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Por
Elbson do Carmo 12
Dez 2005
Se há uma única paixão
que cultivo neste mundo, essa paixão é o cinema. E já que segundo
Bernard Shaw "tolos e sábios nivelam-se quando o assunto é a paixão",
posso cultivar essa sem qualquer culpa.
O filme “O Exorcismo de Emily Rose” (2005 - Sony Pictures), lançado
desde setembro de 2005 nos EUA e Europa, mas apenas recentemente lançado
no Brasil vem atraindo a atenção do grande público e lotado salas de
cinema em todo país. O filme relata a história de uma jovem que se
acreditava possuída pelo demônio. Mais uma vez o tema é um
sucesso de bilheteria, o que revela que o público sente-se especialmente
atraído pelo assunto, mesmo quando o tema já teve seu formato desgastado
pelas péssimas seqüências de ícones do gênero como “O Exorcista”
e “Terror em Amityville”, o primeiro, por sinal, baseado num exorcismo
real em um garoto de 14 anos, ocorrido na década de 40, num subúrbio de
Washington nos EUA. “O Exorcista” foi até hoje o único filme de
terror a ser indicado a um Oscar de melhor filme, se é que o gênero
terror se aplique a ele.
Ao invés de repetir a fórmula desastrada das seqüências dos filmes
citados - seqüências essas cheias de efeitos especiais baratos, estórias
desconexas e sustos bobos – “O Exorcismo de Emily Rose” procura
ater-se a uma realidade muito mais factível e esse é talvez seu grande mérito.
O filme é um típico romance de tribunal, com advogados hora heróis hora
vilões, um juiz carrancudo, reviravoltas, discursos heróicos e tudo mais
desse gênero que está para os americanos como as novelas estão para os
brasileiros. O filme baseia-se numa história real, entretanto, reflete
apenas uma pequena parte dos fatos que inspiraram o roteiro. Os nomes
foram modificados, o lugar dos acontecimentos e seus desdobramentos, mas o
essencial da questão permaneceu inalterado com toda a sua controvérsia,
só que auxiliada por outros elementos que a tornam mais emblemática.
Entre eles, a contraposição entre ciência e fé.
A verdadeira protagonista da história chamava-se Anneliese Michel, uma
jovem alemã de família católica, que desde os 15 anos começou a
manifestar mais fortemente sintomas e comportamentos que mais tarde seriam
atribuídos a uma possessão demoníaca, mas que os médicos
diagnosticaram como epilepsia aliada a um quadro aparente de
esquizofrenia. A jovem, na época, passou por uma série de exames e deu
início a um tratamento médico longo e penoso, que não surtindo efeitos,
foi substituído, a pedido da própria Anneliese e de seus pais, por
acompanhamento religioso. A jovem dizia ver demônios e ter seu corpo
subjugado por eles, além de escutar vozes assustadoras.
Em
1976 a
diocese local, já provida das evidências de que a jovem não sofria de
uma doença mental, autorizou o exorcismo observando o contido no Direito
Canônico, [ cf. Cic, can. 1172]. Os 67 exorcismos realizados ao longo de
9 meses fracassaram, e a jovem, por motivação própria, resolveu não
mais ser exorcizada, atribuindo essa decisão a uma aparição da Virgem
Maria, que lhe teria oferecido a libertação, mas que a deixaria livre à
opção do martírio se assim desejasse. Anneliese optou pelo martírio
voluntário, alegando que seu exemplo enquanto possessa serviria de aviso
a toda a humanidade de que o demônio existe e que nos ronda a todos, e
que trabalhar pela própria salvação deve ser uma meta sempre presente.
Ela afirmava que muitas pessoas diziam que Deus está morto, que haviam
perdido a fé, então ela, com seu exemplo, lhes mostraria que o demônio
age, e independe da fé das pessoas para isso.
Na história real, após a morte de Anneliese em 01/07/1976, aos 23 anos
(por inanição e falência múltipla dos órgãos - o jovem morreu
pesando pouco mais de 30kg), seus pais foram indiciados por homicídio
culposo e omissão de socorro, e os dois padres exorcistas Ernst Alt e
Arnold Renz sofreram as mesmas acusações. Os dois padres foram
condenados a seis meses de prisão, mas a sentença foi dada como cumprida
tendo em conta que já haviam passado três anos presos aguardando
julgamento. Um fato como esse diante da implacável justiça alemã é na
prática uma declaração de inocência. Esse fato chocou a opinião pública
alemã, gerando uma enorme polêmica em toda a Europa, que incluiu a
Igreja, os meios acadêmicos e a justiça em torno da mesma discussão.
Não demorou até que o túmulo de Anneliese Michel se tornasse um local
de peregrinação, e assim o é até hoje.
Diante da pressão dos meios de comunicação, que acusavam a Igreja de práticas
medievais em pleno século XX, das dúvidas que cercaram todo o processo,
além da enorme polêmica, a conferência episcopal alemã reformou a
decisão da diocese de Klingenberg, que autorizou o exorcismo, e declarou
que Anneliese Michel jamais fora uma possessa. Essa decisão foi recebida
como uma atitude de autopreservação por parte da Igreja local, e só fez
aumentar a polêmica em torno do fato.
Antes da filmagem de “O Exorcismo de Emily Rose”, outro filme já
havia contado a história de Anneliese Michel: “Réquiem”, produzido e
falado em alemão, muito mais fiel à verdade dos fatos, mas que ficou
circunscrito apenas àquela parte do mundo.
“O Exorcismo de Emily Rose”, como qualquer produção americana, cerca
a estória central com elementos alegóricos acessórios que lhe dêem
sustentação e prenda a atenção do espectador, coisa que o filme faz
com maestria. Mas independentemente da distância dos fatos reais, “O
Exorcismo de Emily Rose” não violenta ou invalida o tema central de
trama, apenas a reescreve sob outras luzes. O filme, muito embora possa
frustrar aqueles que esperam um espetáculo aterrorizante, típico de
filmes "B" para adolescentes, tem o mérito de fazer uma
análise bem estruturada da questão ao confrontar as noções modernas a
respeito da existência do demônio sob várias óticas, principalmente a
ótica médico-psiquiátrica, a parapsicologia, e o aspecto moral, ético
e religioso da questão. Todos os elementos do filme conduzem a uma reflexão
final surpreendente, e ao mesmo tempo perturbadora.
Por fim, o filme tem um elenco de primeira, com Laura Linney e o excelente
ator britânico Tom Wilkinson. Muito embora haja cenas fortes, perto de
“O Exorcista”, “O Exorcismo de Emily Rose” chega a ser um filme
leve. O filme consegue ser vitorioso em fazer com que o espectador pense
por um momento, reflita nem que seja por um átimo acerca dessa realidade
sobrenatural que é a existência e a ação do demônio, o que torna o
filme bastante franco em sua mensagem, e até mesmo surpreendente em se
tratando de cinema americano, que muitas vezes consegue ser acéfalo.
Minha recomendação é que você assista ao filme. Não esqueça a
pipoca, será bom ter algo à mão que ajude a relaxar. Será uma ótima
oportunidade para pensar a questão e tomar algumas resoluções. O filme
termina com uma imagem que sugere a esperança após o reencontro
com a fé. Mas quanto a ação do demônio, o filme deixa nítido ainda
que a realidade é bem pior, e a verdade ainda mais crua, mas ainda assim,
será a verdade. Bastará sair do cinema e abrir um jornal para ver o
quanto as verdades que o filme encerra podem estar próximas de todos nós.
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