Religião e Modernidade: artigo de Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Londrina

 
27.11.2006 - A modernidade ou o mundo moderno em que vivemos privilegia a liberdade, a felicidade, a racionalidade. É um mundo condicionado pela urbanização, tecnologia, consumismo, democracia, poder econômico e consciência da subjetividade da pessoa humana. O deus da modernidade é o mercado, cujos templos são os bancos, os shoppings, os motéis, com suas romarias de adoradores e devotos. O poder do mercado relegou a religião para a esfera do intimismo e privacidade. Fez o despejo da religião, fenômeno conhecido como secularismo. O mercado destronou Deus e usurpou o domingo, dia do Senhor.

Esta mesma modernidade criou certos vírus que estão contagiando a humanidade: poluição da natureza, desemprego, êxodo rural, inchaço das cidades, exclusão dos pobres, violência, aids, câncer, stress, drogas, alcoolismo, neurose. Aumentou a insegurança e o medo. Esta insatisfação, unida à queda dos valores e ao vazio existencial, forçou a volta da religião, do misticismo, a chamada “volta do sagrado”. O mercado provocou a volta da religião. É a pós-modernidade. Hoje, as pessoas querem Deus, mas não querem a Igreja, nem a vontade de Deus, nem os mandamentos. Querem, sim, que Deus, a religião preencham seus vazios, carências e necessidades. A religiosidade atual é mais busca de tranqüilidade e equilíbrio emocional que verdadeira fé. É uma religião mais terapêutica que ética. Todos estamos em busca de satisfação pessoal, da libertação do pânico, de segurança psicológica. A vida urbana fragiliza as pessoas, deixa-as inseguras, medrosas, angustiadas. Este chão é fecundo para a volta da religiosidade, do misticismo. Temos aí um mercado de religiões para todos os gostos. Religião sim, Igreja não. Religiosidade sim, compromisso não, eis a síntese da nova religiosidade.

O esoterismo promete sorte e segurança. Seu deus é a razão, o conhecimento do destino das pessoas determinado pelo seus gurus iluminados. A Nova Era promove um mundo diferente, civilizado e pacífico sob a direção dos astros. O pentecostalismo sobressai pela cura das doenças e libertação dos vícios. O espiritismo traz as consolações do além e a macumba invoca sorte para alguns e faz feitiço para outros. As religiões orientais estimulam paz, harmonia, relax e satisfação. Eis o mercado religioso, verdadeira inversão do cristianismo, porque todas estas religiosidades ou ajustam Jesus ao seu gosto, ou são anti-cristãs, porque não promovem conversão das pessoas, a vivência comunitária, a libertação social.

A grande diferença entre religião e fé, religião e Igreja, religião e cristianismo é: religiões são intimistas, tranqüilizadoras, terapêuticas, satisfazem o ego. O cristianismo é seguimento de Cristo, é mudança de vida, é engajamento eclesial, é transformação social, é libertação política, econômica, cultural e social.

Alguém já escreveu que as religiões são “inimigas do cristianismo”. Os poderes da antiga Roma chamavam os cristãos de ateus porque não adoravam a Nero. Hoje, corremos o risco de ter religiões atéias, porque em nome de Deus, abafam Cristo e seu evangelho e fazem da religiosidade um jogo de marketing. São as religiões mercantilistas: “Fizestes da minha casa de oração, um covil de ladrões (Mc 11,17), uma casa de comércio (Jo 2,16).” Mercado e religião produzem pano para muita manga.

Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina
Data publicação: 22/11/2006