Caio
Blinder
De Nova York
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| Irã é tido
como principal patrocinador do Hezbollah |
Nas voláteis e sempre explosivas
crises do Oriente Médio, já surgiram novos perdedores indiscutíveis.
São civis no Líbano e no norte de Israel, vítimas de
bombardeios e do lançamento de foguetes.
A curto prazo, o
Irã emerge como um vencedor. A crise deflagrada pela provocação
do grupo xiita Hezbollah e aprofundada pela resposta israelense
mostrou a capacidade do regime de Teerã de estender os seus tentáculos.
Não se trata apenas do seu apoio ao Hezbollah, mas da ampliação
de oportunidades para atuar como um "player" regional.
Essas
oportunidades foram abertas pela reação americana aos ataques do
11 de Setembro. As invasões do Afeganistão e do Iraque foram um
presente de George W. Bush ao regime de Teerã pela eliminação de
inimigos fronteiriços, o Talebã e Saddam Hussein.
Os iranianos se tornaram atores-chaves no imbróglio iraquiano e,
ironicamente, ao lado de Washington, peças de sustentação de um
governo xiita, lance fundamental para que a nova ordem tivesse um
esboço de legitimidade.
O velho Iraque
foi destruído. O novo é uma ciranda de caos e morte. A invasão
americana que deveria ter sido a ponta-de-lança de um admirável
mundo novo ganha cada vez mais contornos vietnamitas para os
americanos.
Atolado no
Iraque, o governo Bush foi perdendo a capacidade de atuação no
Oriente Médio. Em outros casos, como na crise palestina, foi
negligente por opção. O vácuo diplomático foi cada vez mais
ocupado pelos iranianos, para a inquietação de regimes árabes
conservadores e sunitas.
A crise libanesa
apenas melhorou a posicao iraniana. De imediato serviu para tirar o
foco do seu programa nuclear. Teeran espera que os desdobramentos
desta crise inclusive dividam americanos e europeus, que estao
relativamente unidos em uma postura cada vez mais dura nas
negociacoes nucleares com os iranianos.
Velho Líbano
Com seus aliados
sírios, os iranianos visualizam claros benefícios na degringolada
libanesa, em particular devido à virulenta resposta israelense.
O Líbano da onda
democrática que levou à retirada das tropas sírias se tornara um
cartão postal deste admirável mundo novo tramado na cabeça de
Bush. Agora temos novamente o Líbano dilacerado, velho de guerra.
Damasco e Teerã deram o recado de que não podem ser marginalizados
ou simplesmente colocados a escanteio no Oriente Médio.
Como no caso de
Israel, ainda é cedo para dizer se iranianos e sírios cometeram um
erro de cálculo com suas jogadas para tirar proveito da conflagração.
Vale repetir que a situacao é volátil, e vencedores do momento
talvez percam a longo prazo. Mas existem outros perdedores indiscutíveis,
além de civis alvejados por bombas israelenses e foguetes do
Hezbollah.
Perderam os que
apostavam em uma primavera democrática no Oriente Médio. Eleições
podem resultar em governos como o do Hamas, no caso palestino, ou de
participação ministerial de grupos como o Hezbollah, no Líbano.
Foram alguns dos
desfechos não intencionados por Bush quando ele decidiu criar
impetuosamente um admirável mundo novo no Oriente Médio. Agora é
o momento de reversão.
Como lembrou o
editorial de quarta-feira do jornal The Washington Post, hoje
no Egito existe o "apoio tácito" de Bush ao presidente
Hosni Mubarak na sua campanha para esmagar o movimento democrático
que floresceu no ano passado.
Como ninguém,
George W. Bush alterou o status quo no Oriente Médio com a invasão
do Iraque em 2003. O que será montado no lugar é tão incerto como
um foguete Katyusha.
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