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| Ainda
existe, na alma católica, verdadeira oração? |
Autoria: Dom Lourenço Fleichman OSB
Fonte: www.capela.org.br
O que vem a ser Rezar ?
Mas se é para medir e regular nossa oração, caberia a cada um de
nós perguntarmos: e eu rezo? O tempo da Quaresma serviu para
melhorar minha oração?
Para responder a esta pergunta é necessário saber o que seja
rezar. Ora, tanto o Catecismo como os santos doutores nos falam
sobre a boa oração. Diz lá, então, a doutrina perene:
- Rezar é elevar a alma a Deus.
Santo Agostinho nos dará uma compreensão melhor ao afirmar:
- Rezar é ter uma intenção afetiva do espírito para Deus.
Outros santos dirão:
- Rezar é ter uma conversa íntima com Deus.
Ora, estas definições ou explicações se completam
maravilhosamente e nos ajudarão a medir o nosso grau de oração, a
sabermos se, de fato, rezamos de verdade ou não.
Ainda se encontra quem reze?
Mas a experiência de qualquer sacerdote, nos dias de hoje,
deixa-nos assustados, a ponto de podermos interrogar: - O que está
acontecendo conosco? Onde estão as almas que rezam de verdade? E se
muitos adultos ainda guardam o costume salutar de recolher-se, todos
os dias, diante de Deus, já os adolescentes, os jovens, deixando a
idade da infância, porque abandonam tão facilmente a prática da
oração que nos dá o céu? Onde encontraremos oração que seja
elevação da alma, intenção afetiva, ou conversa íntima com
Deus?
Não! Não! O que vemos hoje nestas almas é uma oração pesada, um
coração irritado, uma oração rápida e mecânica.
Mas se é pesada por causa da contrariedade que se sente em rezar,
então não se eleva.
Se vem carregada com irritação, nunca será uma intenção
afetiva.
Se é mecânica, não se pode pensar em conversa íntima com Deus.
Que quadro desolador o que encontramos nas almas. Passaram-se quatro
semanas da Quaresma e nada! O mundo segue seu curso e as almas não
se converteram!
Pergunto então, assustado e solene: O que falta à oração da
grande maioria dos homens?
O que falta é o AMOR! Falta o Amor do espírito que busca o Espírito
do Amor, o Deus que é Caritas, que é Caridade!
Todo amor é um apetite. Se nosso amor vai em busca das coisas sensíveis,
será um amor baixo, sensível, humano, animal. Estaremos de corpo e
alma entregues às coisas deste mundo, e este amor toma conta do
nosso coração, elimina a Presença de Deus, e causa o pecado.
Mas se inclinarmos nosso corpo e nossa alma para o bem, para agradar
a Deus em tudo, mesmo quando estamos fazendo algo de humano,
estaremos intencionalizando nossos atos na direção de Deus, dando
uma intenção nova, elevada, vivificante. Nestes atos de amor
espiritual encontraremos a união com Deus, a Presença de Deus em
tudo que fazemos, mesmo se não estivermos, naquela hora, pensando
Nele.
Por que não se consegue mais rezar?
Devemos então nos perguntar, levando adiante esta pesquisa dos
nossos corações:
Porque não se consegue mais rezar direito, segundo a elevação da
alma, as intenções santas e a intimidade de Deus?
Porque somos constantemente SEDUZIDOS.
Os nossos três inimigos , o demônio, o mundo e a carne armaram uma
guerra sutil e subterrânea que invade nosso coração, nosso corpo,
nossas intenções, com todo tipo de sedução. Atraem nossa atenção
para afastar-nos do gosto pelas coisas santas, pela vida de Deus.
Como somos seduzidos?
Pelos VÍCIOS. Somos seduzidos todos os dias por vícios antigos e
por vícios modernos.
Os vícios antigos são aqueles conhecidos de todos: excesso de
bebida, gula, sensualidade, preguiça e todo tipo de vícios
capitais.
Os vícios modernos são: a televisão, os video-games, o uso de
Messengers, orkut e Internet, telefone celular e todo tipo de
modernidade que provoca atitudes compulsivas. Todas estas coisas
desviam as almas de seus compromissos, tornando-as agressivas,
estressadas, desobedientes, preguiçosas e "burrificadas".
Formaram uma vida em torno de nós que nos prende, ligados 24 horas
por dia: trabalho, dinheiro, saúde, esportes, e os novos vícios,
tirando todo o tempo que poderíamos ter para rezar, ler bons
livros, pensarmos na nossa salvação eterna. Como rezar bem numa
vida assim?
Então passamos quatro semanas da Quaresma onde se constata que, se
alguns fizeram algum esforço de penitência e oração, a grande
maioria nem se lembra de que os católicos são chamados com toda
urgência a se converterem. Continuam no churrasquinho da
sexta-feira, nas festas, em muitos pecados. Até quando vamos viver
como se a vida da Igreja fosse uma OPÇÃO? Quando muito um dever
secundário que realizamos com aquele espírito de revolta de que
falamos acima. Como rezar se não combatemos a sedução?
É preciso rezar sempre
Eis o que ensina Nosso Senhor: "Oportet semper orare - É
preciso rezar sempre". E os santos doutores concluirão:
"Quem reza se salva, quem não reza fecha as portas do Paraíso".
Então, católico, levante as armas capazes de vencer o sedutor das
almas, capaz de dobrar tua cerviz dura e revoltada. Falta-te o Espírito
de Fé!
Não se trata exatamente da fé. A Fé pode ser considerada como o
conjunto de verdades reveladas por Deus; é o que os teólogos
chamam o Objeto da Fé. Dentro de nós, se produz pela graça divina
os Atos de Fé, que são as marcas da nossa adesão ao Objeto da fé,
a tudo que Deus nos revelou e a Igreja ensina.
Mas a arma poderosa para combater a sedução dos vícios anti-oração
é o Espírito de Fé, que consiste em tomar a fé que está, como
um dom divino, colocada em nossas almas, e aplicá-la a todos os
momentos, situações, encontros, diversões que fazemos ao longo do
dia e da vida. Pelo Espírito de fé fica estabelecida em nossas
vidas a Presença de Deus. Esta presença de Deus é que nos
aproxima Dele, tornando nosso coração mais próximo, mais íntimo,
preparando-o para as conversas sublimes, para a afeição amorosa e
para a elevação de nossas almas na verdadeira e pura oração.
É preciso, portanto, intencionalizar todos os nossos atos,
transformá-los em armas de combate contra os vícios que nos
devoram. É preciso forçar o desejo do nosso coração e todos os
sentimentos dele para que não impeçam o momento da oração, da
meditação, da leitura espiritual que abre nossas mentes para as
coisas divinas.
É preciso acreditar que, perdendo tempo com Deus, o trabalho renderá
muito mais e compensará ao cêntuplo o tempo perdido. Ao
contrário, quando não rezamos, acabamos presas fáceis para os vícios
modernos e perdemos mais tempo do que seria o da oração.
Meditação sobre a morte
Se ainda agora, depois de pensar nestas coisas, neste diagnóstico
terrível que mostra o céu fechado, ainda assim não conseguir se
desvencilhar da malha viciosa, então, vamos pensar na morte. Por
que não? Afinal de contas, estamos no tempo da Paixão, de luto
pela morte de Nosso Salvador. Imaginemos, então, que estamos perto
da morte, ou que um ente querido, um filho, um esposo, a mulher,
tenha acabado de falecer. Parece duro, pensar nestas coisas? Pior é
continuar vivendo sem rezar! O terrível peso que a alma sente pela
perda joga por terra todos aqueles vícios horríveis que prendiam a
alma. Então, de repente, ela percebe o quanto era fraca,
envenenada, ridícula, por não conseguir se dominar e produzir algo
de sólido e elevado. A morte nos atrai para o essencial, e é
exatamente isso que a Igreja deseja quando vela as imagens no Tempo
da Paixão. O Essencial é Cristo, sua Paixão, sua morte na Cruz
para nos salvar. O essencial é vivermos unidos todo tempo a Jesus,
e dizer com o Apóstolo: "Já não sou eu que vivo, é
Cristo que vive em mim".
Cabe a cada um de nós mostrarmos aos nossos adolescentes, aos
nossos filhos, que é bom rezar. É bom querer rezar. E, mais do que
tudo, é muito bom amarmos a oração porque por ela aprendemos a
amar a Deus em sua própria intimidade.
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