Explosão de Gnosticismo


Pe. Zezinho, SCJ

Gnose é conhecimento. Gnósticos são pessoas, grupos e escritos que afirmam ser possuidores de revelação e conhecimento maior do que os demais. Agnóstico, bem mais humilde, é aquele que afirma não ter dados suficientes para afirmar nem negar determinadas verdades que os outros seguem. Apócrifos seriam os escritos sobre esses temas ocultos. Há Evangelhos apócrifos de origem gnóstica e também de outras origens.

O problema da gnose já era sério, inclusive entre os hebreus mais antigos, depreende-se pela história de Adão e Eva. A astuta perigosa serpente seduziu os primeiros humanos com uma conversa gnóstica. “Deus proibiu a vocês este conhecimento maior, porque de posse da chave do bem e do mal vocês seriam se tornariam deuses como Ele”. Eva, a nutriz e mãe mordeu a isca e levou Adão, o terráqueo a mordê-la. Deu no que deu. Perderam a pureza! O que o autor do Gênesis, livro de toda as origens, quis dizer é que desde a origem do ser humano ele “arrota” um conhecimento que não tem, mas que dá ele e aos outros a impressão de ser alguém mais sábio e maior do que realmente é.

A mídia das últimas décadas descobriu que o gnosticismo gera polêmica e esta dá lucro. Está aí razão de mais de 30 obras questionando Jesus e o Cristianismo de 20 séculos. Quem não quereria a posse de um conhecimento ou, ao menos, um questionamento superior ao comum das pessoas? O mote é o mesmo: “Eu seio que a maioria dos humanos não sabe! Você também pode saber. Comece dizendo que os outros são desonestos e negam a você o verdadeiro conhecimento da verdade”.

Jesus Christ Superstar, O Nome da Rosa, Je vous salue Marie, A Última Tentação de Cristo, O Código Da Vinci, O Evangelho de Judas, A Verdadeira história de Madalena, Amen, a Última Cruzada, O Corpo, Excalibur, são livros, textos e filmes que, nas últimas décadas, receberam tratamento especial de marketing e venderam milhões. Todos pretendiam dizer que a Igreja mentiu. Todos deram lucro porque nadaram na polêmica. Combatê-los é aumentar o seu lucro.

Gente que nunca leu os quatro Evangelhos e os textos católicos correu para ler os textos não aceitos ou não acentuados pela Igreja, com o discurso de que ela quis esconder a verdade verdadeira dos seus fiéis e lhes empurrou pela garganta apenas o que não punha em risco a sua Doutrina.

Aí, a desonestidade! Nunca leram nada de católico, nem mesmo os Evangelhos e as epístolas, mas correram para comprar e ler algum apócrifo e pseudo-epígrafo da Bíblia, o mais recente e sensacional lançamento da National Geographic, o Código da Vinci e a Verdadeira História de Madalena. Isto eles leram e logo, sem questionar, atribuíram lisura e honestidade aos autores, enquanto apressaram-se em atribuir má intenção aos autores cristãos do primeiro século ou aos papas de todos os tempos.

O gnosticismo está em alta. Há uma curiosidade imensa em conhecer o Primeiro e Segundo Livros de Adão e Eva, O livro dos segredos de Enoque, O Testamento de Abraão, A Assunção de Moisés, O Testamento dos Doze Patriarcas, O Evangelho Árabe da lnfância,O Evangelho do Pseudo Tomé, O proto-Evangelho de Tiago, a Descida de Cristo aos Infernos, O Evangelho de Maria, Declarações de José de Arimatéia, Cartas de Jesus, O Evangelho segundo Felipe, O Apocalipse de Pedro e assim por diante... Para os curiosos há mais de 200 textos que, se quiserem, poderão usar contra a Igreja a quem acusam de desonesta. Está quase tudo na internet. É só procurar.

Pelo que sei a maioria dos bispos e padres que leram tais livros, quando alguém nos interroga sobre eles, respondemos tranqüilamente que são escritos que a Igreja não adotou por discordar do conteúdo ou da leitura que fazem da Bíblia. Mas se alguém insiste, indicamos as bibliotecas e as fontes. Podem ler. Não chegarão nem à metade das suas leituras sem perceber que foram elucubrações de algumas comunidades e autores a por na boca de algum nome famoso da Bíblia uma narrativa diferente, mais fantasiada ou mais apimentada.

Não deve ter sido fácil naqueles séculos que precederam a opção pelos quatro Evangelhos e pelas epístolas que hoje temos, escolher alguns escritos no meio de tantos que pretendiam narrar a verdadeira história dos seres humanos, da Criação, de Moisés, de Pedro, de Tomé ou de Jesus. Se os evangelhos e as epístolas já exigem pesquisas e estudos minuciosos, quanto mais estes escritos, dos quais mais se ouve falar do que se lê, exceto quando a mídia, quase sempre por razões de marketing de algum livro ou filme, os coloca em evidência.

Esses dias, como prova de que não lhe ocultaria nada do que sei, tirei cópia de um trecho do evangelho apócrifo Pseudo Mateus da infância para um amigo, um advogado e jornalista, que nunca lera nem mesmo o Evangelho de Mateus, mas queria este. De quebra, copiei-lhe também o Evangelho Árabe da lnfância. Duas semanas depois ele me telefonou rindo e disse que entendia minha atitude. De fato é difícil acreditar que aqueles textos tenham sido inspirados por Deus. Eram divagações de algum escritor de historinhas piedosas. Não via seriedade nas narrativas. O Evangelho de Mateus, seja lá quem o tenha escrito, é mais sério e percebe-se nele um propósito de fazer o leitor pensar, disse ele.

-Bingo- disse eu. Espalhe a notícia. Não há porque esconder os fatos de gente que pensa. Mas o fato dentre os fatos é que a tentação da gnose permanece acesa no coração humano. Sempre haverá alguma igreja, algum grupo ou alguém a dizer que você será introduzido a um alto grau de conhecimentos, até então ocultos para a grande maioria dos mortais. E só filiar-se a eles que você será alguém mais sabido! O sujeito se filia e continua a não saber nada, porque lá também se omite toda a verdade, que vai sendo dada a conta-gotas aos iniciados, até que entrem para o grupo dos especiais que podem, eles sim, conhecer as verdades até agora ocultas à humanidade. Ou seja: fazem aquilo de que nos acusam.

Quer saber os segredos mais ocultos de algum grupo gnóstico? Não vai saber. Estão trancados a sete chaves. Afinal, para quê o gnosticismo se não houver o suspense e o grupo dos eleitos mais eleitos que sempre sabe um pouco mais do que os que já sabem quase tudo? Esqueci de mencionar uma outra palavra que tem tudo a ver com isso de saber mais do que milhões de pessoas souberam nesses últimos vinte séculos: pernóstico. É alguém que, de tão culto e bem informado, sabe o que nem mesmo Deus conhece! O Código da Vinci atua nessa região!

 

Fonte: Revista Brasil Cristão - Nº 108 - Julho 2006 - www.asj.org.br