm uma morte santa, pondo em dúvida o valor interno das suas obras boas.
Jesus permitiu, para esvaziar todo o cálice da agonia, que o tentador, ignorando-Lhe a divindade, Lhe apresentasse todas as suas obras de caridade como outras tantas dívidas, ainda não pagas, à graça divina. O tentador censurou-O de querer expiar as culpas de outros, Ele, que não tinha méritos e que tinha ainda de satisfazer à justiça divina, pelas graças de tantas obras que considerava boas.
A divindade de Jesus permitiu que o inimigo lhe tentasse a humanidade, como podia tentar um homem que quisesse atribuir às suas obras um valor próprio, além daquele único que podem ter, da união com os méritos da morte redentora de nosso Senhor e Salvador.
O tentador apresentou-Lhe assim todas as suas obras de amor como atos privados de todo mérito, que antes O constituíam devedor de Deus, porque, segundo o acusador, o seu valor provinha antecipadamente, por assim dizer, dos méritos da Paixão, ainda não consumada e cujo valor infinito Satanás ainda não conhecia; portanto, não teria Jesus ainda satisfeito, na opinião do tentador, pelas graças recebidas para essas obras.
Apresentou-lhe títulos de dívida por todas essas boas obras e disse, aludindo à estas: "Ainda deves por esta obra e por aquela". Finalmente desenrolou mais um título de dívida diante de Jesus, afirmando que tinha recebido e gasto o preço da venda da propriedade de Maria Madalena em Magdalum; disse a Jesus: "Como ousaste desperdiçar o bem alheio, prejudicando assim aquela família?".
Vi a apresentação de tudo a cuja expiação Jesus se oferecera e senti com Ele todo o peso das numerosas acusações que o tentador levantou contra Ele; pois, entre os pecados do mundo que o Salvador tomou sobre si, vi também os meus inumeráveis pecados e do círculo das tentações veio também a mim, um como rio de acusações, nas quais se me patentearam todos os meus pecados de atos e omissões.
Eu, porém, olhava sempre para o meu Esposo celeste, durante essa apresentação dos pecados, gemendo e rezando com Ele e virava-me também com Ele para os Anjos consoladores. Ai! O Senhor torcia-se como um verme, sob o peso da dor e das angústias!
Durante todas essas acusações de Satanás contra o puríssimo Salvador, somente com grande esforço consegui conter-me; mas, quando levantou a acusação da venda da propriedade de Madalena, não pude mais me conter e gritei-lhe: "Como podes chamar dívida o preço da venda dessa propriedade? Eu mesma vi o Senhor, com essa quantia, que lhe foi entregue por Lázaro, para obras de misericórdia, remir 27 pobres desamparados dos cárceres de Tirza.
A princípio estava Jesus de joelhos, rezando tranqüilamente; mais tarde, porém, se lhe assustou a alma, à vista da atrocidade dos inumeráveis crimes e da ingratidão dos homens para com Deus; assaltaram-no angústia e dor tão veementes, que suplicou tremendo: "Meu Pai, se for possível, passe este cálice longe de mim. Meu Pai, tudo vos é possível: afastai este cálice de mim". Depois sossegou e disse: "Não se faça, porém, a minha vontade, mas a vossa". A sua vontade e a do Pai eram uma só; mas entregue à fragilidade da natureza humana, por amor, Jesus tremia à vista da morte.

Jesus volta para junto dos três, Apóstolos

Vi a caverna rodeada de formas assustadoras; todos os pecados, toda a iniqüidade, todos os vícios, todos os tormentos, toda a ingratidão, que o angustiavam; vi os terrores da morte, o horror que sentia, como homem, diante do imenso sofrimento expiatório, assaltando-O e oprimindo-O, sob as formas de espectros hediondos.
Ele caiu por terra, torcendo as mãos; cobria-O o suor da angústia; tremia e estremecia. Levantou-se, mas os joelhos trementes quase não O suportavam; estava inteiramente desfigurado e irreconhecível, os lábios pálidos, o cabelo eriçado. Eram cerca de dez horas e meia, quando se levantou e se arrastou para junto dos três Apóstolos, cambaleando, caindo a cada passo, banhado num suor frio. Subiu à esquerda da caverna, e, passando por cima desta, chegou a um aterro, onde os discípulos estavam adormecidos, encostados um ao outro, abatidos pela fadiga, tristeza, inquietação e tentação.
Jesus aproximou-se-lhes, como um homem angustiado a quem o terror impele para junto dos amigos e como um bom pastor que, transtornado profundamente, vai para junto do rebanho, que sabe, ameaçado de um perigo próximo; pois não ignorava que também eles se achavam em angústia e tentação. Vi as horrorosas visões cercarem-no também nesse curto caminho.
Encontrando os Apóstolos a dormir, torceu as mãos e caiu por terra ao lado deles, cheio de tristeza e fraqueza, dizendo: "Simão, dormes?" Então acordaram e levantaram-se; e Ele disse, no seu desamparo: "Então não pudestes velar uma hora comigo?". Quando o viram tão assustado e desfigurado, pálido, cambaleando, banhado em suor, tremendo e estremecendo, quando O ouviram queixar-se com voz quase extinta, não sabiam mais o que pensar; se não lhes tivesse aparecido cercado de certa luz que bem conheciam, não o teriam reconhecido.
Disse-lhe João: "Mestre, que tendes? Quereis que chame os outros Apóstolos? Devemos fugir?". Jesus, porém, respondeu: "Ainda que vivesse mais 33 anos, ensinando e curando enfermos, não chegaria ao que tenho de cumprir até amanhã. Não chames os oito; deixai-os ali, porque não poderiam ver-me nesta aflição, sem escandalizar-se; cairiam em tentação, esquecer-se-iam de muitas coisas e duvidariam de mim. - Vós, porém, que vistes o Filho do homem transfigurado, podeis vê-lo também no seu desamparo; mas vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito é pronto, mas a carne é fraca".
Disse-o, referindo-se a eles e a si mesmo. Quis induzí-los, com essas palavras, à perseverança e dar-lhes a saber a luta da sua natureza humana contra a morte e a causa daquela fraqueza. Falou-lhes ainda sobre outras coisas, sempre abismado naquela tristeza e ficou cerca de um quarto de hora com eles. Em angústia mais e mais crescente voltou à gruta; eles, porém, estenderam para Ele as mãos chorando e caíram uns nos braços dos outros, perguntando: "Que é isto? Que lhe aconteceu? Está tão desolado!" Começaram a rezar, com as cabeças cobertas, cheios de tristeza.
Tudo que acabo de contar, deu-se em mais ou menos uma hora e meia, depois que entraram no horto das Oliveiras. É verdade que Jesus disse, segundo o Evangelho: "Não podeis velar uma hora comigo?" Mas não se o pode entender ao pé da letra, segundo o nosso modo de falar, os três Apóstolos, que vieram com Jesus, tinham rezado no começo; mas depois adormeceram; conversando entre si com pouca confiança, caíram em tentação. Os oito Apóstolos, porém, que ficaram na entrada do horto, não dormiram. A angústia que se mostrara nessa noite em todos os discursos de Jesus, tornou-os muito perturbados e inquietos; erravam pelas vizinhanças do monte das Oliveiras para procurar um lugar de refúgio, em caso de perigo.
Em Jerusalém houve nessa noite pouco movimento; os judeus estavam nas suas casas, ocupados com os preparativos para a festa. Os acampamentos dos forasteiros que tinham vindo para a festa, não estavam nas vizinhanças do monte das Oliveiras. Enquanto eu ia e voltava nesses caminhos, vi discípulos e amigos de Jesus, andando e conversando; pareciam inquietos, à espera de qualquer desgraça.
A Mãe do Senhor, com Madalena, Marta, Maria, mulher de Cleofas, Maria Salomé e Salomé, assustadas por boatos, foram com amigas para fora da cidade, a fim de ter notícias de Jesus. Ali as encontraram Lázaro, Nicodemos, José de Arimatéia e alguns parentes de Hebron e procuraram sossegá-las; pois, tendo eles mesmos, conhecimento, pelos discípulos, dos tristes discursos feitos por Jesus no Cenáculo, foram pedir informações a alguns fariseus conhecidos e destes souberam que não constava nada sobre tentativas imediatas contra o Senhor.
Disseram por isso às mulheres que o perigo não podia ser grande, que tão próximo da festa não poriam as mãos em Jesus. É que não sabiam da traição de Judas. Maria, porém, contou-lhes o estado perturbado deste nos últimos dias ao sair do Cenáculo e advertiu-os de que com certeza fora trair ao Senhor, apesar das repreensões, pois era um filho da perdição. Depois voltaram as santas mulheres à casa de Maria, mãe de Marcos.

Anjos mostram a Jesus a enormidade dos seus sofrimentos e consolam-nO

Voltando à gruta, com toda a tristeza que o acabrunhava, Jesus prostrou-se por terra, com os braços estendidos e rezou ao Pai Celeste. Mas passou-lhe na alma nova luta, que durou três quartos de hora. Anjos vieram apresentar-Lhe em grande número de visões, tudo o que devia aceitar de sofrimentos, para expiar o pecado.
Mostraram-lhe a beleza do homem antes do primeiro pecado, como imagem de Deus e quanto o pecado o tinha rebaixado e desfigurado.
Mostraram-lhe como o primeiro pecado fora a origem de todos os pecados, a significação e essência da concupiscência e seus terríveis efeitos sobre as faculdades da alma e do corpo do homem, como também a essência e a significação de todas as penas contrárias à concupiscência.
Mostraram-lhe os seus sofrimentos expiatórios primeiramente como sofrimentos de corpo e alma, suficientes para cumprir todas as penas impostas pela justiça divina à humanidade inteira, por toda a má concupiscência; e depois como sofrimento, que, para dar verdadeira satisfação, castigou os pecados de todos os homens na única natureza humana que era inocente: na humanidade do Filho de Deus, O qual, para tomar sobre si, por amor, a culpa e o castigo da humanidade inteira, devia também combater e vencer a repugnância humana contra o sofrimento e a morte.
Tudo isto lhe mostraram os Anjos, ora em coros inteiros, com séries de imagens, ora separados, com as imagens principais; vi as figuras dos Anjos mostrando com o dedo elevado as imagens e percebi o que disseram, mas sem lhes ouvir as vozes.
Não há língua que possa descrever o horror e a dor que invadiram a alma de Jesus, ao ver esta terrível expiação; pois não viu somente a significação das penas expiatórias contrárias à concupiscência pecaminosa, mas também a significação de todos os instrumentos do martírio, de modo que O horrorizou, não só a dor causada pelos instrumentos, mas também o furor pecaminoso daqueles que os inventaram, a malícia dos que os usavam e a impaciência daqueles que com eles tinham sido atormentados, pois pesavam sobre Ele todos os pecados do mundo. O horror desta visão foi tal, que lhe saiu do corpo um suor de sangue.
Enquanto a humanidade de Jesus sofria e tremia, sob esta terrível multidão de sofrimentos, notei um movimento de compaixão nos Anjos; houve uma pequena pausa: parecia-me que desejavam ardentemente consolá-lo e que apresentavam as súplicas diante do trono de Deus. Era como se houvesse uma luta instantânea entre a misericórdia e a justiça de Deus e o amor que se estava sacrificando.
Foi-me mostrada uma imagem de Deus, não como em outras ocasiões, num trono, mas numa forma luminosa menos determinada; vi a pessoa do Filho retirar-se na pessoa do Pai, como que lhe entrando no peito; a pessoa do Espírito Santo saindo do Pai e do Filho e estando entre Eles; e todos eram um só Deus.
Quem poderá descrever exatamente uma tal visão? Não tive tanto uma visão com figuras humanas, como uma percepção interna, na qual me foi mostrado, por imagem, que a vontade divina de Jesus Cristo se retirava mais para o Pai, para deixar pesar sobre a sua humanidade todos os sofrimentos, que esta pedia ao Pai que afastasse; de modo que a vontade divina de Jesus, unida ao Pai, impunha à sua humanidade todos os sofrimentos que a vontade humana, pelas súplicas, queria afastar.
Vi-O no momento da compaixão dos Anjos, quando estes desejavam consolar Jesus que, com efeito, teve neste instante um certo alívio. Depois desapareceu tudo e os Anjos, com sua compaixão consoladora, abandonaram o Senhor, cuja alma entrou em novas angústias.

Mais imagens de pecados que atormentam o Senhor

Quando o Redentor, no monte das Oliveiras, se entregou, como homem verdadeiro e real, ao horror humano, à dor e à morte, quando se incumbiu de vencer esta repugnância de sofrer, que faz parte de todo o sofrimento, foi permitido ao tentador que lhe fizesse tudo o que costuma fazer a todo homem que quer sacrificar-se por uma causa santa.
Na primeira agonia Satanás mostrara a Nosso Senhor, com raivosa zombaria, a enormidade da culpa do pecado, que quisera tomar a si e levou a audácia a ponto de afirmar que a vida do mesmo Redentor não era livre de pecados.
Na segunda agonia viu Jesus a imensidade da Paixão expiatória, em toda a sua realidade e amargura. Esta apresentação foi feita pelos Anjos; pois não compete a Satanás mostrar a possibilidade da expiação, nem convém que o pai da mentira e do desespero mostre as obras da misericórdia divina. Tendo, porém, Jesus resistido à todas essas tentações, pelo abandono completo à vontade do Pai Celeste, foi-Lhe apresentada à alma uma nova série terrível de visões assustadoras; a dúvida e inquietação que no coração do homem precedem a todo o sacrifício, a pergunta amarga: Qual será o resultado, o proveito deste sacrifício? A visão de um futuro assustador atormentou-Lhe então o Coração amoroso.
Deus mergulhou o primeiro homem, Adão, num profundo sono, abriu-lhe o lado, tomou-lhe uma das costelas, formou dela Eva, a mulher, a mãe de todos os vivos e apresentou-a a Adão. Então disse este: "Este é o osso dos meus ossos e a carne da minha carne; o homem deixará pai e mãe, para aderir à sua mulher e serão dois numa só carne". Do matrimônio foi escrito: "Este sacramento é grande, digo, porém, em Jesus Cristo e na Igreja"; Pois Jesus Cristo, o novo Adão, quis também se submeter a um sono, o sono da morte na Cruz; quis também deixar que lhe abrissem o lado, para que deste fosse feita a nova Eva, sua esposa imaculada, a Igreja, mãe de todos os vivos; quis dar-lhe o sangue da redenção, a água da purificação e o Espírito Santo: os três que dão testemunho na terra; quis dar-lhe os santos Sacramentos, para que fosse uma esposa pura, santa e imaculada; quis ser-lhe a cabeça e nós devíamos ser-lhe os membros, sujeitos à cabeça, devíamos ser os ossos dos seus ossos, carne da sua carne.
Aceitando a natureza humana, para sofrer a morte por nós, tinha Jesus abandonado pai e mãe e unira-se à sua esposa, a Igreja; tornou-se uma carne com ela, alimentando-a com o santíssimo Sacramento do Altar, no qual se une a nós dia após dia; quis permanecer presente na terra com sua esposa, a Igreja, até nos unirmos todos a Ele no Céu e disse: "As portas do inferno não prevalecerão contra ela". Para praticar esse incomensurável amor para com os pecadores, tornara-se homem e irmão dos pecadores, tomando sobre si a pena de toda a culpa.
Tinha visto com grande tristeza a imensidade desta culpa e da paixão expiatória e, contudo entregara-se voluntariamente à vontade do Pai celeste, como vítima expiatória. Neste momento, porém, viu Jesus os sofrimentos, as perseguições, as feridas da futura Igreja, sua esposa, que estava para remir tão caro, com o seu próprio sangue: viu a ingratidão dos homens.
Apresentaram-se-Lhe diante da alma todos os futuros sofrimentos dos Apóstolos, discípulos e amigos, a Igreja primitiva, tão pouco numerosa, depois também as heresias e cismas, que nasceram à medida que a Igreja crescia, repetindo a primeira queda do homem pelo orgulho e desobediência, pelas diversas formas de vaidade e falsa justiça. Viu a tibieza, a corrupção e malícia de um número infinito de cristãos, as mentiras e a esperteza enganadora dos mestres orgulhosos, os crimes sacrílegos de todos os sacerdotes viciosos e todas as horríveis conseqüências: A abominação e desolação do reino de Deus sobre a terra, neste santuário da humanidade ingrata, o qual estava: para fundar e remir com indizíveis sofrimentos, pelo preço de seu sangue e sua vida.
Vi passar diante da alma do nosso pobre Jesus, em séries imensas de visões, os escândalos de todos os séculos, até o nosso tempo e mesmo até o fim do mundo, em todas as formas do erro doentio, da intriga orgulhosa, do fanatismo furioso, dos falsos profetas, da obstinação e malícia herética.
Todos os apóstatas, os heresiarcas, os reformadores de aparência santa, os sedutores e os seduzidos insultavam e torturavam-na, como se não tivesse sofrido bastante, nem sido bem crucificado a seu ver e conforme o desejo orgulhoso e presunção vaidosa de cada um; rasgavam e partiam, disputando, a túnica sem costuras da Igreja; cada um queria tê-Lo como Redentor de modo diferente do que se tinha mostrado no seu amor. Muitos O maltratavam, insultavam, negavam-nO. Viu inúmeros alçarem os ombros e sacudirem a cabeça, afastando-se dos braços que lhes estendia para salvá-los e precipitar-se no abismo, que os tragou.
Viu um número infinito de outros, que não ousavam negá-lO em alta voz, mas que se afastavam, por desgosto das aflições da Igreja, como o levita que se afastou do pobre viajante que caíra nas mãos dos salteadores.
Viu-os separar-se de sua esposa ferida, como filhos covardes e infiéis abandonam as mães de noite, quando a casa é assaltada por ladrões e assassinos, aos quais por descuido abriram a porta.
Viu-os seguirem os despojos levados ao deserto, os vasos de ouro e os colares quebrados.
Viu-os separados da videira verdadeira, pousarem sob as videiras silvestres; viu-os como ovelhas extraviadas, abandonadas aos lobos, conduzidas a mau pasto por mercenários e não querendo entrar no aprisco do bom Pastor, que deu a vida por suas ovelhas.
Viu-os errarem, sem pátria, no deserto, não querendo ver a sua cidade, colocada sobre o monte e que não pode ficar escondida.
Viu-os em discórdia, agitados pelo vento para lá e para cá, nas areias do deserto, mas sem querer ver a casa de sua esposa, a Igreja fundada sobre a pedra, com a qual prometeu ficar até o fim do mundo e contra a qual as portas do inferno não prevalecerão. Não queriam entrar pela porta estreita, para não baixar a cabeça.
Viu-os seguir a outros, que não entraram no aprisco pela porta verdadeira. Construíram, sobre a areia, cabanas mudáveis e diferentes umas das outras, que não tinham nem altar nem sacrifício, porém cata-ventos nos tetos e suas doutrinas mudavam-nas com os ventos; contradiziam-se uns aos outros, não se entendiam, nem tinham estadia permanente.
Viu-os destruírem muitas vezes as cabanas, lançando os destroços contra a pedra angular da Igreja, que ficou inabalável.
Viu muitos que, apesar da escuridão nas suas moradas, não queriam aproximar-se da luz, posta no candelabro, na casa da esposa, mas erravam, com os olhos cerrados, em redor do jardim cercado da Igreja, de cujos perfumes ainda viviam. Estendiam as mãos a imagens nebulosas e seguiam astros errantes, que os conduziam a poços sem água e mesmo na margem das fossas, não davam ouvido à voz do Esposo que os chamava e esfomeados riam-se ainda, com orgulho arrogante, dos servos e mensageiros, que os convidavam para o banquete nupcial. Não queriam entrar no jardim, por temerem os espinhos da cerca-viva.
Viu-os o Senhor, inebriados de amor próprio, morrer de fome, por não ter trigo e de sede, por não ter vinho; cegos pela sua própria luz, chamavam de invisível a Igreja do Verbo encarnado. Jesus viu-os todos com tristeza; quis sofrer por todos que não queriam seguí-lo, carregando a cruz da Igreja, sua esposa, à qual se deu no SS. Sacramento, na sua cidade colocada no cimo do monte, que não pode ficar escondida, na sua Igreja, fundada sobre a pedra e contra a qual as portas do inferno não prevalecerão.
Todas estas inumeráveis visões da ingratidão dos homens, do abuso feito da morte expiatória de meu Esposo Celeste, vi-as passar diante da alma contristada do Senhor, ora variando, ora em dolorosa repetição; vi Satanás, em diversas figuras assustadoras, arrancando e estrangulando, diante dos olhos de Jesus, os homens remidos pelo seu sangue e até mesmo homens ungidos com o seu santo Sacramento.
O Salvador viu com grande amargura toda a ingratidão, toda a corrupção, tanto dos primeiros cristãos, como dos que se lhe seguiram, dos presentes e dos futuros. Entre estas aparições dizia o tentador continuamente à humanidade do Cristo: "Eis aí, por tal ingratidão queres sofrer?"
Estas imagens passaram, em contínua repetição diante do Senhor e com tanta impetuosidade, com tanto horror e escárnio pesaram sobre Jesus, que angústia indizível lhe oprimia a natureza humana. Jesus Cristo, o Filho do Homem, estendia e torcia as mãos, caindo como que oprimido e pôs-se de novo de joelhos. A vontade humana do Redentor travava uma luta tão terrível contra a repugnância de sofrer tanto por uma raça tão ingrata, que o sangue lhe saiu do corpo, em grossas gotas de suor e correu em torrentes sobre a terra.
Naquela aflição olhou em redor de si como para pedir socorro e parecia chamar o céu, a terra e os astros do firmamento por testemunhas de seu sofrimento. Parecia-me ouví-lo exclamar: "É possível suportar tal ingratidão? Sois testemunhas do que sofro".
Então foi como se a lua e as estrelas se aproximassem num instante; senti nesse momento que se tornava mais claro. Observei então a lua, o que antes não fizera, e pareceu-me de todo diferente: ainda não era toda cheia e parecia maior do que em nossa terra. No meio vi uma mancha escura, semelhante a um disco posto diante dela e no meio havia uma abertura, pela qual brilhava a luz para o lado onde a lua ainda não estava cheia. A mancha escura era como um monte e em redor da lua havia ainda um círculo luminoso, como um arco-íris.
Jesus, na sua aflição, levantou a voz por alguns momentos, em alto pranto. Vi os Apóstolos levantarem-se assustados, com as mãos postas erguidas, escutarem e querendo correr para junto do Mestre. Mas Pedro reteve a João e Tiago, dizendo: "Ficai, eu vou lá". Vi-o correr e entrar na gruta. "Mestre, disse ele, que tendes?", e parou, tremendo, ao vê-lo todo ensangüentado e angustiado. Jesus, porém, não lhe respondeu e pareceu não lhe notar a presença. Então voltou Pedro para junto dos outros dois e suspirava. Por isso lhes aumentou ainda a tristeza; sentaram-se, velando as cabeças e rezaram entre lágrimas.
Eu, porém, voltei a meu Esposo Celeste, em sua dolorosa agonia. As imagens hediondas da ingratidão e dos abusos dos homens futuros, cuja culpa tomara sobre si, a cuja pena se entregara, arremessaram-se contra Ele, cada vez mais terríveis e impetuosas. De novo lutou contra a repugnância da natureza humana de sofrer; diversas vezes o ouvi exclamar: "Meu Pai, é possível sofrer por todos estes? Pai, se este cálice não pode ser afastado de mim, seja feita a vossa vontade".
No meio de todas estas visões de pecados contra a divina misericórdia, vi Satanás em diversas formas hediondas, conforme a espécie dos pecados. Ora aparecia como homem alto e negro, ora sob a figura de tigre, ora como raposa ou lobo, como dragão ou serpente; não eram, porém, as figuras naturais desses animais, mas apenas as feições salientes da respectiva natureza, misturadas com outras formas horríveis. Não havia nada ali que representasse figura completa de uma criatura, eram somente símbolos de decadência, de abominaçã