O
INFERNO EXISTE
Publicaremos
a seguir todo um livreto, com o título abaixo, datado de 1939. Ele foi todo
copiado por Ricardo, por se sentir tocado com o alcance destas mensagens. Elas são
originais e confiáveis, embora livros assim sejam hoje pouco divulgados, porque
parece não ser mais missão da Santa Igreja falar sobre a terrível realidade
do inferno e do purgatório, como se ele fosse uma invenção de padres carolas.
Na realidade, o livro fala por si só, e foi mantida, tanto a fidelidade
aos originais até quanto à acentuação antiga, quanto ao conteúdo completo.
Lembro que isso estará em cinco capítulos e quem quiser ter o livro todo deve
pegar cada uma das partes. Por isso vou colocar a última primeiro, seguindo
depois as outras. Agradeço a Ricardo de todo coração!
O
INFERNO EXISTE
LEITURAS
CATÓLICAS DE DOM BOSCO
ANO
XLIX – Outubro de 1939 – n.º 593
PROVAS
E EXEMPLOS
Pelo
Servo de Deus
Padre
André Beltrami
(Salesiano)
3ª
EDIÇÃO
NITERÓI
Escola
Industrial Dom Bosco – 1945.
(OBS:
grafias e acentuação das palavras copiadas do original)
PREFÁCIO
DO AUTOR
Nos
nossos dias, mais que em outros tempos, é necessário lembrar aos cristãos a
existência do inferno, já que muitos vivem como se as verdades da Fé não
existissem.
O
pensamento do inferno foi sempre fecundo de generosas resoluções. Quantos
abandonaram o pecado e se entregaram de corpo e alma à pratica da virtude,
meditando naquelas chamas devoradoras, naqueles tormentos horríveis que a língua
humana não pode exprimir! O padre Mestre Avila converteu uma senhora tôda
entregue aos pecados e às vaidades do mundo pondo-lhe diante o terrível sempre
e o terrível nunca, sempre sofrer, nunca um
instante de alívio. Por isso, suplico ao bom leitor que, depois de ter lido êste
opúsculo, o faça ler aos seus parentes e amigos que vivem afastados de Deus,
esquecidos da sorte infeliz reservada aos ímpios na outra vida. Quem sabe se o
pensamento das chamas eternas não suscite em seus corações um temor salutar
que os determine a mudar de vida! Pode bem ser que os exemplos narrados
contribuam para avivar em seus corações a fé já extinta! E se unirem também
às suas orações para tal fim, estou certo de que Nosso Senhor lhes tocará o
coração e êles voltarão às práticas da religião que abandonaram.
Na
compilação dêste livrinho, valí-me especialmente dos trabalhos de Monsenhor
Luiz Gastão, Ségur e do Padre Francisco Xavier Schouppe, que tão egregiamente
trataram dêsse assunto.
Deus,
o qual protesta não querer a morte do pecador, mas que se converta e viva, abençoe
meu pobre trabalhinho e faça de maneira que sirva para a conversão de tantos
transviados e os afaste do caminho da perdição. Jesus Cristo os estreitará
cheio de alegria ao seu Sacratíssimo Coração, como já fez um dia com o filho
pródigo, e os Anjos farão festa e celebrarão com cânticos de alegria o seu
retôrno à casa paterna.
Turim
– Valsálice > Seminário das Missões – junho de 1897
CAPÍTULO
I
A
revelação divina demonstra a existência do inferno
Não
há verdade tão inculcada na Sagrada Escritura como a da existência do
inferno. Escritores inspirados falam dêle continuamente, para que os homens,
horrorizados com as penas que aí se sofrem abandonem o vício e se dêem à prática
da virtude.
Os
protestantes, que de nossa santa religião negaram quase tôdas as verdades mais
difíceis de crer e praticar não souberam desfazer-se do dogma do inferno, pelo
fato de ser frequentemente recordado nas Sagradas Letras. Por êste motivo, uma
senhora católica, importunada por dois ministros protestantes a passar para a
reforma, saiu-se com esta sensata resposta: – “Senhores, fizestes na verdade
uma bela reforma, suprimistes o jejum, a confissão, o purgatório;
infelizmente, porém, conservastes os inferno. Tirai também êste e eu serei
dos vossos.”
Para
não multiplicarmos as citações, deixaremos o Antigo Testamento e viremos logo
ao Evangelho, para ouvir a palavra de Jesus Cristo, que por bem quinze vezes
proclama êste lugar de tormentas. E para causar em nós um temor salutar e
dar-nos uma idéia justa do inferno, Êle o chama fogo inextinguível,
trevas exteriores, onde haverá pranto e ranger de dentes, lugar de tormentos,
fornalha de fogo, geena de fogo.
A
geena era um vale perto de Jerusalém, onde alguns maldosos hebreus apóstatas
de sua religião, sacrificavam a Moloc os tenros filhos, expondo-os antes ao
fogo. O piedoso rei Josias, para abolir êsse bárbaro costume, fêz aterrar o
vale, ordenando que se lançasse aí a imundície da cidade e os cadáveres aos
quais fosse negada a sepultura; e como medida profilática, conservava-se sempre
aceso o fogo. O nosso Divino Salvador, para tornar mais sensível a idéia do
inferno, tomou a imagem dêsse vale, que os hebreus abominavam, dando-lhe
precisamente o nome de geena.
Na
parábola do rico epulão, tão fecunda de ensinamentos e que é tão importuna
aos ricos gozadores do mundo, Jesus nos ensinou que o mau uso das riquezas
conduz inevitàvelmente ao inferno, enquanto as dificuldades e as privações
suportadas por amor de Deus levam ao lugar de eterna felicidade.
“Havia
um homem rico, que se vestia de púrpura, e de linho e que todos os dias se
banqueteava esplendidamente. Havia também um mendigo, chamado Lázaro, o qual
coberto de chagas, estava deitado à sua porta, desejando saciar-se com as
migalhas que caíam da mesa do rico, e ninguém lhas dava; mas os cães vinham
lamber-lhe as chagas.
“Ora,
sucedeu morrer o mendigo, e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu
também o rico, e foi sepultado no inferno. E, quando
estava nos tormentos, levantando os olhos, viu ao longe Abraão, e Lázaro
no seu seio; e, gritando disse: Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda a Lázaro
que molhe em água a ponta do dedo, para refrescar a minha língua, pois sou
atormentado nesta chama. E Abraão disse-lhe: Filho,
lembra-te que recebeste os bens em tua vida e Lázaro, ao contrário, males por
isso êle é agora consolado e tu és atormentado. E, além disso, há entre nós
e vós um grande abismo; de maneira que os que querem passar daqui para vós não
podem, nem os de aí passar para cá. E disse: Rogo-te pois, ó pai, que mandes
à casa de meu pai. Pois tenho cinco irmãos para que os advirta disto e não
suceda virem também êles para êste lugar de tormentos. E Abraão disse-lhe: Têm
Moisés e os profetas; ouçam-nos. Ele, porém disse-lhe: Não, Pai Abraão, mas
se algum dos mortos for ter com êles, farão penitência. E êle disse-lhe: Se
não ouvem a Moisés e aos profetas, tão pouco acreditarão ainda que
ressuscitaste algum dos mortos”. (S. Lucas, XVI, 19-31).
Eis
aí descrito com vivas côres aquêle reino de dor, onde um fogo abrasador e
horrível atormentará sem um instante de trégua o mísero condenado: uma gôta,
só uma gôta de água pedia o epulão para mitigar os ardores insuportáveis da
sêde, e essa gôta foi-lhe negada sem dó! Ai! quem de vós, branda aos ímpios
o Profeta Isaías, cheio de espanto, quem de vós poderá habitar nesse fogo
devorador? nesses ardores sempiternos?
Ao
final da parábola, acena-se à repugnante incredulidade de tantos infelizes que
vivem engolfados nos vícios, não fazendo caso das verdades eternas, nas quais
não creriam nem mesmo se aparecesse algum réprobo para lhes atestar a existência
do inferno. Qual não será o seu desespero ao verem-se um dia sepultados
naquele abismo de tormentos, sem a mínima esperança de saírem de lá?
Alhures,
Jesus Cristo descreve o juízo universal que êle fará no fim do mundo, e a
sentença de eterna condenação que pronunciará contra aqueles que não
praticarem as obras de misericórdia para com os seus irmãos, e que serão
precipitados no fogo inextinguível, preparado para o demônio e seus sequazes.
Quanto temor não causa à alma a consideração dêste trecho do Evangelho! Ah!
se os libertinos, que negam com tanto atrevimento a vida futura, refletissem um
pouco, certamente mudariam de vida! Fruto desta meditação foi aquela poesia tão
sublime do Dies irae, que é o gemido de uma alma tôda
compenetrada do terror do juízo divino e da sorte eterna que a espera depois.
“Quando
vier o Filho do homem na sua majestade, e todos os anjos com Ele, então se
sentará sôbre o trono da sua majestade, e serão tôdas as gentes congregadas
diante dêle, e separará uns dos outros como o pastor separa as ovelhas dos
cabritos. E porá as ovelhas à sua direita, e os cabritos à esquerda.
“Então
o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: Vinde benditos de meu Pai, possuí
o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo; porque tive fome, e
destes-me de comer; tive sêde, e destes-me de beber; era peregrino e
recolhestes-me; nu, e me vestistes; enfêrmo, e me visitastes; estava no cárcere
e fostes visitar-me. Então lhe responderão os justos, dizendo: Senhor, quando
é que nós te vimos faminto e te demos de comer; sequioso e te demos de beber?
E quando te vimos peregrino, e te recolhemos; nu, e te vestimos? Ou quando te
vimos enfêrmo, ou no cárcere e fomos visitar-te? E, respondendo o Rei, lhes
dirá: Na verdade vos digo que tôdas as vezes que vós fizestes isto a um dêstes
meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que
estiverem à esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno que foi
preparado para o demônio e para os seus anjos; porque tive fome, e não me
destes de comer; tive sêde, e não me destes de beber; era peregrino, e não me
recolhestes; nu, e não me vestistes; enfêrmo e no cárcere e não me
visitastes. Então êles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando é
que nós te vimos faminto, ou sequioso, ou peregrino, ou nu, ou enfêrmo, ou no
cárcere, e não te assistimos? Então lhes responderá, dizendo: Na verdade vos
digo: tôdas as vezes que o não fizestes a um destes mais pequeninos, a mim não
o fizestes. E êstes irão para o suplício; e os justos para a vida eterna.”
(S. Mateus, XXV, 31-46).
E
para tornar entre o povo mais familiar, diria quase visível o pensamento do
inferno, usa a comparação dos rebentos e da videira.
“Eu
sou a videira e vós os rebentos. O que permanece em mim e eu nêle, êsse dá
muito fruto, porque, sem mim, nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em
mim, será lançado fora como o rebento, e secará, e enfeixá-lo-ão, e o lançarão
no fogo, e arderá.” (S. João, XV, 5-6).
Falando
depois, dos escândalos, o nosso bendito Salvador, de ordinário cheio de doçura
e mansidão toma um tom terrível e os ameaça de condenação eterna.
“Ai
do mundo por causa dos escândalos! Porque é necessário que sucedem escândalos;
mas ai daquele homem pelo qual vem o escândalo! E, se a tua mão te
escandalizar, corta-a; melhor te é entrar na vida manco, do que, tendo duas mãos,
ir para o Inferno, para o fogo inextinguível, onde o seu verme
não morre, e o fogo não se apaga.
E
se o teu pé te escandaliza, corta-o; melhor te é entrar na vida eterna coxo,
do que, tendo dois pés, ser lançado no inferno, num fogo
inextinguível, onde seu verme não morre, e o fogo não se apaga.
“E
se o teu ôlho te escandaliza, lança-o fora; melhor te é entrar no reino de
Deus sem um ôlho, do que tendo dois, ser lançado no fogo do
inferno, onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga. Porque todo o
homem será salgado pelo fogo, e tôda vítima será salgada
com sal”. (S. Marcos, IX, 42-48).
Santo
Tomaz explica que êsse verme que não morre é o remorso da
consciência, que para sempre há de atormentar o condenado no inferno; remorso
pelo grande bem que perdeu, êle que tinha tantos meios de se salvar.
A
expressão será salgado pelo fogo significa que, assim,
como o sal conserva as coisas, assim o fogo, no qual os condenados serão
imersos, aos mesmo tempo que crucia atrozmente os conserva sempre em vida. Aí o
fogo consome, diz S. Bernardo, para conservar sempre. Neste trecho faz-se alusão
manifesta aos sacrifícios legais que os hebreus tinham sempre diante dos olhos,
e onde estava prescrito que se aspergisse com sal a vítima que era oferecida a
Deus: na verdade, os condenados são como vítimas da divina justiça.
Eis
como Jesus Cristo, prevendo os assaltos que os incrédulos e libertinos dariam
ao dogma do inferno, o proclama continuamente no Evangelho. Quanto a nós,
permaneçamos inabaláveis em nossa crença, certos da existência do inferno,
como da existência do sol, da lua e das outras coisas que nos rodeiam. Deus nô-lo
revelou e ensina por meio da Igreja, e a palavra de Deus não falha.
CAPÍTULO
II
A
razão humana confirma a existência do inferno
Quem
são afinal, os que negam a existência do inferno? Talvez pessoas honestas? Ao
contrário! São os libertinos que espezinham todo o ditame da consciência para
viverem à solta, aqueles aos quais repugna crer em um Deus vingador, por bem
saberem que merecem seus castigos. Mas, conseguem êles persuadir-se de que não
há uma justiça que vela sôbre os homens, e que punirá seus pecados? Jamais!
Enquanto negam com os lábios a existência do inferno, sentem no âmago da
consciência o remorso e uma voz que lhes anuncia terrível vingança.
O
próprio Voltaire, o corifeu da impiedade, não conseguiu convencer-se de que não
há nada depois do túmulo; tanto assim que, quando adoecia gravemente,
apressava-se para em chamar o padre para se retratar de suas máximas tão ímpias!
Deus
imprimiu em nosso coração noções imutáveis de justiça, e a idéia de um prêmio
à virtude, de um castigo ao vício. Certo ímpio se vangloriava, numa roda, de
não acreditar no inferno; entre os que ouviam estava um homem de bom senso e
modesto, mas que julgou seu dever tapar a bôca ao estulto interlocutor, e o fez
com êste simplicíssimo argumento:
–
“Senhor, disse-lhe, os reis da terra têm cárceres para punir rebeldes; o
Deus, Rei do universo, não há de ter cárceres para os que ultrajam a sua
majestade?” O ímpio não soube que responder, pois o mesmo lume da razão lhe
fazia ver que se os reis têm prisões, Deus deve ter um inferno.
Da
negação do castigo e do prêmio ia outra vida, seguir-se-ia que Deus não
existe, ou se existe, não cuida dos homens; e não haveria nenhuma diferença
entre virtude e vício, entre justiça e injustiça. Morre um ladrão, carregado
de delitos, e morre um inocente que durante a vida praticou virtude e fez o bem
ao próximo; quereis que tenham a mesma sorte? Deus, infinitamente justo, não há
de punir os crimes do primeiro e recompensar as boas obras do segundo? Morre São
Paulo no deserto, depois de ter vivido quase um século no jejum, na penitência,
louvando e servindo a Deus; e morre Nero, depois de ter cometido tôda espécie
de crueldade; quereis que tenham igual sorte? Portanto, a mesma razão, o bom
senso nos fala de um lugar onde serão castigadas as transgressões da lei
divina.
Nem
mesmo a eternidade das penas repugna aos ditames da reta razão.
Um
dia, uma alma santa meditava no inferno, e considerando a eternidade dos suplícios,
aquêle terrível nunca e o terrível sempre,
ficou bastante impressionada, porque não compreendia como se pudesse conciliar
esta severidade sem medida com a bondade e outras perfeições divinas.
–
Senhor, dizia ela, eu me submeto aos vossos juízos, mas, permití-me, não
sejais demasiado rigoroso.
–
Compreendes, foi a resposta, o que seja o pecado? Pecar é dizer a Deus: não
Vos obedecerei; pouco se me dá da vossa lei; rio-me das vossas ameaças!
–
Vejo, Senhor, como o pecado é um monstruoso ultraja à vossa divina majestade.
–
Pois bem, mede, se podes a grandeza dêsse ultraje.
–
Compreendo, Senhor, que êsse ultraje é infinito, porque vai contra a majestade
infinita.
–
Não se exige então um castigo infinito? quanto à intensidade, sendo a
criatura limitada, requer a justiça que seja infinito ao menos quanto à duração:
portanto, é a mesma justiça divina que exige o terrível sempre
e o terrível nunca. Os próprios condenados serão
obrigados a prestar homenagens, mau grado seu, a esta justiça e exclamar em
meio aos tormentos: “Vós sois justo, Senhor, e retos os vossos juízos.” (1)
Mas,
replicam os incrédulos, Deus é tão misericordioso que não castigará
eternamente um pecado mortal só, o qual às vezes dura um instante. Que proporção
há entre a breve duração da culpa e a eternidade da pena?
A
isto responderemos, que a misericórdia não é nada contrária à justiça, a
qual exige seja eternamente castigado o pecado de uma pessoa que tenha morrido
impenitente; visto que o pecado de tal pessoa é de certo modo eterno, segundo a
sua voluntária disposição presente, querendo morrer no pecado: o que merece
uma pena eterna. Até a justiça humana, imagem da justiça divina, castiga por
vezes a falta passageira com a pena, a seu modo, eterna, como é o exílio perpétuo;
de modo que, se o exilado vivesse sempre, para sempre seria banido da sua pátria.
E por que a divina justiça não poderá banir eternamente da pátria celeste um
pecador impenitente, que por si mesmo se exclui dessa pátria, morrendo voluntàriamente
na impenitência final? De resto, eterno é o prêmio que Deus prepara a quem o
serve, e por isso eterno deve ser também o castigo para aqueles que se rebelam
contra sua santa lei.
Afinal,
quem somos nós que ousamos levantar a fronte e pedir a Deus a razão de seus
justos decretos?
CAPÍTULO
III
Testemunhas
de Além-túmulo
Em
sua infinita misericórdia, Deus, depois de haver revelado o dogma do inferno,
tem permitido, de onde em onde, que alguma alma venha da eternidade para
confirmar-nos a existência daquele lugar de penas. Tais aparições são mais
frequentes do que comumente se crê; e quando são atestadas por pessoas idôneas
e fidedignas, tornam-se fatos inegáveis, que se admitem como todos os outros
fatos da história. Apresso-me, porém, a declarar que não entendo trazer êsses
fatos como argumento principal e básico com que se demonstre e se estabeleça o
dogma do inferno, porque êste nos é demonstrado pela palavra infalível de
Deus; narro tais aparições sòmente para confirmar e elucidar essa verdade, e
como argumento de salutar meditação.
Monsenhor
Ségur, no seu áureo opúsculo sôbre o inferno narra três fatos, cada qual
mais autêntico, acontecidos não faz muito tempo.
*
*
*
O
primeiro, diz ele, sucedeu quase em minha família, pouco antes da terrível
campanha de 1812, na Rússia. Meu avô materno, o Conde Rostopkine, governador
militar de Moscou, era intimamente relacionado com o general Conde Orloff, tão
valoroso quanto ímpio.
Um
dia, após a ceia, o conde Orloff e um seu amigo, o general V…, volteriano
como êle, puseram-se a ridicularizar a religião e sobretudo o inferno:
–
Mas…, disse Orloff, e se houvesse alguma coisa além do túmulo?
–
Neste caso…, diz o general V…, o primeiro que morrer virá avisar o outro;
de acôrdo?
–
Pois não, responde Orloff.
E
ambos prometeram seriamente não faltar à palavra.
Algumas
semanas após, desencadeou-se um daquelas guerras que Napoleão sabia suscitar;
o exército russo foi chamado às armas, e o general V… recebeu ordem de
partir incontinenti para um pôsto de comando.
Duas
ou três semanas depois da partida de Moscou, quando meu avô se levantara, bem
cedo, viu abrir-se bruscamente a porto do quarto e entrar o conde Orloff, com
roupa de dormir, de chinelos, cabelo em desalinho, olhos esbugalhados, pálido
como cera.
–
Oh! Orloff vós aqui a esta hora? Neste traje? Que aconteceu?
–
Meu caro, responde Orloff, eu perco a cabeça; vi o general V…
–
Oh! Ele já voltou?
–
Não, continua Orloff, atirando-se a um divã, não, não voltou, e é isto que
me espanta.
Meu
avô nada compreendia e procurava acalmá-lo.
–
Contai-me, então, lhe disse, o que aconteceu e o que significa tudo isto.
Fazendo
grande sefôrço para se acalmar, o conde Orloff contou o seguinte:
–
Meu caro Rostopckine, não faz muito, o general V… e eu, juramos que o
primeiro que morresse, viria avisar o outro se há de fato alguma coisa além do
túmulo. Ora, pela madrugada, enquanto estava tranqüilo na cama, acordado, sem
pensar no amigo nem no juramento, abre-se de repente o cortinado do meu leito e
vejo, a dois passos de mim, o general V… de pé, desfigurado, com a mão
direita no peito, e me fala: “Existe um inferno, e eu lá
estou…” e desapareceu. Na mesma hora corri até cá; eu perco a cabeça!
Que coisa estranha! não sei o que pensar!
Meu
avô tranqüilizou-o como pôde: falou-lhe de alucinação, fantasia… que êle
talvez estivesse dormindo… que às vêzes dão-se casos extraordinários,
inexplicáveis… E procurava persuadí-lo com outros meios termos, que apesar
de nada valerem, servem para consolar os céticos. Mandou preparar o coche e
acompanhou o conde à sua casa.
Dez
ou doze dias depois deste estranho acontecimento, um estafeta do exército
comunicava ao meu avô, entre outras coisas, a morte do general V…
Naquela
madrugada em que o conde Orloff o tinha visto e ouvido, o infeliz general,
saindo a estudar a posição do inimigo, foi varado por uma bala e caiu morto.
“Existe
um inferno, e eu lá estou…”
Eis
as palavras de um que veio do outro mundo!
*
*
*
O segundo fato é referido pelo mesmo autor, que o tem por indubitável, como o precedente […]
O
INFERNO EXISTE (2)
(parte
2)
O
segundo fato é referido pelo mesmo autor, que o tem por indubitável, como o
precedente, pois o ouviu da bôca de um repeitabilíssimo eclesiástico,
superior de importante comunidade, o qual por sua vez, soube os pormenores
mediante um parente da senhora, com a qual se deu tal fato. Naquele tempo, isto
é, por ocasião do Natal de 1859, ela ainda vivia e contava pouco mais de
quarenta anos.
Achava-se
essa dama em Londres no inverno de 1847 e 1848; enviuvara aos 29 anos, era muito
rica e muito amiga dos divertimentos mundanos. Entre as pessoas elegantes que
freqüentavam a sua casa, notava-se especialmente um moço, cujas contínuas
visitas a comprometiam não pouco e cuja vida estava longe de ser edificante.
Uma
noite, a senhora lia não sei que romance para conciliar o sono. Ouvindo bater o
relógio, apagou a vela e dispunha-se para deitar, quando percebeu, com grande
assombro, que uma luz estranha e pálida vinha da porta do salão contiguo e
espalhava-se a pouco e pouco no quarto, aumentando sempre. Não sabendo o que
era, do pasmo passou ao mêdo; eis senão quando, viu abrir-se lentamente a
porta do salão e entrar no quarto o jovem desregrado, o qual, antes que ela
pudesse pronunciar palavra, aproximou-se, tomando-a pelo braço esquerdo,
apertando-lhe fortemente o pulso, e com aceno desesperado, lhe falou em inglês:
–
Existe o inferno!
Foi
tão grande o susto que a senhora perdeu os sentidos. Voltando a si, tocou
nervosamente a campainha para chamar a criada, que a tendeu; entrando no quarto,
esta sentiu logo um cheiro de queimado e chegando-se à ama, que com dificuldade
articulava umas palavras pôde ver que tinha ao redor do pulso uma queimadura tão
profunda que a carne desaparecera e ficava à mostra o osso. Observou além
disso, que da porta do salão até o leito e do leito à porta do salão estava
impressa a pegada de um homem, que tinha queimado o pano de parte a parte. Por
ordem da ama, abriu a porta do salão, e notou que lá terminavam as pegadas no
tapete.
No
dia seguinte, a desditosa senhora soube com aquele mêdo que bem se compreende,
que alta noite, o tal moço se embriagara com excesso, e transportado para casa,
veio a morrer pouco depois.
Ignoro,
acrescenta o superior, se esta terrível lição tenha convertido a infeliz
dama; o que sei é que ela ainda vive e para esconder aos olhares curiosos o
sinal daquela sinistra queimadura, leva no pulso, à guisa de bracelete, um
largo enfeite de ouro, que não deixa nem de dia nem de noite. Repito que os
particulares eu os tive da bôca de um seu parente próximo, católico sincero,
a cuja palavra presto fé. Os parentes não falam do ocorrido e é por isso que
tenho o cuidado de ocultar o nome da família.
Apesar
do véu, no qual esta aparição foi e deveu ser envolvida, não me parece,
acrescenta Monsenhor Ségur, que se possa pôr em dúvida a formidável
autenticidade.
*
*
*
O terceiro fato aconteceu na Itália.
Em
1873, em Roma, alguns dias antes da Assunção, uma moça, bastante má,
machucou uma das mãos. Levaram-na para o Hospital da Consolação. Ou porque o
sangue estivesse muito deteriorado ou porque sobreviesse grave complicação, a
infeliz morreu naquela noite.
No
mesmo instante uma de suas companheiras, que não sabia o que acontecera no
hospital, pôs-se a gritar desesperadamente, a tal ponto que acordou tôda a
vizinhança e provocou a intervenção da polícia.
A
companheira que morrera no hospital apareceu envolvida em chamas e lhe disse:
–“Estou condenada, e se não queres
condenar-te também, sai deste lugar infame e volta a Deus.”
Nada
consegui acalmar a agitação da jovem, que bem cedo abandonou aquela casa,
deixando a todos atônitos, especialmente depois de divulgada a notícia da
morte da companheira, no hospital.
Aconteceu
que, logo depois, a proprietária da casa, uma garibaldina exaltada, caiu
doente, mandou logo chamar um padre, dizendo que queria receber os sacramentos.
A Autoridade Eclesiástica delegou para êsse fim um digno sacerdote, Monsenhor
Piroli, pároco de S. Salvador em Laura. Munido de especiais instruções, êle
se apresentou e exigiu, antes de tudo, que a doente fizesse, perante
testemunhas, plena retratação de suas blasfêmias e insultos contra o Sumo
Pontífice e declarasse que afastaria as ocasiões de pecado. Sem a menor hesitação,
a infeliz promete e então se confessa e recebe o Sagrado Viático com grandes
sentimentos de penitência e humildade.
Pressentindo
o seu fim, a pobre mulher, com lágrimas nos olhos suplicou ao padre que não a
abandonasse, amedrontada como estava por aquela aparição. Assim, teve a grande
graça de ser assistida nos últimos momentos pelo ministro de Deus.
Tôda
a Roma conheceu logo os particulares desta tragédia.
Como
sempre, os ímpios e os libertinos fizeram dela objeto de chacota, abstendo-se,
à aposta, de obter oportunas informações; mas, de sua parte, os bons
aproveitaram para se tornarem melhores e mais exatos no cumprimento de seus
deveres.
CAPÍTULO
IV
Horrendos
suplícios do inferno
Nenhuma
língua humana é capaz de exprimir os tormentos atrozes daquele lugar de desespêro.
Como descrever aquêle fogo medonho aceso pela ira de Deus? os remorsos cruéis
que dilaceram o mísero preceito? a eternidade sem fim, com o terrível sempre e
o terrível nunca?
Diz
Santo Agostinho que o fogo da terra comparado com o do inferno, parece um fogo
pintado; e S. Vicente Ferrer diz que em confronto com aquêle, o nosso é frio.
Gastemos
embora páginas e livros inteiros falando do inferno, acumulemos males sôbre
males, sofrimentos sôbre sofrimentos, desgraças sôbre desgraças, chamemos em
nosso auxílio as fantasias fecundas dos poetas, para idear penas atrozes, peçamos
aos tiranos da História as torturas que inventaram para seviciar as suas vítimas
e, apesar de tudo isso, chegaremos à conclusão de que infinitamente maiores são
os suplícios do inferno.
*
*
*
Santa
Tereza foi um dia arrebatada em êxtase e levada ao inferno para ver o seu
lugar, caso não se emendasse de certo defeito.
Ela
mesma conta em sua autobiografia:
“Estando
um dia em oração, fui transportada, sem saber como, em corpo e alma, ao
inferno. Compreendi que Deus queria mostrar-me o lugar que ocuparia, se não
mudasse de vida. Não tenho palavras que possam dar uma pequena idéia desse
tormento incompreensível. Sentia em minha alma um fogo que me devorava e o
corpo sofria dores insuportáveis. Dúrante minha vida passei por duros
sofrimentos, mas, nem se comparavam com os que tive naquela ocasião; e ainda êsses
subiam de ponto, ao pensar que seriam eternos e sem o menor alívio. Mas, apesar
de as torturas do corpo serem atrozes, não tinham comparação com as agonias
da alma. Ao mesmo tempo, sentia-me queimar e partir em pedaços, sofria tôdas
as angústias da morte e os horrores do desespêro.
Num
raio de esperança e de consolação naquela moradia, aí se respira um odor
pestilencial, que sufoca; nem um raio de luz, mas tudo são trevas da mais densa
escuridão; contudo, oh! mistério, mesmo naquele escuro se distingue o que de
mais penoso há para a vista.
Em
suma, tudo o que ouvi dizer ou li sôbre as penas do inferno é insignificante
em confronto com a realidade; entre aquelas penas e estas há a mesma diferença
entre uma pessoa e o seu retrato. Ai! o fogo dêste mundo por mais ardente que
seja, é como o fogo pintado, comparado com aquêle que atormenta os réprobos
no inferno.
Há
dez anos que tive esta visão, mas estou ainda agora tão espantada, que,
enquanto escrevo, o mêdo gela-me o sangue nas veias. Em meio às provocações
e dores que tenho, trago à mente esta visão e de aí tiro fôrça para tudo
suportar”.
Até
aqui a santa.
*
*
*
Vicente
de Beauvais, no livro 25 de sua História, refere o seguinte fato, acontecido
pleno ano 1000.
Dois
libertinos fizeram uma combinação: o primeiro a morrer viria à terra
participar ao companheiro em que estado se achava. Morreu um deles, e Deus
permitiu aparecesse ao amigo: era horrendo, parecia sofrer duramente e suava em
bicas. Enxugou a fronte com a mão e deixou cair uma gota de suor no braço do
companheiro, dizendo-lhe:
–
Eis qual é o suor do inferno; dêle terás um vestígio até à morte.
E
assim foi, pois aquêle suor infernal queimou-lhe o braço, penetrando na carne
com dores inauditas.
Bom
para êle que soube aproveitar-se de tão terrível lição e retirou-se para o
convento.
*
*
*
Em
1873, Nova Iorque foi teatro de um incêndio, cujas circunstâncias apresentam a
imagem do inferno.
O
Circo Baunum foi assaltado pelo fogo; tigres, ursos, leões e outras feras foram
queimadas vivas nas suas jaulas. À medida que o fogo se propagava, crescia o
desespêro das feras, sobretudo os tigres e ursos tornavam-se cada vez mais
furiosos. Atiraram-se com supremo esfôrço contra as grades, já
incandescentes, da prisão, e eram rechaçados quais massas inertes, para de
novo se arrojarem contra o insuportável obstáculo que os aprisionava.
Os
rugidos dos leões, os urros dos tigres e o aulidos das outras feras se
misturavam formando um som pavoroso, que parecia reproduzirem aquêle que devem
ouvir os condenados no inferno.
Mas
as notas deste tétrico concêrto aos poucos foram-se enfraquecendo, até que,
quando o leão soltou o último urro, ao medonho alarido sucedeu o silencio da
morte.
Imaginemos,
agora, nestas jaulas de ferro candente, não as feras, mas homens; e homens que
em vez de morrerem no fogo continuam a viver, e teremos uma idéia do inferno,
idéia, aliás, muito imperfeita.
*
*
*
A
história registrou, para perpétua execração, as truculências de alguns
tiranos, que mais do que homens pareciam monstros.
Fálaris,
tirano de Siracusa, confeccionou um touro de bronze para prender dentro os
rebeldes e fazê-los morrer a fogo lento, aceso ao redor. Quem pode descrever os
espasmos do supliciado? Gritava, debatia-se naquelas estreitas paredes, que se
tornavam candentes e tormentos indescritíveis!… Todavia, essas penas
terminavam; o condenado terá suplícios infinitamente maiores e por tôda a
eternidade.
Nero
mandava que se cobrissem os corpos dos cristãos com pixe e outros combustíveis,
e depois, colocados nos postes, ao longo das alamedas, eram acendidos à tarde,
para iluminar, enquanto êle passeava no coche, insultando-os bàrbaramente nos
padecimentos.
Maxêncio
amarrava as suas vítima a cadáveres, rosto com rosto, tronco com tronco,
membros com membros, e as deixava nesse horrível estado até que o mau cheiro
das carnes corrompidas lhes acabasse com a vida.
Astiáges,
rei da Armênia, condenou S. Bartolomeu Apóstolo a ser esfolado vivo.
Não
menos horrível o suplício a que foi submetido o diácono S. Lourenço.
Estenderam-no sôbre uma grelha e por baixo espalharam brasas, de maneira que
aos poucos fosse sentindo os ardores e mais longa e vivamente durasse o
tormento. Cozida uma parte do corpo, voltaram-no do outro lado, para que cada
membro tivesse seu sofrimento; e assim neste lento e atroz martírio, rendeu a
alma a Deus.
São
talvez êsses os suplícios do inferno? Qual! apenas a sombra, uma pálida idéia.
*
*
*
Fala-nos
o Padre Nierenberg de um jovem que levava uma vida aparentemente cristã, mas
odiava a um inimigo; e conquanto frequentasse os Sacramentos, nutria para com êle
sentimentos de vingança, que Jesus Cristo obrigava depor.
Morrendo,
apareceu ao pai, todo envolvido em chamas, e disse-lhe que se condenara por não
ter perdoado ao seu inimigo, e chorando exclamou:
–
Ah! se tôdas as estrêlas do céu fossem como línguas de fogo, não
traduziriam os tormentos que sofro.
*
*
*
Os
dois fatos seguintes se referem pròpriamente ao fogo do purgatório, mas não vêem
fora de propósito, já que os teólogos afirmam que o mesmo fogo que atormenta
os condenados no inferno, purifica também as santas almas do purgatório, e que
o purgatório é um inferno temporário.
Na
vida de Frei Estanislau Chosca, dominicano polonês, lê-se que um dia, quando
estava rezando pelos finados, viu uma alma tôda devorada pelas chamas.
Compreendeu que se tratava de uma alma do purgatório que implorava suflágios,
e a interrogou se aquêle fogo era mais penetrante que o nosso.
–
Ai de mim! respondeu a mísera, todo o fogo da terra, comparado com o do purgatório
é como um sôpro de ar fresquíssimo.
–
Mas, isto é impossível! exclamou o frade. Desejaria mesmo experimentar, com a
condição de que isto aproveite para me fazer descontar aqui uma parte das
penas que terei de sofrer, um dia, no purgatório.
–
Nenhum mortal, replicou então aquela alma, poderia suportar-lhe a mínima
parte, sem morrer no mesmo instante, se Deus não o sustentasse. Se queres
converter-te, estende a tua mão.
O
dominicano, em vez de intimidar-se ofereceu a mão: e o defunto deixou cair sôbre
ela uma gota de suor. Estanislau desmaiou no mesmo instante, soltando gritos
agudos. Acudiram logo os frades assustados e o encontraram desfalecido e com a mão
chagada. Levado para cama e medicado, recobrou os sentidos; mas não se levantou
mais, sempre atormentado por terríveis dores causadas pela chaga na mão; e
morreu depois de um ano, durante o qual não cessou de exortar os irmãos à
penitência para evitarem os rigores da justiça divina.
*
*
*
A
aparição que estou para referir é narrada na vida de S. Domingos, escrita por
Fernando de Castelha, e comprovada por um profundo sinal deixado numa mesa.
Em
Zamorra, cidade da província de Leão, na Espanha, vivia num convento de
Dominicanos um bom religioso, ligado em santa amizade com um Franciscano, homem
como êle, de grande virtude.
Um
dia que se entretinha sôbre coisas espirituais, prometeram recìprocamente que
o primeiro a morrer, se Deus lho permitisse, apareceria ao outro, para informá-lo
da sorte alcançada no outro mundo. (1)
Morreu
o Franciscano e, fiel à sua promessa, apareceu ao Dominicano, quando êste
arrumava a mesa. Depois de tê-lo cumprimentado com extraordinária benevolência
disse-lhe que estava salvo, mas, tinha, outrossim, ainda muito que sofrer por
algumas pequenas faltas das quais não se tinha arrependido bastante em vida. Em
seguida ajuntou: – “Nada existe sôbre a terra, que possa dar uma idéia das
minhas penas”. E para que o Dominicano tivesse disto uma prova, estendeu a mão
sôbre a mesa do refeitório, deixando na madeira a queimadura como se a mão fôra
um ferro em brasa, tirado então da forja.
Imagine-se
a comoção do Dominicano a este espetáculo!
A
mesa guardou-se religiosamente em Zamora, até o fim do século XVIII, no qual
as revoluções políticas a fizeram desaparecer, como a outras muitas relíquias
piedosas de que era rica a Europa.
*
*
*
Até
agora temos falado das penas do sentido; e que dizer das penas do dano? Que
dizer da privação de Deus?
A
privação da vista de Deus é o que pròpriamente constitui o inferno. Não
fazem o inferno as trevas, o mau cheiro, o alarido, o fogo; a pena que faz o
inferno é a pena de ter perdido a Deus. Se Deus mostrasse a face aos
condenados, êles não sentiriam mais nenhuma dôr, e o inferno seria um paraíso.
Apenas
a alma rompe os vínculos do corpo, sente imediatamente que foi criada para Deus
e se atira a Êle como uma flecha vôa para sua meta, como a agulha imantada
livre do empecilho volta-se para o solo; mas, estando manchada com o pecado, será
repelida e precipitada no inferno.
Um
caçador fez uma vez esta experiência: amarrou o seu galgo com uma grande
corrente, dentro do jardim murado, e depois soltou uma lebre. Apenas a viu, o cão
avançou para adentá-la mas é impedido pela corrente. Que raiva, vê-la correr
pelo jardim e não poder apanhá-la! Ladra, gane, dana-se, morde a corrente para
despedaçá-la, atira-se contra o animalejo que foge dum lado para outro. Fez
tanto esfôrço que pouco depois caiu morto.
A
alma tentará contínuamente lançar-se para Deus, para o qual foi criada, mas o
pecado é aquela corrente que não a deixará sair das chamas cruéis.
*
*
*
Um
virtuoso sacerdote, enquanto estava exorcizando um energúmeno, perguntou ao demônio
que penas sofria no inferno. A resposta foi esta:
–
Um fogo eterno, uma maldição eterna, uma raiva eterna e um desespêro cruel
por não poder mais ver Aquele que me criou.
–
Que farias para que te fosse concedido ver a Deus?
–
Para vê-lo, mesmo por um instante, estaria pronto a sofrer num minuto tôdas as
penas que devo sofrer em dez mil anos… Mas, vãos desejos, hei de sofrer
sempre e não O tornarei mais a ver.
E
foi tal o tormento e o desespêro com que pronunciou estas palavras, que deixou
funda impressão naquelas que assistiam aos exorcismos.
CAPÍTULO
V
Eu
não creio em nada
–
Eu não creio em nada, dizia-me duma feita um dêsses doutores da impiedade, com
empáfia.
–
Como? Vós não credes em nada? repliquei. Então não credes na existência da
América, da Oceania…
–
Oh! Certamente que sim; queria dizer, não creio em nenhuma coisa sobrenatural.
–
Mas, porque credes na existência da América e da Oceania, que nunca vistes?
–
Tem graça! Creio porque o afirmam os geógrafos e muitas pessoas que
perlustraram essas regiões.
–
E se credes na existência de coisas que nunca vistes, só porque o dizem os
homens, porque não credes na existência do inferno, do juízo, revelada pela
palavra infalível de Deus, confirmada pela razão e proclamada pela voz de
todos os povos?
O
livre pensador deu de ombros e não soube responder; mas, nem por isso se
converteu. Custava-lhe tanto deixar sua vida desregrada e praticar a virtude!
Como
são dignos de compaixão êsses libertinos! Pretendem destruir o inferno,
negando-lhe a existência; mas, quem nega uma coisa não consegue eliminá-la.
Se eu negasse a existência da América ou da África, não conseguiria riscá-las
da face do globo, mas subsistiriam, não obstante minha negação. Negai, negai
quanto quiserdes a existência do inferno, que apesar disso o inferno continuará
a existir e a queimar as suas vítimas, e um dia se abrirá para vós e vos
sepultará naquelas chamas, se vos não corrigirdes de vossas desordens. A vossa
fanfarrice e a vossa negação estulta não apagarão certamente aqueles ardores
sempiternos, ao contrário, servirão para os aumentar e fazer-vos afundar mais
naquele abismo. Quanto mais vos obstinardes na infidelidade e na negação do
inferno, tanto mais acumulareis pecados e culpas para expiar na eterna prisão.
*
*
*
Uma
ocasião, um infeliz, a quem se meteu na cabeça que não havia mais cárcere,
nem tribunal, começou a roubar e praticar iniquidades. Avisado várias vezes
pelos parentes e amigos, e ameaçado de prisão, replicava sempre que não havia
mais cárcere nem tribunal.
Sabeis
o que aconteceu? o que já se esperava: dois policiais o prendem; é processado
e condenado às galés por tôda a vida.
Eis
aí a história de todos os ímpios; abandonam-se aos vícios, acariciam as paixões,
cometem pecados e mais pecados, dizendo que tudo acaba com a morte e, no
entanto, caem no eterno abismo. E Santa Tereza viu que caíam em grande número,
como flócos de neve em dias de inverno!
*
*
*
Monsenhor
Ségur conta um fato bastante curioso, acontecido na escola militar de S. Ciro,
nos últimos anos da Restauração.
O
Padre Rigolot, capelão do estabelecimento, prègava um retiro espiritual aos
alunos, que se reuniam por isso tôdas as tardes na capela, antes de subir ao
dormitório. Uma das tardes, em que o bom do padre falara do inferno, terminada
a função, tomou a lanterna e se retirou para o seu aposento; e quando abria a
porta do quarto, percebeu que o chamava alguém que o seguia pela escada. Era um
velho capitão de bigode grisalho e de maneiras pouco gentis.
–
Desculpe, sr. Padre, lhe falou com ar de zombaria; V. R. fez-nos agora pouco um
magnífico discurso sôbre o inferno. Mas se esqueceu de nos dizer se lá nós
seremos cozidos, assados ou fritos. Poderia dizer-me?
O
capelão, percebendo que se tratava de um zoilo, fitou-o sériamente, e depois
enfiando-lhe sob o nariz a lanterna que trazia, respondeu com tôda a calma:
–
Haveis de ver, sr. capitão.
Dito
isto, fechou a porta; sem poder refrear o riso pela figura ridícula daquele
estróina.
Não
pensou mais nisso, mas daí por diante notou que o capitão fugia dêle.
Entretanto,
veio a revolução de julho e extintas as capelanias militares, o Arcebispo de
París nomeou o Padre Rigolot para outro cargo, não menos importante.
Passados
quase vinte anos, o venerando sacerdote entretinha-se com os amigos numa tertúlia,
quando um velho de bigode, branco, fazendo-se encontradiço, cumprimentou-o e
perguntou se era o Padre Rigolot, ex-capelão da escola de S. Ciro. Obtida
resposta afirmativa:
–
Oh! senhor padre, diz-lhe comovido o velho militar, permita-me que lhe aperte a
mão e que exprima o meu reconhecimento; o senhor me salvou.
–
Eu?! de que modo?
–
Oh! não me conhece mais? Não se lembra do ocorrido naquela noite, que um capitão
[…]
(………segue
na parte 3………)
1 Julgo prudente observar que não convém fazer tais acordos; ou pelo menos é preciso consultar o confessor.
O
INFENRO EXISTE (3)
(parte
3)
–
Oh! não me conhece mais? Não se lembra do ocorrido naquela noite, que um capitão,
instrutor da escola, a propósito de seu discurso sôbre o inferno, lhe fez uma
pergunta estúpida e V. R., pondo-lhe a lanterna sob o nariz respondeu: –
“Haveis de ver, capitão?”
Aquele
capitão sou eu; sabia que desde aquela ocasião suas palavras não me saíram
mais da mente, como não me abandonou mais o pensamento que eu devia ir para o
inferno. Lutei contra mim mesmo por dez anos; ao cabo dos quais, rendi-me a
Deus, confessei-me e agora tornei-me cristão e cristão à militar, isto é,
franco, sem respeito humano. A V. R. sou devedor de tanta ventura e folgo muito
de poder encontrá-lo para manifestar-lhe o meu reconhecimento.
*
*
*
O
Padre Bach, na vida de S. Francisco de Jerônimo, narra a triste sorte duma
mulher incrédula que zombava do inferno e dos novíssimos. O fato não deixa
nenhuma dúvida, pois foi juridicamente provado no processo de canonização do
santo, e atestado com juramento por muitas testemunhas oculares.
No
ano de 1707, S. Francisco de Jerônimo prègava, como de costume, nos arrabaldes
de Nápoles, falando sôbre o inferno e os terríveis castigos reservados aos
pecadores obstinados. Uma mulher insolente, morava na redondeza, aborrecida com
aqueles sermões, que lhe acordavam no coração amargos remorsos, procurou
molestá-lo com chascos e gritos, desde a janela de sua casa; uma vez, o santo
lhe disse: – Ai de ti, filha, se resistes à graça! não passarão oito dias,
sem que Deus te castigue.
A
desaforada mulher não se perturbou por aquela ameaça e continuou a com suas más
intenções. Passaram-se oito dias, e o santo foi prègar de novo perto daquela
casa, mas desta vez as janelas estavam fachadas e ninguém o importunava. Os
vizinhos que ouviam consternados lhe disseram que Catarina (tal era o nome
daquela péssima mulher) tinha morrido de improviso, pouco antes.
–
Morreu? disse o servo de Deus; pois bem, agora nos diga de que valeu zombar do
inferno; vamos perguntar-lhe.
Os
ouvintes sentiram que essas palavras o santo as pronunciara com inspiração, e
por isso todos esperaram um milagre. Acompanhado da multidão subiu à sala,
convertida em câmara ardente, e após breve oração, descobriu o rosto da
morta e:
–
Catarina, gritou, diz-nos onde estás!
A
esta ordem, a defunta ergue a cabeça, abre os olhos, toma côr o seu rosto, e
em atitude de horrível desespêro, profere com voz lúgubre estas palavras:
–
No inferno! eu estou no inferno!
Imediatamente
cai e volta ao estado de frio cadáver.
Eu estava presente ao fato, afirma uma das testemunhas que depuseram no tribunal apostólico, mas não saberia explicar a impressão que causou em mim e nos circunstantes; ainda hoje, passando perto daquela casa e olhando a tal janela, fico muito impressionado. Quando vejo aquela funesta moradia, parece-me ouvir a lúgubre voz: – No inferno! eu estou