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Super Interessante - O Fim do Mundo começou |
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Fonte:
www.superinteressante.com.br
( edição de outubro de 2005 )
Enchentes, epidemias, furacões - para os cientistas o apocalipse já começou. Nesta edição entenda como o planeta entrou em colapso e conheça a conspiração para esconder isso de você! (DESCRIÇÃO DA CAPA)
No mês passado, o furacão Katrina devastou Nova Orleans. Não demorou um dia até que uma porção de gente começasse a declarar que a culpa não era do efeito estufa. O climatologista Pat Michaels, da Universidade da Virgínia, por exemplo, se apressou a afirmar que "ainda não há prova de que as contribuições humanas para o efeito estufa causem furacões". É sempre assim. Existe nos EUA um verdadeiro exército disposto a desfazer qualquer relação entre a ação humana e os efeitos destrutivos do aquecimento global. "Há uma enorme campanha de desinformação", diz o jornalista Ross Gelbspan, autor de Boiling Point ("Ponto de Ebulição", inédito no Brasil). A tese de Gelbspan é a de que o governo Bush e as empresas petrolíferas investem pesado em confundir a opinião pública. Quer dizer então que a ação humana causou o Katrina? Não. Impossível afirmar isso com o pouco que sabemos sobre clima. Mas uma coisa é certa: furacões só acontecem quando as águas dos oceanos ficam quentes demais - e o mundo está cada vez mais quente, como você pode ver no mapa abaixo. A temperatura média do planeta subiu 0,7 ºC no último
século. Nas últimas décadas, geleiras tidas como eternas começaram a
derreter, enchentes e secas se tornaram mais violentas, ondas de calor mataram
milhares e um furacão fez sua estréia no Brasil. E o pior: foi só o começo.
Nos próximos 100 anos, prevê-se que a temperatura aumentará entre 1,4 ºC e
5,8 ºC. Se considerarmos que 0,7 ºC causou tudo isso, dá para dizer que a
palavra "apocalipse" não está longe de descrever o que vem por aí.
O aquecimento global não é uma ameaça distante: é um perigo palpável, real,
e está bem na sua frente. O Alasca é uma das regiões mais afetadas pelo
aquecimento global - em alguns pontos, a temperatura no inverno subiu 6ºC desde
1960. Entretanto, quase todos os lugares frios do mundo têm uma história para
contar a respeito do calor crescente. No início de 2002, uma placa de gelo com
o dobro do tamanho da cidade de São Paulo e Tanto degelo não é à toa. A década de 1990 foi a mais quente desde que os cientistas começaram as medições, no século 19 - 1998 registrou o calor recorde e 2005 é forte candidato ao 2o lugar na lista. Há indícios de que as altas temperaturas da última década não têm paralelo ao menos nos últimos 1 000 anos. "O que o aquecimento global faz é tornar o ano
todo mais parecido com um verão", diz o meteorologista Carlos Nobre, do
Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC). Além do calor,
espere todas as atrações de um verão que se preze (secas, enchentes e
tempestades) e mais algumas (nevascas, por exemplo, que são fruto de mais
umidade em regiões frias). "Se aquecemos a atmosfera, aumentamos a energia
e toda a máquina do clima trabalha mais rápido: muita chuva em um momento e
muita evaporação Com isso, os prejuízos com desastres naturais ao redor do mundo têm aumentado. Segundo a ONU, eles foram de 55 bilhões de dólares em 2002. Em 2003, o número subiu para 60 bilhões. Um relatório elaborado em 2002 por 295 bancos e companhias de seguro concluiu que as perdas chegarão a 150 bilhões de dólares por ano na próxima década. Andrew Dlugolecki, diretor da maior seguradora britânica, avalia que as perdas em 2065 serão maiores do que o valor de toda a produção mundial. É difícil saber se toda essa grana pode ser debitada da conta do aquecimento global. Afinal, o clima sempre foi imprevisível e sujeito a desgraças repentinas. Mas a lógica diz que deve haver algo de errado quando tanta coisa estranha acontece ao mesmo tempo. Veja como exemplo o furacão Catarina, que em março de 2004 atingiu a Região Sul brasileira, destruindo milhares de casas. Ele bem pode ser um fenômeno de causas naturais. Mas nunca em toda a história houve qualquer registro de furacões naquelas bandas. Não é coincidência demais que tenha acontecido justo agora? Mas existem alguns fenômenos mais fáceis de relacionar ao aquecimento. Em 2003, um calor muito acima da média na Europa causou cerca de 30 mil mortes e um prejuízo direto de 13,5 bilhões de dólares. "Foi um verão atípico, mas os modelos dizem que, daqui a 50 anos, a temperatura média européia será parecida com a que gerou essa catástrofe", diz David King, o principal consultor para assuntos científicos do governo inglês. Outra conseqüência bem clara do aquecimento global é que, em todo o mundo, o inverno está chegando mais tarde e o verão, mais cedo. Na Inglaterra, a primavera aparece 3 semanas antes. Isso significa flores desabrochando mais cedo, animais mudando a época de acasalamento e muitas espécies migrando lentamente em direção aos pólos, onde o clima é mais parecido com o que estavam acostumadas. Não apenas as espécies selvagens são afetadas pelo problema: as plantações também perdem. Entre 2000 e 2003, pela primeira vez na história recente, o mundo produziu menos grãos do que consumiu por 4 anos seguidos (ou seja, tivemos de atacar nossos estoques). "A produção cai com o aumento da temperatura. Inevitavelmente, ela vai diminuir mais e a fome no mundo, aumentar", diz o agrometereologista Hilton Silveira Pinto, da Unicamp. Esses problemas já estão fazendo vítimas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o aquecimento global mata cerca de 160 mil pessoas por ano. Vários dos fatores diretos das mudanças climáticas afetam a saúde: falta de alimentos leva à desnutrição, enchentes trazem leptospirose e contaminam fontes de água, o que traz diarréias. Mas, nessa história toda, pelo menos uma família de animais parece ter se beneficiado: os mosquitos. Resultado: epidemias. Eles não só se proliferam mais rapidamente no calor como atingem áreas que antes eram frias demais para o seu estilo de vida. Junto com eles, doenças como malária, dengue e febre amarela têm mais possibilidades de se propagar. Ou seja, é uma tragédia. Mas pode piorar muito. Por que esquenta? O mais influente desses gases, o dióxido de carbono, está em uma concentração bem pequena na atmosfera. Até o século 19, ele não passava de 0,027% do ar que respiramos. Entretanto, em 1958, quando os cientistas começaram a medir a concentração, a nossa queima de combustíveis já tinha jogado esse número para 0,031%. Hoje, ele já passa dos 0,037%. Parece pouco, mas é uma concentração que com certeza nunca foi vista nos últimos 420 mil anos e possivelmente nos últimos 20 milhões de anos. Com mais dióxido carbono no ar, temos certamente uma receita para um mundo mais quente - mas é bem difícil de dizer o quanto. Vários efeitos, alguns quase desconhecidos da ciência, influem no clima. Pode ser, por exemplo, que a temperatura do planeta sofra uma grande influência das mudanças na atividade solar, um fenômeno misterioso e dificílimo de medir. O resultado disso é que, apesar de os cientistas saberem que o planeta está esquentando, ninguém pode determinar ao certo qual porcentagem desse aquecimento é culpa nossa. Nesse ponto, a meteorologia é uma ciência bem peculiar. "A Terra é uma só, não dá para fazer experimentos e depois comparar", diz o ecólogo mexicano Exequiel Ezcurra, do Museu de História Natural de San Diego, EUA. "Temos de decifrar o aquecimento global da mesma forma com que Darwin fez a Teoria da Evolução: observando, anotando e criando modelos". Os modelos a que Ezcurra se refere existem em alguns dos computadores mais potentes do mundo - são softwares que tentam reproduzir com fidelidade cada variável que influi no clima. É claro que esses modelos ainda são imperfeitos: por mais memória que um computador tenha, ele ainda fica longe da complexidade da atmosfera terrestre. Mas o fato é que estamos chegando cada vez mais perto desse objetivo. E, quanto melhores os modelos ficam, mais aparecem evidências de que o aquecimento global não poderia acontecer apenas por causas naturais. Um exemplo é uma pesquisa de 1997 que mostrou que as temperaturas mínimas noturnas e de inverno estão subindo quase duas vezes mais rápido do que as máximas diurnas e de verão. Variações na atividade do Sol fariam as duas oscilarem de forma parecida. Outra pesquisa, feita dois anos depois, mostrou que todas as causas naturais somadas não teriam a força suficiente para levar às alterações que estamos observando no clima. Ou seja, cabe mesmo à humanidade tomar uma providência. A conspiração do calor Realmente, há ainda muitas dúvidas cercando o assunto - só que a existência do aquecimento global e a nossa responsabilidade nele não estão entre elas. Quem garante é o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (conhecido pela sigla em inglês, IPCC), um grupo de cerca de 2 mil cientistas de mais de 100 países que se reuniram, em uma das maiores colaborações científicas da história para analisar o problema. "Ter tantos pesquisadores defendendo a mesma opinião é o mais perto que se pode chegar de uma verdade científica", diz Gelbspan. Mesmo assim, há alguns poucos pesquisadores dispostos a afirmar que o aquecimento global não existe, que ele não é causado pela ação humana ou até que ele não vai ser ruim para o mundo. Três dos mais famosos desses cientistas são o meteorologista Richard Lindzen, o físico Fred Singer e o climatologista Pat Michaels, este último aquele que disse no começo desta reportagem que ninguém provou que ações humanas possam causar furacões. O problema é saber se dá para acreditar em alguma coisa do que esses cientistas vêm dizendo. "Singer, Michaels e outros 'céticos' estavam manipulando dados, omitindo fatos cruciais, criando objeções ilusórias e interpretando a situação de forma errada deliberadamente", diz Gelbspan. O jornalista revelou que os 3, sem contar a ninguém, vinham recebendo dinheiro de indústrias de carvão e petróleo para fazer suas pesquisas. Segundo ele, Singer e Michaels foram pagos pela Peabody, a maior empresa privada de carvão do mundo, para fazer uma turnê pelos EUA pregando que o aquecimento é uma "teoria", não um fato. A empresa deixava claro que o público-alvo dessas palestras seriam pessoas de baixo nível educacional - alvos mais fáceis de manipulação. Mas o personagem que mais contribuiu para gerar dúvidas sobre as mudanças climáticas não é um cientista. Trata-se de ninguém menos que o presidente dos EUA, George W. Bush. Exemplo da atuação dele é um relatório escrito pelo assessor da Casa Branca Frank Luntz, que entre outras coisas já havia recomendado trocar o termo "aquecimento global" pelo mais ameno "mudança climática". No relatório, chamado Vencendo o Debate sobre Aquecimento Global, que uma ong trouxe a público, Luntz recomendava que, em vez de controlar as emissões, o governo deveria passar a imagem de que desenvolveria tecnologias capazes de resolver o problema. E acrescentava que "o público acredita que não existe consenso sobre aquecimento global na comunidade científica. Se ele vier a acreditar que as questões científicas estão fechadas, sua opinião irá mudar." E concluía: "Existe ainda uma oportunidade para desafiar a ciência." Bush retirou seu país dos acordos da ONU para o
controle de gases de efeito estufa, praticamente melando a decisão, já que os
EUA produzem mais de um terço desses gases no mundo. Ele também defendeu que
era preciso "mais pesquisas" antes de qualquer decisão e afirmou que
limitar a emissão de gases ameaçaria o estilo de vida americano. No início de
seu primeiro mandato, anunciou um plano energético que previa a construção de
Em 2003, o presidente americano chamou de "fruto da burocracia" um estudo da Agência Americana de Proteção Ambiental que afirmava que a emissão de gás carbônico aqueceria os EUA. No ano seguinte, seu gabinete censurou de um relatório dessa mesma agência qualquer referência aos problemas climáticos. Uma revelação de como funcionavam esses cortes veio no início deste ano, quando Rick Piltz, um dos coordenadores do programa de pesquisas em mudanças climáticas do governo americano, divulgou uma carta denunciando a alteração forçada de relatórios científicos. O autor das mudanças seria Philip Cooney, um ex-lobista do Instituto Americano de Petróleo (uma associação comercial da indústria petrolífera), que foi alçado, no governo Bush, a nada menos do que chefe do Conselho de Qualidade Ambiental. Cooney renunciou em junho deste ano, quando o jornal The New York Times trouxe a público documentos que comprovavam as tais mudanças nos textos científicos. No mês seguinte, ele foi contratado pela gigante petrolífera ExxonMobil. É fácil entender o interesse das empresas de carvão e petróleo em abafar as discussões sobre as mudanças climáticas. Afinal, resolver o problema requereria cortes drásticos nos seus principais produtos, a ponto de ameaçar a própria existência dessas indústrias. E trata-se de um setor gigantesco, que movimenta 1 trilhão de dólares e que, entre 1998 e 2004, gastou nada menos que 440 milhões de dólares em influência política nos EUA, principalmente com lobistas e contribuições de campanha. A relação dessas indústrias com o governo Bush são especialmente próximas, não só pelas doações vultosas, mas também pelo fato de que várias pessoas do gabinete têm vínculos com empresas do setor. "Normalmente, os casos de corrupção levam a produtos defeituosos ou fundos de pensão fraudados. Mas, nesse caso, o que está em jogo é o futuro do planeta. É um crime contra a humanidade", afirma Gelbspan. E qual é a solução? Isso quer dizer que teremos de desenvolver uma
quantidade gigantesca de tecnologias para substituir todas as comodidades que o
petróleo nos fornece. Em teoria, o mundo já tem quase todas as técnicas de
que ele precisa para amenizar o problema, mas colocá-las em prática está
longe de ser simples. Uma das idéias mais promissoras, por exemplo, é capturar
dióxido de carbono que seria jogado na atmosfera e enterrá-lo em fossas a, no
mínimo, O país que mais defende a idéia de que as tecnologias vão nos salvar é, pouco surpreendentemente, os EUA, maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta. Em julho, eles aderiram a um pacto com Austrália, China, Índia, Japão e Coréia do Sul para desenvolver tecnologias capazes de substituir o carbono. Em vez de diminuir as emissões, o plano de Bush para 2012 é reduzir em 18% a intensidade do carbono, ou seja, a quantidade de gases do efeito estufa necessárias para se obter a mesma produção. "Investir apenas no desenvolvimento de tecnologias é empurrar o problema mais para a frente, quando ele hoje já pode ser grave o suficiente. É parte da ilusão de que a tecnologia resolve tudo", diz Luiz Pinguelli Rosa, secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. A maior parte dos cientistas acredita que a única solução viável é mesmo reduzir a quantidade de gases do efeito estufa que jogamos na atmosfera. Esse projeto até chegou perto de virar realidade em 1992, quando representantes de quase todas as nações se juntaram para discutir o problema, no Rio de Janeiro. O resultado foi um acordo em que os países visavam manter as emissões no mesmo nível de 1990. Mas as boas intenções pararam aí. Quase ninguém cumpriu a promessa e, 5 anos depois, houve uma nova reunião, dessa vez no Japão. Daí saiu o famoso protocolo de Quioto. Ele propõe que os países reduzam suas emissões a um nível em média 5,2% menor do que o de 1990 e estabelece 2012 como prazo. Em grande parte por influência do Brasil, as nações
assumiram "responsabilidades históricas" pelas emissões. Em outras
palavras: como o dióxido de carbono permanece por mais de um século na
atmosfera, grande parte do problema de hoje se deve a emissões que as nações
ricas fizeram há décadas e que foram fundamentais para o seu desenvolvimento.
Por isso, os países pobres ficaram isentos de obrigações, para terem alguma
chance de se desenvolver também. Um outro mecanismo bolado em Quioto é o
mercado de carbono: países e empresas que excedessem sua cota poderiam
"comprar" créditos de outras nações, financiando programas que
controlem as emissões de carbono por lá - coisas como reflorestar áreas
desmatadas ou capturar o carbono antes que ele caia na atmosfera (a esses
projetos se deu o nome de "mecanismos de desenvolvimento limpo"). Tudo
bonito, mas que perdeu muito do sentido em 2001, quando os EUA de Bush
desistiram de implementar o protocolo sob o argumento de que ficariam em
desvantagem diante das nações "Os mecanismos do protocolo de Quioto estão tendo um impacto substancial no Brasil", diz José Miguez, coordenador geral de mudanças do clima do Ministério da Ciência e Tecnologia, que participou ativamente das negociações. O país tem cerca de 30% dos projetos de mecanismos de desenvolvimento limpo e é de longe o líder nessas iniciativas. As vantagens por aqui vão além do controle de emissões: programas de reflorestamento, por exemplo, poderão ajudar a preservar a biodiversidade no país. Mas isso não acaba com o risco do aquecimento global. "A idéia de Quioto não é durar até 2100, mas criar um novo modelo de desenvolvimento, menos baseado na queima de carbono", diz Miguez. "E isso ele está conseguindo". Mesmo que isso aconteça, talvez tenhamos de pagar um
bom preço por esse tal novo modelo. "Hoje vemos a saída em mecanismos de
desenvolvimento limpo, mas, quando a situação piorar, começaremos a achar
aceitáveis medidas mais drásticas", diz Pinguelli Rosa. "É possível
que tenhamos, por exemplo, que simplesmente eliminar a circulação de automóveis."
O lado bom é que o esforço para deter esse apocalipse certamente vai nos forçar
a buscar novas formas de cooperação internacional. "O problema da camada
de ozônio foi controlado quando os países entraram em acordo, decidiram não
emitir mais gases CFC e encontraram substitutos para ele. É um exemplo do que
deve ser feito com os gases do efeito estufa", disse à Super Mario Molina,
da Universidade da Califórnia Mundo Dfícil Os 4 cavaleiros do apocalipse Tá quente, Brasil! "A tendência é que uma vegetação substitua a
outra: floresta vira cerrado, cerrado vira caatinga e caatinga vira
semi-deserto", diz Carlos Nobre, do CPTEC. Árdua solução www.presidencia.gov.br/secom/nae www.newscientist.com/channel/earth/climate-change www.centroclima.org.br
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