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(Coloco este artigo de Dom Marcel Lefébvre, já falecido, que fora
excomungado da Igreja por ter se rebelado contra o modenrismo e contra a
derrubada da Missa em Latim. Como ele venceu e agora Sua Santidade o Papa
Bento XVI restabeleceu-a, é bom conhecer as entranhas desta batalha
interna da Igreja. Dom Marcel já está no Céu, embora tenha pegado mais
de 20 anos de Purgatório, e presumo, não devido ao fato de ser
excomungado, me devido ao ódio e às paixões que tal luta suscitou. Ódio
contra os cardeais que o fizeram sucumbir) - Obs: Aos leitores que não
conhecem o Movimento Salvai Almas, estes 20 anos de purgatório foram
revelados ao Profeta Cláudio Heckert.
Na edição de Maio-Junho
deste ano da revista francesa bimestral “Sous la Bannière”, na
página 7, há uma interessante citação atribuída ao Cardeal Ratzinger,
agora Papa Bento XVI. Lê-se o seguinte:
“Uma fonte na Áustria, que
prefere ficar anônima, nos assegura que o Cardeal Ratzinger recentemente
admitiu a seguinte frase a um bispo austríaco seu amigo:
/‘Eu tenho dois problemas em
minha consciência: D.Lefebvre e Fátima. Quanto ao último
(fátima), minha mão foi forçada. Quanto ao primeiro, eu falhei’/.”
O
que Ratzinger falou do terceiro segredo
Breve História
Fico contente em constatar que no mundo inteiro, no mundo católico, em
todo lugar, pessoas corajosas se reúnem em torno de padres fiéis à fé
católica e à Igreja Católica, para manter a tradição que é a
fortaleza de nossa fé.
Se existe um movimento tão geral é porque a situação da Igreja é
verdadeiramente grave. Pois, para que padres, fiéis católicos, aceitem
ser tratados de rebeldes, de dissidentes, de desobedientes, mesmo se
tratando de bons padres, alguns dos quais já serviram em paróquias
durante trinta anos com grande satisfação de seus paroquianos, é para
manter a fé católica. Eles o fazem conscientemente no espírito dos mártires.
Ser perseguido por seus irmãos ou pelos inimigos da Igreja, qualquer que
seja a mão que bata, por vista que seja contra a manutenção da fé, é
sofrer um martírio. Esses padres, esses fiéis, são testemunhas da fé
católica. Eles preferem ser considerados como rebeldes e dissidentes a
perder a fé.
Nós assistimos, no mundo inteiro, a uma situação trágica, inacreditável,
que parece não se ter jamais produzido na história da Igreja. É preciso
então tentar explicar esse fenômeno extraordinário. Como podem bons fiéis,
bons padres, se esforçarem por manter a fé católica num mundo católico
que está em plena dissolução? Foi o Papa Paulo VI, ele mesmo, que falou
de autodemolição da Igreja. O que significa esse termo de autodemolição
senão que a Igreja se destrói, ela mesma, por ela mesma, por seus próprios
membros? É isso o que já dizia o Papa São Pio X na sua primeira encíclica,
quando escrevia: «Hoje, o inimigo da Igreja não está mais no exterior
da Igreja, está no interior». E o Papa não hesitava em designar os
lugares aonde ele se encontrava: «O inimigo se encontra nos seminários».
Por conseqüência, já no início do século, o Santo Papa Pio X, na sua
primeira encíclica, denunciava a presença de inimigos da Igreja nos
seminários.
E é evidente que esses seminaristas que estavam imbuídos do modernismo,
do Sillonismo e do progressismo se tornaram padres. Alguns deles se
tornaram bispos e entre eles cardeais. Poderia-se citar os nomes daqueles
que fizeram seu seminário no início do século, que morreram agora, mas
cujo espírito era modernista e progressista.
Assim, já o Papa Pio X denunciava essa divisão na Igreja, uma certa
ruptura no interior mesmo da Igreja e do Clero.
Eu não sou mais jovem e já tive ocasiões, ao longo de minha vida de
seminarista, de minha vida sacerdotal e de minha vida episcopal, de
constatar essa divisão, e isso já no seminário francês de Roma, onde
eu fazia meus estudos, pela graça do Bom Deus. Confesso que não estava
muito entusiasmado pelos estudos feitos em Roma. Eu pessoalmente preferia
estar, como os seminaristas de minha diocese, no seminário de Lille e me
tornar um pequeno vigário e em seguida um simples cura numa paróquia do
campo.
Manter a fé numa paróquia: eu me via um pouco pai espiritual de uma
população a qual nos apegamos, para lhe inculcar a fé e os modos cristãos.
Era o meu ideal. Mas, aconteceu que meu irmão estava já, depois da
Guerra de 1914-1918, em Roma, porque ele tinha se separado da família por
circunstâncias da guerra no norte da França e, por conseqüência, meus
pais insistiram para que eu fosse reencontrar meu irmão. «Como seu irmão
já está em Roma, no seminário francês, vá então encontrá-lo e fazer
seus estudos com ele». E eu parti para Roma. Fiz meus estudos na
Universidade gregoriana, de 1923 a 1930. Fui ordenado em 1929 e fiquei
como padre no seminário durante um ano.
As primeiras vítimas do Modernismo
Ora, durante esses anos no seminário, passaram-se coisas trágicas que me
lembram exatamente tudo o que eu vi depois do Concílio. Estou
praticamente na mesma situação em que estava nosso superior do seminário
francês naquele momento: o padre Le Floch, que foi o superior do seminário
francês de Roma durante trinta anos. Era um homem muito digno, um Bretão,
forte e firme na sua fé como o granito da Bretanha. Ele nos ensinava as
encíclicas dos papas e o que era o modernismo condenado por S. Pio X, os
erros modernos condenados por Leão XIII, o que era o liberalismo
condenado por Pio IX. E nós amávamos nosso padre Le Floch. Nós éramos
muito apegados a ele.
Mas sua firmeza na doutrina, na tradição, desgostava aos modernistas,
evidentemente. Já existiam progressistas naquela época, pois os papas os
condenavam. Ele desagradava não somente aos progressistas, mas também ao
governo francês. O governo francês tinha medo que, por intermédio do
Pe. Le Floch, por essa formação dada aos seminaristas, os bispos
tradicionalistas viessem se implantar na França e dessem à Igreja da
França um clima tradicional e evidentemente antiliberal. Ora, o governo
francês era maçônico e por conseqüência, fundamentalmente liberal e não
podia nem pensar que bispos não liberais pudessem tomar os postos mais
importantes. Pressões foram exercidas sobre o papa para eliminar o Pe. Le
Floch. Foi Francisque Gay, futuro líder do M.R.P., o encarregado dessa
operação. Ele desceu a Roma e fez pressão sobre o Papa Pio XI,
denunciando o Pe. Le Floch como sendo, por assim dizer, da Action Française,
e um homem político ensinando aos seminaristas a serem membros da Action
Française.
Tudo isso era mentira. Durante três anos eu escutei o Pe. Le Floch nas
suas conferências espirituais. Nunca ele nos falou da Action Française.
Hoje eles me dizem: «Você foi naquele tempo membro da Action Française».
Eu nunca fui membro da Action Française.
Evidentemente, dizem que somos membros da Action Française, nazistas,
fascistas, tudo o que se pode nos rotular como etiquetas pejorativas,
porque nós somos anti-revolucionários e antiliberais.
Então uma pesquisa foi feita: o cardeal arcebispo de Milão foi enviado
ao local. Não era o menor dos cardeais. Beneditino, homem de uma grande
santidade e de uma grande inteligência, foi designado pelo Papa Pio XI
para pesquisar no seminário francês para ver se o que dizia Francisque
Gay era exato ou não. A pesquisa foi feita. O resultado foi: o seminário
francês funciona perfeitamente bem sob a direção do Pe. Le Floch. Não
temos absolutamente nada a reprovar ao superior do seminário.
Bem, isto não foi o suficiente. Três meses depois, nova pesquisa, dessa
vez com a ordem de acabar com o Pe. Le Floch. A nova pesquisa foi feita
por um membro das Congregações Romanas que concluiu, com efeito, que o
Pe. Le Floch era amigo da Action Française, que ele era perigoso para o
seminário e que era preciso pedir sua demissão. O que foi feito. Em
1926, a Santa Sé pediu ao Pe. Le Floch para deixar a direção do seminário
francês. Nós ficamos estarrecidos. O Pe. Le Floch nunca foi um homem político.
Era um homem tradicional, apegado à doutrina da Igreja, aos papas, grande
amigo do Papa Pio X, que tinha uma grande confiança nele. E,
precisamente, porque ele era um amigo do Papa Pio X, então ele era
inimigo dos progressistas.
E depois, nessa época em que eu estava no seminário francês, não
somente o Pe. Le Floch foi atacado, mas também o Cardeal Billot, teólogo
de primeiro valor, hoje ainda reputado e estudado nos nossos seminários.
Monseigneur Billot, cardeal da Santa Igreja, foi deposto. Tiraram-lhe a púrpura
e enviaram-lhe, como penitência, para perto de Albano, Castelgandolfo, na
casa dos Jesuítas, proibido de sair, sob o pretexto de que ele tinha ligações
com o Action Française. De fato, o Cardeal Billot não era da Action Française,
mas ele estimava a pessoa de Maurras e o citava em seu livro de teologia.
Por exemplo, no segundo livro da Igreja, «De Ecclesia», o Cardeal Billot
fez um magnífico estudo sobre o liberalismo, onde, em notas, fez algumas
citações de Maurras. Era um pecado mortal!Eles acharam isso para depor o
Cardeal Billot. Isto não é pouca coisa, um dos maiores teólogos de sua
época deposto como cardeal, reduzido ao estado de simples padre, pois ele
não era bispo (naquele tempo ainda havia cardeais diáconos). Já era a
perseguição.
O Papa Pio XI sofreu influência dos progressistas
O Papa Pio XI sofreu influência dos progressistas que se achavam já em
Roma. Nós vemos aí precisamente, uma certa diferença entre os papas que
se sucederam e portanto nessa época o Papa Pio XI fez encíclicas magníficas.
Não era um liberal. Sua encíclica contra o comunismo Divini Redemptoris,
sua encíclica sobre o Cristo-Rei, instaurando a festa do Cristo Rei ,
logo, o reino social de Nosso Senhor Jesus Cristo é magnífico. Sua encíclica
sobre educação cristã é absolutamente admirável e permanece hoje um
documento fundamental para aqueles que querem defender a escola católica.
Então, no plano da doutrina, o Papa Pio XI foi um homem admirável, mas
fraco no domínio da ação prática. Ele era influenciável. Foi assim
que ele foi muito influenciado na guerra do México (1926-1929) e que ele
deu ordem aos Cristeros, àqueles que defendiam a religião católica e
combatiam pelo Cristo-Rei, de confiar no governo e entregar as armas.
Desde que entregaram as armas, foram todos massacrados. Ainda se lembram,
no México, desse massacre horrível. O Papa Pio XI confiou no governo,
que o enganou. Depois do que se passou, ele mostrou-se desolado. Ele não
imaginava que um governo que lhe prometera tratar com honra àqueles que
defendiam sua fé iria em seguida massacrá-los. Foram, com efeito,
milhares de mexicanos que foram massacrados por causa de sua fé.
Já no início do século certas situações anunciam uma divisão na
Igreja. E chegamos lentamente, mas seguramente, às vésperas do Concílio.
O Papa Pio XII foi um grande papa. Tão bom nos seus escritos quanto na
sua maneira de conduzir a Igreja. E no tempo de Pio XII a fé foi
firmemente mantida e, naturalmente, os progressistas não gostavam dele,
porque ele lembrava os princípios fundamentais da teologia e da verdade.
Então veio João XXIII, ele que não tinha o temperamento de Pio XII. João
XXIII era um homem muito simples, muito familiar. Ele não via problemas
em lugar nenhum.
Quando ele quis fazer um sínodo em Roma, lhe disseram: «Mas, Santo
Padre, um sínodo tem que ser preparado, é preciso ao menos um ano,
talvez dois, para preparar tal reunião, afim de que os frutos sejam
numerosos e que as reformas possam ser verdadeiramente estudadas e em
seguida aplicadas para que Vossa diocese de Roma tire proveito. Isto não
pode se fazer assim, no espaço de dois ou três meses e depois quinze
dias de reuniões, e tudo irá bem. Não é possível !».
«Ah, sim, sim, eu conheço, eu sei, vamos fazer um pequeno sínodo, vamos
preparar isso em alguns meses e tudo irá bem».
Preparou-se o sínodo rapidamente: comissões em Roma, todo mundo
trabalhando. Quinze dias de sínodo e depois tudo acabou. O Papa João
XXIII estava contente, seu pequeno sínodo foi feito; resultado: nenhum.
Nada mudou na diocese de Roma. A situação ficou exatamente a mesma.
À deriva com o Concílio
A mesma coisa para o Concílio. «Tenho a intenção de fazer um Concílio».
Já o Papa Pio XII tinha sido solicitado por certos cardeais para reunir
um Concílio. Mas ele recusou, estimando que isso seria impossível. Não
se pode, dizia ele, na nossa época, fazer um Concílio com 2.500 bispos.
As pressões que se pode sofrer do fato dos meios de comunicação social
são muito perigosas para que se possa reunir um Concílio. Corre-se o
risco de perder o controle. E ele não fez o Concílio.
Mas o Papa João XXIII disse: não se pode ser pessimista; é preciso ver
as coisas com confiança. Vamos nos reunir durante três meses, com todos
os bispos do mundo inteiro. Começamos em 13 de outubro e entre 8 de
dezembro e 25 de janeiro, tudo terminado, todo mundo vai embora e volta
para suas casas e acaba-se o Concílio.
E o papa lançou o Concílio! Era preciso prepará-lo. Não se faz um Concílio
como um sínodo. Foi preciso prepará-lo dois anos antes. Fui nomeado
pessoalmente membro da Comissão Central Preparatória, sendo arcebispo de
Dakar e presidente da Conferência Episcopal do Oeste Africano. Eu vim,
então, a Roma, durante dois anos, ao menos umas dez vezes, para
participar das reuniões dessa Comissão Central Preparatória que era, de
fato, muito importante porque para ela todos os documentos das comissões
secundárias eram enviados, para serem estudados e submetidos ao Concílio.
Havia nessa comissão setenta cardeais e uns vinte arcebispos e bispos, além
dos peritos. Mas estes não eram membros da comissão. Estavam lá somente
para serem eventualmente consultados pelos membros.
A aparição da divisão
Ora, durante esses dois anos, as reuniões se sucederam e apareceu
claramente, para todos os membros que estavam presentes, que havia uma
divisão profunda no interior da Igreja. Uma divisão profunda, não
acidental ou superficial, mas uma divisão profunda mais ainda entre os
cardeais que entre os arcebispos e bispos. Na ocasião dos votos que foram
feitos vimos os cardeais conservadores votarem de uma maneira e os
cardeais progressistas de outra. E todos os votos eram sempre mais ou
menos no mesmo sentido. Está claro que havia uma divisão real entre os
cardeais.
Relatei em um de meus livros, Un Evêque Parle, um pequeno incidente que
sempre lembro porque caracteriza verdadeiramente o fim dessa Comissão
Central e o início do Concílio. Foi durante a última sessão; nós tínhamos
recebido dois documentos sobre o mesmo tema. O Cardeal Bea tinha preparado
um texto De Libertate Religiosa,“Da Liberdade Religiosa”. O Cardeal
Ottaviani tinha preparado um outro: De Tolerantia Religiosa, “Da Tolerância
Religiosa”.
Tratando do mesmo assunto, já os dois títulos eram significativos de
duas concepções diferentes. O Cardeal Bea falava da liberdade de todos
as religiões e o Cardeal Ottaviani da liberdade da religião católica e
da tolerância do erro, tolerância das falsas religiões. Como isso
poderia se arrumar em comissão ?
E desde o começo o Cardeal Ottaviani apontou o dedo sobre o Cardeal Bea e
lhe disse: «Eminência, não tens o direito de fazer esse documento». O
Cardeal Bea respondeu: «Perdão, como presidente da Comissão de Unidade
eu tinha perfeitamente o direito de fazer esse documento. Logo, eu fiz
esse documento cientemente. E, aliás, eu sou radicalmente opositor de
vossa tese.
Assim, dois cardeais dos mais eminentes, o Cardeal Ottaviani, prefeito do
Santo Ofício, e o Cardeal Bea, confessor do Papa Pio XII, jesuíta, tendo
uma grande influência sobre todos os cardeais, que era bem conhecido no
Instituto Bíblico, que fez estudos bíblicos muito superiores. Ou seja,
duas personalidades eminentes que se opõem sobre uma tese fundamental na
Igreja. Outra coisa é a liberdade de todas as religiões, isto é, por-se
sobre o mesmo pé a liberdade e o erro e depois, de outro lado, a
liberdade da religião católica e a tolerância dos erros.
É totalmente diferente. Tradicionalmente a Igreja foi sempre pela tese do
Cardeal Ottaviani e não por aquela do Cardeal Bea, que é totalmente
liberal.
Então, o Cardeal Ruffini, de Palermo, se levantou e disse: «Nós estamos
na presença de dois confrades que se opõem um ao outro sobre uma questão
muito importante na Igreja. Nós vamos ser obrigados a apelar à
autoridade suprema».
Com freqüência, o papa vinha presidir nossas reuniões. Mas ele não
estava nessa última. Então os cardeais pediram para votar: «Nós não
queremos esperar ir ver o Santo Padre, nós vamos votar». Fizeram um
voto. A metade dos cardeais, mais ou menos, votou pela tese do Cardeal Bea
e a outra pela do Cardeal Ottaviani. Ora, todos os que votaram pelo
Cardeal Bea eram os cardeais da Holanda, da Alemanha, da França, da Áustria,
todos, em geral, da Europa e da América do Norte. Quanto aos cardeais
tradicionais, eles eram da Cúria romana, da América do Sul e em geral os
de língua espanhola.
Era uma verdadeira ruptura na Igreja. E desde esse momento eu me perguntei
como o Concílio iria se passar, com oposições parecidas sobre teses
também importantes. Quem vai prevalecer? É o Cardeal Ottaviani com os
cardeais de língua espanhola e de língua latina, ou os cardeais europeus
e os da América do Norte?
E, com efeito, a luta começou imediatamente no interior do Concílio
desde os primeiros dias. O Cardeal Ottaviani apresentou a lista dos
membros que faziam parte das comissões preparatórias, dando plena
liberdade a cada um de escolher o que queria. Porque era evidente que nós
não nos conhecíamos. Nós chegáramos, cada um de sua diocese, como
conhecer os 2.500 bispos do mundo ?
Pede-se para votar para designar os membros das comissões do Concílio.
Quem escolher? Nós não conhecíamos os bispos da América do Sul, da África
do Sul, da Índia.
Então o Cardeal Ottaviani pensou: Roma já fez uma escolha para todas as
Comissões Preparatórias, isso poderia ser uma indicação para ajudar os
padres do Concílio a escolher. Era perfeitamente normal.
O Cardeal Lienart se levantou e disse: «Nós não aceitamos esse
procedimento. Pedimos 48 horas de reflexão afim de melhor conhecer
aqueles que poderiam fazer parte de diferentes comissões. É uma pressão
que é exercida sobre o julgamento dos padres. Nós não o aceitamos».
O Concílio tinha começado há dois dias e já era um afrontamento entre
os cardeais. O que aconteceu?
Durante essas duas horas os cardeais liberais tinham já preparado listas
variadas de todos os países do mundo e eles distribuíram nas caixas de
correio de todos os padres do Concílio. Nós todos recebemos então uma
lista propondo: membros de tal comissão, este, aquele... de diferentes países.
Muitos disseram: – enfim, porque não? Eu não os conheço. Como a lista
já está pronta, só temos que nos servir. Quarenta e oito horas depois
foi a lista dos liberais que veio em primeiro lugar. Mas ela não passou
com dois terços de votos, como previa o regulamento do Concílio.
Então, o que faria o Papa? O Papa João XXIII iria fazer uma exceção ao
regulamento do Concílio ou aplicá-lo ? Evidentemente os cardeais
liberais tiveram medo e se precipitaram em busca do Papa e disseram: «Escute,
temos mais da metade das vozes, quase 60%. O senhor não pode recusar
isso. Não se vai ainda refazer uma eleição, não se sairá mais disso.
Isto representa bem a maioria do Concílio, só podemos aceitar isso». E
o Papa João XXIII aceitou. E desde o começo todos os membros da Comissão
do Concílio foram nomeados pela fração liberal. Pode-se calcular que
influência enorme isso iria ter no Concílio.
Estou certo que o Papa João XXIII morreu prematuramente do que ele viu e
anteviu do Concílio. Ele que pensava que no fim de alguns meses tudo
teria acabado. Um Concílio de três meses. Todos se abraçam e voltam
para casa, felizes e contentes de ter estado em Roma e de ter feito uma
boa reuniãozinha.
Ele descobriu que o Concílio era um mundo e um lugar onde haveria
disputas. Nenhum texto saiu da primeira sessão do Concílio. O Papa João
XXIII ficou desconcertado e eu acho que isso acelerou sua morte. Disseram
mesmo que sobre seu leito de morte ele disse: «Pare o Concílio, pare o
Concílio».
Paulo VI dá seu apoio aos liberais
Veio o Papa VI. E é evidente que ele deu seu apoio à facção liberal.
Como assim?
Desde o começo de seu pontificado, na Segunda sessão do Concílio, ele
nomeou imediatamente quatro moderadores. Mas já havia os dez presidentes
que durante a primeira sessão presidiram os trabalhos do Concílio. Cada
um dentre eles presidia uma sessão, depois o segundo, depois o terceiro.
Eles estavam numa mesa mais elevada que os outros. Eles dirigiam o Concílio.
O Papa Paulo VI nomeou imediatamente esses quatro moderadores, e os
presidentes se tornaram os presidentes de honra. Os quatros moderadores
tornaram-se os verdadeiros presidentes do Concílio.
Ora, quem eram esses moderadores? O Cardeal Döpfner, de Munich, muito
progressista, muito ecumênico. O Cardeal Suenens, que todo mundo conhece
como mais carismático e que fez conferências em favor do casamento dos
padres. O Cardeal Lercaro, conhecido por seu filo-comunismo e que tinha um
vigário geral inscrito no partido comunista. E, enfim, o Cardeal
Agagionian. Ele representava um pouco a facção tradicional, pode-se
dizer. Era um homem discreto, sério, que por conseqüência não teve
verdadeira influência sobre o Concílio. Mas os três outros conduziram a
tarefa com o vento em popa. Eles reuniam constantemente os cardeais
liberais, o que deu uma força considerável à facção liberal do Concílio.
Evidentemente os cardeais e os bispos tradicionalistas se acharam, desde
então, como postos de lado, desprezados.
Quando o pobre cardeal Ottaviani, cego, pedia a palavra, se ele não
terminasse no fim dos dez minutos que lhe era dado, escutava-se murmúrios
entre os jovens bispos para lhe fazer calar, lhe fazer compreender que se
estava satisfeito de lhe ouvir. Que já bastava. Foi horrível. Esse venerável
cardeal, venerado por toda Roma, que teve uma influência enorme na Santa
Igreja, prefeito do Santo Ofício, não é uma função qualquer. Era
escandaloso ver como eram tratados aqueles que eram tradicionalistas.
Monsenhor Stoffa (nomeado cardeal mais tarde) muito ativo, recebeu da
presidência do Concílio pedido que se calasse. Coisas inimagináveis.
A Revolução na Igreja
Assim se passou o Concílio. É evidente que todos as teses, todos os
textos do Concílio foram influenciados pelos cardeais liberais e as
comissões liberais. Não devemos nos espantar que tenhamos tido textos
ambíguos, favoráveis a mudanças, a uma verdadeira revolução na
Igreja.
Será que nós poderíamos ter feito alguma coisa, nós que representávamos
a facção tradicional dos bispos e cardeais? Pouca coisa, em definitivo.
Éramos duzentos e cinqüenta favoráveis à permanência da Tradição e
desfavoráveis a mudanças de vulto na Igreja: falsa renovação, falso
ecumenismo, falsa colegialidade. Nós éramos opostos a essas coisas.
Esses duzentos e cinqüenta bispos, evidentemente, tiveram algum peso e,
em certas ocasiões, os textos foram modificados. O mal foi um pouco
limitado. Mas nós não conseguimos impedir certas teses de passar,
particularmente a da liberdade religiosa, cujo texto foi refeito cinco
vezes. Cinco vezes a mesma tese voltava. Nós nos opusemos sempre. Havia
sempre duzentos e cinqüenta vozes contra. Então o Papa Paulo VI fez
adicionar duas pequenas frases no texto, dizendo: «não há nada nesse
texto que seja contrário à doutrina tradicional da Igreja» e «a Igreja
permanece sempre a verdadeira e única Igreja de Cristo».
Então, os bispos espanhóis, em particular, disseram: «bem, já que o
Papa adicionou isso, agora não há mais problema, já que não há nada
contra a tradição». Se as coisas são contraditórias, essa pequena
frase contradiz tudo o que está no interior do texto. É um esquema
contraditório. Não se pode aceitar isso. Então sobraram somente, se eu
me lembro bem, setenta e quatro bispos que permaneceram contra. É o único
esquema que encontrou uma tal oposição: 74 sobre 2.500, é pouca coisa !
Então terminou o Concílio, não podemos nos espantar com as reformas que
foram feitas. Depois de toda a história do liberalismo, os liberais
saindo vitoriosos no interior do Concílio, exigiram do Papa Paulo VI
lugares nas Congregações romanas. E, de fato, os lugares importantes
foram dados aos progressistas. Quando morria um Cardeal, ou numa ocasião
qualquer que permitisse ao Papa Paulo VI afastar um cardeal
tradicionalista, ele colocava imediatamente um cardeal liberal no seu
lugar.
Foi assim que Roma achou-se ocupada pelos liberais. É um fato que não se
pode mais negar, nem que as reformas do Concílio foram reformas que
respiram esse espírito de ecumenismo, um espírito protestante, nem mais
nem menos.
A Reforma Litúrgica
O mais grave foi a reforma litúrgica. Ela foi operada, sabe-se, por um
padre bem conhecido, Bugnini, que tinha preparado isso muito tempo antes.
Já em 1955, o Padre Bugnini fez traduzir os textos protestantes por Mons.
Pintonello, Capelão Geral do exército italiano, que tinha passado muito
tempo na Alemanha durante a ocupação, pois ele próprio não conhecia
alemão. Foi Mons. Pintonello que disse a mim mesmo que ele tinha
traduzido os livros litúrgicos protestantes para o Padre Bugnini, que
naquele momento era um membro menor de uma comissão litúrgica. Ele não
era nada. Depois foi professor de liturgia no Latrão. O Papa João XXIII
lhe mandou embora por causa de seu modernismo, de seu progressismo. Pois
bem, ele tornou-se presidente da Comissão da Reforma da Liturgia. É
inacreditável. Eu tive ocasião de constatar eu mesmo a influência do
Padre Bugnini. Como isso pôde acontecer em Roma.
Eu era, naquele tempo, logo depois do Concílio, superior geral da
Congregação dos Padres do Espírito Santo e nós tínhamos, em Roma, uma
Associação de superiores gerais.
Nós pedimos ao Pe. Bugnini para nos explicar o que era sua nova missa,
porque enfim, não era um pequeno acontecimento. Depois do Concílio, logo
depois, ouviu-se falar de Missa normativa, Missa nova, novus ordo, o que
é isso tudo? Não se falou disso no Concílio. O que está acontecendo?
Então nós pedimos ao Pe. Bugnini para explicar ele mesmo aos 84
superiores gerais que se reuniram, entre os quais eu me encontrava.
O Padre Bugnini, com muito boa vontade, nos explicou o que era a Missa
normativa: vai-se mudar isso, vai-se mudar aquilo, vamos pôr um outro
ofertório, poderemos escolher os Canons, poderemos reduzir as orações
da Comunhão, poderemos ter muitos esquemas para o final da Missa.
Poderemos dizer a Missa em língua vernácula. Nós nos olhávamos
dizendo: não é possível!
Ele falava exatamente como se nunca tivesse tido uma Missa antes dele.
Falava de sua Missa normativa como de uma invenção nova.
Pessoalmente, fiquei atônito e mudo, quando, habitualmente, eu tomo com
facilidade a palavra para me opor àqueles com os quais não estou de
acordo. Não conseguia dizer uma palavra. Não é possível que seja a
esse homem que está aí diante de mim que foi confiada toda a reforma da
Liturgia Católica, do Santo Sacrifício da Missa, dos Sacramentos, do
Breviário, de todas as nossas orações. Aonde vamos nós? Aonde vai a
Igreja?
Dois superiores gerais tiveram a coragem de se levantar. E um deles
questionou o Padre Bugnini: «É uma participação ativa, é uma
participação corporal, isto é, orações vocais, ou é a participação
espiritual? Em todo caso, o senhor falou tanto da participação dos fiéis,
que parece que não se justifica mais a Missa sem fiéis, porque toda a
sua Missa foi feita em função da participação dos fiéis. Nós
beneditinos, celebramos nossas Missas sem fiéis. Então, devemos
continuar a dizer nossas Missas privadas, visto que não temos fiéis que
aí participem?»
Eu vos repito exatamente o que disse o Pe. Bugnini, eu tenho ainda nos
meus ouvidos tanto isso me chocou: «Para falar a verdade, não se pensou
nisso», disse ele!
Depois um outro se levantou e disse: «Reverendo Padre, o senhor disse:
vamos suprimir isso aqui, suprimir aquilo lá, substituir isso por aquilo,
e sempre orações mais curtas, eu tenho a impressão que a sua nova Missa
vai ser dita em dez, doze minutos, um pequeno quarto de hora, não é razoável,
não é respeitoso para um tal ato da Igreja». E ele lhe respondeu isso:
«Poder-se-á sempre adicionar qualquer coisa». É sério? Eu ouvi com os
meus ouvidos. Se fosse qualquer um que me tivesse contado eu teria quase
duvidado, mas eu escutei eu mesmo.
Depois, no momento em que essa Missa normativa começou a se realizar, eu
estava tão horrorizado que nós fizemos uma pequena reunião com alguns
padres, alguns teólogos, de onde saiu o “Breve exame crítico” que
foi levado ao Cardeal Ottaviani. Eu presidia essa pequena reunião. Foi
dito: «É preciso ir aos cardeais. Não se pode deixar fazer isso sem
reagir.»
Então fui procurar eu mesmo o secretário de Estado, o Cardeal Cicognani
e lhe disse: «Vossa Eminência deixará passar isto? Não é possível. O
que é essa nova Missa? É uma revolução na Igreja, uma revolução na
liturgia.»
O Cardeal Cicognani, que era o Secretário de Estado de Paulo VI, pôs a
cabeça entre as mãos e disse-me: «Oh, Monsenhor, eu bem sei: Eu estou
de acordo com o senhor, mas o que eu posso fazer ? O Pe. Bugnini pode
entrar no escritório do Santo Padre e lhe fazer assinar o que ele quer.»
Foi o Cardeal Secretário de Estado que me disse isso! Então, o Secretário
de Estado, a personalidade número dois da Igreja depois do Papa, foi
posta em estado de inferioridade em relação ao Pe. Bugnini. Ele podia
entrar nos aposentos do Papa quando ele queria e lhe fazer assinar o que
ele quisesse.
Isso pode explicar, então, porque o Papa Paulo VI teria assinado textos
que ele não tinha lido. Ele disse isso ao Cardeal Journet, que era um
homem muito ponderado, professor na Universidade de Friburgo, na Suiça,
um grande teólogo. Quando o cardeal viu essa definição da Missa na
Instrução que precede o novo “Ordo”, ele disse: não se pode aceitar
essa definição da Missa; é preciso que eu vá a Roma ver o Papa. Ele
foi e disse: «Santo Padre, não podeis deixar essa definição, ela é
herética. Não podeis continuar a deixar vossa assinatura numa coisa como
essa». E o Santo Padre lhe respondeu (o Cardeal Jounet não me disse a
mim mesmo, mas a alguém que me repetiu): «Bem, realmente, eu não a li.
Eu assinei sem ler.» Evidentemente, se o Pe. Bugnini tinha uma tal influência
sobre ele, é possível. Ele dizia ao Santo Padre: «Podeis assinar» «Mas
o senhor prestou bem atenção?» — «Sim, vós podeis assinar.»E ele
assinou.
E isso não passou pelo Santo Ofício. Eu o sei, pois o Cardeal Seper ele
mesmo me disse que estava ausente quando o Novo Ordo foi editado e que
isso não passou pelo Santo Ofício. Então, foi realmente o Pe. Bugnini
que obteve essa assinatura, que contrariou talvez o Papa, nós não
sabemos, mas que tinha, sem dúvida alguma, uma influência extraordinária
sobre o Santo Padre.
Terceiro fato do qual eu fui testemunha a propósito do Pe. Bugnini: na
ocasião da permissão que estava sendo dada para a comunhão na mão
(mais uma coisa horrível!) eu achei que não podia deixar passar isso. É
preciso que eu vá ver o Cardeal Guth – um suiço – que era prefeito
da Congregação do Culto. Eu fui então a Roma, onde o Cardeal Guth me
recebeu muito amavelmente, e imediatamente me disse: «Eu vou fazer entrar
o meu segundo, o Arcebispo Antonini, afim de que ele possa ouvir o que o
senhor diz.» E nós conversamos. Eu disse: «Escute, o senhor que é
responsável pela Congregação do Culto, não pode deixar publicar esse
decreto autorizando a comunhão na mão. Imagine todos os sacrilégios que
isso vai representar. Imagine a falta de respeito pela Santa Eucaristia
que vai se espalhar em toda a Igreja. É inadmissível, o senhor não pode
deixar fazer algo assim. Já os padres começam a dar a comunhão dessa
maneira. É preciso parar isso imediatamente. E com essa nova missa eles
pegam sempre o pequeno cânon, o segundo, que é muito breve». A esse
propósito, o Cardeal Guth disse a Mons. Antonini: «Veja, eu disse que
isso aconteceria, que os padres pegariam o cânon mais curto, para ir mais
rápido, para acabar mais rápido com a Missa».
Depois o Cardeal Guth me disse: – «Monsenhor, se pedissem minha opinião
(quando ele dizia "pedissem", era ao Papa que ele se referia,
porque só o Papa era seu superior), mas eu não estou certo que vão me
pedir (ele que era Prefeito da Congregação do Culto, encarregado de tudo
que era ligado ao culto e a liturgia!), eu me poria de joelhos, Monsenhor,
diante do Papa e lhe diria: Santo Padre, não faça isso, não assine esse
decreto! Eu me poria de joelhos, Monsenhor. Mas eu não sei se me
interrogarão pois não sou eu que mando aqui». Isso eu ouvi com meus
ouvidos. Ele fazia alusão a Bugnini, que era o terceiro na Congregação
do Culto. Havia o Cardeal Guth, o Arcebispo Antonini e o Pde. Bugnini,
presidente da Comissão de Liturgia. É preciso ter escutado isso! É
preciso compreender também minha atitude quando me dizem: o senhor é um
dissidente, um desobediente, um rebelde.
Infiltrados na Igreja para destruí-la
Sim, eu sou um rebelde. Sim, eu sou um dissidente. Sim, eu sou um
desobediente dessa gente, dos Bugnini. Porque são eles que se infiltraram
na Igreja para destruí-la. Não é possível fazer de outro modo.
Então, vamos contribuir para a destruição da Igreja? Vamos dizer: sim,
sim, amém, mesmo se é o inimigo que penetrou até junto do Santo Padre e
que pode fazê-lo assinar o que ele quer? Sob quais pressões? Não
sabemos. Existem coisas escondidas que nos escapam, evidentemente. Alguns
dizem que é a maçonaria. É possível, eu não sei. Em todo caso, há um
mistério. Como um padre que não é cardeal nem mesmo bispo, um padre
ainda jovem naquela época, que subiu contra a vontade do Papa João
XXIII, que o tinha expulsado da Universidade do Latrão, que subiu, subiu
e que chegou ao topo que se ri do Cardeal Secretário de Estado, que se ri
do Cardeal Prefeito da Congregação do Culto, que vai diretamente ao
Santo Padre e lhe faz assinar o que ele quer. Nunca se viu nada de
parecido na Santa Igreja. Tudo passa sempre pelas autoridades. Faz-se
Comissões. Estuda-se os documentos. Mas esse rapaz era todo poderoso!
Foi ele que trouxe esses pastores protestantes para mudar nossa Missa. Não
foi o Cardeal Guth. Não foi o Cardeal Secretário de Estado, talvez nem
mesmo o Papa. Foi ele. Que tipo de homem era esse Bugnini?
Um dia o Abade de São Paulo fora dos Muros, beneditino que precedeu
Bugnini na Comissão de Liturgia, me disse: «Monsenhor, não me fale do
Pe. Bugnini; eu sei muito sobre ele. Não me pergunte quem ele é». Eu
retomei: «Mas diga-me, porque é necessário que as pessoas saibam, é
necessário que as coisas apareçam» «Eu não posso lhe falar do Pe.
Bugnini». Logo, ele o conhecia bem. É provável que tenha sido ele que
tenha pedido a João XXIII de sair da Universidade do Latrão.
Este conjunto de coisas nos mostra que o inimigo penetrou no interior da
Igreja, como já dizia São Pio X; ele está no mais alto cume, como
anunciou Nossa Senhora de La Salette, e como está, sem dúvida, no
terceiro segredo de Fátima.
Mas, se o inimigo está realmente dentro da Igreja, deve-se lhe obedecer?
Ah! sim, ele representa o Papa... Antes de tudo, não se sabe de nada, não
se sabe o que pensa o Papa.
É bem verdade que eu tenho provas pessoais de que o Papa Paulo VI era
muito influenciado pelo Cardeal Villot. Diziam que o Cardeal Villot era maçom.
Não sei. Aconteceram coisas. Fotocopiaram cartas de maçons endereçadas
ao Cardeal Villot. Não tenho as provas. Mas, de qualquer forma, o Cardeal
Villot tinha grande influência sobre o Papa. Ele reuniu em suas mãos
todos os poderes em Roma. Tornou-se o mestre, muito mais do que o Papa.
Tudo passava por suas mãos. Isso eu sei. Um dia, fui ver o Cardeal
Wright, sobre o catecismo canadense. Eu lhe disse: «Veja esse catecismo.
O senhor conhece estes livretos intitulados Ruptura? São abomináveis.
Eles ensinam às crianças a romper: romper com a família, com a
sociedade, com a Tradição...são os catecismos que se ensina às crianças
no Canadá, com Imprimatur de Mgr. Courdec. O senhor é encarregado dos
catecismos no mundo inteiro, o senhor está de acordo com este catecismo?»
«Não, não - me disse ele - este catecismo não é católico» «Ele não
é católico? Diga isso imediatamente à Conferência Episcopal do Canadá.
Diga-lhes para parar, de joga-lo no fogo e retomar verdadeiros catecismos».
«Como quer o senhor que eu me oponha a uma Conferência Episcopal?»
Eu disse então: acabou-se. Não há mais autoridade dentro da Igreja.
Terminado! Se Roma não pode dizer mais nada a uma Conferência Episcopal,
mesmo se ela esta destruindo a Fé das crianças, então é o fim da
Igreja.
Esta é a situação: Roma tem medo das Conferências Episcopais. Estas
Conferências são abomináveis. Na França, existe uma campanha
patrocinada pelos bispos em favor da contracepção. Acho que eles foram
convencidos pelo governo socialista que passa constantemente na televisão
este slogan: tome a pílula para impedir o aborto. Eles não acharam nada
melhor do que isso e fazem uma campanha irracional em favor da pílula.
Elas são subvencionadas para meninas de doze anos, para evitar o aborto!
E os bispos aprovam! No boletim da diocese de Tulle, que continuo a
receber porque é a minha antiga diocese, havia documentos oficiais em
favor da contracepção, firmados pelo bispo, Mgr. Bruneau, um antigo
superior geral dos padres de Saint Sulpice, um dos melhores bispos da França.
É assim!
Porque eu não obedeço
O que devemos fazer? Eles dizem: o senhor deve obedecer, o senhor é
desobediente, não tem o direito de continuar o que está fazendo, está
dividindo a Igreja.
O que é uma lei? O que é um decreto? O que nos obriga à obediência?
Uma lei, diz Leão XIII, é uma ordenação da razão para o bem comum,
nunca para o mal comum – é para o bem. Isso é tão evidente que, se
for para o mal, deixa de ser uma lei. Leão XIII dizia isso explicitamente
na Encíclica Libertas. Uma lei que não é para o bem comum não é mais
uma lei e não deve ser obedecida.
Muitos canonistas, em Roma, dizem que a Missa de Bugnini não é uma lei.
Não houve lei para a Nova Missa. Admitamos que tenha até havido uma lei,
vinda de Roma, uma ordenação da razão para o bem comum e não para o
mal comum. Ora, a Nova Missa está destruindo a Igreja, destruindo a Fé.
É evidente. O Arcebispo de Montreal (Canadá), Mgr. Grégoire, numa carta
publicada, foi muito corajoso. É um dos raros bispos a ter ousado
escrever uma carta denunciando os males que sofre a Igreja em Montreal. «Ficamos
assustados de ver o abandono das paróquias por grande número de fiéis.
Atribuímos isso, em grande parte, à reforma da Liturgia». Ele teve a
coragem de falar assim.
Estamos diante de uma verdadeira conjuração dentro da Igreja, da parte
dos atuais cardeais, como o Cardeal Nox, que fez essa famosa pesquisa
sobre a Missa de S. Pio V no mundo inteiro. É uma mentira clara e
evidente para influenciar o Papa João Paulo II, para que ele dissesse: se
é só esse pequeno número que quer a Tradição, isso vai acabar
sozinho, não vale nada. Na verdade, o Papa, quando me recebeu em audiência,
em Roma, em novembro d e1978, queria assinar um ato, pelo qual os padres
pudessem rezar a Missa de sua escolha. Ele estava inclinado a fazer isso.
Mas existe em Roma um grupo de cardeais que é radicalmente contra a Tradição.
O Cardeal Casaroli, prefeito da Congregação dos Religiosos; o Cardeal
Baggio, prefeito da Congregação dos Bispos, posto muito importante que
cuida da nomeação dos bispos. E o famoso Virgínio Lévi, segundo da
Congregação do Culto, talvez pior do que Bugnini. O Cardeal Hamer,
arcebispo belga, segundo do Santo Ofício, nascido na região de Louvain,
formado com todas as idéias modernistas de Louvain. Estes são
radicalmente contra a Tradição; não querem nem ouvir falar. Creio que
se pudessem me esganar eles o fariam.
Que eles nos deixem ao menos a liberdade
Eles se unem contra mim assim que sabem que eu faço um esforço junto ao
Santo Padre para tentar obter a liberdade para a Tradição. Que eles nos
deixem em paz; que nos deixem rezar como se rezou durante séculos; que
nos deixem continuar o que nós aprendemos no seminário; que eles nos
deixem continuar o que aprendemos quando éramos moços, que é procurar a
melhor maneira de se santificar. É isso que nos ensinaram no seminário.
Pratiquei isso quando me tornei padre; quando me tornei bispo, ensinei
isso aos meus padres e a todos os meus seminaristas: eis o que é preciso
fazer para tornar-se santo. Amar o Santo Sacrifício da Missa, a que nos
é dada pela Igreja; os sacramentos, o catecismo. Principalmente, não
mudem nada, preservem a Tradição que dura há vinte séculos. É isso
que nos santifica, foi isso que santificou os santos. Agora eles querem
mudar tudo. Não é possível. Que eles nos deixem, ao menos, a liberdade!
Ora, quando eles ouvem isso, imediatamente eles vão ao Santo Padre e
dizem: nada para Mgr. Lefebvre, nada para a Tradição. Não volte atrás!
Como são cardeais muito importantes, o Cardeal Casaroli, Secretário de
Estado, e outros, o Papa não ousa. Há alguns cardeais que aceitariam uma
norma favorável, como o Cardeal Ratzinger. Ele substituiu o Cardeal
Seper, que morreu no Natal de 1981. E olha que o Cardeal Ratzinger era
muito liberal na época do Concílio. Foi amigo de Rahner, de Hans Kung,
de Schillebeeckx. Mas por causa de sua nominação como arcebispo de
Munich ele abriu um pouco os olhos. Ele está, certamente, mais consciente
do perigo das reformas e mais desejoso de voltar às normas tradicionais,
junto com o Cardeal Palazzini, da Congregação das beatificações, e do
Cardeal Oddi, da Congregação do clero. Esses três cardeais estariam
dispostos a nos deixar a liberdade. Mas os demais têm ainda muita influência
sobre o Santo Padre...
Fui a Roma, há cinco semanas, para ver o Cardeal Ratzinger, que foi
nomeado pelo Papa para substituir o Cardeal Seper junto à Fraternidade São
Pio X, junto a mim. O Cardeal Seper tinha sido nomeado quando da audiência
que o Papa João Paulo II me tinha concedido. Ele chamou o Cardeal Seper e
lhe disse: «Eminência, o senhor manterá as relações entre Mgr.
Lefebvre e eu. O senhor será o intermediário». Agora ele nomeou o
Cardeal Ratzinger.
Fui vê-lo e conversamos durante quase duas horas. Certamente o Cardeal
Ratzinger parece mais positivo e mais capaz de alcançar uma boa solução.
A única dificuldade que permanece séria é a questão da Missa. No
fundo, sempre foi a Missa, desde o início. Pois eles sabem muito bem que
eu não sou contra o Concílio. Há coisas que eu não aceito no Concílio.
Não assinei o texto da liberdade religiosa; não assinei o texto da
Igreja no mundo. Não se pode dizer que eu sou contra o Concílio, mas há
coisas que não se pode aceitar, que são contrárias à Tradição. Isso
não deveria lhes importar tanto, pois o próprio Papa disse que se deve
analisar o Concílio à luz da Tradição. Se fosse visto o Concílio à
luz da Tradição, isso não me incomodaria em nada. Eu assinaria esta
frase, pois tudo o que é contrário à Tradição seria, evidentemente,
rejeitado. Durante uma audiência que o Papa me concedeu, ele me
perguntou: «O senhor estaria disposto a assinar esta fórmula?» Eu
respondi: «Foi o senhor mesmo que a utilizou e eu estaria disposto a
assina-la». «Então, disse ele, não há dificuldade dogmática entre nós».
E eu disse: «Assim eu espero» «O que sobra, então? O senhor aceita o
Papa?» «É claro que nós reconhecemos o Papa e rezamos pelo Papa nos
nossos seminários. Nós somos, talvez, os únicos seminários do mundo
onde se reza pelo Papa. E respeitamos muito o Papa. Quando o Papa me pediu
para vir, eu sempre vim. Mas há a questão da liturgia, disse eu, que é
realmente muito difícil. A liturgia está demolindo a Igreja, demolindo
os seminários. É uma questão muito grave». «Não, não, é uma questão
disciplinar, não é grave. Se só existe isso, penso que chegaremos a uma
solução».
Em seguida o Papa chamou o Cardeal Seper que veio imediatamente. Se ele não
tivesse vindo, penso que o Papa teria assinado um acordo. O Cardeal Seper
chegou e o Papa lhe disse: «Acho que as coisas não são difíceis de se
acertar com Mgr. Lefebvre; creio que poderíamos chegar a uma solução, há
apenas a questão da liturgia que é um pouco difícil» E o Cardeal
respondeu: «Ah! não dê nada a Mgr. Lefebvre. Eles fazem da Missa de S.
Pio V uma bandeira». E a mim de intervir: «Uma bandeira, claro, a
bandeira de nossa Fé, a Santa Missa, Misterium Fidei, é o grande mistério
de nossa Fé. É claro, é nossa bandeira, é a expressão de nossa Fé».
Mas isso impressionou muito ao Santo Padre, que pareceu mudar
imediatamente. Para mim, isso mostrou que o Papa não é um homem forte.
Se ele tivesse sido forte, ele teria dito: sou eu que vou ver isso. Vamos
resolver isso. Mas não. De repente ele teve como um medo, tornou-se
temeroso e, no momento em que deixava seu escritório ele disse ao Cardeal
Seper: «O senhor poderia conversar já agora. Poderia tentar acertar as
coisas com Mgr. Lefebvre. Fiquem aqui, eu tenho que ir ver o Cardeal
Baggio. Ele tem muitos dossiers para ver comigo sobre os bispos. Eu tenho
de ir». E ao sair ele me disse: «Pare, Monsenhor, pare». Ele estava
transformado. Em poucos minutos ele tinha mudado completamente. Foi nesta
audiência que eu lhe mostrei uma carta que tinha recebido de um bispo
polonês.
Ele me tinha escrito um ano antes, para me dizer que ele me felicitava
pela obra que eu tinha fundado em Écône, dos padres que eu formava. Ele
queria que eu mantivesse a Missa antiga em toda sua Tradição, e
acrescentava: não sou o único. Somos vários bispos que vos admiram, que
admiram seu seminário e a formação que o senhor dá aos padres e a
Tradição que o senhor mantém dentro da Igreja, porque nós, nos obrigam
a tomar a nova Liturgia para arrancar a fé dos nossos fiéis.
Isso dizia este bispo polonês. Então eu levei esta carta no meu bolso
quando fui ver o Santo Padre, pois eu pensava: ele vai certamente me falar
da Polônia. E não me enganei. Ele me disse: «O senhor sabe, na Polônia
tudo vai muito bem. Porque o senhor não aceita as reformas? Na Polônia não
há problemas. Só se sente falta do latim, nós éramos muito ligados ao
latim, pois isso nos unia a Roma, e nós somos muito romanos. É pena, mas
o que o senhor quer que eu faça, não há mais latim nos seminários, nem
no Breviário, nem na Missa. Não tem mais latim. É uma infelicidade, mas
é assim. O senhor vê, na Polônia aceitou-se as reformas, não há
nenhum problema: nossos seminários estão cheios, nossas igrejas estão
cheias».
Eu respondi ao Santo Padre: «O senhor me permite mostrar uma carta que
recebi da Polônia?» E mostrei a carta. Quando ele leu o nome do bispo
disse: «Oh! é o pior inimigo dos comunistas...ah! é uma boa referência.».
E o Papa leu atentamente a carta. Eu olhava seu rosto para ver sua reação
diante dessas palavras ditas duas vezes na carta: nos obrigam a tomar a
reforma litúrgica para arrancar a fé dos nossos fiéis. Evidentemente
era difícil de engolir. No final ele me disse: «O senhor recebeu esta
carta assim?» - «Sim, é uma fotocópia que eu trouxe para o senhor». -
«Oh! deve ser falsa».
O que eu podia dizer? Não havia nada mais a responder. O Papa me disse:
«O senhor sabe, os comunistas são muito hábeis para tentar provocar
divisões nos episcopados». Ou seja, segundo ele, seria uma carta
fabricada pelos comunistas que me teria sido enviada. Mas eu duvido muito,
pois esta carta foi postada na Áustria e eu suponho que seu autor tenha
tido medo do extravio da carta pelos comunistas e que ela não chegasse.
Por isso ela foi postada na Áustria. Eu respondi a este bispo, porém não
recebi mais nada dele. É para mostrar que há, eu penso, também na Polônia,
divisões profundas. Aliás, sempre houve, entre os padres da Pax e os que
querem manter a Tradição. Isso foi trágico atrás da cortina de ferro.
A influência dos comunistas em Roma
É preciso ler o livro Moscou e o Vaticano, do padre jesuíta Lepidi. É
extraordinário. Ele mostra a influência que têm os comunistas em Roma e
como eles chegam a fazer nomear bispos e até dois cardeais: o Cardeal
Lekaï e o Cardeal Tomaseck. O primeiro, sucessor do Cardeal Mindszenty. O
segundo, sucessor do Cardeal Beran, que foram heróis e mártires da Fé.
Em seus lugares puseram os padres da Pax, ou seja, pessoas decididas,
antes de mais nada, a se entenderem com os governos comunistas e que
perseguem os padres tradicionais. Os padres que vão secretamente batizar
alguém no interior ou fazer o catecismo escondido para continuar sua obra
de pastores da Igreja Católica, são perseguidos por estes bispos que
lhes diz: vocês não têm o direito de não respeitar as ordens dos
governos comunistas. Vocês nos atrapalham agindo assim.
Esses padres estão prontos a dar suas vidas para preservar a fé de seus
filhos, para preservar a fé das famílias, para dar os sacramentos aos
que têm necessidade. É claro que nestes países é preciso sempre pedir
autorizações, quando vão levar o Santíssimo Sacramento nos hospitais
ou para qualquer outra coisa. Se eles saem de suas sacristias têm de
perguntar ao P.C. se lhes autoriza. É impossível. As pessoas morrem sem
sacramentos; as crianças não são mais educadas de modo cristão. Por
isso eles fazem escondido. E quando eles são presos, são os próprios
bispos que os perseguem. É assustador.
Não seriam o Cardeal Wyszynski, nem o Cardeal Slipyi, nem o Cardeal
Mindszenty, nem o Cardeal Béran que fariam algo parecido. Eles, ao contrário,
empurravam seus bons padres dizendo: vamos, partam. Se forem para a prisão
terão feito seu dever de padre. Se for para serem mártires, sejam mártires.
Isso mostra a influência exercida sobre Roma e que temos dificuldade de
imaginar. É difícil de acreditar.
Quanto a mim, nunca estive contra o Papa. Nunca disse que o Papa não era
papa. Sou inteiramente pelo Papa, pelo sucessor de Pedro. Não quero me
separar de Roma. Mas sou contra o Modernismo, contra o progressismo,
contra toda esta influência má, nefasta, do protestantismo nas reformas,
e contra todas as reformas que nos envenenam e envenenam a vida dos fiéis.
Eles dizem: o senhor é contra o Papa. Ao contrário, eu venho socorrer o
Papa, pois o Papa não pode ser modernista e progressista, é uma fraqueza
ele deixar acontecer. Isso pode acontecer. São Pedro foi fraco também
diante de S. Paulo, quanto aos judeus. E São Paulo o repreendeu
duramente: «Não andas segundo o Evangelho», disse São Paulo a São
Pedro. São Pedro era Papa e São Paulo o repreendeu. Ele disse com vigor:
«Repreendi o chefe da Igreja que não andava segundo a lei do Evangelho»
Era grave dizer isso ao Papa. E Santa Catarina de Sena, também fez críticas
veementes aos Papas. Nós temos a mesma atitude ao dizer: Santíssimo
Padre, o senhor não está cumprindo seu dever. É preciso voltar à Tradição
se deseja que a Igreja refloresça. Se o senhor permite que esses
cardeais, que esses bispos, persigam a Tradição, estará realizando a ruína
da Igreja.
Tenho certeza que, no seu coração o Papa tem uma profunda inquietação
e que ele procura um meio de renovar a Igreja, e eu espero que com nossas
orações, com nossos sacrifícios, com as orações de todos os que amam
a Igreja, todos que amam o Papa, tenho certeza que conseguiremos.
E principalmente com a devoção à Santíssima Virgem. Se nós rezarmos
à Santíssima Virgem, ela não pode abandonar seu Filho, ela não pode
abandonar a Igreja que seu Filho fundou, a esposa mística de seu Filho.
Vai ser difícil, vai ser um milagre, mas nós vamos conseguir.
Mas para mim, não quero que me façam dizer que a Nova Missa é boa, que
ela é simplesmente menos boa que a outra, mas que é boa. Não posso
dizer isso. Não posso dizer que estes sacramentos são bons. Eles foram
feitos pelos protestantes, eles foram feitos por Bugnini. E o próprio
Bugnini disse, como podemos ler no Observatório Romano e na Documentation
Catholique, que traduziram o discurso de Bugnini, de 19 de março de 1965,
ou seja, antes de todas as reformas:
«Devemos tirar das nossas orações católicas e da liturgia católica
tudo que possa ser sombra de choque para nossos irmãos separados, quero
dizer, para os protestantes».
Será possível que se tenha de ir perguntar aos protestantes, sobre o
Santo Sacrifício da Missa, dos sacramentos, de nossas orações, do nosso
catecismo: em que vocês não estão de acordo? Vocês não gostam disso
ou daquilo? Bom, vamos suprimir.
Não é possível. Talvez não nos tornemos heréticos, mas a fé católica
será diminuída. É assim que não se acredita mais no limbo, no purgatório,
no inferno. Não se acredita mais no pecado original, nem nos anjos. Não
se acredita mais na graça, não se fala mais do sobrenatural. É o fim da
nossa fé.
Então devemos manter inteiramente nossa fé e rezar à Santíssima Virgem
porque, por nós mesmos... é um trabalho de gigantes que nós queremos
realizar, e sem o socorro do Bom Deus não conseguiremos. Dou-me conta da
minha fraqueza, do meu isolamento. O que posso fazer sozinho diante do
Papa? Diante dos cardeais? Não sei. Vou como um peregrino, com meu cajado
de peregrino. Vou dizer: guardem a fé, guardem a fé. Sejam mártires mas
não abandonem a fé. É preciso manter os sacramentos e o Santo Sacrifício
da Missa.
Não podemos dizer: ah! você sabe, se mudou não faz mal. Eu tenho a fé
bem enraizada e não corro o risco de perder a fé.
Percebemos que os que estão habituados a freqüentar a nova missa e os
novos sacramentos, pouco a pouco mudam de mentalidade. Alguns anos mais
tarde, conversando com alguém que vai nessa nova missa, nessa missa ecumênica,
percebemos que adotou o espírito ecumênico. Termina-se colocando todas
as religiões no mesmo plano. Podemos perguntar-lhe: pode-se salvar pelo
protestantismo, pelo budismo, pelo islamismo? Ele responderá: mas claro,
todas as religiões são boas. E pronto! Tornou-se um liberal,
protestante. Não é mais católico.
Só existe uma religião, não há duas. Se Nosso Senhor é Deus e se Deus
fundou uma religião, a religião Católica, não pode haver outras religiões,
não é possível. As outras religiões são falsas. É por isso que o
Cardeal Ottaviani disse: «Da tolerância religiosa». Tolera-se os erros
porque não se pode impedir que eles se espalhem. Mas não se os coloca em
pé de igualdade com a Verdade. Ou então se acaba com o espírito missionário.
Se todas essas falsas religiões salvam, então porque sair em missão,
para quê? Deixem-nos em suas religiões e eles vão se salvar...Não é
possível. O que fez a Igreja durante vinte séculos? Porque todos esses mártires?
Porque todos os que foram massacrados nas missões? Os missionários
perderam seu tempo, perderam seu sangue, perderam suas vidas! Não podemos
aceitar isso.
Precisamos permanecer católicos e é muito perigoso escorregar no
ecumenismo e embarcar numa religião que não é mais católica.
Desejo vivamente que todos sejam testemunhas de Nosso Senhor, da Igreja
Católica, testemunhas do Papa, da Catolicidade, mesmo se devemos ser
desprezados, insultados nos jornais, nas paróquias, nas igrejas. E daí!
Somos as testemunhas da Igreja Católica, os verdadeiros filhos da Igreja
Católica e os verdadeiros filhos da Santíssima Virgem Maria.
+ Mgr. Marcel Lefebvre
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